Lista de Poemas

Pecado Original

Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.

Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.

Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.

E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...
4 998

Girassol

Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.

Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.

Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.

Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.

Amanheceu!

Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!
4 367

De boca a barlavento

I


Esta
a minha mão de milho & marulho
Este
o sól a gema E não
o esboroar do osso na bigorna
E embora
O deserto abocanhe a minha carne de homem
E caranguejos devorem
esta mão de semear
Há sempre
Pela artéria do meu sangue que g
o
t
e
j
a
De comarca em comarca
A árvore E o arbusto
Que arrastam
As vogais e os ditongos
para dentro das violas


II


Poeta! todo o poema:
geometria de sangue & fonema
Escuto Escuta

Um pilão fala
árvores de fruto
ao meio do dia
E tambores
erguem
na colina
Um coração de terra batida
E lon longe
Do marulho á viola fria
Reconheço o bemol
Da mão doméstica
Que solfeja

Mar & monção mar & matrimónio
Pão pedra palmo de terra
Pão & património
4 183

De boca concêntrica na rota do sol

Depois da hora zero
E da mensagem povo no tambor da ilha
Todas as coisas ficaram públicas na boca da república
As rochas gritaram árvores no peito das crianças
O sangue perto das raízes
E a seiva não longe do coração


E

Os homens que nasceram da estrela da manhã
Assim foram
Árvore & Tambor pela alvorada
Plantar no lábio da tua porta

África
mais uma espiga mais um livro mais uma roda

Que
Do coração da revolta
A Pátria que nasce
Toda a semente é fraternidade que sangra

*

A espingarda que atinge o topo da colina
De cavilha & coronha

partida partidas
E dobra a espinha

como enxada entre duas ilhas
E fuma vigilante

o seu cachimbo de paz
Não é um mutilado de guerra
É raiz & esfera no seu tempo & modo
De pouca semente
E muita luta.
2 516

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Corsino Fortes foi um proeminente poeta e professor de Cabo Verde. Escreveu primariamente em língua portuguesa. Sua obra se insere no contexto da literatura lusófona, com forte ligação à cultura cabo-verdiana.

Infância e formação

Nascido em Cabo Verde, sua formação foi influenciada pela rica herança cultural do arquipélago, que combina elementos africanos e portugueses. A educação formal e o autodidatismo moldaram seu percurso intelectual e literário.

Percurso literário

Corsino Fortes iniciou sua carreira literária como poeta, com uma obra que se desenvolveu ao longo do tempo, explorando temas de identidade, memória e a terra natal. Sua participação em antologias e a publicação de livros individuais marcaram sua trajetória, consolidando-o como uma voz importante na poesia cabo-verdiana.

Obra, estilo e características literárias

Entre suas obras mais significativas está "Pão de Fogo" (1989). Sua poesia é caracterizada por uma linguagem densa, imagética e profundamente lírica. Os temas centrais incluem a terra, a identidade cabo-verdiana, a memória, a condição humana e a universalidade dos sentimentos como a saudade. Fortes emprega frequentemente o verso livre, com uma musicalidade intrínseca, e explora recursos poéticos como a metáfora e a metonímia para criar imagens poderosas. Sua voz poética é ao mesmo tempo pessoal e coletiva, evocando a alma de seu povo e de sua terra.

Contexto cultural e histórico

Corsino Fortes viveu em um período crucial para Cabo Verde, acompanhando e refletindo as transformações sociais e políticas do país após a independência. Sua obra está intrinsecamente ligada à cultura cabo-verdiana, dialogando com as suas raízes históricas e a sua diáspora. Pertence a uma geração de escritores que buscaram afirmar a identidade e a voz literária de Cabo Verde.

Vida pessoal

Além de sua atividade literária, Corsino Fortes dedicou-se ao ensino, exercendo a profissão de professor. Sua vivência em Cabo Verde e o contato com suas tradições e paisagens foram fundamentais para sua inspiração poética.

Reconhecimento e receção

Corsino Fortes é amplamente reconhecido como um dos grandes poetas de Cabo Verde e da lusofonia. Sua obra tem sido objeto de estudo e admiração, consolidando seu lugar no cânone literário.

Influências e legado

Sua obra é influenciada pela tradição lírica da língua portuguesa e pelas especificidades da cultura cabo-verdiana. Fortes, por sua vez, deixou um legado importante para as gerações futuras de poetas cabo-verdianos, que encontram em sua poesia um espelho de suas próprias identidades e anseios.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Corsino Fortes é frequentemente analisada por sua capacidade de fundir o local com o universal, a memória individual com a memória coletiva. A terra e o mar de Cabo Verde são elementos recorrentes, repletos de simbolismo existencial.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

A sua profunda ligação com a terra natal é uma marca indelével em sua poesia, que consegue evocar a paisagem e a alma de Cabo Verde com uma força singular.

Morte e memória

Informações sobre as circunstâncias de sua morte e publicações póstumas não são amplamente detalhadas.