Alda Lara

Alda Lara

1930–1962 · viveu 31 anos AO AO

Alda Lara foi uma escritora angolana, destacando-se como uma das pioneiras da literatura africana de expressão portuguesa. A sua obra poética explora temas como a identidade, a condição da mulher africana, a luta pela liberdade e a busca por um lugar no mundo. É reconhecida pela sua força expressiva e pela sua visão crítica da sociedade.

n. 1930-06-09, Benguela · m. 1962-01-30, Cambambe

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Regresso

Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...

Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!...minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...

Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monotono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede...Tenho sede dos crepusculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais...
Saudade...Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçõeiras,
das cheias alucinadas...
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...

Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acacias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...
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Biografia

Identificação e contexto básico

Alda Lara foi uma escritora angolana, cuja obra literária se insere no contexto da luta pela independência de Angola e da afirmação da identidade africana. Escreveu em português.

Infância e formação

Pouca informação detalhada sobre a sua infância e formação está amplamente disponível, mas sabe-se que a sua vivência em Angola e o contexto social e político do país moldaram a sua perspetiva.

Percurso literário

Alda Lara é considerada uma das primeiras vozes femininas na literatura angolana moderna. A sua escrita emerge num período de efervescência cultural e política, onde as questões de identidade e libertação eram centrais. Colaborou em publicações e antologias que divulgaram a nova literatura africana.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A sua obra poética, como "Poemas" (publicado postumamente), aborda com sensibilidade e vigor temas como a identidade africana, a condição da mulher, a opressão colonial e a esperança num futuro livre. O seu estilo é marcado pela intensidade lírica, pela musicalidade e por uma linguagem que reflete a sua profunda ligação com a terra e com o seu povo. Frequentemente recorre a imagens fortes e a uma voz poética pessoal e interventiva.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A sua obra está intrinsecamente ligada ao contexto da colonização portuguesa em Angola e aos movimentos de libertação que emergiram nesse período. Foi uma voz que contribuiu para a desconstrução de estereótipos e para a afirmação da cultura angolana.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a sua vida pessoal são limitadas, mas o seu compromisso com a escrita e a sua visão crítica da sociedade indicam uma personalidade forte e consciente do seu papel como escritora.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora em vida não tenha tido o reconhecimento amplo que alcançaria postumamente, Alda Lara é hoje considerada uma figura fundamental da literatura angolana e africana. A sua obra tem vindo a ser redescoberta e valorizada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O seu legado é o de uma pioneira, abrindo caminho para outras escritoras africanas e consolidando a presença da mulher na literatura de Angola. Influenciou gerações posteriores com a sua coragem temática e a sua expressão lírica autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Alda Lara é frequentemente interpretada como um hino à resistência, à dignidade e à luta pela autodeterminação, tanto a nível individual quanto coletivo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sendo uma das primeiras mulheres a abordar abertamente estas temáticas na literatura angolana, a sua obra representa um marco na história literária do país.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória O seu legado literário foi consolidado através de publicações póstumas, que permitiram que a sua voz e as suas ideias alcançassem um público mais vasto e fossem devidamente apreciadas.

Poemas

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Regresso

Quando eu voltar,
que se alongue sobre o mar,
o meu canto ao Creador!
Porque me deu, vida e amor,
para voltar...

Voltar...
Ver de novo baloiçar
a fronde magestosa das palmeiras
que as derradeiras horas do dia,
circundam de magia...
Regressar...
Poder de novo respirar,
(oh!...minha terra!...)
aquele odor escaldante
que o humus vivificante
do teu solo encerra!
Embriagar
uma vez mais o olhar,
numa alegria selvagem,
com o tom da tua paisagem,
que o sol,
a dardejar calor,
transforma num inferno de cor...

Não mais o pregão das varinas,
nem o ar monotono, igual,
do casario plano...
Hei-de ver outra vez as casuarinas
a debruar o oceano...
Não mais o agitar fremente
de uma cidade em convulsão...
não mais esta visão,
nem o crepitar mordente
destes ruidos...
os meus sentidos
anseiam pela paz das noites tropicais
em que o ar parece mudo,
e o silêncio envolve tudo
Sede...Tenho sede dos crepusculos africanos,
todos os dias iguais, e sempre belos,
de tons quasi irreais...
Saudade...Tenho saudade
do horizonte sem barreiras...,
das calemas traiçõeiras,
das cheias alucinadas...
Saudade das batucadas
que eu nunca via
mas pressentia
em cada hora,
soando pelos longes, noites fora!...

Sim! Eu hei-de voltar,
tenho de voltar,
não há nada que mo impeça.
Com que prazer
hei-de esquecer
toda esta luta insana...
que em frente está a terra angolana,
a prometer o mundo
a quem regressa...

Ah! quando eu voltar...
Hão-de as acacias rubras,
a sangrar
numa verbena sem fim,
florir só para mim!...
E o sol esplendoroso e quente,
o sol ardente,
há-de gritar na apoteose do poente,
o meu prazer sem lei...
A minha alegria enorme de poder
enfim dizer:
Voltei!...
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Rumo

É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...

Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!

Vamos, companheiro ...
É tempo!

Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!

Vamos!
que outro oceano nos inflama.. .
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...

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Quadras da minha solidão

Fica longe o sol que vi,
aquecer meu corpo outrora...
Como é breve o sol daqui!
E como é longa esta hora...

Donde estou vejo partir
quem parte certo e feliz.
Só eu fico. E sonho ir,
rumo ao sol do meu país...

Por isso as asas dormentes,
suspiram por outro céu.
Mas ai delas! tão doentes,
não podem voar mais eu...

que comigo, preso a mim,
tudo quanto sei de cor...
Chamem-lhe nomes sem fim,
por todos responde a dor.

Mas dor de quê? dor de quem,
se nada tenho a sofrer?...
Saudade?...Amor?...Sei lá bem!
É qualquer coisa a morrer...

E assim, no pulso dos dias,
sinto chegar outro Outono...
passam as horas esguias,
levando o meu abandono...
3 432

Prelúdio

Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra desce com ela.

Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos
nas suas mãos apertadas...

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
tem voz de noite descendo
de mansinho pela estrada.

... Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada.
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo,
Mãe-Negra...

É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaços,
bem quieta, bem calada...

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo
de mansinho pela estrada...
4 026

Presença Africana

E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...

A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços das palmeiras...

A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...

Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!...Rua 11!...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...

Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...

E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
longa história onconsequente...

Minha terra...
Minha, eternamente...

Terra das acácias, dos dongos,
dos colios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.
Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!
3 707

Noite

Noites africanas langorosas,
esbatidas em luares...,
perdidas em mistérios...
Há cantos de tunguruluas pelos ares!...

Noites africanas endoidadas,
onde o barulhento frenesi das batucadas,
põe tremores nas folhas dos cajueiros...

Noites africanas tenebrosas...,
povoadas de fantasmas e de medos,
povoadas das historias de feiticeiros
que as amas-secas pretas,
contavam aos meninos brancos...

E os meninos brancos cresceram,
e esqueceram
as histórias...

Por isso as noites são tristes...
endoidadas, tenebrosas langorosas,
mas tristes...como o rosto gretado,
e sulcado de rugas, das velhas pretas...,
como o olhar cansado dos colonos,
como a solidão das terras enormes
mas desabitadas...

É que os meninos brancos...
esqueceram as histórias,
com que as amas-secas pretas
os adormeciam,
nas longas noites africanas...

Os meninos brancos...esqueceram!...
3 191

De longe

Não chores Mãe... Faz como eu, sorri!
Transforma as elegias de um momento
em cânticos de esperanca e incitamento.
Tem fé nos dias que te prometi.

E podes crer, estou sempre ao pe de ti,
quando por noites de luar, o vento,
segreda aos coqueirais o seu lamento,
compondo versos que eu nunce escrevi...

Estou junto a ti nos dias de braseiro,
no mar...na velha ponte,... no Sombreiro,
em tudo quanto amei e quis p'ra mim...

Não chores, mãe!... A hora é de avancadas!...
Nós caminhamos certos, de mãos dadas,
e havemos de atingir um dia, o fim...
3 669

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Comentários (1)

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sarasilvag

Coloquei no meu Abandono da alda lara mas gostaria de ver aqui com o perfil da alda