António de Navarro

António de Navarro

1902–1980 · viveu 77 anos PT PT

António de Navarro foi um poeta português, cujas obras se inserem no período do Modernismo, mas com uma voz singular e um estilo que frequentemente se afastava das correntes dominantes. A sua poesia é marcada por uma introspeção profunda e por uma exploração da condição humana, com um lirismo subtil e, por vezes, melancólico.

n. 1902-11-09, Vilar Seco · m. 1980-05-20, Lisboa

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Charleston

O jazz
zurze, risca losangos, gumes,
planos, ângulos, sonoros motes
arrancados de dentro da pandeiretas, cornetas, timballs,serrotes
tocados por Hotentotes saltitantes
que rasgam o espaço côncavo
com os fortes botes
dos sonoros motes volantes
do jazz-band dHo-ten-to-tes...

Andam no ar jogos malabares de fogos de Bengala
num batuque dHotentotes... dHo-ten-to-tes
sal-ti-tan-tes no redondel duma senzala.
E ela surge, toda nua,
sob a poalha luminosa e crua
dum foco darco voltaico,
que, incendiando o mosaico
de sua pele tatuada a cores,
lhe dá o aspecto bizarro
dum bronze colorido,
dum manipanso Hotentote.
O seu corpo, asa que desgarra,
esmurra, esbarra,
em movimentos ágeis,
elétricos,
com os sons do jazz
pensamentos alados de Ferrabraz
que esvoaçam, velozes, velozes no espaço.
As pernas são apenas
dois movimentos instáveis,
trêmulos, nos espaços,
em malabárico jogo.
E os braços,
duas antenas
vibráteis, duas
asas de fogo
e cor
numa pluma de labareda.
Os olhos são duas puas,
acerados gumes,
agudos ângulos,
orgias de fogos e lumes,
facas de prestigitador
sonâmbulo.

Seu corpo, cansado e bambo
— tomba
sobre almofadas de Damasco, Raz,
e penas de Trebisonda.
E o jazz
continua, já lassa a pele dos bombos,
bambas as cordas dos banjos.
Entretanto o jazz zurze, risca
o espaço também já lasso e bambo.

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Biografia

Identificação e contexto básico

António de Navarro foi um poeta português cuja obra se manifestou no século XX. Pouco se sabe sobre a sua origem familiar ou contexto social específico, mas a sua produção literária insere-se no panorama do Modernismo português, embora com características próprias que o distinguem de outros autores da época.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de António de Navarro são escassas. Presume-se que tenha tido acesso a uma educação que lhe permitiu desenvolver o seu talento literário, mas os detalhes sobre as suas influências formativas e os seus primeiros contactos com a literatura permanecem em grande parte desconhecidos.

Percurso literário

O percurso literário de António de Navarro é marcado por uma produção poética que, embora integrada no Modernismo, apresenta uma individualidade notável. A sua obra não se alinha facilmente com os grupos ou manifestos mais conhecidos, sugerindo uma trajetória mais solitária e introspectiva. A sua atividade como poeta parece ter sido mais discreta em comparação com alguns dos seus contemporâneos mais proeminentes.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de António de Navarro é frequentemente caracterizada por um tom lírico e introspectivo. Os temas que explora incluem a reflexão sobre a existência, a passagem do tempo, a natureza da identidade e a fragilidade das relações humanas. O seu estilo distingue-se pela subtileza, pela musicalidade do verso e por uma linguagem cuidada, que evita os excessos e as experimentações mais radicais de alguns modernistas. Utiliza, em geral, formas poéticas mais tradicionais, mas com uma sensibilidade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico António de Navarro viveu num período de efervescência cultural e artística em Portugal, o século XX, que foi testemunha de movimentos como o Modernismo e de importantes acontecimentos históricos. A sua obra, embora menos proeminente em termos de manifestos ou posições públicas, dialoga com o espírito da época, refletindo as inquietações e as transformações vivenciadas pela sociedade e pela literatura.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes sobre a vida pessoal de António de Navarro são limitados. Sabe-se que manteve uma atividade literária discreta, focada na produção poética. A sua dedicação à poesia sugere uma forte inclinação para a vida interior e a reflexão, características que transparecem na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de António de Navarro na sua época não foi tão amplo quanto o de outros poetas modernistas. A sua obra, por vezes considerada mais contida e menos tendenciosa para as experimentações vanguardistas, pode ter tido uma receção mais restrita. No entanto, o seu valor poético tem sido progressivamente reconhecido por estudos mais aprofundados da literatura portuguesa do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Apesar da escassez de informações sobre as suas influências diretas, é possível que tenha sido influenciado por poetas da tradição lírica portuguesa, bem como por algumas correntes do simbolismo e do modernismo europeu. O seu legado reside na sua contribuição para a diversidade do Modernismo português, oferecendo uma perspetiva mais introspectiva e lírica.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de António de Navarro convida a uma análise focada na subtileza das suas imagens e na profundidade das suas reflexões existenciais. A sua poesia pode ser interpretada como um testemunho da complexidade da experiência humana, filtrada por uma sensibilidade poética apurada.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Pela escassez de dados biográficos, muitos aspetos da sua personalidade e do seu processo criativo permanecem um mistério, o que confere um certo encanto e um convite à descoberta da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há registos detalhados sobre as circunstâncias da morte de António de Navarro. A sua memória perdura através da sua obra poética, que continua a ser redescoberta e apreciada por leitores e críticos.

Poemas

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Charleston

O jazz
zurze, risca losangos, gumes,
planos, ângulos, sonoros motes
arrancados de dentro da pandeiretas, cornetas, timballs,serrotes
tocados por Hotentotes saltitantes
que rasgam o espaço côncavo
com os fortes botes
dos sonoros motes volantes
do jazz-band dHo-ten-to-tes...

Andam no ar jogos malabares de fogos de Bengala
num batuque dHotentotes... dHo-ten-to-tes
sal-ti-tan-tes no redondel duma senzala.
E ela surge, toda nua,
sob a poalha luminosa e crua
dum foco darco voltaico,
que, incendiando o mosaico
de sua pele tatuada a cores,
lhe dá o aspecto bizarro
dum bronze colorido,
dum manipanso Hotentote.
O seu corpo, asa que desgarra,
esmurra, esbarra,
em movimentos ágeis,
elétricos,
com os sons do jazz
pensamentos alados de Ferrabraz
que esvoaçam, velozes, velozes no espaço.
As pernas são apenas
dois movimentos instáveis,
trêmulos, nos espaços,
em malabárico jogo.
E os braços,
duas antenas
vibráteis, duas
asas de fogo
e cor
numa pluma de labareda.
Os olhos são duas puas,
acerados gumes,
agudos ângulos,
orgias de fogos e lumes,
facas de prestigitador
sonâmbulo.

Seu corpo, cansado e bambo
— tomba
sobre almofadas de Damasco, Raz,
e penas de Trebisonda.
E o jazz
continua, já lassa a pele dos bombos,
bambas as cordas dos banjos.
Entretanto o jazz zurze, risca
o espaço também já lasso e bambo.

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Poema XVI

Uma nota solta
De não sei que música
Vagueia flor em flor
Como abelha de som.

Não lhe sei a cor,
Não lhe sei o tom,
— Deve ser esquiva e nívea
E faltar com certeza

Ao compositor e poeta
Que sonhou a perfeição
E a beleza
Sem mácula, que lhe adoece
De a buscar o coração

Ah, se ela quisesse
Aninhar-se na minha alma!...

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Poema IV

Ópera humana...
Onde o cantor é um operário
A construir e a destruir:
Cria ruínas e, a seu lado,
Ergue um castelo ao imaginarão,
Erguido no presente com a sombra no passado
E para a luz sombria do futuro.
E, enfim, lá canta a sua música
Feita de carne ou lama,
De pus ou chaga, de sorriso ou lágrima...
O instrumento e o palco
Somos nós
E o pensamento da obra nós julgamos
O nosso pensamento.
Mas ele,
Só ele sabe de cor o seu papel.

...Os ramos
Duma árvore partida
Parecem perguntar ao vento:
Aonde vamos?
Aonde foi a nossa vida?!

Pergunto ao pensamento: aonde vou?
Responde, idealizando um novo plano

Topográfico: fica a tua espera;
Diz o silêncio: tu és só o teu inesperado!

Parecem perguntar: aonde vamos,
Aonde foi a nossa vida?!
. . .Os ramos
Da árvore partida!

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Poema VI

Arvores, folhas, águas, cousas de África,
Deveis ter uma alma, uma força,
Mas eu não vos emocionei ainda
E, — por conseguinte — sou-vos a fuga duma corça.

Deveis ter uma poesia qualquer,
Mas eu apenas sinto a poesia aqui
No homem branco, que a não sente,
Não afeiçoar a natureza a si.

E essa luta de carne força
Contra a força da natureza
É linda, tem beleza,
Mas eu vi há dias numa corça,
Numa pequena gazela,

Que me lambeu os dedos,
A coisa mais bela
Que eu senti — eu que procuro os bruxedos,
As confidências nupciais
Da vida e do meu ser!

Entendemo-nos pouco,
Terras de África — é que eu toco
Instrumento de corda em que os meus nervos são
A matéria e o som, a música e a pauta.
Eu, em suma, toco no coração
Que dou à vida, distraído e sem cauta

Prevenção, e vós requebrai-vos num batuque
Álacre, sim, mas dum som que é como um estuque
Denso e opaco, e a minha casa
Gosto-a mais asa,
Caiada de nuvens naturais, como o acaso indique.

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