José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira

1900–1985 · viveu 84 anos PT PT

José Gomes Ferreira foi um poeta, romancista e jornalista português, conhecido pela sua poesia de intervenção social e política, fortemente marcada pelo antifascismo e pela crítica às injustiças. Sua obra é caracterizada por uma linguagem vigorosa, irónica e por vezes coloquial, que busca aproximar a poesia da realidade do povo e das lutas sociais. Figura central do Modernismo português, especialmente da segunda geração, Gomes Ferreira foi também um cronista prolífico e um intelectual comprometido com os ideais de liberdade e progresso. Sua poesia, que abrange temas como a guerra, a exploração, a esperança e a resistência, consolidou-o como uma das vozes mais combativas e populares da literatura portuguesa do século XX.

n. 1900-07-09, Porto · m. 1985-02-08, Lisboa

305 535 Visualizações

Chove!

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir na chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

José Gomes Ferreira, nascido em 5 de junho de 1900, em Vila Real de Santo António, Portugal, foi um proeminente poeta, romancista, jornalista e intelectual português. Frequentemente associado ao Modernismo português, especialmente à segunda geração (ou "Geração de 30"), destacou-se pela sua poesia de intervenção social e política, pelo seu antifascismo e pela sua crítica contundente às injustiças sociais. Sua obra é marcada por uma linguagem vigorosa, irónica e muitas vezes coloquial, buscando a proximidade com o universo popular e as lutas do povo. Viveu e produziu durante um período de grande instabilidade política em Portugal, com a ascensão do Estado Novo.

Infância e formação

Cedo demonstrou aptidão para a escrita, mas a sua formação foi interrompida por dificuldades económicas e pela necessidade de trabalhar. Passou parte da sua juventude no estrangeiro, nomeadamente em Espanha, onde teve contacto com diferentes realidades e influências culturais. Ao regressar a Portugal, envolveu-se na vida cultural e política do país, participando ativamente nos debates intelectuais da época. A sua experiência de vida e o contacto com as classes trabalhadoras foram fundamentais para moldar a sua visão social e literária.

Percurso literário

O percurso literário de Gomes Ferreira iniciou-se com a publicação de poesia e contos. Foi um dos fundadores da revista "Presença", um marco do Modernismo português, embora tenha tido uma relação por vezes tensa com os seus editores devido à sua maior inclinação para a intervenção social. Publicou de forma regular obras de poesia e prosa, sendo um cronista assíduo em diversos jornais e revistas, onde expressava as suas opiniões políticas e literárias. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo sempre um fio condutor de crítica social e de defesa dos ideais de liberdade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas mais significativas estão "O Outro": (1929), "A Poesia e a Vida": (1931), "O Mundo": (1933), "Salmodia ao Meu Corpo": (1939), "Grito": (1941), "Viver": (1941), "Ode a Robertino": (1945), "Poesia I" (1944), "Poesia II" (1947), "O Poema ao meu País": (1955), "Poesia III" (1957), "Poema de Natal": (1965), "A Poesia é uma Arma": (1972). Em prosa, destacam-se "Ferreira de Castro, o Creador da "Selva": (1929), "A Negra de "Sim"": (1934), "O Mundo em Loucura": (1942), "Um Homem Só": (1944), "O Poeta e a Cidade": (1945), "Contos": (1946), "A Confederação do Equador": (1955). Os temas dominantes na sua obra incluem a crítica ao fascismo, à guerra, à exploração do homem pelo homem, a solidariedade, a esperança e a resistência. O seu estilo é marcado pela ironia, pelo tom coloquial, pela forte musicalidade e por uma linguagem direta e interventiva. Utiliza com frequência o verso livre e a forma poética dialoga com a prosa, aproximando-se da oralidade e do discurso popular. A sua poesia é considerada um exemplo de literatura de intervenção, visando conscientizar e mobilizar o leitor.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Gomes Ferreira viveu a maior parte da sua vida sob a ditadura do Estado Novo em Portugal, um regime autoritário que impunha censura e repressão. Sua obra é uma resposta direta a esse contexto, denunciando a opressão, a miséria e a falta de liberdade. Foi um dos principais representantes da chamada "Geração de 30" do Modernismo português, um grupo de escritores que, apesar das dificuldades impostas pelo regime, procurou renovar a literatura e expressar uma visão crítica da sociedade. Manteve contacto com outros intelectuais e artistas da época, contribuindo ativamente para o debate cultural e político.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal José Gomes Ferreira teve uma vida marcada pelo seu engajamento político e pela sua dedicação à escrita. Teve uma forte ligação ao Partido Comunista Português, embora sua relação com o partido tenha sido complexa em alguns momentos. Sua experiência de exílio em Paris durante a Guerra Civil Espanhola e sua constante vigilância pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) demonstram o preço que pagou pela sua postura antifascista e pela sua liberdade de expressão. Era conhecido pela sua boémia e pela sua irreverência.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ao longo de sua carreira, José Gomes Ferreira foi reconhecido como um dos poetas mais importantes e originais da literatura portuguesa. Recebeu diversos prémios, como o Prémio Nacional de Poesia em 1957. Sua obra foi objeto de estudo e admiração por gerações de leitores e críticos, que destacam a sua originalidade, a sua força expressiva e o seu compromisso social. Apesar de ter sido por vezes marginalizado pelo regime, sua poesia conquistou um lugar de destaque no panteão literário português, sendo popular entre aqueles que valorizam a literatura engajada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Gomes Ferreira foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa e Walt Whitman, e pelas correntes do Modernismo europeu. Seu legado reside na forma como conseguiu aliar a inovação estética do Modernismo a uma forte consciência social e política. Ele demonstrou que a poesia podia ser ao mesmo tempo bela e combativa, reflexiva e acessível. Influenciou poetas que vieram depois, mostrando a importância da literatura como instrumento de intervenção e de defesa dos valores democráticos. Sua obra continua a ser estudada e a inspirar novos leitores e escritores pela sua atualidade e força.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Gomes Ferreira é frequentemente analisada sob a ótica da literatura de intervenção. Os críticos destacam a sua capacidade de traduzir as angústias e as esperanças do povo em linguagem poética, utilizando a ironia como ferramenta de crítica e subversão. As interpretações centram-se na sua visão do mundo, na sua luta contra a opressão e na sua busca por um futuro mais justo. A sua poesia é vista como um espelho das contradições e dos conflitos da sociedade portuguesa do século XX, mas também como um hino à resiliência humana e à força da esperança.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante é a sua faceta de jornalista e cronista, onde a sua voz interventiva e irónica se manifestava de forma ainda mais direta. Foi um dos poucos escritores que se atreveu a desafiar abertamente o regime do Estado Novo, pagando por isso as devidas consequências. Sua paixão pelo futebol e pelo seu clube, o Sporting, era conhecida, sendo um exemplo da sua ligação ao universo popular e do seu lado mais humano e descontraído.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Gomes Ferreira faleceu em 7 de junho de 1985, em Lisboa. Sua morte foi sentida como a perda de um grande vulto da cultura portuguesa. Sua obra continua a ser publicada, estudada e admirada, garantindo a sua memória como um dos poetas mais combativos e importantes da literatura em língua portuguesa.

Poemas

22

Devia morrer-se de outra maneira

Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: "Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio".
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimônia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
"Adeus! Adeus!"
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes...
(primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos... )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo... tão leve... tão sutil... tão pòlen...
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis...
37 269

Quero voar

Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

(Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.)
22 502

Chove!

Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir na chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.
24 157

Porque é que este sonho absurdo

Porque é que este sonho absurdo
a que chamam realidade
não me obedece como os outros
que trago na cabeça?

Eis a grande raiva!
Misturem-na com rosas
e chamem-lhe vida.
16 668

Viver sempre também cansa

Viver sempre também cansa!

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.

O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens não se transformam
Não cai neve vermelha 
Não há flores que voem, 
A lua não tem olhos 
Ninguém vai pintar olhos à lua 

Tudo é igual, mecânico e exacto 

Ainda por cima os homens são os homens 
Soluçam, bebem riem e digerem 
sem imaginação. 

E há bairros miseráveis sempre os mesmos
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe 
automóveis de corrida... 

E obrigam-me a viver até à morte! 

Pois não era mais humano 
Morrer por um bocadinho 
De vez em quando 
E recomeçar depois 
Achando tudo mais novo? 

Ah! Se eu podesse suicidar-me por seis meses 
Morre em cima dum divã 
Com a cabeça sobre uma almofada 
Confiante e sereno por saber 
Que tu velavas, meu amor do norte. 

Quando viessem perguntar por mim 
Havias de dizer com teu sorriso 
Onde arde um coração em melodia 
Matou-se esta manhã 
Agora não o vou ressuscitar 
Por uma bagatela 

E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..
 
21 398

Vai-te, Poesia!

Vai-te, Poesia!

Deixa-me ver a vida
exacta e intolerável
neste planeta feito de carne humana a chorar
onde um anjo me arrasta todas as noites para casa pelos cabelos
com bandeiras de lume nos olhos,
para fabricar sonhos
carregados de dinamite de lágrimas.

Vai-te, Poesia!

Não quero cantar.
Quero gritar!
16 807

Choro!

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
as crianças violadas
nos muros da noite
úmidos de carne lívida
onde as rosas se desgrenham
para os cabelos dos charcos.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
diante desta mulher que ri
com um sol de soluços na boca
— no exílio dos Rumos Decepados.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
este seqüestro de ir buscar cadáveres
ao peso dos poços
— onde já nem sequer há lodo
para as estrelas descerem
arrependidas de céu.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
a coragem do último sorriso
para o rosto bem-amado
naquela Noite dos Muros a erguerem-se nos olhos
com as mãos ainda à procura do eterno
na carne de despir,
suada de ilusão.

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro
todas as humilhações das mulheres de joelhos nos tapetes da súplica
todos os vagabundos caídos ao luar onde o sol para atirar camélias
todas as prostitutas esbofeteadas pelos esqueleto de repente dos espelhos
todas as horas-da-morte nos casebres em que as aranhas tecem vestidos para o sopro do
silêncio
todas as crianças com cães batidos no crispar das bocas sujas
de miséria...

Ninguém vê as minhas lágrimas, mas choro...

Mas não por mim, ouviram?
Eu não preciso de lágrimas!
Eu não quero lágrimas!

Levanto-me e proíbo as estrelas de fingir que choram por mim!

Deixem-me para aqui, seco,
senhor de insônias e de cardos,
neste òdio enternecido
de chorar em segredo pelos outros
à espera daquele Dia
em que o meu coração
estoire de amor a Terra
com as lágrimas públicas de pedra incendiada
a correrem-me nas faces
— num arrepio de Primavera
e de Catástrofe!
15 364

Entrei no café com um rio na algibeira

Entrei no café com um rio na algibeira
e pu-lo no chão,
a vê-lo correr
da imaginação...

A seguir, tirei do bolso do colete
nuvens e estrelas
e estendi um tapete
de flores
a concebê-las.

Depois, encostado à mesa,
tirei da boca um pássaro a cantar
e enfeitei com ele a Natureza
das árvores em torno
a cheirarem ao luar
que eu imagino.

E agora aqui estou a ouvir
A melodia sem contorno
Deste acaso de existir
-onde só procuro a Beleza
para me iludir
dum destino.

16 317

Agora, apodrecer

Agora, apodrecer.
Nas ruas, no suor das mãos amigas dos amigos, na pele dos espelhos...
desespero sorrido, carne de sonho público, montras enfeitadas de olhos...

...mas apodrecer.

Bolor a fingir de lua, árvores esquecidas do princípio do mundo...
"como estás, estás bem?", o telefone não toca! devorador de astros...

... mas apodrecer.

Sim, apodrecer
de pé e mecânico,
a rolar pelo mundo
nesta bola de vidro,
já sem olhos para aguçar peitos
e o sol a nascer todos os dias
no emprego burocrático de dar razão aos relògios,
cada vez mais necessários para as certidões da morte exata,

Sim, apodrecer ...

"...as mãos, a còlera, o frio, as pálpebras, o cabelo
a morte, as bandeiras, as lágrimas, a república, o sexo...

... mas apodrecer!

Sujar estrelas.
12 821

O amor que sinto

O amor que sinto
é um labirinto.

Nele me perdi
com o coração
cheio de ter fome
do mundo e de ti
(sabes o teu nome),
sombra necessária
de um Sol que não vejo,
onde cabe o pária,
a Revolução
e a Reforma Agrária
sonho do Alentejo.
Só assim me pinto
neste Amor que sinto.

Amor que me fere,
chame-se mulher,
onda de veludo,
pátria mal-amada,
chame-se "amar nada"
chame-se "amar tudo".

E porque não minto
sou um labirinto.

8 935

Videos

50

Comentários (13)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
António Jacinto
António Jacinto

Homem de respeito

Alguem viu a minha mae
Alguem viu a minha mae

Epa,gostei muito desta biografia fiz copy paste e entreguei o trabalho à prof. Mas tenho uma pergunta a fazer. Alguem viu a minha mae? Insta:@samuelcfranca

Mc croquetes
Mc croquetes

espetaculo!

Joãozinho
Joãozinho

Este senhor ajudou-me a perceber o sentido da vida!! É uma pessoa fantástica! FORÇA MANO!!!

Mariana
Mariana

Tens razao nao ha igual