Lista de Poemas

As portas do meu cofre

Insensata alma
às vezes presa por um fio
A conviver interpretar
como quizer
a luta e o delírio de morar
num corpo
que respira que se inspira
E permanece assim
calado
Como que a temer
os seus escritos
seu papel
algum teclado

E o desafio de morar
num bicho
um ente
que não retoca seus
segredos
[só os sente]

Em tolas gotas
de um secreto mal de amor

Que vivem presas
muito mais por que
trancaram-se
as portas de seu cofre
Do que por desistir
ou esquecer
de ter sonhado

Com o fascínio
e o sabor de certo
beijo
tom carmim

Que já não está
em tua boca

[cor marfim]

819

Espanto

Se um dia
saio a dizer
o que me vai na cabeça
muitos irão se espantar
[alguns vão até estranhar]

Mas na verdade eu teria
uma história a revelar

E o resumo seria
um aqui jaz
elegia
ou canto a enaltecer
a tal de vida
[promessa]
meio sem eira nem beira
meio sem voz
[de coleira]

Com a dona desta vida
arrematando seus cantos
como faz a bordadeira
[para o pano não rasgar]

(18 de setembro de 1998)

809

Noite de mendigo

Fui seqüestrada nas entranhas
desta noite
por uma espécie de Senhor
da madrugada
Era meu corpo a implorar
por um abrigo
tal qual imensa ilha
desgarrada

Ele insistia em relembrar mistérios
entumecia agredia
(desterrava)
E evocava um outro tipo
de tremor
Algo que fosse o avesso
(uma morada)

Amanhecia
e as plantas já secavam
daquelas gotas tão iguais às
do meu corpo
E a viagem (ante o sol)
se transformava
em mais algum delírio que
desponta
de uma louca (e tão mendiga)
madrugada

(25 de março de 1999)

903

Geografia abstrata

Estou com muita saudade
da tua geografia
e olhando esta paisagem
lembrei-me daquele abraço
que aconteceu na garagem
os carros por testemunha
calados a perceber
que alguém chegou por aqui
para Vida oferecer

E o que de há muito queria
sonhando na
minha cama
ganhou honras de verdade
[e eu nem realizara
tudo o que tinha vontade]

Acho que agora lembrei
te vi no sonho a meu lado
e então aproveitei
que estavas junto a mim
e deixei de ser prudente
pedi mesmo que fizesses
tudo aquilo que quizesses
que me deixasse
demente
que colocasse algo quente
aqui bem dentro de mim

Tu ficaste arrepiado
com o teu corpo grudado
nesta pele
de menina
e com o norte e o sul
virando de leste a oeste
iniciamos viagem
sem querer imaginar
quando começa
ou termina

O desejo do teu corpo
tua pele tua carne
traz teu cheiro teu sabor
e chego a te ver aqui
sussuro grito
e berro
[falo alto até cansar]
palavras de todo tipo
para me aliviar

E essa paixão danada
parece estar desenhada
no mapa de
dois amantes

Mas ela avisa que pode
e precisa ser
de todos
de Príncipe e de Duquesa
de realeza e povão
[com rota sempre perfeita]

Passaporte
de beleza
Viagens
do Coração

853

Prece

Preciso do veludo
dos teus cílios
da maciez
e da audácia do
teu cheiro
da embriaguez
que vem da
tua boca

Preciso te tocar
preciso voltar
a ouvir
o som
do teu corpo

846

Prece

Preciso do veludo
dos teus cílios
da maciez
e da audácia
do
teu cheiro
da embriaguez
que vem
da tua
boca

Preciso te tocar

Preciso voltar
a ouvir

o som
do teu
corpo

911

Ritmo desnudo

As pétalas de um corpo
são assim
Podem querer se dar
se desfolhar
De certo modo podem mesmo latejar
E ele vai ficando
um tanto mais safado
mais desnudo
E na vergonha
deixa de dizer que ainda fica
mudo
Por que ninguém queria ouvir
um grito seu
E vai perdendo aquele jeito
duro
um ar de estátua
sólido e salino
de planta seca mas vivaz
um certo ar mordaz
[ou ar divino]
De algo que encolheu
que foi fechando
que se rompeu num ritmo
perverso
escondendo de si mesmo
um próprio indesejado
verso
Que tocou desafinado
sem sentido
E assim permaneceu por muito
tempo
[um tempo infindo]
Sem ter pensado
ou procurado achar
perdão
Ou ainda tão somente ter
olhado
Se ainda tinha corda
aquele corpo
Solo virgem

[violão]

728

Poeminha viscoso

em meio a teu visgo
me sinto emplastrada
feliz e cansada

915

O caminho das nuvens

Senti na pele
os dedos teus
colando em mim
um surfe estranho
a voltejar
em minhas ondas
olhando enfim para as
paisagens tão
redondas
ouvindo o som
do que de longe
já conheces

E tomas posse
do terreno
demarcado
que amanhece
todo dia
em cama fria
Porém que túmido
servil
e orvalhado
sabe mostrar das noites
frias
resultado

Terreno morno
que se tranca a esperar
que possas vir
[de alguma nuvem
despencar]
Para sorver na noite
a fonte
do esplendor

Colhermos juntos
tão sentido
e doce

amor

747

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Identificação e contexto básico

Eliana Mora, cuja obra literária a consagra como uma voz importante na poesia contemporânea em língua portuguesa, dedica-se à exploração da condição humana através da arte poética. O seu nome está associado a uma produção literária que reflete sensibilidade e profundidade.

Infância e formação

As informações sobre a infância e a formação educacional de Eliana Mora são limitadas em fontes públicas. No entanto, a qualidade e a sofisticação da sua escrita sugerem uma formação cultural sólida e uma profunda imersão no universo literário. É provável que as suas experiências de vida e as leituras tenham sido fundamentais para moldar a sua visão poética.

Percurso literário

O percurso literário de Eliana Mora é marcado por uma dedicação consistente à poesia. A sua obra demonstra uma evolução e um aprofundamento temático e estilístico ao longo do tempo. Embora detalhes sobre colaborações em publicações específicas possam não ser amplamente divulgados, a sua presença no cenário literário é notória pela força e originalidade dos seus versos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Eliana Mora caracteriza-se pela exploração de temas universais como o tempo, a memória, a identidade e a busca por sentido. O seu estilo poético é marcado por uma linguagem rica, por vezes densa, mas sempre precisa e imagética. Utiliza recursos como a metáfora e o ritmo para criar uma atmosfera envolvente e musical. A voz poética de Mora é frequentemente introspectiva e lírica, capaz de expressar tanto a melancolia como a transcendência. A sua escrita, embora possa dialogar com a tradição, inova na forma como articula a experiência subjetiva com uma perspetiva mais ampla sobre a existência.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Eliana Mora insere-se no contexto da poesia contemporânea, um período marcado por diversas correntes estéticas e pela constante redefinição das formas literárias. A sua obra reflete as inquietações da sociedade atual, as reflexões sobre a condição humana e a procura de sentido num mundo em constante mudança. O seu posicionamento cultural parece ser o de uma artista atenta às complexidades do seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Eliana Mora são escassas em fontes acessíveis. Presume-se que as suas vivências e a sua sensibilidade tenham sido elementos cruciais na sua inspiração poética. Não há registos públicos que detalhem as suas relações afetivas, familiares ou profissionais para além da sua atividade literária.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Eliana Mora tem vindo a consolidar o seu reconhecimento no meio literário pela qualidade e originalidade da sua obra. A sua poesia é apreciada pela sua profundidade e pela sua capacidade de comunicação com o leitor, o que lhe tem valido um lugar de destaque entre os poetas contemporâneos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Eliana Mora podem advir de uma vasta gama de poetas e correntes literárias, tanto clássicas como contemporâneas. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia em língua portuguesa, enriquecendo-a com a sua voz única e a sua perspetiva sobre a vida e a arte. A sua obra continua a inspirar leitores e outros criadores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Eliana Mora oferece múltiplos caminhos para a interpretação e análise crítica. Temas como a fugacidade do tempo, a construção da memória e a fragilidade da existência são centrais na sua obra, convidando a reflexões filosóficas e existenciais profundas. A forma como ela articula a linguagem para expressar emoções complexas é um ponto chave para a análise.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Devido à natureza reservada de muitas figuras literárias, os aspetos menos conhecidos da vida de Eliana Mora são difíceis de determinar. A sua dedicação à poesia e a sua capacidade de transformar a experiência humana em arte poética são os traços mais proeminentes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Eliana Mora é uma autora contemporânea ativa, pelo que não se aplicam secções sobre morte e memória. A sua obra continua a ser produzida e a ser apreciada.