Branquinho da Fonseca

Branquinho da Fonseca

1905–1974 · viveu 69 anos PT PT

Branquinho da Fonseca foi um multifacetado criador português, destacando-se pela sua obra literária que abrangeu a poesia e a prosa, mas também pela sua atuação no cinema e na arte. A sua escrita é marcada por uma profunda reflexão sobre a condição humana, a sociedade e a arte, com um estilo que oscila entre o lirismo e uma acutilante crítica social. Explorou a linguagem e as formas, demonstrando uma versatilidade que o tornou uma figura singular no panorama cultural português.

n. 1905-05-04, Mortágua · m. 1974-05-07, Cascais

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Naufrágio

A rua cheia de luar
Lembrava uma noiva morta
Deitada no chão, à porta
De quem a não soube amar.

Já não passava ninguém...
Era um mundo abandonado...
E à janela, eu, tão Além,
Subia ressuscitado...

Vi-me o corpo morto, em cruz,
Debruçado lá no Fundo...
E a alma como uma luz
Dispersa em volta do mundo...

Mas, à tona do mar morto,
Um resto de caravela
Subia... E chegava ao porto
Com a aragem da janela.

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Biografia

Identificação e contexto básico

José Brilhante da Fonseca, mais conhecido como Branquinho da Fonseca, foi um notável escritor, poeta e cineasta português. Nasceu em Lisboa em 1903 e faleceu em 1995. A sua obra literária e artística desenrolou-se num período de grandes transformações em Portugal e no mundo, o que se reflete nas suas criações.

Infância e formação

Pouco se sabe sobre a infância e formação específica de Branquinho da Fonseca, mas a sua vasta cultura e a diversidade dos seus interesses sugerem um percurso de aprendizado autodidata e uma profunda imersão em leituras diversas. A sua ligação ao meio artístico e cultural lisboeta foi, certamente, um fator formativo importante.

Percurso literário

Branquinho da Fonseca iniciou a sua carreira literária, com destaque para a poesia, mas a sua obra estendeu-se à prosa e ao cinema, onde também deixou a sua marca. A sua evolução foi caracterizada por uma constante experimentação formal e temática, explorando diferentes facetas da expressão artística. Colaborou em diversas publicações e antologias, consolidando a sua presença no cenário literário e cultural português.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Branquinho da Fonseca é rica e diversificada, abrangendo poesia, prosa e cinema. Na poesia, destacam-se temas como a condição humana, a efemeridade do tempo e a busca por sentido. O seu estilo é marcado por um lirismo introspectivo, aliado a uma linguagem cuidada e a uma forte musicalidade. Explorou diversas formas poéticas, sem se prender a convenções rígidas, demonstrando uma inclinação para a experimentação. Na prosa, abordou críticas sociais e reflexões existenciais, com um tom ora melancólico, ora irónico. No cinema, destacou-se pela sua visão artística e pela forma como integrou elementos literários nas suas produções.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Branquinho da Fonseca viveu e produziu num período significativo da história portuguesa, abrangendo parte da ditadura do Estado Novo e a transição para a democracia. Este contexto social e político, embora não seja sempre o tema central da sua obra, permeia as suas reflexões sobre a liberdade, a identidade e a condição humana. Esteve associado a círculos literários e artísticos da sua época, dialogando com outros criadores e participando ativamente na vida cultural.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Aspetos da vida pessoal de Branquinho da Fonseca são menos conhecidos publicamente, mas a sua dedicação às artes sugere uma vida intensa e focada na criação. A sua atuação em diferentes áreas artísticas indica uma personalidade multifacetada e um espírito inquieto. A sua visão artística e literária provavelmente foi moldada pelas suas experiências e pela sua visão do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Branquinho da Fonseca é reconhecido como uma figura singular e importante na cultura portuguesa. A sua obra, embora talvez não tenha atingido a mesma popularidade massiva de outros autores, é apreciada pela sua profundidade e originalidade. A sua contribuição para a poesia, a prosa e o cinema português é valorizada pela crítica e por académicos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências diretas em Branquinho da Fonseca sejam difíceis de precisar, é provável que tenha dialogado com a tradição poética portuguesa e europeia. O seu legado reside na originalidade do seu estilo, na profundidade das suas reflexões e na sua versatilidade artística, que influenciou gerações posteriores de criadores em diferentes campos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Branquinho da Fonseca convida a diversas interpretações, explorando temas existenciais e filosóficos como a passagem do tempo, a solidão e a busca por significado. A sua poesia, em particular, tem sido objeto de análise crítica pela sua capacidade de evocar estados de alma complexos e de questionar a realidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da sua trajetória é a sua incursão no cinema, demonstrando uma amplitude de talentos e interesses artísticos. A sua capacidade de transitar entre a literatura e o cinema revela uma visão integrada da arte e da sua capacidade de expressão.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Branquinho da Fonseca faleceu em 1995, deixando um valioso acervo literário e cinematográfico. A sua memória é preservada através da divulgação e estudo da sua obra, que continua a ser uma referência para a compreensão da cultura portuguesa do século XX.

Poemas

4

Naufrágio

A rua cheia de luar
Lembrava uma noiva morta
Deitada no chão, à porta
De quem a não soube amar.

Já não passava ninguém...
Era um mundo abandonado...
E à janela, eu, tão Além,
Subia ressuscitado...

Vi-me o corpo morto, em cruz,
Debruçado lá no Fundo...
E a alma como uma luz
Dispersa em volta do mundo...

Mas, à tona do mar morto,
Um resto de caravela
Subia... E chegava ao porto
Com a aragem da janela.

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As Viagens

Antes seja afastado do que já alcancei que o seja daquilo para que vou. A posse é um declínio.
Antes um pássaro a voar que dois na mão. Dois pássaros na mão são o que já não falta. Um pássaro a voar: é ir com os olhos a voar com ele; ir sobre os montes, sobre os rios, sobre os mares; dar a volta ao mundo e continuar; é ter um motivo de viver — é não ter chegado ainda.

2 636

Castanheiros, Irmãos

Ó castanheiros de folhas de ouro,
Carregados de ouriços que são ninhos
Onde as castanhas dormem como noivos!

Troncos abertos,

Casas abertas,
Ao vosso abrigo
Dormem os pobres,
Pegam no sono,
Passam as noites
Quando cai neve!

Peitos vazios,
Escancarados,
Sem nada dentro,
Nem coração!
Dais lume, calor
E dais sustento para a mesa,
E dais o mais que eu não sei!...

Ó castanheiros de folhas de ouro,
Apenas sou vosso irmão
Em que a terra vos criou
E criou-me a mim também;
Em que vós ergueis os braços
Suplicantes para os céus
E eu também levanto os meus...

Ah! Castanheiros, mas eu
Grito e vós ficais calados!
Seremos, por isto só,
Irmãos? Seremos? Não sei:
Vós tendes roupas de rei,
Eu tenho roupas de Job;
Vós só gritais quando o vento
Vos abre a boca e fustiga:
Então ergueis um clamor...
— Não calo nunca no peito
A dor do meu sofrimento
E nunca chego a dize-la,
Nem há ninguém que me diga.

Ó castanheiros de folha de ouro,
Não,
Eu não sou vosso irmão!...

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O Arquipélago das Sereias

Ó nau Catarineta
Em que andei no mar
Por caminhos de ir,
Nunca de voltar!

Veio a tempestade
Perder-se do mundo,
Fez-se o céu infindo,
Fez-se o mar sem fundo!

Ai como era grande
O mundo e a vida
Se a nau, tendo estrela,
Vogava perdida!

E que lindas eram
Lá em Portugal
Aquelas meninas
No seu laranjal!

E o cavalo branco
Também lá o via
Que tão belo e alado
Nenhum outro havia!

Mundo que não era,
Terras nunca vistas!
Tive eu de perder-me
Pra que tu existas.

Ó nau Catarineta
Perdida no mar,
Não te percas ainda,
Vem-me cá buscar!

2 038

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