Lista de Poemas

O incêndio

O que vais então buscar no incêndio
Atrás dos vapores de esplendor barroco
Pelo segredo de um escadario roto
Estrangulado de heras escarlates?

Que voto fez-te empurrar porta ardente
Face santa de fogo e cinzas
Ao limite de mundo triste
Silêncio deterioração fingimento?

Diante de ti agora só há
Diamantes e rubis que brincam na poeira
Só gesso recaído sobre o chão de mármore
Com estátuas brancas as armas
As mãos de vidro os vasos cheios de lágrimas
O preto de velório e as rosas passadas
Embaixo de muros caducos

Vem uma dama deslumbrante e fúnebre
Logo aparecida logo desaparecida logo reaparecida
Logo mais nua ainda
Que é como a sombra de um desolar.
Nua em sangue e negra
Uma faísca em seu cabelo desfeito
Rubra como um craveiro que encravava a fuligem.

Calcando aos pés as pedras
O ouro e a prata o fragor do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza de uma hora catastrófica.

E vais achá-la talvez boa atriz
A gigante que se estende com tranquilidade
Sobre a calçada como sobre navalha
Enquanto em volta explode e se dispersa
O louco luxo de seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.

(tradução de William Zeytounlian)

:

L'incendie

Qu'allais-tu donc chercher à travers l'incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d'un escalier en loques
Etranglé de lierres écarlates ?

Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d'un monde morne
Sournoieserie silence délabrement ?

Devant toi ce n'est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur de carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.

Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l'ombre d'une désolation.
Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.

Foulant aux pieds les pierres
L'or et l'argent le fracas du cristal
Indifférente à l'opulance ou à la ruine
Dans la beauté d'une heure catastrophique.

Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s'étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu'alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.

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Meridiana

O menu de roteiros vale que nos sentemos?
Gosto de alho no verão mas cebola me indispõe,
Antes vamos à cama se a rádio se calar,
A tarde é pesada como um boi no balcão
Atiremos sobre nós o pano desta tripa espessa
Brindemos com sangue novo nas horas lassas
À noite escutaremos os antigos hinos
Quando a população voltar do meeting,
Estaremos cansados como fortes lutadores
Prestes a abaixarem o rosto sob a rubra roseta,
E deixaremos a porta aberta ao que vier.
(tradução de William Zeytounlian)
:
Méridienne
Le menu des routiers vaut-il que l'on s'asseye ?
J'aime l'ail en été mais l'oignon m'indispose,
Allons au lit plutôt si la radio se tait,
L'après-midi est lourd comme un boeuf à l'étal
Tirons sur nous le drap de ce gras-double épais
Trinquons de sang nouveau pendant les heures lâches,
Le soir nous entendrons les hymnes anciens
Quand la population reviendra du meeting,
Nous serons las ainsi que de puissants lutteurs
Prêts à baisser le front sous la cocarde rouge,
Et nous tiendrons la porte ouverte à tout venant.
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Brulote

O rosto desafiando a borrasca
Os cabelos cordames loucos
A boca aberta aos quatro ventos
Os braços levados pelas vagas
Os pés as mãos dispersos
O peito roto de golpes
O coração exposto à bordagem
Em trovão de fogo São Telmo
De amor morro de rir
No brulote de nossas breves vidas
Onde você me pulveriza.
(tradução de William Zeytounlian)
:
Brûlot
La figure défiant l'orage
Les cheveux cordages fous
La bouche bée aux quatre vents
Les bras emportés par les vagues
Les pieds les mains éparpillés
La poitrine rompue de coups
Le coeur exposé au bordage
Dans un éclat de feu Saint-Elme
D'amour je meurs de rire
Sur le brûlot de nos vies brèves
Où tu me réduis en poudre.
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Identificação e contexto básico

André Pieyre de Mandiargues foi um escritor, poeta e ensaísta francês. Data e local de nascimento: 14 de janeiro de 1909, Paris, França. Data e local de morte: 8 de novembro de 1991, Aix-en-Provence, França. Origem familiar: Família burguesa. Nacionalidade: Francesa. Língua de escrita: Francês. Contexto histórico: Viveu a maior parte do século XX, atravessando dois conflitos mundiais e testemunhando as transformações sociais e culturais da Europa.

Infância e formação

Criado numa família abastada, Pieyre de Mandiargues recebeu uma educação cuidada. Desde cedo manifestou interesse pelas artes e pela literatura, desenvolvendo um gosto pelo exótico e pelo insólito. A sua formação foi marcada por leituras diversificadas, que o aproximaram de correntes estéticas vanguardistas.

Percurso literário

Começou a sua carreira literária como poeta, publicando "Poèmes" em 1932. A sua obra evoluiu para a prosa, explorando contos e romances que exploravam temas como o erotismo, o fantástico e a transgressão. Manteve uma ligação próxima com o grupo surrealista, embora nunca se tenha filiado oficialmente, apreciando a liberdade criativa e a exploração do inconsciente. Foi também crítico de arte e um estudioso dedicado a outros artistas e escritores.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais incluem "Le Masochiste" (1933), "Soleil aux abois" (1947) e "Félicité" (1947). Os temas centrais da sua obra giram em torno do desejo, do erotismo, da morte, do mistério e da exploração de universos oníricos e fantásticos. A sua linguagem é marcada pela precisão, pela musicalidade e por uma forte carga de sensualidade e sugestão. Explora o verso livre na poesia e na prosa utiliza uma sintaxe elaborada e um vocabulário rico. O seu estilo, frequentemente classificado como surrealista ou pós-surrealista, caracteriza-se pela fusão do real e do imaginário, pela exploração do subconsciente e por uma atmosfera de encantamento e estranhamento.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Pieyre de Mandiargues esteve inserido no vibrante cenário cultural parisiense do século XX, dialogando com o surrealismo, mas também com outras vanguardas. A sua obra reflete as inquietações e as liberdades de uma época de profundas mudanças artísticas e sociais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As suas relações pessoais e vivências, muitas vezes marcadas por uma sensibilidade apurada para o mundo dos sentidos e do desejo, refletem-se na sua obra. A sua vida pessoal manteve-se relativamente discreta, focada na criação artística e intelectual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Recebeu o Prémio Apollinaire em 1947 pela sua obra poética. O reconhecimento da sua obra cresceu ao longo do tempo, especialmente entre os apreciadores da literatura de vanguarda e do surrealismo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por autores como Lautréamont e pelo surrealismo, Pieyre de Mandiargues deixou um legado na literatura francesa pela sua exploração ousada do erotismo e do fantástico, abrindo caminho para novas abordagens da subjectividade e do desejo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Pieyre de Mandiargues é frequentemente analisada sob a perspetiva da psicanálise, com foco na exploração do desejo, do inconsciente e do erotismo. A sua capacidade de criar atmosferas densas e enigmáticas é um ponto central na crítica.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Foi também um apreciador de fotografia e um crítico de arte atento, dedicando atenção especial a artistas com uma visão igualmente transgressora e inovadora.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 1991, deixando uma obra que continua a ser redescoberta pela sua originalidade e pela sua abordagem singular do humano e do insólito.