Lista de Poemas

Ninguém nos diz como

Ninguém nos diz como
voltar a cara contra a parede
e
morrer simplesmente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que caminhou
em direção à sua agonia
como quem vai
a uma impostergável cerimônia
batendo orelhas
ao compasso
do cadencioso
fôlego de sua tromba
só no reino animal
há exemplares de tal
comportamento
mudar o passo
aproximar-se
e cheirar o já vivido
e dar as costas
simplesmente
dar as costas
tradução de Angélica Freitas
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Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo

Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo
da terra rumo ao inferno ou à estrela de sucata que te
leva diante de outro muro cheio de espelhos e de gestos,
endiabrados gestos sem dono e tu atrás deles, só, feliz
proprietário de uma boca escarlate que muge.
Cola o ouvido à terra que insiste em se levantar e respirar.
Acaricia-a como se fosse carne, pele humana capaz de
te comover, capaz de te rejeitar.
Aceita a espera que nem sempre há lugar no caos.
Aceita a porta fechada, o muro cada vez mais alto, o
pulinho, a imagem que te mostra a língua.
Não subas sobre os ombros dos fantasmas que é
ridículo cair de bunda with music in your soul.
tradução de Angélica Freitas
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Monsieur Monod não sabe cantar

meu querido
me lembro de ti como a melhor canção
essa apoteose de galos e estrelas que já não és
que já não sou que já não seremos
e contudo sabemos muito bem ambos
que falo pela boca pintada do silêncio
com agonia de mosca
no final do verão
e por todas as portas mal fechadas
conjurando ou chamando esse vento aleivoso da memória
esse disco arranhado antes de usar
tingido segundo o humor do tempo
e suas velhas doenças
ou de vermelho
ou de preto
como um rei em desgraça na frente do espelho
na véspera
e amanhã e depois de amanhã e sempre

noite que te precipitas
(assim deveria dizer a canção)
carregada de presságios
cadela insaciável (un peu fort)
mãe esplêndida (plus doux)
parideira e descalça sempre
para não ser escutada pelo néscio que em ti crê
para melhor esmagar o coração
do desvelado
que se atreve a ouvir o passo arrastado
da vida
da morte
uma casca de mosquito uma torrente de plumas
uma tempestade num copo de vinho
um tango

a ordem altera o produto
erro do maquinista
podre técnica continuar vivendo tua história
ao contrário como no cinema
um sonho grosso
e misterioso que se adelgaça
the end is the beginning
uma luzinha vacilante como a esperança
cor de clara de ovo
com cheiro de peixe e más intenções
obscura boca-de-lobo que te leva
de Cluny ao Parque Salazar
esteira rolante tão veloz e tão negra
que já não sabes
se és ou te fazes de vivo
ou de morto
e sim uma flor de ferro
como um último bocado torto e sujo e lento
para melhor devorar-te

meu querido
adoro tudo o que não é meu
tu por exemplo
com tua pele de asno sobre a alma
e essas asas de cera que te dei
e que jamais te atreveste a usar
não sabes como me arrependo de minhas virtudes
já não sei o que fazer com a minha coleção de chaves falsas
e mentiras
com minha indecência de menino que deve terminar este conto
agora já é tarde
porque a recordação como as canções
a pior a que quiseres a única
não resiste a outra página em branco
e não tem sentido que eu esteja aqui
destruindo
o que não existe

meu querido
apesar disso
tudo continua igual
o arrepio filosófico depois do chuveiro
o café frio o cigarro amargo O Lodo Verde
no Montecarlo
continua livre para todos os públicos a vida perdurável
intacta a estupidez das nuvens
intacta a obscenidade dos gerânios
intacta a vergonha do alho
os pardaizinhos cagando divinamente em pleno céu
de abril
Mandrake criando coelhos em algum círculo
do inferno
e sempre a patinha de caranguejo presa
na trapaça do ser
ou do não ser
ou de não quero isto mas aquilo
tu sabes
essas coisas que nos acontecem
e que devem ser esquecidas para que existam
por exemplo a mão com asas
e sem mão
a história do canguru - aquela da bolsa ou a vida -
ou a do capitão preso na garrafa
para sempre vazia
e o ventre vazio mas com asas
e sem ventre
tu sabes
a paixão a obsessão
a poesia a prosa
o sexo o êxito
ou vice-versa
o vazio congênito
o ovinho pintado
entre milhões e milhões de ovinhos pintados
tu e eu
you and me
toi and moi
tea for two na imensidão do silêncio
no mar intemporal
no horizonte da história
porque ácido ribonucleico somos
mas ácido ribonucleico apaixonado sempre
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Identificação e contexto básico

Blanca Varela foi uma das vozes poéticas mais importantes do Peru e da América Latina no século XX e início do XXI. Nasceu no Peru e escrevia em espanhol. Reconhecida pela sua obra introspectiva e pela exploração da linguagem poética.

Infância e formação

Blanca Varela teve uma infância marcada por uma sensibilidade apurada para a arte e a literatura. Formou-se em Letras na Universidade Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, onde teve contacto com importantes figuras intelectuais e literárias da época. A sua formação académica e a sua vivência em ambientes culturais diversos foram fundamentais para o desenvolvimento do seu pensamento e da sua expressão poética.

Percurso literário

O seu percurso literário começou cedo, com a publicação de poemas em revistas literárias. A sua obra evoluiu de uma fase inicial mais influenciada pelas vanguardas para um estilo próprio, marcado pela reflexão filosófica e pela busca da palavra exata. Publicou diversos livros de poesia que lhe valeram reconhecimento nacional e internacional.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Blanca Varela é extensa e complexa, explorando temas como a identidade, o ser, o tempo, a morte, a solidão, a memória e a relação do indivíduo com o cosmos. O seu estilo é caracterizado pela concisão, pela densidade imagética e pela procura de uma linguagem precisa e ao mesmo tempo evocativa. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com um rigor formal implícito na escolha das palavras e na estrutura dos poemas. A sua voz poética é, ao mesmo tempo, pessoal e universal, capaz de tocar em angústias e reflexões profundas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Blanca Varela viveu e produziu em um contexto de grandes transformações no Peru e na América Latina. A sua obra dialoga com a tradição literária hispano-americana, mas também com as correntes filosóficas e existenciais do século XX. Foi contemporânea de importantes poetas e intelectuais, com os quais partilhou debates e influências.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A sua vida pessoal, embora discreta, foi marcada pela sua dedicação à poesia e pelo seu envolvimento intelectual. As suas experiências e reflexões íntimas foram a matéria-prima para a sua poesia, que, embora não confessional no sentido estrito, é profundamente enraizada na sua subjetividade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Blanca Varela recebeu inúmeros prémios e distinções ao longo da sua carreira, consolidando-se como uma das vozes poéticas mais importantes do Peru. A sua obra tem sido amplamente estudada e aclamada pela crítica, tanto no seu país como internacionalmente.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por poetas como César Vallejo e a tradição da poesia universal, Blanca Varela, por sua vez, influenciou gerações de poetas com a sua originalidade e a profundidade da sua visão. O seu legado reside na capacidade de ter renovado a poesia em língua espanhola, explorando os limites da linguagem e da expressão humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Varela é frequentemente objeto de análise crítica que explora as suas camadas filosóficas, a sua relação com a metafísica e a sua exploração da condição humana face ao mistério da existência. A sua poesia desafia o leitor a confrontar-se com questões fundamentais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Blanca Varela era conhecida pela sua discrição e pela sua dedicação quase monástica à poesia. A sua casa era um refúgio onde se dedicava à leitura, à escrita e à contemplação, elementos essenciais do seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Blanca Varela faleceu, deixando um legado poético imenso. A sua obra continua a ser publicada, estudada e admirada, assegurando a sua memória e a sua relevância no panorama literário contemporâneo.