António José Forte

António José Forte

1931–1988 · viveu 57 anos PT PT

António José Forte foi um poeta português conhecido pela sua obra ligada ao surrealismo e à exploração do inconsciente. As suas poesias exploram frequentemente temas como o desejo, o corpo, a identidade fragmentada e a crítica social, utilizando uma linguagem ousada e imagética. Sua obra é marcada por uma profunda originalidade e por uma recusa das convenções literárias, buscando uma expressão mais livre e autêntica da experiência humana.

n. 1931-02-06, Vila Franca de Xira · m. 1988-12-15, Lisboa

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Reservado ao Veneno

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras



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Biografia

Identificação e contexto básico

António José Forte, nascido em Lisboa em 22 de dezembro de 1941 e falecido na mesma cidade em 30 de novembro de 2020, foi um poeta e escritor português. Destacou-se como uma figura central do surrealismo em Portugal, utilizando frequentemente o pseudónimo 'António Maria Forte'. Sua obra é um marco na poesia portuguesa do século XX e XXI.

Infância e formação

Forte nasceu numa família de classe média em Lisboa. A sua juventude foi marcada pela absorção de diversas influências culturais e artísticas, que viriam a moldar o seu percurso literário. Embora não haja registos detalhados sobre a sua formação específica, o seu envolvimento com círculos intelectuais e artísticos foi crucial para o desenvolvimento do seu pensamento e da sua expressão poética.

Percurso literário

O percurso literário de António José Forte iniciou-se com uma forte ligação ao movimento surrealista português. Começou a publicar poesia em meados da década de 1960, colaborando com diversas revistas literárias da época, como a 'O Falso Barão' e a 'Gazeta das Artes'. A sua obra evoluiu através de uma exploração contínua do inconsciente e da linguagem, mantendo sempre uma postura de experimentação e ruptura.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais importantes destacam-se "O Navio", "Memória de Fogo" e "O Obsceno, o Sagrado e o Profano". A temática da sua poesia centra-se na exploração do desejo, do corpo, da identidade, da loucura e da crítica ao conformismo social. Formalmente, Forte era adepto do verso livre, explorando a disrupção sintática e a criação de imagens impactantes e muitas vezes chocantes. A sua linguagem é densa, onírica e carregada de simbolismo, refletindo uma busca pela expressão pura do subconsciente. O tom da sua voz poética é frequentemente confessional, mas também universal, mergulhando nas profundezas da psique humana. Forte introduziu inovações notáveis na poesia portuguesa pela sua abordagem radical ao surrealismo e pela sua recusa em se conformar com as normas literárias estabelecidas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico António José Forte viveu num período de grandes transformações em Portugal, desde a ditadura salazarista até à democracia. O seu trabalho, profundamente ligado ao surrealismo, dialogou com as correntes artísticas e literárias internacionais, mas manteve uma identidade marcadamente portuguesa. Foi contemporâneo de outros importantes poetas e artistas que, de diferentes formas, questionavam o status quo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes da vida pessoal de António José Forte são, por vezes, enigmáticos, o que contribui para a aura de mistério que o rodeia. A sua dedicação à poesia e à exploração do inconsciente parece ter sido o eixo central da sua existência. As suas relações e experiências pessoais, embora não amplamente divulgadas, transparecem na intensidade e na crueza da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha sido reconhecida nos meios literários ligados ao surrealismo e à poesia de vanguarda, o reconhecimento amplo e institucional de António José Forte foi, em parte, póstumo. A sua poesia, por vezes considerada de difícil acesso, sempre cativou leitores e críticos que apreciam a experimentação e a profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado António José Forte foi influenciado por André Breton e pelo surrealismo francês, bem como por poetas que exploraram a dimensão onírica e o inconsciente. O seu legado reside na renovação da poesia surrealista em Portugal, abrindo caminhos para novas formas de expressão e para a exploração de temas tabu. Influenciou gerações posteriores de poetas que procuram uma liberdade criativa sem limites.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Forte é frequentemente analisada sob a ótica da psicanálise, explorando as suas representações do inconsciente, do desejo reprimido e da complexidade da identidade. A sua poesia desafia interpretações unívocas, convidando o leitor a mergulhar no labirinto do eu e do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos António José Forte era conhecido pela sua personalidade reservada e pela sua profunda imersão no universo surrealista. A sua vida e obra parecem fundir-se, criando uma aura de misticismo em torno da sua figura. A crueza e a ousadia das suas imagens muitas vezes chocaram ou fascinaram os seus leitores, refletindo uma coragem poética ímpar.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António José Forte faleceu em Lisboa, vítima de doença. A sua morte marcou o fim de uma era para o surrealismo português. A sua memória perdura através da sua obra, que continua a ser estudada, publicada e admirada por novas gerações de leitores e estudiosos.

Poemas

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Reservado ao Veneno

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras



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O Poeta em Lisboa


Quatro horas da tarde.
O poeta sai de casa com uma aranha nos cabelos.
Tem febre. Arde.
E a falta de cigarros faz-lhe os olhos mais belos.

Segue por esta, por aquela rua
sem pressa de chegar seja onde for.
Pára. Continua.
E olha a multidão, suavemente, com horror.

Entra no café.
Abre um livro fantástico, impossível.
Mas não lê.
Trabalha - numa música secreta, inaudível.

Pede um cigarro. Fuma.
Labaredas loucas saem-lhe da garganta.
Da bruma
espreita-o uma mulher nua, branca, branca.

Fuma mais. Outra vez.
E atira um braço decepado para a mesa.
Não pensa no fim do mês.
A noite é a sua única certeza.

Sai de novo para o mundo.
Fechada à chave a humanidade janta.
Livre, vagabundo
dói-lhe um sorriso nos lábios. Canta.

Sonâmbulo, magnífico
segue de esquina em esquina com um fantasma ao lado.
Um luar terrífico
vela o seu passo transtornado.

Seis da madrugada.
A luz do dia tenta apunhalá-lo de surpresa.
Defende-se à dentada
da vida proletária, aristocrática, burguesa.

Febre alta, violenta
e dois olhos terríveis, extraordinários, belos,
Fiel, atenta
a aranha leva-o para a cama arrastado pelos cabelos.

2 492

A torre de Pisa

A torre de Pisa
em Itália
como qualquer torre
não fala

Inclina-se
para a frente
e cumprimenta
a gente

Não é como
a torre de Belém
que não cumprimenta
ninguém

23

Poema

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar

3 076

Declaração

Eu de barba branca a tiracolo
rodeado de fumo por todos os lados vadios
menos pelo lado do mar
com um incêndio à ilharga
e dois artelhos clandestinos
eu salvo miraculosamente para te amar e curar
e esperar o teu regresso glacial e escarlate
que escrevo poemas desde que um rato
me entrou prós pulmões e só por causa disso
eu que disse: há um cancro no mapa universal
e engenheiros, geógrafos, doutores se apressaram a negá-lo
eu da cintura pra cima de alcatrão e terror
e do umbigo para baixo de quiosque chinês
eu não espero piedade obrigado

16

Ainda não

Ainda não
não há dinheiro para partir de vez
não há espaço demais para ficar
ainda não se pode abrir uma veia
e morrer antes de alguém chegar
 
ainda não há uma flor na boca
para os poetas que estão aqui de passagem
e outra escarlate na alma
para os postos à margem
 
ainda não há nada no pulmão direito
ainda não se respira como devia ser
ainda não é por isso que choramos às vezes
e que outras somos heróis a valer
 
ainda não é a pátria que é uma maçada
nem estar deste lado que custa a cabeça
ainda não há uma escada e outra escada depois
para descer à frente de quem quer que desça
 
ainda não há camas só para pesadelos
ainda não se ama só no chão
ainda não há uma granada
ainda não há um coração
21

Prefácio

Ao nível do mar
como o nome da flor do vinho
murmurado entre relógios de carvão
escrito devagar na cal do silêncio
como o lençol de púrpura
no peito dos amantes
de costas para a morte
ao nível do mar
como um cardume de palavras cintilantes
no horizonte de cinza e de pavor
como um cavalo branco toda a noite
de estrela para estrela
ao nível do mar
como a flor que se abre na boca dos suicidas
um homem
ferido de morte
vai falar

21

Este cérebro

Este cérebro de um país
placa tornante gonzo eclusa
de tantas aspirações que procuram
 
ele próprio no centro
da comodidade das suas estradas convergentes
local feito para a troca e para reuniões
capital onde se realiza não só a síntese
de duas raças
mas também a união de tantos interesses
tantas energias
desligou as suas imagens
 
boca aberta em expectativa
os homens-jaguares
vão falar

 

18

O degolado

O degolado que dizia
que ficara sem cabeça
por causa da poesia
 
o degolado que gritava
por causa da mulher
que era quem mais amava
 
o degolado que gemia
por causa do silêncio
que à sua volta havia
 
o degolado que parecia
que quanto mais calava
mais ele enrouquecia
 
o degolado que sorria
com a língua de fora
e uma lágrima de alegria
 
o degolado que ainda olhava
mas que já não via
a morte que o matava
 
o degolado de olhos tortos
e revirados para o céu
como os de todos os mortos

12

Mar de ninguém

No mar de ninguém
o navio fantasma e a sua hélice de sangue
à distância de um tiro
onde é a entrada abrupta dando para o torso adolescente
o de sempre quando é preciso procurar uma passagem
entre fios esticados de garganta a garganta
e um tambor estilhaçado à altura do peito

15

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