Al Berto

Al Berto

1948–1997 · viveu 49 anos PT PT

Al Berto foi um poeta português cuja obra se destaca pela exploração da sensualidade, do corpo, da morte e da identidade, num lirismo denso e imagético. A sua poesia, marcada por uma linguagem rigorosa e por uma busca constante pela palavra exata, reflete uma profunda inquietação existencial e uma profunda ligação com o Mediterrâneo. Al Berto é considerado uma das vozes mais singulares e importantes da poesia portuguesa contemporânea.

n. 1948-01-11, Coimbra · m. 1997-06-13, Lisboa

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E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia
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Biografia

Identificação e contexto básico

Al Berto (nome completo Alberto da Costa Argolo) foi um poeta português de renome internacional. Nasceu em Coimbra, mas a sua vida e obra estão profundamente ligadas ao Sul de Portugal, especialmente à região do Algarve, e ao Mediterrâneo. Faleceu em Lisboa. A sua escrita, embora enraizada na língua portuguesa, dialoga com outras culturas e paisagens.

Infância e formação

A infância de Al Berto foi marcada por uma forte ligação à natureza e ao ambiente do sul de Portugal. A sua formação foi heterodoxa, combinando estudos em Lisboa com uma intensa vivência cultural e artística, influenciada por viagens e pelo contacto com diversas formas de arte e pensamento. Essa formação multifacetada contribuiu para a sua visão única do mundo e da poesia.

Percurso literário

Al Berto começou a publicar poesia na década de 1970, ganhando rapidamente reconhecimento pela originalidade e força da sua voz. A sua obra poética desenvolveu-se de forma consistente ao longo das décadas seguintes, marcada por uma procura incessante pela perfeição formal e pela profundidade temática. Colaborou em diversas publicações literárias e participou em festivais de poesia em Portugal e no estrangeiro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Al Berto é caracterizada por um lirismo intenso, que explora temas como o corpo, a sexualidade, a morte, a memória, a solidão, a beleza e a transitoriedade da existência. A sua linguagem é precisa, por vezes árida, mas sempre carregada de imagens poderosas e de uma musicalidade subtil. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma estrutura interna rigorosa. O seu tom poético pode variar entre o meditativo, o confessional e o eufórico. Obras como "O Livro do Meio" (1970), "A Sombra do Mar" (1983) e "O Fim do Percurso" (1995) são exemplos da sua produção.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Al Berto emergiu na cena literária portuguesa num período pós-revolução, mas a sua obra transcende os contextos imediatos. A sua forte ligação ao Mediterrâneo, tanto geográfico quanto cultural e simbólico, é um elemento distintivo. Dialogou com a tradição literária portuguesa, mas também com influências internacionais, especialmente da poesia mediterrânica e de autores que exploram a condição humana de forma existencial.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Al Berto viveu grande parte da sua vida em Lisboa, mas manteve uma forte ligação ao Algarve, onde possuía uma casa e encontrava inspiração. Era conhecido pela sua personalidade reservada, mas intensa. As suas experiências pessoais e a sua visão do mundo moldaram profundamente a sua obra poética, onde a subjetividade é explorada com grande profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Al Berto é amplamente reconhecido como um dos poetas portugueses mais importantes da segunda metade do século XX. A sua obra recebeu elogios da crítica e do público, e foi traduzida para várias línguas. O seu estilo único e a profundidade das suas reflexões conferiram-lhe um lugar de destaque no panorama literário.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Al Berto foi influenciado por poetas da tradição clássica e moderna, bem como pela filosofia e pelas artes visuais. O seu legado reside na sua capacidade de criar uma poesia que é ao mesmo tempo pessoal e universal, explorando as profundezas da condição humana com uma linguagem inconfundível. A sua obra continua a inspirar e a desafiar novos leitores e escritores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Al Berto tem sido objeto de diversas análises críticas que destacam a sua exploração do corpo como lugar de encontro entre o sagrado e o profano, a sua relação com a morte como parte integrante da vida, e a sua busca por uma identidade autêntica num mundo em constante mudança. O Mediterrâneo surge como um espaço simbólico de fruição e melancolia.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Al Berto tinha um grande apreço pela pintura e pelas artes plásticas, tendo mantido relações próximas com vários artistas. A sua relação com a natureza, especialmente com o mar e a paisagem do sul, era uma fonte constante de inspiração. Era conhecido pela sua exigência formal e pela sua dedicação à busca da palavra certa.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Al Berto faleceu em 1995, vítima de uma doença prolongada. A sua morte foi sentida como uma perda significativa para a poesia portuguesa. A sua obra continua a ser lida, estudada e divulgada, mantendo viva a sua memória e a sua poderosa voz poética.

Poemas

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Truque Tóxico

Volto ao quarto de pensão, fumo até ao vómito
isto é : drogo-me.....
....abro a caixa de papelão, aparentemente cheia de sonhos
escolho um, fumo mais erva, nenhum sonho me serve,
abro a caixa dos pesadelos.....
o silencio ocupa-me e da caixa libertam-se corpos
cores violentas, olhares cúbicos, pássaros filiformes
cadeiras agressivas
limo as arestas fibrosas dos objectos
arrumo-os pelo quarto, de preferencia nos cantos
dou-lhes novos nomes, novas funções, suspiro extenuado
embora a sonolenta tarefa não tenha sido demorada
....outra caixa, azulada, abro-a
entro nela e fecho-a, o escuro solidifica-se na boca
tenho medo durante a noite
alguém se lembrou de atirar fora a caixa......
....luzes, umbigos obscurecidos pelas etiquetas
dos pequenos produtos de consumo, tóxicos
FRAGIL - MANTER ESTE LADO PARA CIMA
NÃO INCLINAR
TIME TO BUY ANOTHER PACKET
O quarto está completamente mobilado de corpos
explodem caixas, o sangue alastra
estampa-se nas paredes sujas de calendários e cromos
de pin-ups obscenas
....fendas de bolor no espelho
o reflexo do corpo arde como uma decalcomania
TIME TO BUY ANOTHER PACKET
todos dormem dentro de caixas, uma serpente flutua
falamos baixinho
não se ouvem mais barulhos de cidade
o sono e o cansaço subiram-me á boca
....movemo-nos lentamente para fora de nossos corpos
e devastamos, devastamos.....

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Os Amigos

No regresso encontrei aqueles
que haviam estendido o sedento corpo
sobre infindáveis areias

tinham os gestos lentos das feras amansadas
e o mar iluminava-lhes as máscaras
esculpidas pelo dedo errante da noite

prendiam sóis nos cabelos entrançados
lentamente
moldavam o rosto lívido como um osso
mas estavam vivos quando lhes toquei
depois
a solidão transformou-os de novo em dor
e nenhum quis pernoitar na respiração
do lume

ofereci-lhes mel e ensinei-os a escutar
a flor que murcha no estremecer da luz
levei-os comigo
até onde o perfume insensato de um poema
os transmudou em remota e resignada ausência


(in 'Sete Poemas do Regresso de Lázaro' )
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Sem Título e Bastante Breve

Tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e
com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor....

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa em fórmica suja duma taberna verde,
não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, á beira mar...

dizem que ao possuir tudo isto
poderia Ter sido um homem feliz, que tem por defeito
interrogar-se acerca da melancolia das mãos....
...esta memória lamina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
....que sei eu sobre as tempestades do sangue?
E da água?
no fundo, só amo o lodo escondido das ilhas...

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me como um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
8 982

Quando aqui não estás

Quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer
a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas
um rosto desenvolve-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza
e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta esse coração
esse
solitário caçador
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Trabalhos do Olhar

escrevo-te a sentir tudo isto
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto ao fogo
e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a sua imobilidade

habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
repara
como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar
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Uma Paixão

Visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores

vem ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos

vem antes que desperte em mim o grito
de alguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água

vem com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
9 513

hoje é dia de coisas simples

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje
9 377

Lisboa

por trás dos muros dacidade
no seu coração profundo de alicerces
de argilas ede sísmicos arroios - cresce uma voz
que sobe efende a brandura das casas

da escrita dosenumeráveis povos quase
nada resta - deitas-te exausto nalâmina da lua
sem saberes que o tejo te corrói e tesuprime
de todas as idades da Europa

mais além -para os lados do corpo - permanece
a tosse doscacilheiros os olhos revirados
dos mendigos - o tecto ondeum navio
nos separa de um vácuo alimentado asoro

plátanos brancos recortam-se luminescentes no olhar
dequem nos olha contra um céu desesperado - jardim
deiris açucenas palmeiras cobertas de rocio e
a ponteque nos leva aos campos do sul - lisboa

lugar derradeiro do riso
que já não te pode salvardo cemitério dos prazeres

emorres
carregado de tristezas e de mistérios -morres
algures
sentado numa praceta de bairro - o olhar fixo
noinferno marítimo das aves
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Noite de lisboa com auto-retrato e sombra de ian curtis

filamentos de gelatinoso néon
invadem a catedral em celulóide do filme nocturno:
arquitectura de asas abóbadas de vento
pássaros de lixo
som
pálpebras de lodo sobre a boca do homem
que rasteja de engate em engate pelas avenidas da memória
e quando encontra a porta de um bar
mergulha no inferno
bebe furiosamente
o peito encostado ao zinco sujo
duma geração de subúrbio presentes
aqui os jovens, com a canga nos ombros
e o mundo poderia desabar dentro de 5 minutos
o copo estilhaça os vidros esfregados
nos ombros
no peito onde uma veia rebenta
para mostrar o radioso canto
depois dança contorce-se embriagado
sobre o rosto suado
com a ponta dos dedos espalha sangue e cuspo
construindo a derradeira máscara
cai para dentro do seu próprio labirinto
como se a verticalidade do corpo fosse um veneno
domina-o um estertor
uma corda invisível ata-lhe a voz
não se moverá mais
apesar de nunca ter avistado os órgãos profundos do corpo
sabe que também eles se calaram para sempre
a noite é imensa e já não tem ruídos
a morte vem dos pés sobe à cabeça
alastra ferozmente
mas a sua inquietante brancura só é perceptível
na súbita erecção do enforcado
8 528

Envolver-me

Envolver-me
na mais obscura solidão das searas e gemer
Amassar com os dentes uma morte íntima
Durante a sonolência balbuciante das papoulas
Prolongar a vida deste verão até ao mais próximo verão
para que os corpos tenham tempo de amadurecer

...colher em tuas coxas o sumo espesso
e no calor molhado da noite seduzir as luas
o riso dos jovens pastores desprevenidos...as bocas
do gado triturando o restolho....as correrias inesperadas
das aves rasteiras

....e crescerei das fecundas terras ou da morte
que sufoca o cio da boca.....
....subirei com a fala ao cimo do teu corpo ausente
trasmitir-lhe-ei o opiáceo amor das estações quentes.
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Obras

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Comentários (6)

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Bem que poderia ... existir uma cidade a flutuar... pois seria habitadas somente por poetas . que estão sempre com a mente no ar. muito lindo este poema ...gostaria de te-lo conhecido... em vida. ademir.

Junin Do Pega e Vaza
Junin Do Pega e Vaza

Augustinho carrara???

Que poesia convidativa para a imaginaçao, cheia de imagens surrealistas . Achei Estimulante , se assemelha bastante ao saudoso Augusto dos Anjos , exceto e claro pela veia de augusto pela linguagem cientifica , que lhe adere uma singulariedade em literatura portuguesa. Enfim , bons poemas . Abraço ;*

Sodine Üe
Sodine Üe

Há um trabalho muito interessante publicado sobre esse artista publicado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro na Revista do Núcleo de Estudos de Literatura Portuguesa e Africana, assinado por uma poetisa chamada Tatiana Pequeno. Quem se interessar, eis o link http://www.uff.br/revistaabril/revista-05/008_tatiana%20pequeno.pdf.

Rui Guérin
Rui Guérin

Fomos grandes amigos. Andamos varios anos juntos no Colégio Manuel Bernardes e passamos bons momentos entre amigos em Sines e Porto Covo. Tinha uma irmã mais novita cujo nome infelizmente não recordo mas recordo muito bem o seu rosto ( da época claro ). Gostava de saber mais sobre o seu percurso de vida pois com a minha ida para africa e casamento perdemos o contacto. Tenho iedeia que saiu do pais tanbem nessa altura e isso tambem contribuiu para o nosso afastamento.