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Fernando Pessoa
Nasceu a 13 Junho 1888
(Lisboa, Portugal)

Morreu em 30 Novembro 1935
(Lisboa)

Fernando António Nogueira Pessoa, mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta, filósofo e escritor português. Fernando Pessoa é o mais universal poeta português.
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CARTA XXXVI

Ofelinha:

Agradeço a sua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. Pena, porque estas coisas fazem sempre pena; alívio, porque, na verdade, a única solução é essa – o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amizade inalterável. Não me nega a Ofelinha outro tanto, não é verdade?
Nem a Ofelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se atribuíssem.
O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.
Estas coisas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida?
Na sua carta é injusta para comigo, mas compreendo e desculpo; decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com mágoa, mas a maioria da gente – homens ou mulheres – escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ofelinha tem um feitio óptimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. Quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.
Quanto a mim...
O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca – nunca, creia – nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lhas atribuísse.
Não sei o que quer que lhe devolva – cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão.
Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.
Que isto de «outras afeições» e de «outros caminhos» é consigo, Ofelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.
Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.

Fernando

29/XI/1920



CARTA 48

Lisboa, 27 de Novembro de 1920

Fernando

Há já quatro dias que me não aparece e nem ao menos se digna escrever-me. Sempre a mesma forma de proceder.
Vejo que não faço nada de si, porque compreendo perfeitamente que é para me aborrecer que assim procede, que me terá mesmo chamado parva algumas vezes.
Como o Fernando não tem motivos para acabar, procede então da forma que procede. Pois bem eu assim não estou resolvida a continuar.
Não sou o seu ideal, compreendo-o claramente, unicamente o que lastimo é que só quase ao fim de um ano o Sr. o tenha compreendido. Porque se gostasse de mim não procedia como procede, pois que não teria coragem.
Os feitios contrafazem-se. O essencial é gostar-se.
Está a sua vontade feita. Desejo-lhe felicidades
Ofélia

Perdoe-me a incorrecção de que são dotados os meus... poemas – mas confesso-me sem alguma inspiração para a poesia.

Fazia bem em me dizer
E grata lhe ficaria
Razão porque em verso dizia
Não ser o bom-bom para si...
A não ser que na pastelaria
Não lho queiram fornecer
D'outro motivo não vi
Ir tal levá-lo a crer.
Não sei mesmo o que pensar
Há fastio para o comer?
Ou não tem massa pr'o comprar?!

Peço porém me desculpe
Este incorrecto poema
Seja bom e não me culpe
Sou estúpida, e tenho pena
O Sr. é muito amável
Aturando esta...pequena...
Ofélia Queiroz
Lx., 27-11-1919




CARTA 49


Fernando:

É ainda debaixo de impressão dolorosa em que me deixou a leitura da sua carta, que lhe envio estas palavras.
Os meus receios e as minhas crenças intimas não me tinham enganado, vejo que me estava afeiçoando a um d'estes entes que brincam da afeição pura, são capazes de se cansar para poder torturar o coração das pobres raparigas, procurando poder namorá-las não por afeição, não por uma simpatia d'esperança futura, não por interesse, ainda nem mesmo por capricho, mas apenas porque lhes apeteça de afligir, incomodar ou torturar quem no entanto nunca pensou n'ele outrora, nem sequer o conhecia. Isto é belo! é sublime! é grande!
Pelo que respeita ás minhas cartas, poderá guardá-las como deseja, embora elas sejam demasiado simples!
Enquanto a mim, não deixarei de futuro de aproveitar-me desta lição; fez-me conhecer até que ponto de sinceridade, um homem descreve a sua simpatia, a sua afeição, o seu amor, todas as suas esperanças futuras para com raparigas inexperientes ainda.
Uma senhora da minha amizade dizia há dias estas palavras:
"Uma mulher que acredita numa só palavra d'um homem, não passa d'uma pobre pateta; se algum dia virem algum que finja levar aos lábios uma taça envenenada por sua causa, entornem-lha depressa na boca porque livrará o mundo de mais d'um impostor".
Rimo-nos todos! e afinal tinha razão...

Ofélia

1-12-1920

P.S.: Peço-lhe me perdoe o só hoje responder à sua carta, mas devido à morte do irmão de meu cunhado, não vim a casa ontem e por isso não pude responder com a brevidade que desejava.

Deseja-lhe inúmeras felicidades, a ...

Ofélia

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