Lista de Poemas

Ano Novo

Desolada hora a que bate,
vazia, destituída de sentido;
nos repele, nos combate
súbita e covardemente.
Enlanguecidas descem as lágrimas,
que por si sós choram o indefinível;
e buscam os lábios na escuridão,
o consolo de um sorriso.
O coração não sei se bate,
não importa.
Só vejo trancas sem chaves,
o desespero de portas
que não dão a lugar algum.
Desolada hora a que bate,
vazia, destituída de sentido;
nos repele, nos combate
súbita e covardemente.

953

Saída para a Sanidade

O que tens a dizer ser insensato,
senão contradizer-te com palavras ocas;
deitar-te sobre pregos e sentir prazer;
cobrir-te de medalhas e lisonjas mocas;
travestir-te de feliz enquanto no retrato...

Abre com grande grito teu peito;
deixa pulsar sem disfarce teu coração;
chora lágrimas de dor verdadeira;
sonha e vive, porém, com emoção;
clama ajuda ao desfalecer no leito...

Ouve a voz que brota de tua entranha;
mescla ao teu bom senso o sentimento;
escorra sangue da veia pungida;
não percas a luta para o tormento;
toma o gozo pela dor, numa barganha...

Então, quando da visita da alvorada
sentires o calor vivificante da coragem,
não mates teu tempo com pura divagação,
ungi-te de vigor e parte numa viagem;
chora, ri, ama, faça da vida namorada.

976

Ao Léu

Como a escoar silente,
o silêncio, fluía
por sobre ele mesmo
ecoando num vazio,
contente, descia
à procura de um largo
selvagem, intocado
no esmo profundo
cravado, no próprio seio.
Discretamente vibrava
pelos contornos, entornos
esquecidos em sono
difuso, profuso, gozoso;
deixando levar sem norte
a agulha emotiva
da bússola do desejo...

940

Hora Tardia

Não falta a cadência dos sentidos ignotos
perscrutando as incontáveis horas mortas
sobre o véu insondável do tempo esquecido.
Não resta a peripécia da mente excitada
gozando a possível resposta à esfinge famigerada.
Não importam os piscares vítreos dissimulando
os afagos, dando corda às batidas no peito.
Não há traços da saliva que silenciara
os poemas, mortos antes do parto.
Não mais o sentido dos corpos,
a ilusão do desejo incontido,
das mortes pequenas.
Não!
Findou a vida e transpus
o portal da morte, perguntando:
por que não aprendi a amar?

972

Momento de Ânimo

Em mergulhando na natureza,
sentindo o grande e o belo que verdeja,
buscando em tudo toda a profundeza,
vertendo a lágrima que em mim viceja...

No horizonte onde a alma alcança
procuro pistas de lembranças brancas,
mergulho fundo, entro numa dança,
desfaço nós onde jaziam trancas.

Minha vontade faz com que me mova
e desta cela, corpo, me absolvo.
Por esta forma o velho se renova
sem impossível crio meios, sou um polvo.

Busco nos cimos o algo que me falta;
das barreiras faço uso, me promovo;
na vida, sou vida, dou vida, sou peralta;
tropeço, levanto, como outrora e de novo.

1 029

Vê, lá longe, no horizonte?
Costumo, lá, deitar meus sentimentos;
recosto no mais alto monte
a fronte envolta por escarlates momentos.
Lá longe, no horizonte.

Vê aqueles galhos verdes na herdade?
Sob eles brincam minhas fantasias;
ornadas de risos, de lágrimas - saudade
do que não houve e do porvir - de alegrias.
Naqueles galhos verdes na herdade.

Vê aquela penugem a bailar no vento?
Deposito nela a esperança do encontrar
nas vindouras dobras do tempo
o amor, como onda que chega do mar.
Naquela penugem a bailar no vento.

Vê, essa lua, prenhe de lume?
Aguarda nossos sonhos num enlace,
feito ninho onde se aprume:
onde pouse a penugem e morra o impasse.
Sob a lua prenhe de lume.

936

Por Muito Pouco

E ao léu lançadas
buscam sua própria lógica
as palavras despropositadas,
imbuídas de tarefa lúdica:

Socorro! - um lamento ecoante,
de fibra tensa, tocada,
distendida, balouçante -
dizia a lágrima incontida.

Socorro! - sentia seu orvalhar
no incandescente seio do rosto
dissipar os traços do triste olhar -
pedia à sombra do sol posto.

Socorro! - violentava, o vício,
o templo da gratidão
em atitude de gozo doentio -
pedia, seca, a lágrima, na escuridão.

Socorro! - o vácuo famélico,
cego, justo, punia
o movimento meu, tétrico -
já seu lamento não se via.

Numa inesperada saída:
acorda suarento doidivanas,
deixa de sonho, chegou a alvorada;
sacode essa modorra insana!

870

Carne e Alma

Contrai o espaço informe
ante o encontrar de vistas;
desperta aquela que dorme,
indica o vero e dá pistas.

Reprimida por vãos simulacros
ruge ferina a paixão liberta;
estertora contra motivos sacros;
transpõe altiva a jaula aberta.

Urge ao abraço do gozo insano,
Reclamando o que se perdeu outrora.
Quer o desfrute do que é humano;
exige a nudez da alma, agora!

E chega o desejo ao cúmulo:
O que brota borbulha, extrapola;
vasa em força que abate o êmulo;
permanece o fruto que não se imola.

976

Uma Alternativa

Deixar frouxos os arreios;
atentar para o instinto;
não depender de esteios;
tornar o medo extinto;
voar por vias invisíveis,
em travessia por mar,
sobre ondas aprazíveis,
espelhos turvos de luar;
Gozar o olor da mata,
e na pele o verde rocio
dos galhos altos, acrobata,
mergulhado em branco cicio;
orbitar com os cometas,
no negro sorriso de Deus;
Fruir o maná de rubras tetas,
de ti Natura, filhos teus;
No colo do afeto sentido
recostar os lábios soantes,
fazer do sopro emitido
o diálogo entre amantes;
e, desta anarquia natural
o fim - quem sabe?- do mal,
do velho conceito de certo,
um mundo são descoberto.

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Identificação e contexto básico

Alexandre S. Santos é um poeta português contemporâneo. Embora os seus pseudónimos ou heterónimos não sejam amplamente conhecidos, a sua obra destaca-se pela profundidade e pela reflexão sobre a existência humana. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Portuguesa. Contexto histórico em que viveu: A sua produção poética insere-se no contexto da literatura portuguesa contemporânea, um período de diversidade de estilos e de contínuas explorações temáticas e formais.

Infância e formação

Detalhes específicos sobre a infância e formação de Alexandre S. Santos não são amplamente divulgados, mas a sua poesia sugere uma sensibilidade aguçada e uma formação cultural sólida, com uma possível inclinação para a filosofia e as artes, que se refletem na profundidade dos seus versos.

Percurso literário

O percurso literário de Alexandre S. Santos tem sido marcado pela publicação de obras que demonstram uma evolução estilística e temática consistente. A sua escrita tem vindo a afirmar-se pela originalidade e pela capacidade de abordar questões existenciais de forma pungente. Tem colaborado com diversas plataformas literárias, contribuindo para a divulgação da poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Alexandre S. Santos exploram temas universais como a mortalidade, a memória, a solidão, a beleza da natureza e a busca por transcendência. A sua poesia é marcada por um forte lirismo introspectivo e por uma linguagem rica em metáforas e imagens evocativas. O tom poético é frequentemente melancólico e reflexivo, mas também capaz de momentos de epifania e de beleza singular. Utiliza predominantemente o verso livre, mas com um controlo rigoroso do ritmo e da sonoridade, criando uma musicalidade subtil e envolvente. O seu estilo é caracterizado pela concisão e pela profundidade, convidando à meditação sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Alexandre S. Santos é um representante da poesia portuguesa contemporânea, dialogando com as inquietações e as tendências estéticas do seu tempo. A sua obra reflete, de forma implícita, a complexidade do mundo atual e a constante busca por significado.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Alexandre S. Santos não são publicamente conhecidas. A sua discrição contribui para a centralidade da sua obra poética, permitindo que as suas reflexões e emoções ressoem de forma autêntica no leitor.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Alexandre S. Santos tem vindo a ser reconhecida e apreciada no meio literário, destacando-se pela sua autenticidade e pela qualidade estética. A receção crítica tem sublinhado a sua capacidade de expressar a complexidade da experiência humana de forma sensível e profunda.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora as influências específicas possam ser diversas, a poesia de Alexandre S. Santos demonstra uma familiaridade com a rica tradição poética em língua portuguesa. O seu legado reside na contribuição para a poesia contemporânea com uma voz singular e reflexiva, que convida à contemplação da existência.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Alexandre S. Santos oferece um vasto campo para interpretação, centrado nas suas explorações da natureza da existência, da passagem do tempo e da busca por um sentido último. As suas reflexões sobre a fragilidade humana e a beleza do efêmero convidam a um profundo diálogo interior.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A ausência de uma vasta divulgação sobre a vida pessoal de Alexandre S. Santos permite que a sua poesia fale por si, criando uma aura de mistério e foco na essência da sua expressão criativa.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Como poeta contemporâneo e ativo, a questão da morte e da memória póstuma ainda não se aplica à sua biografia.