Lista de Poemas

As Coordenadas Líricas

Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu

A geométrica forma de meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
— as minhas coordenadas.

2 871

Legenda

Como quem sente
na legenda do presente
o fim duma história breve,
vou vivendo um sonho intacto
num pesadelo crescente
— uma luz fecunda e leve
nos olhos pardos dum gato.

1 733

Poema

Negue-se o mundo a me dizer: sim!
Negue-se o ar da serra aos meus pulmões!
Fechem-se as janelas porque vim
interromper os solheiros e os pregões!
Neguem-me o passaporte
pra o estrangeiro!
Encontre-se sem norte
e sem dinheiro
(e desprevenidamente des-emotiva!)
frente às rodas paralelas
duma qualquer locomotiva,
ou entre elas,
ou melhor: debaixo delas!
— Por tudo encolherei os ombros
que, em suma, dizem crentes e descrentes
a vida é feita de rombos e de tombos,
doença, hostilidade e guinchos de serpentes.

Mas tu — (Homem! Garra!
Sucesso! ou Vento! ou Amarra!
Vício alegre! ou Labirinto!
Bebedeira de absinto
Filhos!
E Deus neles!)
— não me negues o tom simples
e às vezes reles
da tua voz pura-impura
com que seques
a minha vil e vã desenvoltura.

1 901

Esplanada

É o processo da forma seca e pobre
na calma aceitação de mais torpor:
nada que persista ou que demore
mais que o minuto calmo em que descobre
que, se o cenário mudou, a forma
continua.
E não transtorna,
nem ousa (ronceirosa)
mudar a cor da lua
ou por ordem no caos.

Esta é a fábula da lesma preguiçosa
à temperatura de 35 graus.

1 389

Amnésia

Posso pedir, em vão, a luz de mil estrelas:
penas obtenho este desenho pardo
que a lâmpada de vinte e cinco velas
estende no meu quarto.

Posso pedir, em vão, a melodia, a cor
e uma satisfação imediata e firme:
(a lúbrica face do despertador
é quem me prende e oprime).

E peço, em vão, uma palavra exata,
uma fórmula sonora que resuma
este desespero de não esperar nada,
esta esperança real em coisa alguma.

E nada consigo, por muito que peça!
E tamanha ambição de nada vale!
Que eu fui deusa e tive uma amnésia,
esqueci quem era e acordei mortal.

1 716

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Identificação e contexto básico

Fernanda Botelho, nome literário de Maria da Graça de Portugal e Castro Guedes de Vasconcelos Botelho, nasceu em Lisboa em 26 de abril de 1924 e faleceu na mesma cidade em 29 de novembro de 2007. Foi uma escritora portuguesa cujo trabalho poético se destacou pela profundidade lírica e pela exploração de temas existenciais e da condição humana.

Infância e formação

Pouco se sabe publicamente sobre a sua infância e formação, mas a sua obra sugere uma forte sensibilidade e uma educação que lhe permitiu um domínio apurado da linguagem e uma apreensão das correntes literárias da sua época.

Percurso literário

Fernanda Botelho iniciou o seu percurso literário com a publicação de "Poemas" em 1952, um livro que já anunciava a sua singularidade. Ao longo da sua carreira, publicou diversas obras poéticas, consolidando um estilo próprio e um lugar no panorama literário português.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Fernanda Botelho incluem "Poemas" (1952), "O Gosto do Tempo" (1977) e "Para que os dias não morram" (1991). Os temas dominantes na sua poesia são a efemeridade da vida, a passagem do tempo, a solidão, a memória, a fragilidade das relações humanas e a condição feminina. O seu estilo é marcado pela musicalidade, pela clareza lírica e por uma linguagem cuidada, por vezes melancólica, mas sempre precisa. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma forte atenção ao ritmo e à sonoridade. A sua voz poética é confessional e introspectiva, explorando a subjetividade com uma intensidade notável. A sua obra dialoga com a tradição da poesia lírica portuguesa, mas com uma sensibilidade moderna e uma perspetiva marcadamente feminina.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Fernanda Botelho viveu grande parte da sua vida em Portugal durante períodos de significativas transformações sociais e políticas, incluindo a ditadura do Estado Novo e a transição para a democracia. Embora não seja conhecida por um ativismo político explícito, a sua obra poética reflete uma sensibilidade aguçada para as questões humanas e existenciais que ressoam em qualquer contexto histórico.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes sobre a sua vida pessoal são escassos na esfera pública. Sabe-se que era casada e mãe, e que a sua vida familiar terá tido alguma influência na sua obra, particularmente nos temas relacionados com a fragilidade e a profundidade das relações humanas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não seja uma autora de grande projeção mediática, Fernanda Botelho é reconhecida pela crítica e pelos leitores mais atentos como uma voz importante da poesia portuguesa contemporânea. A sua obra tem vindo a ser redescoberta e valorizada pela sua qualidade lírica e profundidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Fernanda Botelho insere-se numa linhagem lírica que remonta a autores como Fernando Pessoa e Sophia de Mello Breyner Andresen, mas com uma voz inconfundivelmente sua. O seu legado reside na capacidade de tocar o leitor com a sua honestidade lírica e a sua profunda reflexão sobre a condição humana, especialmente a feminina, num país onde as vozes femininas na poesia nem sempre tiveram o mesmo reconhecimento.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Fernanda Botelho tem sido analisada sob a perspetiva da exploração da temporalidade, da finitude e da busca por significado num mundo em constante mudança. A sua abordagem à condição feminina é particularmente notada pela sua subtileza e pela forma como capta as nuances da experiência da mulher.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poucas curiosidades são amplamente divulgadas sobre Fernanda Botelho. A sua discrição pessoal contrasta com a expressividade e a profundidade da sua obra, que parece emergir de uma observação atenta e sensível do mundo e de si mesma.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Fernanda Botelho faleceu em 2007. A sua memória é preservada através da sua obra, que continua a ser lida e estudada, mantendo viva a sua voz poética para as novas gerações.