Afonso Lopes de Baião

Afonso Lopes de Baião

1210–1280 · viveu 70 anos PT PT

Afonso Lopes de Baião foi um trovador medieval português, figura proeminente da poesia galego-portuguesa. A sua obra, integrada no cancioneiro medieval, reflete as convenções líricas da época, com destaque para a cantiga de amor e a cantiga de amigo. Com um estilo característico, Baião contribuiu para a riqueza e diversidade da lírica trovadoresca, explorando sentimentos e paisagens de forma ímpar.

n. 1210, Baião · m. 1280-05-03, Reino de Portugal

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Madre, Des Que Se Foi Daqui

Madre, des que se foi daqui
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
       nom vejades de mi prazer
       que desejades a veer.

Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
       nom vejades de mi prazer
       que desejades a veer.

De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
       nom vejades de mi prazer
       que desejades a veer.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Afonso Lopes de Baião foi um trovador da Idade Média, atuante no Reino de Portugal. É conhecido pela sua participação na lírica galego-portuguesa, um corpus de poesia que abrange os reinos de Galiza e Portugal entre os séculos XII e XIV. A sua obra insere-se no contexto da poesia trovadoresca, caracterizada pela sua origem cortesã e pela sua estrutura musical.

Infância e formação

Os detalhes sobre a infância e formação de Afonso Lopes de Baião são limitados, como é comum para muitos trovadores medievais. Presume-se que tenha tido acesso a uma educação que lhe permitiu dominar a arte da poesia e da música, possivelmente no seio da corte ou de uma família com algum prestígio social.

Percurso literário

O percurso literário de Afonso Lopes de Baião está intrinsecamente ligado à tradição da cantiga galego-portuguesa. Compôs cantigas de amor e cantigas de amigo, formas poéticas características da época. A sua obra, integrada em cancioneiros como o Cancioneiro da Ajuda, o Cancioneiro Nacional de Lisboa e o Cancioneiro Colocci-Brancuti, demonstra um domínio das convenções líricas e temáticas do seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Afonso Lopes de Baião é representativa da lírica trovadoresca galego-portuguesa. Nas suas cantigas de amor, explora o tema do sofrimento amoroso do eu-lírico perante a dama idealizada, seguindo as regras do amor cortês, com a vassalagem amorosa e a dissimulação. Nas cantigas de amigo, o eu-lírico é feminino, expressando os seus sentimentos amorosos, saudades ou preocupações ao falar com a mãe, com as suas amigas ou com a natureza. O seu estilo é marcado pela linguagem cuidada, pela musicalidade intrínseca dos versos e pela capacidade de transmitir emoções de forma concisa e expressiva, dentro dos modelos formais da época, como a redondilha.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Afonso Lopes de Baião viveu num período crucial da formação de Portugal, uma época em que a cultura trovadoresca florescia nas cortes peninsulares. A lírica galego-portuguesa era um veículo de expressão cultural e social, refletindo os valores e as sensibilidades da nobreza e da burguesia cortesã. A sua obra dialoga com a de outros trovadores contemporâneos, participando na dinâmica cultural da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Afonso Lopes de Baião. Como a maioria dos trovadores medievais, a sua biografia está mais associada à sua produção artística do que a detalhes da sua existência privada. É provável que tenha tido uma vida ligada à nobreza ou aos círculos cortesãos, onde a poesia e a música desempenhavam um papel importante.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Afonso Lopes de Baião advém da sua inclusão nos cancioneiros medievais, que preservaram a sua produção para a posteridade. A sua importância reside na contribuição para o vasto acervo da poesia galego-portuguesa, que constitui um pilar da literatura lusófona.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Afonso Lopes de Baião foi influenciado pela tradição lírica provençal e pelas convenções do amor cortês. O seu legado está na sua contribuição para a consolidação e diversificação da cantiga galego-portuguesa, um género que influenciou a poesia posterior em língua portuguesa. A sua obra é estudada como um testemunho da expressão poética medieval.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A análise crítica da obra de Afonso Lopes de Baião foca-se na sua adesão e, por vezes, inovação dentro dos modelos da cantiga de amor e de amigo. A sua poesia é vista como um reflexo das mentalidades e das estruturas sociais medievais, especialmente no que diz respeito às relações amorosas e à condição feminina retratada nas cantigas de amigo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por ser um trovador medieval, muitos aspetos da vida de Afonso Lopes de Baião permanecem envoltos em mistério. O seu nome pode ter variações ou ser uma identificação que agrupa diversas composições. A falta de dados biográficos detalhados é comum a muitos criadores daquele período.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não existem registos precisos sobre a data e as circunstâncias da morte de Afonso Lopes de Baião. A sua memória perdura através das cantigas que lhe são atribuídas nos cancioneiros medievais, assegurando a sua presença no património literário.

Poemas

10

Madre, Des Que Se Foi Daqui

Madre, des que se foi daqui
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
       nom vejades de mi prazer
       que desejades a veer.

Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
       nom vejades de mi prazer
       que desejades a veer.

De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
       nom vejades de mi prazer
       que desejades a veer.
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Sedia-Xi Dom Belpelho Em Ua Sa Maison

Sedia-xi Dom Belpelho em ũa sa maison
que chamam Longos, [d]ond'eles todos som.
Per porta lh'entra Martim de Farazom,
escud'a colo em que sev'um capom,
que foi já poleir'em outra sazom,
caval'agudo, que semelha forom;
em cima del um velho selegom,
sem estrebeiras e com roto bardom;
nem porta loriga nem porta lorigom,
nem geolheiras, quaes de ferro som,
mais trax perponto roto sem algodom
e coberturas d'um velho zarelhom;
lança de pinh'e de bragal o pendom,
chapel de ferro, que xi lhi mui mal pom,
e sobarcad'um velh'espadarrom,
cuitel cacha[d]o, cinta sem farcilhom,
duas esporas destras, ca seestras nom som,
maça de fuste, que lhi pende do arçom.
A Dom Belpelho moveu esta razom:
- Ai, meu senhor, assi Deus vos perdom,
u é Joam Aranha, o vosso companhom
e voss'alférez, que vos tem o pendom?
Se é aqui, saia desta maison,
ca já outros todos em Basto som.
       Eoi!

Estas horas chega Joam de Froiam,
cavalo velho, caçurr'e alaxam,
sinaes porta eno arçom d'avam:
campo verde, u inqueire o cam,
e no escudo ataes lh'acharám;
ceram'e cint'e calças de Roam,
sa catadura semelh'a d'um jaiam.
Ante Dom Belpelho se vai aparelhan
e diz: - Senhor, nom valredes um pam
se os que som em Basto se xi vos assi vam;
mais id'a eles, ca xe vos nom iram:
achá-los-edes [e] escarmentarám.
Vingad'a casa em que vos mejad'ham,
que digam todos quantos pós vós verram
que tal conselho deu Joam de Froiam.
       Eoi!

Esto per dito chegou Pero Ferreira,
cavalo branco, vermelho na peteira,
escud'a colo, que foi d'ũa masseira,
sa lança torta d'um ramo de cerdeira,
capelo de ferro, o anasal na trincheira
e furad[o] em cima da moleira;
traj'ũa osa e ũa geolheira,
estrebeirando vai de mui gram maneira;
e achou Belpelho estando em ũa eira
e diz: - Aqui estades, ai, velho de matreira!
Venha Pachacho e Dom Roi Cabreira
pera dar[em] a mim a deanteira,
ca já vos tarda essa gente da Beira,
o moordom'e o sobrinho de Cheira,
e Meem Sapo e Dom Martim de Meira
e Lopo Gato, esse filho da freira,
que nom há antre nós melhor lança peideira.
       Eoi!
565

Deu Ora El-Rei Seus Dinheiros

Deu ora el-rei seus dinheiros
a Belpelho, que mostrasse
em alardo cavaleiros
e por ric'homem ficasse;
e pareceo o Sarilho
com sa sela de badana:
qual ric'homem, tal vassalo,
qual concelho, tal campana!
586

O Meu Senhor [Deus] Me Guisou

O meu Senhor [Deus] me guisou
de sempr'eu já coita sofrer,
enquanto no mundo viver,
u m'El atal dona mostrou
       que me fez filhar por senhor,
       e nom lh'ouso dizer "senhor".

E se Deus houve gram prazer
de me fazer coita levar,
que bem s'end'El soube guisar
u m'El fez tal dona veer,
       que me fez filhar por senhor,
       e nom lh'ouso dizer "senhor".

Se m'eu a Deus mal mereci,
nom vos quis El muito tardar
que se nom quisesse vingar
de mi, u eu tal dona vi
       que me fez filhar por senhor,
       e nom lh'ouso dizer "senhor".
802

Oí D'alvelo Que Era Casado

Oí d'Alvelo que era casado
mais nõn'o creo, se Deus mi perdom;
e quero-vos logo mostrar razom,
que entendades que digo recado:
ca lh'oí eu muitas vezes jurar
que tam pastor nom podia casar;
e por en creo que nom é casado.

Sabia-m'eu ca x'era esposado
mais há d'um ano, nom dig'eu de nom,
ca mi mostrou el bem seu coraçom,
per quanto el a mi havia jurado:
que, mentr'atam pastor fosse com'é,
que nom casaria, per boa fé;
mais esposou-s'e anda esposado.

E seus parentes têm por guisado
que se casass'há i gram sazom;
os que lho dizem diz-lhis el entom:
- Do que dizedes nom sõo pagado,
ca me nom podedes tanto coitar
que eu tam pastor quisesse casar;
mais casarei quand'[o] houver guisado.

De me coitardes fazedes mal sem,
ca nom podedes já, per nulha rem,
que per mi seja o preito juntado.
623

Em Arouca Ua Casa Faria

Em Arouca ũa casa faria;
atant'hei gram sabor de a fazer
que já mais custa nom recearia
nem ar daria rem por meu haver,
ca hei pedreiros e pedra e cal;
e desta casa nom mi míngua al
senom madeira nova, que queria.

E quem mi a desse, sempr'o serviria,
ca mi faria i mui gram prazer,
de mi fazer madeira nova haver,
em que lavrass'ũa peça do dia,
e pois ir logo a casa madeirar
e telhá-la; e pois que a telhar,
dormir en'ela de noit'e de dia.

E, meus amigos, par Santa Maria,
se madeira nova podess'haver,
log'esta casa iria fazer
e cobri-la e descobri-la ia,
e revolvê-la, se fosse mester;
e se mi a mi a abadessa der
madeira nova, esto lhi faria.
742

Senhor, Que Grav'hoj'a Mi É

Senhor, que grav'hoj'a mi é
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
       haverei, se Deus me perdom!,
       gram coita no meu coraçom.

E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
       haverei, se Deus me perdom!,
       gram coita no meu coraçom.

E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
       haverei, se Deus me perdom!,
       gram coita no meu coraçom.
868

Ir Quer'hoj'eu, Fremosa, de Coraçom

Ir quer'hoj'eu, fremosa, de coraçom,
por fazer romaria e oraçom
       a Santa Maria das Leiras,
       pois [o] meu amigo i vem.

Des que s[e ele] foi, nunca vi prazer,
e quer'hoj'ir, fremosa, polo veer,
       a Santa Maria das Leiras,
       pois [o] meu amigo i vem.

Nunca serei [eu] leda, se o nom vir,
e por esto, fremosa, quer'ora ir
       a Santa Maria das Leiras,
       pois [o] meu amigo i vem.
715

Disserom-Mi Uas Novas de Que M'é Mui Gram Bem

Disserom-mi ũas novas de que m'é mui gram bem:
ca chegou meu amigo, e, se el ali vem,
       a Santa Maria das Leiras irei, velida,
       se i vem meu amigo.

Disserom-m'ũas novas de que hei gram sabor:
ca chegou meu amigo, e, se el ali for,
       a Santa Maria das Leiras irei, velida,
       se i vem meu amigo.

Disserom-m'ũas novas de que hei gram prazer:
ca chegou meu amigo, mais eu, polo veer,
       a Santa Maria das Leiras irei velida,
       se i vem meu amigo.

Nunca com taes novas tam leda foi molher
com'eu sõo com estas, e, se [el] i veer,
       a Santa Maria das Leiras irei, velida,
       se i vem meu amigo.
643

Fui eu, fremosa

Fui eu, fremosa, fazer oraçom,
nom por mia alma, mas que viss'eu aí
o meu amigo, e, poilo nom vi,
vedes, amigas, se Deus mi perdom,
       gram dereit'é de lazerar por en,  (é muito justo que sofra por isso)
       pois el nom vẽo, nem haver meu bem.

porque fui eu chorar dos olhos meus,
mias amigas, e candeas queimar,
nom por mia alma, mais polo achar,
e, pois nom vẽo nen'o trouxe Deus,
       gram dereit'é de lazerar por en,
       pois el nom vẽo, nem haver meu bem.

Fui eu rogar muit'a Nostro Senhor,
nom por mia alma, e candeas queimei,
mais por veer o que eu muit'amei
sempr', e nom vẽo, o meu traedor:
       gram dereit'é de lazerar por en,
       pois el nom vẽo, nem haver meu bem.
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