António Arnaut

António Arnaut

1936–2018 · viveu 82 anos PT PT

António Arnaut foi um jurista, professor e poeta português. Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra, dedicou a sua vida ao estudo e ensino do Direito, com particular ênfase nas áreas de Direito Civil e Direito do Trabalho. Paralelamente à sua carreira académica e jurídica, desenvolveu uma obra poética discreta mas notável, marcada por uma profunda reflexão sobre a condição humana, a espiritualidade e a relação entre o homem e o cosmos.

n. 1936-01-28, Penela · m. 2018-05-21, Santo António dos Olivais

15 785 Visualizações

Os Meus Heróis

Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

António Arnaut (nascido António Gonçalves Arnaut) foi um proeminente jurista, professor universitário e poeta português. Embora seja mais conhecido pelo seu trabalho no campo do Direito, a sua produção poética, embora menos extensa, revela uma faceta importante da sua personalidade e do seu pensamento.

Infância e formação

Arnaut nasceu em 1938. Realizou os seus estudos superiores na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde se licenciou e, posteriormente, obteve o grau de Doutor. A sua formação académica foi rigorosa e centrou-se nas áreas do Direito Civil e do Direito do Trabalho, onde se tornou uma referência.

Percurso literário

A incursão de António Arnaut na poesia ocorreu de forma mais madura, como uma expressão de anseios existenciais e espirituais. A sua obra poética não foi tão volumosa quanto a sua obra jurídica, mas possui uma qualidade lírica e reflexiva que lhe confere um lugar singular na poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

A sua obra poética, como em "O Canto e a Sombra", explora temas como a solidão, a busca de sentido, a finitude humana e a transcendência. Utiliza uma linguagem cuidada, com um tom introspectivo e, por vezes, melancólico, mas sempre com uma vertente de esperança e de busca espiritual. A sua poesia é marcada por uma forte carga filosófica e existencial.

Contexto cultural e histórico

António Arnaut viveu e produziu a sua obra num período de grandes transformações em Portugal e no mundo, desde a ditadura até à democracia. O seu pensamento jurídico reflete um período de debate sobre a modernização do direito e a sua adequação a uma sociedade em mudança. Na sua poesia, dialoga com inquietações universais.

Vida pessoal

Para além da sua carreira académica e jurídica, Arnaut dedicou-se à poesia como uma forma de explorar as profundezas da alma humana e as suas interrogações sobre a vida e o universo. As suas experiências de vida e a sua visão humanista permearam a sua escrita.

Reconhecimento e receção

Como jurista, António Arnaut gozou de um vasto reconhecimento pela sua obra e contribuição para o Direito português. Na esfera literária, a sua poesia é apreciada por aqueles que buscam uma reflexão profunda sobre temas existenciais e espirituais, valorizando a qualidade lírica e a profundidade de pensamento.

Influências e legado

O seu legado principal reside na área do Direito, onde as suas obras são referências incontornáveis. Na poesia, deixa uma marca de um intelectual que soube transpor as suas reflexões profundas para a forma lírica, influenciando leitores que apreciam uma poesia pensada e sentida.

Interpretação e análise crítica

A obra poética de Arnaut pode ser interpretada como um diálogo entre a razão jurídica e a sensibilidade lírica, entre a ordem do mundo e o mistério da existência. A sua poesia questiona o sentido da vida, a relação do homem com o tempo e com o transcendente.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Embora conhecido pelo seu rigor académico, a sua veia poética revela uma sensibilidade e uma capacidade de introspeção que podem surpreender quem apenas o conhece pela sua faceta de jurista. A sua obra poética mostra um lado mais íntimo e filosófico.

Morte e memória

António Arnaut faleceu em 2011. A sua memória perdura tanto no campo do Direito, onde a sua obra continua a ser estudada e aplicada, como na literatura, onde a sua poesia é lembrada pela sua profundidade e pela sua busca incessante de sentido.

Poemas

8

Os Meus Heróis

Prezo os símbolos, o rasto e os sinais
da minha nostalgia portuguesa.
Mas os meus heróis verdadeiros não vêm na história;
não têm monumentos nas praças domingueiras
nem dias feriados a lembrar-lhes o nome.
São heróis dos dias úteis da semana:
levantam-se antes do sol e recolhem apenas
quando a noite se fecha nos seus olhos.
Lavram a terra, o mar, e são jograis
colhendo a virgindade pudica da vida.
Sobem aos andaimes, descem às minas
e comem entre dois apitos convulsivos
um caldo de lágrimas antigas.
São os construtores do meu país, à espera!
Mouros no trabalho e cristãos na esperança;
famintos do futuro, como se a madrugada
fosse seara imensa apetecida
onde o sol desponta nas espigas
sobre o casto silêncio da montanha

2 938

Portucale

As montanhas abrem alas. Vai passar
o rio douro da lusa madrugada.
Ansias em socalcos sobre o vale
a saudar
o começo da vida:
Portucale
não é porto de chegada,
é o sal
e a fome aventurosa da partida.

1 391

Geografia de Portugal

Noventa mil quilómetros quadrados
de ousadia e sofrimento:

A oriente, a Espanha,
A norte, a terra galega.
A sul e ocidente, a dor tamanha
Do mar que já não chega,

Mas onde ainda ficaram,
Talhadas em rocha dura,
As ilhas que semearam
as pégadas da aventura.

1 218

O Comicio

Da tribuna envergonhada
por tanta demagogia
o orador prometia,
duma assentada,
a terra e o céu.

O povoléu,
incr´´dulo, sorvia
a fome de tanta fartura.

Porém, a certa altura
o orador entupiu
e caíu-lhe a dentadura.

Quando a assistência saíu,
pisou-lhe a faladura.

1 386

Os Títulos

Rei de Portugal e dos Algarves
e o resto que o mar te deu.

Agora tens o aquém
Porque o além se perdeu.

Agora tens o que é teu!

1 292

Gloria Efémera

O rosto do cartaz eleitoral
sobre um fundo de promessas, a sorrir
lembrava um maioral
a franquear as portas do porvir.

Vota! O apelo era um alaúde
a embalar a fome atávica da grei;
haverá trabalho, habitação, saúde,
tudo o que at´´a gora não vos dei.

Mas o vento límpido, ingrato
naquele domingo de eleições
ia desfazendo o candidato
em cruéis, frenéticos rasgões.

E quando a noite desceu
um varredor indeciso,
sonâmbulo, varreu
os últimos detritos do sorriso.

1 255

Portugal

Escrevo o teu nome, corpo inteiro
de uma saudade celular.
A imagem que me vem é de um pinheiro
numa fraga batida pelo mar.
Marinheiro
caminheiro
entre pélagos de noite e de luar.

Praia de vento à espera.
Ermas colinas, rugas do teu rosto,
cortadas por um longo veio de mosto
que traz em cada outono a primavera.
Trovador
lavrador
de um chão de saibro e quimera.

1 366

Dia de Portugal

Dia de Portugal. Dia de Camões
e das Comunidade.
O Presidente distribui condecorações
na feira das vaidades.

País de heróis e de santos
à beira mar enterrado.
Nunca outra Pátria teve tantos,
assim, por atacado.

1 245

Videos

50

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
António   Carvalho
António Carvalho

Agora mesmo percebi o porquê ; destes poemas não estarem minimamente divulgados...não interessa aos políticos