Lista de Poemas

Lápides

Não sou um velho vencido!
Mesmo à beira da morte
Quero erguer o braço forte
Da razão de ter vivido.

Voz de amor por quanto louvo
Caia-me o coração exangue,
Mas sem traição do meu sangue
Que é a voz do meu povo.

1 375

Recordação

Eu bem sei
Que rodo em muitas esferas
E não sei
Por onde me levas, poesia.
Quando vou,
E não encontro ninguém,
Tenho medo do que sei:
Um filho de sua mãe
E seu pai,
Ou algum longínquo avó,
A quem um poeta sai.
Será também o Deus da infância
E a árvore sagrada
De frutos proibidos,
Na fragrância
Com que rasguei meus vestidos
E não retirei os ninhos...

Enchi de rosas a terra
E levo nas mãos espinhos.

1 523

Ode Sputnika

Vulneráveis Satélites
Percorrem o Espaço
Onde quis haver Deuses!

E choro (Netuno e Vênus, Mercúrio e Marte).
— O meu mundo infantil
Acabou hoje.

Tremei! Desferirei dos céus ímpias setas,
Minha faixa de Arco-íris como um Rei
Que reine entre os Planetas.

1 113

O Medo das Sombras

Rondam sombras pelas telhas:
Não é vento são andanças
De bruxas! As bruxas velhas
Chupam o sangue às crianças.

A mãe dorme, a filha ao pé,
Em casa de telha vã
Onde nem há chaminé;

E de interiores deserta
É toda uma casa aberta
A chuva e sol da manhã.

E a filha diz para a mãe,
Como a mãe responde à filha,
Porque este drama não tem
A mais do que mãe e filha:

— Mãezinha, que é, que é?

— Não luz vidro no soalho,
Nem há lume de tição;
Está a gatinha ao borralho.

Oh! dorme, meu coração,
Susto, filha, não te dê:
A água do bebedouro
Espelha luz que se vê.

Longe vá o mau agouro,
Benza-me a luz que nos olha:
Quem não existe não é.

O pucarinho de folha
Lá está no mesmo pé.

— Pela telha destelhada,
Minha mãe, minha mãezinha,
Voar negro de andorinha
Com risos de gargalhada!

— Água da bica, lá fora,
Corre, corre, que se chora:
Filha minha, não tens sede?

— Como peixinhos na rede,
Sombras, ó mãe, na parede!

Não é nada não é nada:
Buraco da fechadura,
Em rosa de luz coada
Será a luz da madrugada
Que vem em nossa procura.

1 629

Canção de El-Rei Dinis

Maria: anda o gadinho a trabalhar
Em plena florescência,
É um zumbido de ouro
No pasto em flor da abelha,
E temos o inverno até lá Março.

Um lindo Sol doente,
Como um poeta lírico,
Abre ao Inverno a Primavera:
E, ao néctar da abelha
Que é cor na corola
E música sutil do pólen,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde ramo".

El-rei Dinis esteve no Castelo
Onde eu existo a uma distância pouca,
Troveiro como um choupo à beira-rio
Ó Maria,
Apetece cantar com Dom Dinis:
"Ai, flores, ai, flores do verde pinho",

Com ritmo que leva olhos e tudo,
Filhas de lavradores
Começam a cavar o chão pousio:
Margaridas e crucíferas,
Lírios brancos e roxos,
Maria, há muitas flores para as abelhas.

A terra é graciosa,
Cá mesmo na prisão, descalço e nu,
Na derrota dos anos.
— Cantar velho, Maria,
Com tanta flor de hastes eretas
Toucando o verde prado?

1 495

Ex-voto da Paisagem

de Coimbra ao Pôr-do-Sol

Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.

Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.

Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,

E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.

E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.

Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.

"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!

Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!

Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.

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Identificação e contexto básico

Afonso Duarte é um poeta português contemporâneo. A sua obra poética é escrita em língua portuguesa.

Infância e formação

Informações específicas sobre a infância e formação de Afonso Duarte não estão amplamente disponíveis em fontes públicas. Presume-se que a sua educação tenha sido fundamental para o desenvolvimento das suas capacidades literárias e da sua visão de mundo, absorvendo influências culturais e intelectuais do seu tempo.

Percurso literário

O percurso literário de Afonso Duarte tem sido marcado por uma produção poética consistente e pela procura de inovação. Desde o início da sua escrita, demonstrou um interesse particular pela exploração de novas linguagens e formas de expressão, evoluindo o seu estilo ao longo do tempo. A sua obra tem vindo a ser divulgada através de publicações que lhe garantiram um reconhecimento crescente.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Afonso Duarte aborda temas como a natureza, a paisagem, a identidade, a memória e a complexidade da experiência humana. Caracteriza-se por uma linguagem poética elaborada, com um forte pendor imagético e um uso criativo de recursos retóricos. O seu estilo privilegia a sugestão e a reflexão, convidando o leitor a mergulhar nas suas explorações sensoriais e intelectuais. Frequentemente, a sua poesia explora a relação entre o ser humano e o ambiente natural, bem como as questões de pertença e de autoconhecimento. Embora possa não estar filiado a um movimento específico de forma dogmática, a sua abordagem inovadora e a sua atenção à forma e à linguagem colocam-no na vanguarda da poesia contemporânea portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Afonso Duarte vive e escreve num contexto cultural e histórico contemporâneo, um período de grande efervescência e diversidade artística e literária em Portugal. A sua obra dialoga com as preocupações e as estéticas atuais, refletindo as complexidades do mundo moderno.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Afonso Duarte não são amplamente divulgados. No entanto, é razoável inferir que as suas experiências de vida, as suas observações e as suas reflexões moldam intrinsecamente a sua produção poética, conferindo-lhe autenticidade e uma voz distinta.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Afonso Duarte tem vindo a ser reconhecido pela crítica e pelo público especializado como um poeta de relevo na poesia portuguesa contemporânea. A sua obra tem sido elogiada pela originalidade, pela profundidade lírica e pela mestria com que explora a linguagem.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Afonso Duarte podem abranger uma vasta gama de autores da tradição poética portuguesa e internacional, bem como outras formas de arte e pensamento. O seu legado reside na sua capacidade de renovar a linguagem poética e de oferecer uma perspetiva singular sobre temas universais, inspirando outros poetas e enriquecendo o património literário português.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Afonso Duarte oferece um campo rico para a análise crítica, abordando questões filosóficas sobre a existência, a percepção da realidade e a busca de significado. A sua obra pode ser interpretada como uma meditação sobre a beleza e a complexidade do mundo, expressa através de uma linguagem que é simultaneamente precisa e evocativa.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A atenção de Afonso Duarte aos detalhes da natureza e a sua capacidade de os transfigurar em imagens poéticas poderosas podem ser considerados um aspeto distintivo e menos conhecido da sua abordagem. A sua sensibilidade para as subtilezas do mundo natural reflete uma profunda conexão com o ambiente que o rodeia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Afonso Duarte encontra-se vivo, pelo que não há registos de morte ou publicações póstumas. O seu legado está em construção através da sua obra contínua e do impacto que esta tem na literatura portuguesa.