Abade de Jazente

Abade de Jazente

1719–1789 · viveu 70 anos PT PT

O Abade de Jazente foi um poeta português do século XVIII, cujas obras refletem o contexto do Arcadismo em Portugal. A sua poesia, frequentemente satírica e crítica, aborda temas sociais e morais, utilizando a ironia e a alegoria para comentar a sociedade da sua época. A sua escrita destaca-se pela clareza, pela fluidez do verso e pela agudeza de observação, contribuindo para a renovação da poesia portuguesa com um tom mais crítico e engajado.

n. 1719-05-06, Amarante · m. 1789-11-20, Lisboa, Portugal

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Soneto

Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Mas ver cagar, contudo a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!

Ela a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura:
Uma carta de amores de alimpadura
Serviu àquela parte mal cheirosa:

Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito de amor que, lisonjeiro,
Afetos move, corações incita:

Para o ir servir de reposteiro
À porta onde o fedor e a trampa habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!

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Biografia

Identificação e contexto básico

O Abade de Jazente é o pseudónimo de Manuel Maria Barbosa du Bocage, um dos mais importantes poetas portugueses do século XVIII, figura proeminente do Arcadismo português. Nasceu em Setúbal, Portugal, em 25 de setembro de 1765, e faleceu em Lisboa, Portugal, em 21 de dezembro de 1805. Era conhecido pela sua vida boémia e pelas suas opiniões críticas.

Infância e formação

Bocage teve uma infância marcada por algumas dificuldades, apesar de pertencer a uma família de alguma distinção. Recebeu uma educação esmerada, tendo estudado Direito na Universidade de Coimbra. Durante a sua formação, demonstrou um espírito rebelde e uma inclinação para a sátira e a crítica social, absorvendo as influências do movimento árcade, que valorizava a razão, a natureza e a simplicidade, mas também o tom satírico.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se com a publicação de poemas em gazetas e periódicos da época. O seu percurso foi marcado por uma evolução estilística que, partindo dos ideais árcades, se aprofundou numa expressão pessoal e por vezes transgressora. A sua obra foi divulgada em diversas publicações, muitas vezes de forma fragmentada, o que contribuiu para a sua fama e notoriedade. Teve também atividade como tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Bocage incluem "Rimas" (publicadas em vários volumes ao longo da sua vida e postumamente), "Poemas" e "Sonetos". Os temas dominantes na sua obra são o amor (frequentemente com um tom sensual e rebelde), a crítica social e política, a efemeridade da vida, a natureza e a reflexão sobre a condição humana. Bocage era um mestre na forma poética, destacando-se no uso do soneto, mas também explorou o verso livre e outras formas. Os seus recursos poéticos incluem metáforas ricas, ritmo acentuado e uma musicalidade envolvente. O seu tom poético varia entre o lírico, o satírico, o elegíaco e o irónico. A sua linguagem é culta, mas viva e expressiva, com um vocabulário que reflete a sua erudição e a sua observação atenta da realidade. Introduziu uma nova subjetividade e um espírito crítico na poesia portuguesa, afastando-se de um certo formalismo árcade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bocage viveu num período de grandes transformações em Portugal e na Europa, o final do século XVIII, marcado pelo Iluminismo, pelas Guerras Napoleónicas e por um clima de instabilidade política. Pertenceu à "Geração de 1790" ou "Arcadismo Final", um grupo de poetas que, embora ligados ao Arcadismo, prenunciavam o Romantismo com a sua subjetividade e o seu tom mais pessoal. A sua posição crítica e a sua vida boémia colocaram-no em conflito com as autoridades, o que resultou em prisões e exílios.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Bocage foi extremamente turbulenta e marcou profundamente a sua obra. Teve relações amorosas intensas e conturbadas, que se refletem nos seus poemas de amor. As suas amizades eram muitas, mas também as suas rivalidades literárias e pessoais. Sofreu várias prisões e exílios devido às suas ideias e ao seu comportamento considerado escandaloso. A sua profissão principal foi a de poeta e escritor, mas as suas dificuldades financeiras eram constantes.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bocage alcançou grande fama em vida, apesar das controvérsias que a sua figura e a sua obra geravam. Foi reconhecido como um dos maiores poetas portugueses da sua época. A receção crítica à sua obra tem sido consistentemente positiva ao longo do tempo, sendo considerado um poeta essencial para a compreensão da evolução da poesia portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bocage foi influenciado por poetas clássicos como Camões e Virgílio, bem como por autores árcades e iluministas. A sua obra, por sua vez, influenciou poetas posteriores, especialmente no que diz respeito à exploração do amor, à crítica social e à liberdade formal. O seu legado reside na renovação da linguagem poética e na introdução de um tom mais pessoal e crítico na poesia portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bocage tem sido objeto de inúmeras interpretações, destacando-se a análise do seu lirismo amoroso, da sua veia satírica e da sua visão pessimista da vida. A dualidade entre o ideal árcade e a realidade turbulenta da sua existência é um ponto central de discussão.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Bocage é o seu pseudónimo "Abade de Jazente", que escolheu numa alusão irónica à sua vida de boémia e aos seus conflitos com a Igreja. Conhecido pela sua inteligência e pelo seu humor ácido, Bocage deixou um legado de manuscritos, diários e correspondência que continuam a ser estudados por especialistas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Manuel Maria Barbosa du Bocage faleceu precocemente, aos 40 anos, vítima de tuberculose. A sua obra, no entanto, perdurou e consolidou-se como um marco na literatura portuguesa. Publicações póstumas continuaram a dar a conhecer o seu vasto espólio poético, assegurando a sua memória e a sua importância literária.

Poemas

3

Soneto

Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Mas ver cagar, contudo a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!

Ela a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura:
Uma carta de amores de alimpadura
Serviu àquela parte mal cheirosa:

Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito de amor que, lisonjeiro,
Afetos move, corações incita:

Para o ir servir de reposteiro
À porta onde o fedor e a trampa habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!

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Soneto II

Piolhos cria o cabelo mais dourado;
branca remela o olho mais vistoso;
pelo nariz do rosto mais formoso
o monco se divisa pendurado:

Pela boca do rosto mais corado
hálito sai, às vezes bem ascoroso;
a mais nevada mão é sempre forçoso
que de sua dona o cu tenha tocado;

Ao pé dele a melhor natura mora,
que deitando no mês podre gordura,
fétido mijo lança a qualquer hora:

Caga o cu mais alvo merda pura:
pois se é isto o que tanto se namora,
em ti mijo, em ti cago, oh formosura!

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Amor é um arder que se não sente

Amor é um arder que se não sente;
É febre, que no peito faz secura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágua, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.

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