José Anastácio da Cunha

José Anastácio da Cunha

1744–1787 · viveu 43 anos PT PT

José Anastácio da Cunha foi um matemático e poeta português, figura proeminente do Iluminismo em Portugal. A sua obra poética, embora menos extensa que a sua produção científica, revela uma sensibilidade notável e um estilo que antecipa certas tendências do Romantismo. É lembrado pela sua inteligência acurada e pelo seu contributo em diversas áreas do saber, tendo deixado um legado que transcende as fronteiras da ciência e da literatura.

n. 1744-01-01, Lisboa · m. 1787-01-01, Lisboa

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Já quasi até Morria

Já quasi até morria
C’os olhos nos da amada.
E ela que se sentia
Não menos abrasada:
– “Ai, caro Atfes! – dizia –
Não morras inda, espera
Que eu contigo morrer também quisera”
A ânsia com que acabava
A vida, Atfes, refreia,
E, enquanto a dilatava,
Morte maior o anseia.
Os olhos não tirava
Dos do ídolo querido,
Nos quais bebia o Néctar diluído.

Quando a gentil Pastora,
Sentindo já chegada
Do doce gosto a hora,
Com a vista perturbada
Disse, tremendo: – “Agora
Morre, que eu morro, amor”
– “E eu – disse ele – contigo”
Viram-se desta sorte
Os dois finos amantes
Mortos ambos de um tal corte;
E os golpes penetrantes
Desta casta de morte
Tanto lhe agradaram,
Que para mais morrer recuscitaram.
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Biografia

Identificação e contexto básico

José Anastácio da Silva de Cunha foi um distinto matemático, poeta e pensador português, nascido em 1744 e falecido em 1787. É uma figura representativa do final do século XVIII, período de grandes efervescências intelectuais e científicas em Portugal e na Europa. A sua formação e atividade profissional ligam-no ao universo académico e científico da época, mas o seu espírito curioso e sensível também o aproximou do mundo das letras.

Infância e formação

José Anastácio da Cunha nasceu em Portugal, numa família que lhe proporcionou uma educação sólida. Demonstrou desde cedo um talento excecional para a matemática, o que o levou a prosseguir estudos superiores na Universidade de Coimbra. A sua formação não se limitou à matemática; possuía um vasto conhecimento em diversas áreas do saber, incluindo a filosofia, a literatura e as ciências naturais, o que revela um espírito enciclopédico típico da era iluminista.

Percurso literário

Embora seja mais conhecido pelas suas contribuições para a matemática, a veia poética de José Anastácio da Cunha é igualmente digna de nota. A sua obra literária, embora não volumosa, reflete uma sensibilidade profunda e um estilo que, em certos aspetos, prenuncia o Romantismo. Os seus poemas exploram temas como a natureza, os sentimentos humanos e a reflexão filosófica, muitas vezes com uma melancolia e uma delicadeza que o distinguem da poesia mais formalista da sua época. A sua produção poética é, em grande parte, póstuma, o que pode ter contribuído para uma menor divulgação em vida.

Obra, estilo e características literárias

A obra poética de José Anastácio da Cunha é marcada pela expressividade dos sentimentos e por uma observação atenta da natureza. Temas como a efemeridade da vida, a beleza do mundo natural e a busca por um sentido mais profundo para a existência são recorrentes. O seu estilo caracteriza-se pela clareza, pela musicalidade e por uma certa introspeção que o aproxima de sensibilidades posteriores. Os seus poemas, muitas vezes elegíacos, revelam uma profundidade emocional e uma capacidade de síntese que são distintivas. A sua obra é um testemunho da confluência entre a razão iluminista e a sensibilidade que despontava no final do século XVIII.

Contexto cultural e histórico

José Anastácio da Cunha viveu num período de transição em Portugal, marcado pelas reformas pombalinas e pela influência das ideias iluministas. Foi um dos intelectuais que procuraram modernizar o pensamento científico e filosófico no país. O seu trabalho matemático, nomeadamente nos domínios da álgebra e da teoria das probabilidades, colocou-o na vanguarda do conhecimento da época. No entanto, a sua produção literária, embora menos celebrada, demonstra a amplitude dos seus interesses e a sua capacidade de transitar entre a rigorosa lógica científica e a livre expressão poética.

Vida pessoal

Poucos detalhes da vida pessoal de José Anastácio da Cunha são amplamente conhecidos. Sabe-se que dedicou grande parte da sua vida ao estudo e à produção intelectual. A sua dedicação à ciência e à arte sugere um caráter ponderado e um profundo interesse pelo conhecimento. As suas convicções filosóficas alinhavam-se com o espírito iluminista, valorizando a razão e a busca pela verdade.

Reconhecimento e receção

Em vida, José Anastácio da Cunha foi reconhecido principalmente pela sua obra matemática. A sua faceta de poeta, embora admirada por alguns contemporâneos e por críticos posteriores, não alcançou a mesma projeção. No entanto, a sua inclusão em antologias e estudos sobre a literatura portuguesa do século XVIII tem vindo a cimentar o seu lugar como um autor de mérito, cuja obra poética é valorizada pela sua originalidade e pela sua contribuição para a evolução da sensibilidade literária em Portugal.

Influências e legado

As influências de José Anastácio da Cunha na literatura portuguesa são subtis, mas significativas. A sua capacidade de fundir a racionalidade com a emoção, e a sua visão da natureza, prenunciam elementos que viriam a ser explorados com maior profundidade pelo Romantismo. O seu legado reside na sua dupla contribuição para a ciência e para a poesia, demonstrando a harmonia possível entre o rigor do pensamento e a beleza da expressão artística. A sua obra poética é um convite à reflexão sobre a relação entre o homem, a natureza e o universo.

Interpretação e análise crítica

A obra poética de José Anastácio da Cunha tem sido objeto de análise crítica que destaca a sua originalidade e a sua modernidade. A sua capacidade de expressar sentimentos complexos de forma lírica e a sua visão contemplativa da natureza são pontos frequentemente sublinhados. A sua poesia é vista como um elo importante entre a estética setecentista e as novas sensibilidades que emergiam, antecipando a subjetividade e a emotividade romântica.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Uma curiosidade sobre José Anastácio da Cunha é a sua formação académica que o levou a ser professor de matemática na Universidade de Coimbra. A sua obra matemática, como o "Ensaio sobre a Melhoria das Casas de Moeda", demonstra um pragmatismo e uma visão inovadora para a época. A sua incursão na poesia, contudo, revela um lado mais íntimo e reflexivo do seu espírito.

Morte e memória

José Anastácio da Cunha faleceu em 1787, vítima de doença. A sua memória perdura não só pelos seus estudos científicos, mas também pela sua obra poética, que tem sido progressivamente redescoberta e valorizada pela crítica literária, consolidando o seu estatuto como uma figura multifacetada e importante na cultura portuguesa.

Poemas

4

Os Porquês do Amor

Céu, porque tão convulso  e consternado
Me bate, ao Vê-la, o coração no peito?
Porque pasma entre os beiços congelado,
Indo a falar-lhe, o tímido conceito?

Porque nas áureas ondas engolfado
Da caudalosa trança, inda que afeito,
Me naufraga o juízo embelezado,
E em ternura suavíssima desfeito?

Porque a luz dos seus olhos, tão activa,
Por lânguida inda mais encantadora,
Me cega, e por a ver, ansioso, clamo?

Porque da mão nevada  sai tão viva
Chama, que me electriza e me devora?
Os mesmos meus porquês me dizem: - Amo!
662

Soneto

Copado, alto, gentil Pinheiro Manso;
Debaixo cujos ramos debruçados
Do sol ou lua nunca penetrados,
Já gozei, já gozei mais que descanso...

Quando para onde estás os olhos lanço,
Tantos gostos ao pé de ti passados
Vejo na fantasia retratados,
Tão vivos, que jàmais de ver-te canso!

Ah! deixa o outono vir; de um jasmineiro
te hei-de cobrir, terás cópia crescida
De flores, serás honra dêste outeiro.

E para te dar glória mais subida,
No meu tronco feliz, alto Pinheiro,
O teu nome escreverei de Margarida.
689

Já quasi até Morria

Já quasi até morria
C’os olhos nos da amada.
E ela que se sentia
Não menos abrasada:
– “Ai, caro Atfes! – dizia –
Não morras inda, espera
Que eu contigo morrer também quisera”
A ânsia com que acabava
A vida, Atfes, refreia,
E, enquanto a dilatava,
Morte maior o anseia.
Os olhos não tirava
Dos do ídolo querido,
Nos quais bebia o Néctar diluído.

Quando a gentil Pastora,
Sentindo já chegada
Do doce gosto a hora,
Com a vista perturbada
Disse, tremendo: – “Agora
Morre, que eu morro, amor”
– “E eu – disse ele – contigo”
Viram-se desta sorte
Os dois finos amantes
Mortos ambos de um tal corte;
E os golpes penetrantes
Desta casta de morte
Tanto lhe agradaram,
Que para mais morrer recuscitaram.
691

O Abraço

Não vês inda, de gosto sufocados,
Um noutro nossos peitos esculpidos?
Não sentes nossos rostos tão chegados
E ainda mais os corações unidos?
Oh! Mais, mais do que unidos!
Tu fizeste, Doce encanto, que eu fosse mais que teu.
Lembra, lembra-te quando me disseste:
– Meu bem, eu não sou tu?… Tu não és eu?

Goza, de todo goza o teu amante;
E unidos ambos… -Oh!… e estás tão perto!…
Meu bem, deliro, sonho ou estou desperto?
Ambos unidos em mimoso laço,
Faces, bocas unidas… Ah! que faço?…
É ar… Quando que a abraço me parece,
A mim me abraço e em ar se desvanece.
Mas que duvido com abraço estreito
Cingir-me?… Dize, não és seu, meu peito?…
...
Goza, meu bem (enquanto a Sorte avara
Com tanta crueldade nos separa)
Goza do alívio, que nos concedeu,
De dizer com certeza: É minha! – É meu!…
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