Cesare Pavese

Cesare Pavese

1908–1950 · viveu 41 anos IT IT

Cesare Pavese foi um proeminente escritor, poeta, tradutor e crítico literário italiano. A sua obra, profundamente marcada pela experiência da guerra, pela solidão e pela busca de identidade, explora temas como a infância perdida, o regresso à terra natal e a dificuldade de comunicação. Reconhecido pelo seu estilo direto e pela sua visão melancólica da existência, Pavese deixou um legado literário significativo, influenciando gerações posteriores de escritores italianos. A sua vida, tragicamente interrompida, reflete a intensidade e as contradições da sua profunda sensibilidade artística.

n. 1908-09-09, Santo Stefano Belbo · m. 1950-08-27, Turim

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queria poder sufocar-me

Queria poder sufocar-me
no aperto dos teus braços,
no amor ardente do teu corpo,
sob o teu vulto, sob teus membros pungentes,
no delíquio dos teus olhos profundos,
perdidos no meu amor
– esta amargura árida
que me atormenta.

Queimar confuso em ti, desesperadamente,
esta insaciabilidade da minha alma,
já cansada de todas as coisas
antes mesmo de conhecê-las,
e agora tão exasperada
do mutismo do mundo,
implacável a todos os meus sonhos,
e da sua tranquila atrocidade
que me pesa de modo terrível
e descuidado,
que já nem me concede mais, ao menos,
o pacato tédio,
mas me oprime tormentosamente
e me golpeia, atroz,
sem que me permita gritar,
perturbando-me o sangue,
sufocando-me, atroz,
em um silêncio que é um espasmo,
em um silêncio fremente.

Na embriaguez desesperada
do amor de todo o teu corpo
e da tua alma perdida,
queria desassossegar e queimar a minha alma,
dissipar esse horror
que me rasga os gritos
e os sufocam na minha garganta;
queria queimá-lo, aniquilá-lo em um instante,
e a ti abraçar-me
sem mais restrições;
cegamente, febrilmente,
debatendo-me d'amores.
E depois morrer, morrer,
contigo.

O dia sombrio
em que, solitário, hei
de morrer (e virá, fatalmente),
este dia chorarei,
pensando que poderia
morrer assim, na embriaguez
de uma paixão ardente.
Mas que por piedade do amor,
jamais o desejei.
Por piedade de teu pobre amor,
terei escolhido, alma minha,
o caminho da mais perene dor.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Cesare Pavese foi um poeta, romancista, tradutor e crítico literário italiano. Nasceu em Santo Stefano Belbo, na província de Cuneo, em 15 de setembro de 1908, e faleceu em Turim, em 27 de agosto de 1950. Foi uma figura central na literatura italiana do século XX, associado ao neorrealismo, embora a sua obra transcenda rótulos fáceis.

Infância e formação

Pavese passou a infância e adolescência em Santo Stefano Belbo, uma experiência que marcaria profundamente a sua obra, sendo a terra natal um lugar de memórias e de conflitos. Estudou no Liceu Classico "Vittorio Alfieri" em Turim e licenciou-se em Filologia Clássica na Universidade de Turim em 1930, com uma tese sobre Walt Whitman. A sua formação clássica e o seu fascínio pela literatura anglo-saxónica, especialmente pela literatura americana, foram determinantes.

Percurso literário

Pavese iniciou a sua carreira como tradutor, introduzindo em Itália autores como Sherwood Anderson, Gertrude Stein, William Faulkner e John Steinbeck. A sua primeira obra publicada foi a coleção de poemas "Lavorare stanca" (1936). A sua obra romanesca ganhou destaque com "Paesi tuoi" (1941), "La spiaggia" (1942), e o seu romance mais célebre, "La luna e i falò" (1950), publicado pouco antes da sua morte. Foi também um ativo crítico literário e ensaísta.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Pavese é marcada por um tom confessional e uma profunda melancolia. Temas recorrentes incluem a infância, a busca de identidade, o regresso à terra, a solidão, o amor não correspondido, a guerra e o fascismo, e a relação ambígua com o mundo rural. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, por vezes áspera, mas carregada de lirismo e simbolismo, com um uso marcante de imagens e metáforas retiradas do mundo natural e do quotidiano.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Pavese viveu e escreveu num período turbulento da história italiana, marcado pelo fascismo, pela Segunda Guerra Mundial e pela subsequente reconstrução. A sua obra reflete as angústias e as contradições dessa época. Foi um intelectual interventista, inicialmente próximo do Partido Comunista Italiano, o que lhe valeu perseguições e exílio durante o regime fascista. Foi um dos fundadores da revista "Cultura" e colaborou intensamente com a casa editorial Einaudi.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Pavese foi marcada por relações amorosas conturbadas e pela solidão. A sua relação com a atriz Constance Dowling inspirou "La bella estate" e "La luna e i falò". Sofreu de depressão e a sua vida pessoal foi frequentemente ligada às suas frustrações e desilusões, que transparecem na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Pavese obteve algum reconhecimento, especialmente como tradutor e crítico. O Prémio Strega em 1950, pelo seu romance "La bella estate", foi um dos poucos prémios de relevo que recebeu. Após a sua morte, a sua obra ganhou um estatuto de culto e é amplamente reconhecida como um marco na literatura italiana, sendo estudada e traduzida internacionalmente.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Pavese foi influenciado por Walt Whitman, Herman Melville, Sherwood Anderson, Gertrude Stein e outros escritores americanos. O seu legado reside na sua capacidade de retratar a complexidade da condição humana, a melancolia da existência e a relação profunda entre o indivíduo e a sua terra e história. Influenciou gerações de escritores italianos, como Italo Calvino e Pier Paolo Pasolini.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Pavese é frequentemente analisada sob a ótica da psicanálise, do existencialismo e do neorrealismo. As suas narrativas exploram a dificuldade de comunicação, a busca de autenticidade e a relação entre o mito e a realidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Pavese era conhecido pelo seu temperamento introspectivo e por uma certa reclusão. A sua paixão pela cultura americana era profunda, chegando a aprender inglês para ler os originais. A sua morte por suicídio, com uma sobredosagem de barbitúricos, chocou o mundo literário.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Cesare Pavese cometeu suicídio em Turim em 1950, deixando uma nota que dizia: "Perdono a tutti e a tutti chiedo perdono. Va bene? Non saddate a impensierirvi troppo. Un saluto e il sole gira.". A sua morte prematura consolidou a sua imagem de mártir da literatura e aumentou o interesse pela sua obra. Publicações póstumas continuaram a expandir o seu legado literário.

Poemas

6

queria poder sufocar-me

Queria poder sufocar-me
no aperto dos teus braços,
no amor ardente do teu corpo,
sob o teu vulto, sob teus membros pungentes,
no delíquio dos teus olhos profundos,
perdidos no meu amor
– esta amargura árida
que me atormenta.

Queimar confuso em ti, desesperadamente,
esta insaciabilidade da minha alma,
já cansada de todas as coisas
antes mesmo de conhecê-las,
e agora tão exasperada
do mutismo do mundo,
implacável a todos os meus sonhos,
e da sua tranquila atrocidade
que me pesa de modo terrível
e descuidado,
que já nem me concede mais, ao menos,
o pacato tédio,
mas me oprime tormentosamente
e me golpeia, atroz,
sem que me permita gritar,
perturbando-me o sangue,
sufocando-me, atroz,
em um silêncio que é um espasmo,
em um silêncio fremente.

Na embriaguez desesperada
do amor de todo o teu corpo
e da tua alma perdida,
queria desassossegar e queimar a minha alma,
dissipar esse horror
que me rasga os gritos
e os sufocam na minha garganta;
queria queimá-lo, aniquilá-lo em um instante,
e a ti abraçar-me
sem mais restrições;
cegamente, febrilmente,
debatendo-me d'amores.
E depois morrer, morrer,
contigo.

O dia sombrio
em que, solitário, hei
de morrer (e virá, fatalmente),
este dia chorarei,
pensando que poderia
morrer assim, na embriaguez
de uma paixão ardente.
Mas que por piedade do amor,
jamais o desejei.
Por piedade de teu pobre amor,
terei escolhido, alma minha,
o caminho da mais perene dor.
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e então nós, covardes

E então nós, covardes
que amávamos a noite
sussurrante, as casas,
os cursos dos rios,
as luzes rubras e sujas
de tais lugares, a dor
adocicada e quieta -
nós rasgamos as mãos
da viva corrente
e calamo-nos, mas nossos corações
estremeceram-nos com sangue,
e não mais houve doçura,
e não mais abandonamo-nos
ao curso dos rios -
não mais servos, soubemos
estar sozinhos e vivos.
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Tens sangue, tens fôlego

Tens sangue, tens fôlego.
Você é feita de carne,
e cabelos e olhares,
mesmo você. A terra e as plantas,
o céu de março e a luz
vibram, e a ti se assemelham -
o teu riso e o teu passo
como águas sussurram -
A tua ruga entre os olhos,
como nuvens recolhidas -
E o teu suave corpo,
como um gramado ao sol.

Tens sangue, tens fôlego.
Você vive sobre esta terra.
Conheces os sabores,
as estações, os despertares;
brincaste ao sol,
falaste conosco.
Água cristalina, desabrochar
da primavera, terra,
germinante silêncio,
brincaste, quando menina,
sob um céu diverso,
e tens nos olhos o silêncio
como uma nuvem, que flui
como um peixe das profundezas.
Ora ris e sussurras
sobre este silêncio.
Doce fruto que vives
sob o céu límpido,
que respira e vive
esta nossa estação,
em teu silêncio fechado
está a tua força. Como
uma erva viva no ar,
você estremece e ri,
mas você, você é a terra.
Você é raiz feroz.
Você é a terra que aguarda.
805

A Morte Virá e Terá os Teus Olhos

Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.

Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.

(tradução de Jorge de Sena)
1 659

TERRA RUBRA TERRA PRETA

Terra rubra terra preta,
você veio do mar,
do verde ressequido,
onde há palavras
antigas e fadiga sanguínea
e gerânios dentre as pedras,
você não sabe o quanto trazes
de mar, de palavras e de fadiga;
você, rica como uma recordação,
como o campo árido,
você, palavra dura e docíssima,
antiga pelo sangue
reunido nos olhos;
jovem, como um fruto
que é memória e estação,
sua respiração repousa
sob o céu de agosto,
e as olivas do teu olhar
adoçam o mar,
e você vive e revive
sem surpresa, certeira
como a terra, algoz
de estações e de sonhos
que ao luar se revelam
antiguíssimos, como
as mãos da tua mãe,
a tigela do braseiro.
805

você, vento de março

Você é a vida e a morte.
Você veio de março
por sobre a terra nua.
A tua emoção perdura.
Sangue da primavera,
anêmona ou nuvem,
o teu passo ligeiro
violou a terra.
A dor reabre  –
O teu passo ligeiro
a reabriu.

Era fria a terra
sob o céu pobre,
era imóvel e fechada
em um sonho entorpecido,
como alguém que não mais sofre.
Mesmo o gelo era doce
dentro do coração profundo.
Entre a vida e a morte,
a esperança se calava.

Agora, tem voz e sangue
cada coisa que vive.
Agora, a terra e o céu
são fortes emoções,
as esperanças os torcem,
e as manhãs os perturbam,
e o teu passo os submergem,
o teu hálito d'aurora.
Sangue da primavera,
toda a terra é trêmula
de um antigo tremor.

Você reabriu a dor.
Você é a vida e a morte.
Sobre a terra nua,
passaste ligeira,
como uma andorinha ou uma nuvem,
e a barragem do coração
despertou-se e rompeu-se
e se espelhou no céu
refletindo as coisas,
e as coisas, no céu e no coração,
sofrem e se contorcem
esperando por você.
É a manhã, é a aurora...
– sangue da primavera,
você violou a terra.

A esperança se torce,
te espera e te chama.
Você é a vida e a morte.
O teu passo é ligeiro.
927

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