Aníbal Raposo

Aníbal Raposo

Aníbal Raposo é um poeta português cuja obra se distingue pela sua profunda ligação à terra, à memória e à identidade. A sua poesia, muitas vezes imbuída de um forte sentido de pertença regional, explora a relação do ser humano com o seu passado e com as paisagens que o moldam. Com uma linguagem que evoca a oralidade e a sabedoria popular, Aníbal Raposo constrói versos que ressoam com a autenticidade das suas raízes. A sua obra convida a revisitar as origens, a valorizar as tradições e a refletir sobre o tempo que passa e as marcas que deixa na alma humana.

n. , Vila Nova de Milfontes, Portugal · m. , Lisboa, Portugal

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Poema na Madrugada

Tu e eu na mesma hélice
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...

Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.

Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.

Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.

Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.

Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.

Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.

Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.

Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.

Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...

Pura...

Heroína...

Menina...

Lua...

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Biografia

Identificação e contexto básico

Aníbal Raposo é um poeta português, conhecido pela sua obra que frequentemente explora temas como a terra, a memória, a identidade e as paisagens. A sua escrita está profundamente enraizada no contexto cultural e geográfico de Portugal.

Infância e formação

Informações específicas sobre a infância e formação de Aníbal Raposo não são amplamente detalhadas em fontes públicas. No entanto, a sua obra sugere uma ligação forte às suas origens e a uma formação cultural que valoriza a tradição e a expressão popular.

Percurso literário

O percurso literário de Aníbal Raposo é marcado pela publicação de livros de poesia que refletem a sua visão do mundo e a sua sensibilidade artística. A sua obra tem vindo a ganhar reconhecimento pela sua autenticidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Aníbal Raposo caracteriza-se pela exploração de temas como a terra natal, a memória coletiva e individual, a identidade e a passagem do tempo. A sua linguagem poética é frequentemente marcada por uma forte musicalidade, por vezes evocando a oralidade e a sabedoria popular. O tom da sua obra pode ser lírico, reflexivo e, em muitos momentos, com um sentido de nostalgia pela terra e pelas tradições. A sua escrita procura capturar a essência das paisagens e das vivências, estabelecendo uma ponte entre o passado e o presente.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Aníbal Raposo insere-se no panorama literário português contemporâneo, contribuindo com uma voz que valoriza as raízes e a identidade cultural.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes sobre a vida pessoal de Aníbal Raposo não são publicamente divulgados de forma extensa, sendo a sua obra o principal foco de atenção.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Aníbal Raposo tem sido apreciada pelo seu lirismo e pela forma como aborda temas identitários e de pertença, conquistando leitores sensíveis a estas temáticas.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A influência de Aníbal Raposo reside na sua capacidade de evocar a alma de uma região e de uma cultura através da poesia, deixando um legado de versos que celebram a memória e a terra.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Aníbal Raposo oferece um campo fértil para a análise da relação entre o indivíduo, a terra e a memória, explorando a construção da identidade em contextos culturais específicos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Informações sobre aspetos menos conhecidos da vida ou obra de Aníbal Raposo não são amplamente acessíveis.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Aníbal Raposo encontra-se vivo, e a sua memória literária é construída através dos seus poemas que celebram a identidade e a terra.

Poemas

4

Poema na Madrugada

Tu e eu na mesma hélice
Tu, muitas espiras acima
Que voas mais alto...
Cirandas à volta da lua feiticeira
Com as tuas asas de fogo
Incendeias-me o corpo
E em torrentes e lava
O meu amor flui
E como ela,
Em desespero,
Procura o mar...

Deixa-me dançar contigo uma dança índia
À volta da fogueira
Do nosso encantamento.
Deixa-me enlouquecer ao ritmo
Dum batuque africano
Transposto para um terreiro da Baía.
Deixa-me sentir os sortilégios
De Oxúm e de Oxalá.
Deitar, na praia, flores a Iemanjá.
Adorar a mãe Terra
Sentir-lhe o cheiro
Depois de uma chuvada de Agosto.
Eu quero ser, ao mesmo tempo,
Vinho e mosto.
Madrugada, sol nascente,
Entardecer e sol posto.

Curare.
Veneno na ponta da zarabatana.
Réstia de lucidez em mente insana.

Canta comigo irmã
A cantiga da terra prenhe.
Enforquemos as vaidades
Em gravatas ridículas
Confeccionadas em boa seda
E vendidas por um moderno bufarinheiro
Junto à catedral de Milão.

Deixa-me fundear nas tuas angras.
Ser o teu pirata argelino de estimação.
O teu bandeirante,
Buscando a esmeralda perdida
No meio do sertão.

Eu quero ser o desatino da tua insónia.
A tua noite mal dormida.
A tua cicatriz, a tua ferida,
Cauterizada com ferros ardentes.
Quero ser o teu ranger de dentes
Ante o desespero da miséria...
O teu grilo falante.
O espinho da tua rosa triunfante.

Deixa-me caboucar o sonho.
Construir castelos quiméricos.
Inventar outra arquitectura.
Redonda.
Quero esperar por ti
Na paragem do autocarro
Que vai partir, já
Para Nova Deli.

Quero ser uma luzinha ténue
Na via láctea nocturna
Desta vida favelada.
Rocinha!
Rio e margem,
Voo picado
Pedra Bonita, pivete.
(Glória ao escrete!)
O poder está
Na ponta do canivete!
Ipanema...
Saravah! Irmão Vinícius
Poetinha do amor e do vício.

Aqui estou!
Dou-te razão:
A inspiração continua a estar
Bem no fundo do copo
E da alma.

Salvé musa minha
Habitante da ilha irmã.
Continuas a ser o meu luzeiro,
Estrela da manhã.
Por ti adoro Baco.
Por ti versejo.
Por ti faço charadas,
Num desejo
De te ter mais perto.
Sem ti sou um navio no deserto.
O profeta do caos.
Caruso a cantar na ópera de Manaus.
O porco nos joelhos do visionário Klaus Kinsky
Na epopeia de Fritz Carraldo.
O caldo
Da loucura...

Pura...

Heroína...

Menina...

Lua...

1 000

Ausência

É estranho...
Quando deixas a ilha
Sinto os meus dias prenhes
Do imenso vazio da tua ausência

Resta o teu cheiro...
No quarto, na almofada da cama
Em cada canto da casa...

Confesso que nunca o sinto assim tão à flor da pele
No compasso voraz do nosso dia-a-dia

Só então me apercebo
Como a usura do tempo
Traça, sem darmos conta, superfícies planas
Esbate, sem piedade, as vivas arestas
Da cor dos nossos sentimentos

Amo-te em fogo juvenil quando estás longe
Habituo-me a ti
Se estás por perto.

766

O Sangue do Poema

Duas lágrimas correm
Redondas e breves
Sobre este rectângulo branco
Onde se joga o sonho

Duas gotas de água
Solução saturada do sal
Das emoções à solta

Recebe-as o chão-da-palavra
Generoso, outonado, leve

Em breve brotará do solo
Primeiro encurvado e tímido
Depois confiante e vertical
Um singelo feto

Se pertences ao clã hermético
Dos recolectores de sonhos
Tenta arrancá-lo rápido

Provavelmente sentirás as mãos húmidas
Do sangue do poema

1 052

Fim do Século

Procuramos planícies de entendimento
Encontramos muralhas de distância

Já não sabemos rir
Os músculos da cara contraem-se
Em oportunos esgares a que chamamos riso

Perdemos toda a inocência
Compramos as amizades que interessam
Nos hipermercados das pequenas vaidades

Temos um mar chão
Deixaram-nos tão pobres que não o fruímos

Já não sabemos do cheiro
Do funcho, do incenso e da hortelã
Vendem-nos agora odores engarrafados a preços
astronómicos
O burlão prospera...
O burlado é um tolo com status!

Como poderemos apreciar a singeleza das coisas
Se passamos por elas a duzentos à hora?

Não bebemos a natureza nos espaços abertos
Pagamos para utilizar passadeiras rolantes

Programamos os nossos momentos de amor
E a melodia dos nossos cânticos...

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