Lista de Poemas

Tircéia

Idílio

Já lá sinto rugir das aveleiras
As buliçosas folhas; já escuto
Um rumor leve de sutis pisadas;
Entre as confusas ramas já diviso
Mover-se um vulto; se virá Tircéia!
Por mais que afirmo a vista não distingo.
Ora lá se encobria agora a Lua.
Mas, oh quanto desejo vão me engana?
Uma ovelha é perdida da manada;
Lá vai balando pelo vale abaixo.
Mas eu deliro, ou sonho? Que pondero?
Oh! quanto da saudade o golpe fero
Nos sentidos me oprime, e me confunde!
Eu não julgava agora, que este vale
Era aquele feliz e deleitoso,
Onde a minha pastora sempre espero?
Que esta sonora fonte, que murmura
Entre cheirosas flores e verdura,
Coberta de sombrios arvoredos,
Era aquele lugar, aonde a calma
Costumamos passar da ardente sesta?
Quem viu já fantasia mais confusa?
Oh poderoso amor, quanto me enleias!
Oh quem pisara agora os venturosos
Campos, que os resplendores luminosos
Dos olhos de Tircéia estão gozando!
Quem vira agora o seu formoso rosto!
Oh quem sequer ao menos escutara
Os conhecidos ladros, os balidos
De suas ovelhinhas e rafeiro!
Oh duras penhas, oh sombrios vales,
Que meus saudosos ais estais ouvindo!

Se agora aqueles belos olhos vísseis,
Por quem meu coração tanto suspira!
Veríeis de repente a roxa aurora
Verter o fresco orvalho sobre as flores;
Raiar o louro sol nos horizontes;
E enriquecer de luz os altos montes.
Parece-me, Tircéia, que te vejo
Deixar na fonte o cântaro vazio,
E na mais alta penha dessa praia
Subida estar os olhos estendendo,
Cheios de pranto para as altas serras,
Onde tão larga ausência estou chorando.
Que saudosa dali estás chamando:
"Alcino, Alcino, quem de mim te aparta?"
Parece-me que te ouço a voz magoada
Já de ingrato acusar-me, de esquecido;
Que vais depois ao vale suspirando,
E que ali muitas vezes estás lendo
Os amorosos versos, que nos troncos
Eu escrevi na amarga despedida.
Oh pastora mais firme do que os montes!
Mais amante, mais terna do que as rolas!
Mais perfeita, mais cândida e formosa,
Que a pura neve, que a vermelha rosa!
Só por ti, eu o juro a estas penhas,
Só por ti há de amor dentro em meu peito
Cravar as setas, acender as chamas.
Só por ti meus suspiros serão dados;
Só por ti chorarão de amor meus olhos:
Meus olhos, que por esses tão formosos
Agora estão chorando tão saudosos.

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Identificação e contexto básico

Domingos dos Reis Quita foi um poeta português. Não há registos de pseudónimos ou heterónimos significativos utilizados por ele. Nasceu em 1728 e faleceu em 1770. Era de origem modesta, filho de um negociante de escravos. O seu contexto cultural de origem estava inserido no período do Iluminismo em Portugal. Era de nacionalidade portuguesa e escrevia em língua portuguesa. Viveu durante a segunda metade do século XVIII, um período de profundas transformações intelectuais e artísticas em Portugal.

Infância e formação

De origem humilde, Domingos dos Reis Quita teve uma formação marcada por dificuldades. Frequentou estudos preparatórios em Lisboa e chegou a iniciar o curso de Direito na Universidade de Coimbra, mas não o concluiu. A sua formação foi, em grande parte, autodidata, com uma forte inclinação para a literatura e a poesia. Foi influenciado pelas leituras de autores clássicos e contemporâneos, bem como pelos ideais do Arcadismo.

Percurso literário

O início da escrita de Quita está ligado à sua juventude e ao seu envolvimento nos círculos literários da época. O seu percurso literário foi relativamente curto, mas intenso. Publicou a sua obra mais importante, "Obras Poéticas", em 1761, que reuniu a maior parte da sua produção. Esteve ativo na vida literária de Lisboa, participando em saraus e tertúlias, e associou-se a outros poetas árcades.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra principal de Domingos dos Reis Quita é "Obras Poéticas" (1761). Os temas dominantes na sua poesia são o amor, a natureza, a vida pastoral, a efemeridade da existência e a busca pela tranquilidade. Quita é um representante exemplar do Arcadismo português, utilizando frequentemente a forma do soneto, mas também explorando outras formas de verso. O seu estilo caracteriza-se pela clareza, pela simplicidade e pela musicalidade. Os recursos poéticos que utiliza incluem metáforas bucólicas, epítetos e uma linguagem cuidada, mas acessível. O tom da sua voz poética é predominantemente lírico, sereno e elegíaco, com uma voz pessoal que exprime os seus sentimentos e reflexões sobre a vida. A sua linguagem é elegante e a sua imagética evoca paisagens campestres e idílicas. Introduziu na poesia portuguesa um certo lirismo mais íntimo e melancólico, em sintonia com os ideais árcades de retorno à natureza e à simplicidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Domingos dos Reis Quita viveu durante o Iluminismo português, um período marcado pelo pensamento racionalista e pela influência das ideias clássicas e renascentistas. Pertenceu à "Arcádia Lusitana", um dos principais grupos literários do Arcadismo em Portugal, e dialogou com outros poetas da sua geração, como Bocage, embora com um estilo mais sereno. A sua obra reflete a busca por um ideal de vida em harmonia com a natureza, em contraste com a artificialidade da vida cortesã.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Domingos dos Reis Quita foi marcada por dificuldades financeiras e por uma saúde fragilizada. A sua origem modesta e os seus problemas de saúde podem ter influenciado o seu temperamento melancólico e a sua busca por um refúgio na poesia e na natureza. Não são conhecidas relações afetivas ou familiares de grande destaque na sua biografia pública. A sua dedicação à poesia parece ter sido a sua principal atividade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha sido reconhecida no seu tempo como um exemplo de poesia árcade, o reconhecimento mais profundo e duradouro de Domingos dos Reis Quita veio posteriormente. É hoje considerado um dos poetas mais representativos do Arcadismo português, valorizado pela sua sensibilidade lírica e pela sua mestria formal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Domingos dos Reis Quita foi influenciado por poetas clássicos como Virgílio e Horácio, bem como por poetas renascentistas e pelos ideais do Arcadismo europeu. A sua obra, por sua vez, influenciou poetas posteriores que continuaram a explorar o lirismo e os temas pastorais. O seu legado reside na sua contribuição para a consolidação do Arcadismo em Portugal e na sua capacidade de infundir na poesia um tom de melancolia serena e um amor pela natureza.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Quita é frequentemente interpretada à luz dos ideais do Arcadismo, com ênfase na busca pela simplicidade, pela harmonia e pela beleza natural. A análise crítica foca-se na sua linguagem poética, na sua capacidade de evocar paisagens bucólicas e na sua expressão de sentimentos de amor e saudade. Os temas existenciais, como a efemeridade da vida, são também pontos centrais de interpretação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua vida é a sua associação ao negócio de escravos por parte do seu pai, contrastando com a serenidade e idealismo da sua poesia. A sua saúde frágil e os seus problemas financeiros são aspetos menos conhecidos, mas que moldaram o seu percurso. A sua poesia é muitas vezes vista como um refúgio imaginário das dificuldades da sua vida real.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Domingos dos Reis Quita faleceu em 1770, vítima de tuberculose. A sua morte prematura contribuiu para o seu estatuto de poeta de vida breve e intensa. Após a sua morte, a sua obra "Obras Poéticas" continuou a circular, consolidando a sua importância no cânone da poesia portuguesa.