Haroldo de Campos

Haroldo de Campos
Haroldo Eurico Browne de Campos foi um poeta e tradutor brasileiro. Haroldo fez seus estudos secundários no Colégio São Bento, onde aprendeu os primeiros idiomas estrangeiros, como latim, inglês, espanhol e francês.
Poesia Concreta Jabuti
Nasceu a 19 Agosto 1929 (São Paulo, Brasil)
Morreu em 16 Agosto 2003 (São Paulo, São Paulo, Brasil)
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Haroldo de Campos (São Paulo SP 1929) formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo em 1952, mesmo ano em que fundava, com Augusto de Campos e Décio Pignatari, o Grupo Noigandres, de poesia concretista. Em 1956 e 1957 participou do lançamento oficial da Poesia Concreta na I Exposição Nacional de Arte Concreta, no MAM/SP e no saguão do MEC/RJ. Em 1958, publicaria o Plano-Piloto Para Poesia Concreta, com Augusto de Campos e Décio Pignatari. Nos anos seguintes trabalhou como tradutor, crítico e teórico literário, além de Professor Titular do curso de pós-graduação em Comunicação e Semiótica da Literatura na PUC/SP. Em 1992 foi laureado com o Prêmio Jabuti de Personalidade Literária do Ano; em 1999 o Prêmio Jabuti de Poesia foi conferido para seu livro Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um (1998). Considerado o "mais barroco" dos concretistas, Haroldo de Campos tem sua obra poética intimamente ligada ao movimento. A crença em uma “crise no verso” o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos poemas em prosa.
Haroldo de Campos nasceu e morreu em São Paulo. Seu primeiro livro, oAuto do Possesso, foi publicado pelo círculo de poetas vinculado ao Grupo de 45, com o qual rompeu em 1951. Sua carreira poética foi intensamente marcada por sua participação, a partir de 1952, no grupo de pesquisa que geraria o movimento internacional da Poesia Concreta, com Augusto de Campos e Décio Pignatari no Brasil e Eugen Gomringer na Europa, em um momento intenso, também em outras partes do mundo, de retomada das estratégias das primeiras vanguardas do século XX, com um processo que Marjorie Perloff chamou de "retaguarda" em artigo recente, levando a novas consequências o nome de caráter militarista dado aos grupos de experimentação artística do início do século XX, grupos com ideologias e est-É-ticas muitas vezes conflitantes, ainda que no Brasil siga-se fazendo referência à(s) vanguarda(s) e modernismo(s) no singular. Ainda há outras consequências a serem intuídas desta noção deavant-garde, que nos levariam a tornar mais complexa nossa compreensão da dialética entre continuidade e ruptura que tanto marcou o trabalho artístico do século XX, em uma problemática que herdamos no século XXI.
 
 
 Como já discutimos aqui, a década de 50 foi um momento em que diversos poetas, em conjunto, dedicaram-se a resgatar as pesquisas dos grupos do início do século XX. Assim, enquanto em São Paulo o grupo em torno da revistaNoigandres dedicava-se à retomada da vertente construtivista das vanguardas, muito forte entre os futuristas, por exemplo, em cidades distintas do globo poetas retornavam a outraspreocupações plurais com a materialidade da linguagem, expressas especialmente entre os dadaístas, como no caso do Grupo de Viena (H.C. Artmann, Gerhard Rühm, Konrad Bayer, etc) na capital austríaca, os Lettristes em Paris (Isidore Isou, François Dufrêne, Gil J. Wolman, Guy Debord, etc), os poetas do pós-guerra em Bucareste (Ghérasim Luca, Gellu Naum, Paul Paun), o grupoDau-al-Set em Barcelona (Joan Brossa, Arnau Puig, Juan Eduardo Cirlot, entre outros), a poesia sintático-combinatória de Herberto Helder e Paul Celan (compreendida no Brasil, em minha opinião, de forma muitas vezes equivocada pelos praticantes de certa elefantíase semântica), os poetas doBritish Poetry Revival, em Londres (Bob Cobbing, Tom Raworth, Ian Hamilton Finlay, Edwin Morgan e Roy Fisher) e, nos Estados Unidos, entre Nova Iorque e San Francisco, passando pela minúscula comunidade que abrigou a lendária Black Mountain College, os diversos grupos que receberam os mais variados e intercambiáveis nomes, como aNew York School of Poets (Frank O´Hara, John Ashbery, Barbara Guest, James Schuyler, etc), os poetas de diferentes partes do país que passaram pela faculdade e revista conhecida comoBlack Mountain (Charles Olson, Robert Creeley, Robert Duncan, John Cage), osBeats (Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Diane di Prima, Gregory Corso), aSan Francisco Renaissance (Gary Snyder, Michael MacClure, Lawrence Ferlinghetti, Lew Welch, Philip Whalen) – muitas vezes considerada como Ala da Costa Oeste dosBeats, e o grupo em torno de Jack Spicer, com sua poética proto-L=A=N=G=U=A=G=E, hoje chamado deSpicer Circle (o outro poeta mais conhecido do grupo é Robin Blaser).
 
 
 Os grupos americanos foram muito mais fluidos que o paulistano ou o parisiense, famosos por suas dissidências. O´Hara já foi incluído em antologias dosBeats; Duncan circulou livremente pelos grupos da Black Mountain e de San Francisco; os homossexuais John Cage e Jack Spicer foram forças individuais de influência incalculável;  Snyder, MacClure, Whalen formaram a alaZen-Beat, e geraram nos nova-iorquinos o interesse pelo budismo. O grupo parisiense viria a dividir-se em inúmeros grupos adversários e o paulistano geraria a dissidência carioca dos neoconcretos, com Ferreira Gullar, Hélio Oiticica e Lygia Clark à frente.
 
 
 Não queremos perder-nos em polêmicas aqui. Nosso interesse é divulgar a parte da obra de Haroldo de Campos que nos parece mais viva e necessária para o momento atual, pois esta é nossa noção de sincronia: aquilo que poetas jovens fazem há muito tempo, "agoridade" não é novidade, nem desculpa para fingir que se pode elidir ou escapar da História em nossa cultura judaico-cristã, ou que os poetas tenham qualquer independência temporal.
 
 
 Para isso, mostramos algumas páginas e oralizações de Haroldo de Campos para textos dasGaláxias, livro de ensaios que o poeta paulistano começou a escrever em 1963, quando abandona de certa forma a poesia concretista e se volta a uma noção bastante pluralista e complexa de materialidade da linguagem. Mostramos também, por fim, um manuscrito de Haroldo de Campos para um de seus mais belos poemas concretistas, o do “marsupialamor”.
 
 
 Torna-se uma experiência saudável ouvir Haroldo de Campos ob(literar) em saliva e corp(oralização) o visual e textual marcantes dos textos dasGaláxias. Como Severo Sarduy escreveu uma autobiografia a partir de suas cicatrizes, buscamos nesta postagem  reencontrarmo-nos com a obra do poeta paulistano a partir dos traços poéticos CORPORAIS que ele nos deixou, em sua voz gravada nasGaláxias, que consideramos uma de suas obras mais vivas e necessárias para a poesia contemporânea, trabalho de Haroldo de Campos que Marjorie Perloff teve o discernimento de assinalar como precursor e o de maior influência sobre os poetas jovens em atividade hoje, assim como os traços de sua mão no texto do “marsupialamor”.
 
 
 Assim, nosso encontro com Haroldo de Campos se faz aqui pelo viés mais “concreto” que poderíamos buscar em seu trabalho: sua corporalidade, como no fragmento que se inicia: “na coroa de arestas das manchetes quinas de letras feito espinhos”, com sua descrição da imagem do tríptico de Marilyn Monroe, do pintor James Gill, de 1962, mencionado no texto:
 
 
 
 “aqui o livro pára câmbio
 tríptico agora a cena aclara marilyn marilinda amarílis de marilyn
 
 em vermelho e preto e louro e rodomel e crinipúbis agora abrebraços
 
 morcegopomba de alas vampíreas numa coifa de ouro tão louro que o
 
 v dos seios enforca uma taça de escuro e meias nylon”
 
 
 
 
 
 
 
(James Gill, 1962)
 
 
 
 
 .
 
 
 
 
 Caso Paul Zumthor esteja certo, ao afirmar que um texto transforma-se ao passar de um registro (oral/escrito) para outro, apresentamos abaixo os fragmentos do texto “como quem escreve um livro como quem faz uma viagem como quem” e o famoso “circuladô de fulô ao deus ao demo dará que deus te guie porque eu não”, com reproduções de suas páginas no volumeGaláxias, intimando o leitor, porém, a não hierarquizar as duas manifestações poéticas de Haroldo de Campos, entre sua performance oral e sua performance escrita.
 
 
 
 
 
 
 (como quem escreve)