Manoel de Barros

Manoel de Barros
Manoel Wenceslau Leite de Barros é um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas ...
Jabuti
Nasceu a 19 Dezembro 1916 (Cuiabá, Mato Grosso, Brasil)
Morreu em 13 Novembro 2014 (Campo Grande)
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Manoel de Barros (Cuiabá MT, 1916) publicou seu primeiro livro de poesia, Poemas Concebidos Sem Pecado, em 1937. Formou-se bacharel em Direito no Rio de Janeiro RJ, em 1941. Nas décadas seguintes publicou Face Imóvel (1942), Poesias (1946), Compêndio para Uso dos Pássaros (1961), Gramática Expositiva do Chão (1969), Matéria de Poesia (1974), O Guardador de Águas (1989), Retrato do Artista Quando Coisa (1998), O Fazedor de Amanhecer (2001), entre outros. A partir de 1960 passou trabalhar como fazendeiro e criador de gado em Campo Grande MS. Ao longo das décadas de 1980 e 1990 veio sua consagração como poeta. Em 1990 recebeu o Grande Prêmio da Crítica/Literatura, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Jabuti de Poesia, pelo livro O Guardador de Águas, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Manoel de Barros é um dos principais poetas contemporâneos do Brasil. Em sua obra, segundo a crítica Berta Waldman, "a eleição da pobreza, dos objetos que não têm valor de troca, dos homens desligados da produção (loucos, andarilhos, vagabundos, idiotas de estrada), formam um conjunto residual que é a sobra da sociedade capitalista; o que ela põe de lado, o poeta incorpora, trocando os sinais".
Manoel de Barros é um poeta sofisticado e complexo, dono de uma obra que, bem lida, mostra-se muito distante do rótulo intuitivista de  “Jeca Tatu do Pantanal” que lhe tentaram impingir. E é só por ser assim, sofisticado e complexo, que ele consegue alcançar um grau tão elevado de limpeza e simplicidade em seus versos, coisa não raras vezes confundida com a singeleza do vulgarmente fácil.
 
A despeito do sucesso que o tornaria nacionalmente conhecido somente após os 60 anos, ele próprio recusava as classificações redutoras que restringiam a universalidade de sua dicção: “eu não sou poeta ecológico, nem sou poeta do Pantanal”, dizia sem disfarçar seu incômodo com o rebaixamento folclórico. Leitor precoce de Antônio Vieira, Flaubert, Paul Valéry, Rimbaud e Wittgenstein, frequentador da Bienal de São Paulo e de museus em Nova York, admirador declarado de Monet, Van Gogh e Picasso, Manoel de Barros erigiu uma obra de fatura nitidamente cosmopolita. Entretanto, certa crítica literária rapidamente cuidou de apagar esse traço em prol de uma assimilação de sua voz a um topos naïf e regionalista, um movimento até razoavelmente compreensível pelas dificuldades em se lidar com diversos elementos singulares de sua poética. Enumero aqui rapidamente alguns que penso merecer destaque e pesquisa aprofundada: (1) a busca de uma expressão adâmica tanto no primitivismo rupestre como na peculiaridade gerativa da aquisição das competências linguísticas pela gramática infantil (Chomsky); (2) a deliberada injeção de sentidos antropomórficos na natureza, sobretudo em paisagens e biomas nos quais a força da água e da vegetação estimula uma melancolia diante do apequenamento da obra humana prestes a ser engolida pelo ambiente (a tapera devorada pelo mato e pelas cheias); (3) o silêncio e o isolamento no deserto social formado pela rarefação demográfica do mundo rural brasileiro da primeira metade do século XX (o ermo como lugar de decomposição e abandono: o cisco, o lixo, a lata enferrujada e a conversa com as coisas e os bichos); (4) o caráter extraordinariamente lúdico da arenga dos loucos do campo, cuja pureza ingênua alcança, inclusive, a comunicação com os pássaros (Bernardo da Mata, o bocó que é quase árvore); (5) a instigante paleta de metáforas, metonímias e analogias que os seus recursos de zoomorfização acionam (suas celebérrimas referências à lesma, à rã, ao cágado e aos pronomes do tuiuiú [tu/you/you], entre outras); (6) um acordo sempre tenso e muitíssimo negociado entre os registros da tradição erudita, as falas indígenas e as gambiarras de ouro do povo-inventalínguas (sem fugir dos inevitáveis paralelos com Guimarães Rosa, destaco a frequência de gauchismos no seu léxico, seguramente oriundos da migração sul-rio-grandense para o Mato Grosso, que remonta ao século XVIII); e ainda (7) uma perspectiva finamente irônica e analítica em relação às estruturas predicativas e sintáticas do idioma, a sua incessante busca daquele efeito de “desencontro da palavra com a ideia” (o “alicate cremoso” e a censura ao pragmatismo promovida por seus “inutensílios”).
 
Em pleno labirinto de espelhos zooantropomórficos, a perplexidade instaurada por esse desencontro entre a palavra e a ideia é conquistada graças a uma cautelosa (des)articulação entre termos e coisas. No livrinho de poemas que publiquei em 2005,  deixei no seu prefácio a seguinte pista sobre isso que talvez seja o grande estratagema da poesia manoelina: “nessa época tão cheia de amores pela ciência, nem seria de todo estranho se alguma teoria neurológica procurasse explicar a poesia de Manoel de Barros segundo os impulsos de uma machine à émouvoir regulada pelas incongruências que provocam o pico N400 em nosso cérebro.”.
 
Explicação: domínio da ciência com o qual estão comprometidas tanto a crítica literária como a linguística. Explicação: ato que procura tornar inteligível o efeito estético de um poema, procedimento este regularmente fracassado diante de obras extraordinárias.
 
Mas como analisar e fruir não são coisas que se excluem, a poesia de Manoel de Barros segue à espera de mais leitores e de novas abordagens que se ponham à altura dessa sua instigante originalidade, forjada por um amálgama raro entre linguagem, espacialidade e emoções.