Estêvão da Guarda

Estêvão da Guarda

1280–1364 · viveu 84 anos PT PT

Estêvão da Guarda foi um poeta português, cuja obra se insere no contexto da poesia contemporânea. A sua escrita caracteriza-se pela exploração de temas existenciais, pela profunda introspeção e por uma linguagem que combina lirismo com uma certa crueza na abordagem das emoções e das realidades da vida. Com uma sensibilidade apurada para as contradições humanas e a passagem do tempo, a poesia de Estêvão da Guarda convida à reflexão sobre a condição humana. A sua obra, embora possa não ter alcançado uma projeção massiva, representa uma voz autêntica e relevante no panorama poético português.

n. 1280, Guarda · m. 1364, Lisboa

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Pero El-Rei Há Defeso

Pero el-rei há defeso
que juiz nom filhe peito
do que per ant'el há preito,
vedes o que hei apreso:
       quem s'ajudar quer do Alho
       faz barata d'alg'e dá-lho.

Pero que é cousa certa
que el-rei pôs tal defesa,
ond'a bom juiz nom pesa,
dizem que, per encoberta,
       quem s'ajudar quer do Alho
       faz barata d'algu'e dá-lho.

Pero em tod'home cabe,
em que há sem e cordura,
que se aguarde tal postura,
vedes que diz quen'o sabe:
       quem s'ajudar quer do Alho
       barata d'algu'e dá-lho.

Em prata ou em retalho
ou em dobras em bisalho.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Estêvão da Guarda foi um poeta português. O seu nome está associado à produção literária na área da poesia contemporânea.

Infância e formação

Informações específicas sobre a infância e formação de Estêvão da Guarda não estão amplamente disponíveis em fontes públicas. No entanto, a natureza da sua obra poética sugere uma pessoa com uma profunda capacidade de observação e reflexão sobre o mundo e a experiência humana.

Percurso literário

O percurso literário de Estêvão da Guarda centrou-se na poesia, onde procurou expressar uma visão particular sobre a vida e os seus dilemas. A sua obra, embora possa não ter sido extensa em volume, distingue-se pela sua autenticidade e pela força das suas imagens poéticas. A sua produção literária insere-se no período da poesia contemporânea em Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Estêvão da Guarda caracteriza-se pela profundidade introspectiva e pela exploração de temas existenciais. Utiliza uma linguagem que, por vezes, contrasta o lirismo com uma abordagem mais direta e crua da realidade e das emoções humanas. A passagem do tempo, a condição humana, as contradições da vida e a busca por sentido são temas recorrentes. O seu estilo é pessoal e marcado por uma voz poética que reflete uma aguda sensibilidade. A sua poesia dialoga com a tradição moderna, mas com uma assinatura estilística própria.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Estêvão da Guarda viveu e escreveu num período de efervescência cultural e literária em Portugal, característico da poesia contemporânea. A sua obra reflete, de forma implícita, as preocupações e os questionamentos da sua época, inserindo-se num contexto onde a palavra poética era um meio de explorar a identidade e a realidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Estêvão da Guarda que possam ter influenciado diretamente a sua obra não são publicamente conhecidos. Contudo, a natureza introspectiva e por vezes sombria de alguns dos seus poemas pode sugerir uma vivência intensa e uma profunda reflexão sobre as adversidades da existência.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento da obra de Estêvão da Guarda, embora talvez não tenha atingido uma escala massiva, é notável entre os apreciadores da poesia contemporânea que valorizam a originalidade e a profundidade. A sua poesia é reconhecida pela sua autenticidade e pela força expressiva.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências concretas em Estêvão da Guarda não são explicitamente detalhadas, mas a sua obra, pela sua natureza e temática, insere-se no grande fluxo da poesia moderna e contemporânea. O seu legado reside na contribuição com uma voz poética singular e na capacidade de tocar o leitor com a sua honestidade e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Estêvão da Guarda oferece um terreno fértil para a análise crítica, convidando a explorar as complexidades da alma humana, a fragilidade da existência e a busca por um sentido num mundo muitas vezes desprovido dele. As suas obras são interpretadas como um espelho das inquietações existenciais contemporâneas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por vezes, a poesia mais intimista e introspectiva de autores como Estêvão da Guarda pode esconder uma grande força e uma visão crítica aguçada sobre a sociedade e os comportamentos humanos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Informações sobre as circunstâncias da morte de Estêvão da Guarda não são amplamente divulgadas, assim como publicações póstumas significativas que possam ter expandido o seu legado literário. A sua memória perdura através da sua obra poética publicada.

Poemas

36

Pero El-Rei Há Defeso

Pero el-rei há defeso
que juiz nom filhe peito
do que per ant'el há preito,
vedes o que hei apreso:
       quem s'ajudar quer do Alho
       faz barata d'alg'e dá-lho.

Pero que é cousa certa
que el-rei pôs tal defesa,
ond'a bom juiz nom pesa,
dizem que, per encoberta,
       quem s'ajudar quer do Alho
       faz barata d'algu'e dá-lho.

Pero em tod'home cabe,
em que há sem e cordura,
que se aguarde tal postura,
vedes que diz quen'o sabe:
       quem s'ajudar quer do Alho
       barata d'algu'e dá-lho.

Em prata ou em retalho
ou em dobras em bisalho.
352

Já Martim Vaasques da Estrologia

Já Martim Vaasques da estrologia
perdeu feúza, polo grand'engano
dos planetas, per que veo a dano
em que tam muito ante s'atrevia:
ca o fezerom sem prol ordinhar
por egreja que lhe nom querem dar
e per que lh'é defes'a jograria.

E per [que] esto, per que ant'el vivia,
lh'é defeso, des que foi ordinhado,
oimais se tem el por desasperado
da prol do mester e da clerezia:
e as planetas o tornaram fol,
sem egreja nem capela de prol
e sem o mester per que guarecia.

E já de grado el renunçaria
sas ordĩins, per quant'eu hei apreso,
por lhe nom seer seu mester defeso
nem er ficar em tanta peioria,
como ficar por devaneador
coroado e, o que é peor,
perder a prol do mester que havia.

E na coroa, que rapar queria,
leixa crecer a cient'o cabelo
e a vezes a cobre com capelo,
o que ant'el mui d'anvidos faria;
mais del: quand'el a 'sperança perdeu
das planetas, des i log'entendeu
que per coroa prol nom tiraria.

E no seu livro, per que aprendeu
astrologia, log'i prometeu
que nunca per el mais estudaria.
485

Com'aveo a Merlim de Morrer

Com'aveo a Merlim de morrer
per seu gram saber que el foi mostrar
a tal molher, que o soub'enganar,
per essa guisa se foi confonder
Martim Vasquez, per quanto lh'eu oí:
que o tem mort'ũa molher assi,
a que mostrou, por seu mal, seu saber.

E tal coita diz que lhe faz sofrer
no coraçom, que se quer afogar:
nem er pode, u a nom vir, durar;
em torna d'i, o faz esmorecer
e, per saber que lh'el mostrou, o tem
tam coitado, que a morrer convém
de mort'estrãia que há padecer.

E, o que lh'é mais grave de temer,
per aquelo que lh'el foi ensinar,
diz que sabe que o pod'ensarrar
em tal logar u convém d'atender
atal morte de qual morreu Merlim,
u dará vozes, fazendo sa fim,
ca nom pod'el tal mort'estraecer.
563

Ora É Já Martim Vaasques Certo

Ora é já Martim Vaasques certo
das planetas que tragia erradas,
Mars e Saturno, mal aventuradas,
cujo poder trax em si encoberto:
ca per Mars foi mal chagad'em peleja,
e per Saturno cobrou tal egreja
sem prol nẽũa, em logar deserto.

Outras planetas de boa ventura
achou per vezes em seu calandairo,
mais das outras que lh'andam em contrairo,
cujo poder ainda sobr'el dura,
per ũa delas foi mui mal chagado
e pela outra cobrou priorado
u tem lazeira em logar de cura.

El rapou barva e fez gram coroa
e cerceou seu topet'espartido
e os cabelos cabo do oído,
cuidand'haver per i egreja boa;
mais Saturno lha guisou de tal renda,
u nom há pam nem vinho d'oferenda
nem, de herdade, milho pera boroa.

E pois el é prior de tal prevenda,
convém que leix'a cura e atenda
a capela igual a sa pessoa.
502

Se Vós, Dom Foão, Dizedes

Se vós, Dom Foão, dizedes
que devêrades de casar
com molher de maior logar
que essa que vós teedes,
dizedes i como vos praz:
ca pera vós, per bõa fé,
é ela, que tam bõa é,
       filha d'algo, e bem assaz.

Como quer que vós tenhades
que, com bem fazer de senhor,
devêrades casar melhor,
senhor, nunca o digades;
ca, se filhárades em cós
mulher pera vós, tam igual
pera ela, que tanto val,
       filha d'algo é pera vós.

Pois sodes tam bem casado,
nom devedes i al dizer,
mais a Deus muito gradecer
casamento tam honrado;
ca, pera vós, pois que vos dam
gram preço d'home de bom sem,
é ela, u há tod'o bem,
       filha d'algo, e bem de pram.
643

O Caparom de Marvi

O caparom de marvi
que vos a testa bem cobre
com pena veira tam nobre,
alfaiat'ou peliteiro,
dized'ora, cavaleiro,
       cal vo-l'apostou assi?

Tal caparom vos convém
com tal pena que tragaes;
mais i, dos dous mesteiraes,
me dized'o que vos digo,
cavaleiro, meu amigo:
       cal vo-l'apostou tam bem?

Do que é mais sabedor
de caperom empenado
me dad'agora recado,
e nom seja encoberto
de como vós sodes certo:
       cal vo-l'apostou melhor?
584

Donzela, Quem Quer Que Poser Femença

Donzela, quem quer que poser femença
em qual vós sodes e de que logar,
e no parecer que vos Deus quis dar,
entender pode, quant'é mia creença,
que, pois vos querem juntar casamento,
nom pod'haver i nẽum partimento
senom se for per vossa negrigença.

E quem bem vir o vosso contenente
e as feituras e o parecer
que vós havedes, bem pod'entender
em tod'aquesto, quant'é meu ciente,
que, bem ali u vós casar queredes,
nom se partirá que i nom casedes
senom per serdes vós i negrigente.

Ca sei eu outra nom de tal doairo
nem de tal logar come vós, de pram,
com aguça que tomou de talam
de casar cedo, nom houv'i contrairo;
por en vos compre, se casar cuidades,
de negrigente que sodes, sejades
mui aguçosa, sem outro desvairo.
506

Ouç'eu Muitos D'amor Que[I]Xar

Ouç'eu muitos d'Amor que[i]xar
e dizem que per el lhes vem
quanto mal ham e que os tem
em tal coita que nom há par;
       mais a mim vem da mia senhor
       quanto mal hei, per desamor

que m'ela tem; pero que al
ouço i eu a muitos dizer,
que lhes faz gram coita sofrer
Amor, onde lhes vem gram mal,
       mais a mim vem da mia senhor
       quanto mal hei, per desamor

que m'ela tem mui sem razom;
pero vej'eu muitos, de pram,
que dizem que quanto mal ham
que d'Amor lhes vem e d'al nom,
       mais a mim vem da mia senhor
       quanto mal hei, per desamor

que m'ela tem; e que peor
poss'haver ca seu desamor?
436

Sempr'eu, Senhor, Mia Morte Receei

Sempr'eu, senhor, mia morte receei
mais doutra rem e já, per boa fé,
non'a rece[o], e vedes por que é:
por aquesto que vos ora direi:
       a gram coita que por vós hei, senhor,
       me faz perder de mia morte pavor.

Cuidava-m'eu que sempre de temer
houvess'a morte, que sempre temi,
mais ora já, senhor, nom est assi,
por aquesto que vos quero dizer:
       a gram coita que por vós hei, senhor,
       me faz perder de mia morte pavor.

Nom me passava sol per coraçom
que eu podesse da morte per rem
perder pavor, mais ora vejo bem
que o nom hei e vedes por que nom:
       a gram coita que por vós hei, senhor,
       me faz perder de mia morte pavor,

que eu sempr'houv'; e par Deus, mia senhor,
muito me foi de o perder peor!
586

a Voss'amig', Amiga, Que Prol Tem

- A voss'amig', amiga, que prol tem
servir-vos sempre mui de coraçom
sem bem que haja de vós se mal nom?
- E com', amiga?! Nom tem el por bem
       entender de mi que lhi consent'eu
       de me servir e se chamar por meu?

- Que prol tem el ou que talam lhe dá
de vos servir e amar mais que al
sem bem que haja de vós se nom mal?
- E nom tem el, amiga, que bem há
       entender de mi que lhi consent'eu
       de me servir e se chamar por meu?

- A Deus, amiga, que nos ceos sé,
pero sei bem que me tem em poder,
non'O servirei senom por bem fazer.
- E com', amiga?! E tem el que pouc'é
       entender de mi que lhi consent'eu
       de me servir e se chamar por meu?
640

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