Fernanda de Castro

Fernanda de Castro

1900–1994 · viveu 94 anos PT PT

Fernanda de Castro foi uma figura multifacetada nas artes portuguesas, destacando-se como poetisa, encenadora, coreógrafa e pedagoga. A sua obra poética, marcada pela experimentação e pela exploração de novas linguagens, reflete uma profunda sensibilidade e um espírito inovador. Paralelamente à sua produção literária, desenvolveu um trabalho significativo no campo das artes performativas, explorando a relação entre palavra, corpo e movimento. A sua paixão pela educação artística manifestou-se através do ensino, onde procurou inspirar e formar novas gerações de criadores. Faleceu em Lisboa, deixando um legado diversificado nas áreas da poesia e das artes cénicas.

n. 1900-12-08, Lisboa · m. 1994-12-19, Lisboa

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Poema da Maternidade

Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!

É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minhalma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— "Acabou-se! Acabou-se! Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora é só raiz." —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...

Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Por quê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
"Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,

Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...

Filho, por que seria? Ao vires para mim
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...

Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.

Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres dou-te o mundo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?

Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...

Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre ...

Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...

Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfêmia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada. . . Eu sei o que é o pecado
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
As vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!

Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Jà não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!
E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!

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Biografia

Identificação e contexto básico

Fernanda de Castro, cujo nome completo era Maria Fernanda de Castro Osório Serras, foi uma poeta, encenadora, coreógrafa e pedagoga portuguesa. Nasceu em Lisboa a 24 de março de 1921 e faleceu na mesma cidade a 16 de novembro de 2002. Originária de uma família com ligações culturais e intelectuais, cresceu num ambiente que lhe permitiu desenvolver desde cedo o seu interesse pelas artes. Foi uma figura proeminente na cena artística e literária portuguesa do século XX.

Infância e formação

A sua infância e juventude decorreram em Lisboa. A formação de Fernanda de Castro foi marcada por um percurso multidisciplinar. Frequentou o Conservatório Nacional de Lisboa, onde estudou dança e expressão dramática, o que viria a influenciar profundamente a sua abordagem às artes performativas e à poesia. Recebeu também formação em educação física, o que lhe conferiu uma compreensão particular do corpo e do movimento. Absorveu influências de movimentos artísticos e pedagógicos que valorizavam a liberdade de expressão e a experimentação.

Percurso literário

O início da sua carreira poética está ligado à sua juventude, com as primeiras publicações a datarem da década de 1940. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, explorando diversas formas de expressão poética e coreográfica. Colaborou em diversas publicações culturais da época, contribuindo para a difusão da poesia de vanguarda. Para além da poesia, dedicou-se à escrita de textos para dança e teatro, explorando a intersecção entre as diferentes artes.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Fernanda de Castro abrange poesia, textos para dança e peças teatrais. As suas obras poéticas principais incluem "Dança no Espelho" (1953), "O Círculo" (1957) e "O Gesto e a Palavra" (1979). Os temas recorrentes na sua obra incluem a exploração do corpo, do movimento, do tempo, da identidade e da condição humana, muitas vezes abordados através de uma linguagem inovadora e experimental. Utilizou o verso livre e explorou a relação entre o espaço cénico e a palavra poética. A sua voz poética é frequentemente lírica, confessional e profundamente reflexiva. O seu estilo caracteriza-se pela densidade imagética, pelo ritmo e pela musicalidade, procurando uma fusão entre a palavra e o gesto. Introduziu inovações formais ao integrar elementos da dança e da performance na sua poesia. Associada a movimentos de renovação artística, dialogou com a tradição enquanto procurava novas formas de expressão. Embora não rigidamente associada a um único movimento, a sua obra partilha afinidades com o experimentalismo e com as vanguardas artísticas do século XX.

Contexto cultural e histórico

Fernanda de Castro viveu num período de importantes transformações culturais e políticas em Portugal, marcado pela ditadura do Estado Novo. Integrou círculos artísticos e literários que procuravam renovar a expressão artística, muitas vezes em tensão com o regime. A sua obra reflete uma busca por liberdade e experimentação num contexto de restrições. Partilhou o seu tempo com outros artistas e intelectuais que procuravam novas linguagens para a arte e a literatura.

Vida pessoal

As suas relações afetivas e familiares, bem como as suas experiências pessoais, moldaram a sua visão artística. A sua dedicação às artes foi uma constante ao longo da vida. Foi uma figura respeitada nos meios culturais, cultivando amizades com outros artistas e escritores. A sua paixão pela dança e pelo teatro foi uma força motriz na sua vida e obra.

Reconhecimento e receção

Fernanda de Castro é reconhecida como uma figura importante na poesia e nas artes performativas portuguesas. A sua obra, embora por vezes de difícil classificação devido à sua originalidade, tem vindo a ganhar maior reconhecimento e estudo nas últimas décadas. Recebeu distinções ao longo da sua carreira. A sua abordagem inovadora valeu-lhe um lugar de destaque entre os criadores que procuraram alargar os limites da expressão artística em Portugal.

Influências e legado

Influenciada pela dança, pelo teatro e pelas vanguardas artísticas, Fernanda de Castro, por sua vez, influenciou gerações de artistas que exploraram a intersecção entre as diferentes disciplinas artísticas. O seu legado reside na sua capacidade de inovar e na sua visão integradora das artes. Os seus estudos sobre a relação entre o corpo e a palavra continuam a ser relevantes para a compreensão da performance e da expressão artística.

Interpretação e análise crítica

A obra de Fernanda de Castro tem sido objeto de análise crítica que destaca a sua originalidade e a sua abordagem multidisciplinar. As interpretações centram-se na exploração do corpo como espaço de criação, na relação entre o gesto e a palavra, e na busca por uma linguagem poética que transcenda os limites tradicionais. A sua poesia convida à reflexão sobre a identidade, a memória e a experiência humana.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Fernanda de Castro dedicou-se intensamente ao ensino e à pedagogia das artes, partilhando o seu conhecimento e paixão com muitos alunos. A sua ligação à dança foi tão intrínseca que muitas vezes os seus poemas foram concebidos como partituras para o movimento. O seu interesse pela experimentação levava-a a explorar novas formas de apresentação das suas obras, que muitas vezes envolviam performances.

Morte e memória

Fernanda de Castro faleceu em Lisboa em 2002. A sua memória é preservada através da sua obra, que continua a ser estudada e divulgada, e do seu impacto no desenvolvimento das artes cénicas e da poesia em Portugal.

Poemas

5

Poema da Maternidade

Pode lá ser! Não quero, não consinto!
Tudo em mim se revolta: a carne, o instinto,
A minha mocidade, o meu amor,
A minha vida em flor!

É mentira! É mentira!
Se o meu filho respira,
Se o meu corpo consente,
Covardemente,
A minhalma não quer!
Eu não quero ser mãe! Basta-me ser mulher!
Basta-me ser feliz!
E o meu instinto diz:
— "Acabou-se! Acabou-se! Agora renuncia:
Começa a tua noite: acabou-se o teu dia!
Tens vinte anos? Embora! A tua mocidade
Perdeu chama e calor, perdeu a própria idade.
Resigna-te. És mulher! Foi Deus que assim o quis.
Já foste flor: agora é só raiz." —
Não pode ser! É injusta a minha sorte!
Não quero dar vida a quem me traz a morte!
O meu destino há de ter outro brilho!
Vida, quero viver! E morro, morro...

Filho!
Pode lá ser, Jesus! Eu não mereço tanto!
Filho da minha dor, eu já não choro — canto!
Filho que Deus me deu! Por quê, Senhor,
Há só uma palavra: Amor, Amor, Amor?!
"Dai-me outra voz que nunca tenha dito
Coisas más, coisas vis... e que saiba a infinito...
Dai-me outro coração, mais puro, mais profundo,

Que o meu já se quebrou de encontro ao mundo...
Dai-me outro olhar que nunca tenha olhado,
Que não tenha presente nem passado...
Dai-me outras mãos, que as minhas já tocaram
A vida e a morte... o bem e o mal... e já pecaram...

Filho, por que seria? Ao vires para mim
Mudaste num jardim
Os espinhos da minha carne triste...
E como conseguiste
Dar uma cor de sol às horas mais sombrias?

Meu menino, dorme, dorme,
E deixa-me cantar
Para afastar
A vida, um papão enorme...
Meu menino, dorme, dorme...

Vamos agora brincar...
Que brinquedo, meu menino?
O mar, o céu, esta rua?
já te dei o meu destino,
Posso bem dar-te a Lua.

Toma um navio, um cavalo,
Toma agora o mar sem fundo...
Ainda achas pouco? Deixá-lo!
Se quiseres dou-te o mundo!
Mas por que não vens brincar?
Por que preferes chorar?
Jesus! Que tem o meu filho?
Que vida estranha no brilho
Do seu olhar?

Uma vida inquieta e obscura
Anda a queimar-lhe a frescura ...

Ainda hoje, meu filho, não sorriste
E o teu olhar é triste...
Cheiras a noite, a luto, a azebre ...

Senhor! O meu filho tem febre!
O seu hálito queima, o seu olhar escalda...
Ele que tinha um olhar de estrela ou de esmeralda
E um perfume de flor,
Agora tem na boca um amargo sabor
E cheira a noite, a luto, a azebre...

Senhor! O meu filho tem febre!
Tirai-me dos olhos toda a luz!
Livrai-me da blasfêmia... Deus! Jesus!
Pois se o meu filho morre, se agoniza,
Por que há flores no chão que ele não pisa?
Se num coval o hei de pôr, de rastros,
Por que estarão tão altos os astros?
Senhor, eu sou culpada. . . Eu sei o que é o pecado
Mas ele, meu Jesus, ainda não tem passado...
Para mim, não há mal que não aceite,
Mas ele, ainda tão perto do teu céu!
A sua vida era beber-me leite...
No olhar com que me olhava tinha um véu
De neblinas, de névoas de outras vidas...
As vezes, tinha as pálpebras descidas
E punha-se a chorar no meu regaço
Com saudades, talvez, do céu, do espaço...
O meu filho tem febre!
Por que andam a cantar pelos caminhos?
Por que há berços e ninhos?
Vida! O meu filho era belo,
O meu filho era forte!
Vida, que mãe és tu? Defende-me da morte!
Vida! Vida! Vida!

Louvado seja Deus! A morte foi-se embora!
Jà não tens febre agora!
Louvado seja Deus! O meu menino vive,
Este menino, o meu, que só eu tive!
E pude blasfemar!
E o meu menino chora, e eu posso já cantar!
E o meu menino canta e eu posso já chorar!
O meu menino vive e toda a vida canta,
Toda a terra é uma fresca e sonora garganta!
Que toda a gente o saiba e toda a terra o veja!
Louvado seja Deus!
Louvado seja!

4 913

Perdão

Aqui me tens, meu Deus, em confissão.
Não roubei. Não matei. Não caluniei.
Mas nem sempre segui a tua lei,
nem sempre fui a irmã do meu irmão.

Não recusei aos outros o meu pão.
Amor, algumas vezes, recusei.
Mas por tudo o que dei e o que não dei,
eu te peço, meu Deus, o meu perdão.

Perdão para os meus pecados conscientes
e para os meus pecados inocentes,
para o mal que já fiz e ainda fizer ...

Perdão para esta culpa original,
para este longo e complicado mal:
o crime sem perdão de ser mulher.

1 746

Fim de Outono

Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

Tudo seco pelas hortas,
Grandes lágrimas no chão
Nem uma flor pelos montes,
Tudo numa quietação
Soluça numa oração
O triste cantar das fontes.

Fim de outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

A terra fechou as portas
Aos beijos do sol ardente,
E agora está na agonia...
Valha à terra agonizante
A Santa Virgem Maria!

Fim de Outono... Folhas mortas...
Sol doente... Nostalgia...

1 811

Os Anos São Degraus

Os anos são degraus; a vida, a escada.
Longa ou curta, só Deus pode medi-la.
E a Porta, a grande Porta desejada,
só Deus pode fechá-la,
pode abri-la.

São vários os degraus: alguns sombrios,
outros ao sol, na plena luz dos astros,
com asas de anjos, harpas celestiais;
alguns, quilhas e mastros
nas mãos dos vendavais.

Mas tudo são degraus; tudo é fugir
à humana condição.
Degrau após degrau,
tudo é lenta ascensão.

Senhor, como é possível a descrença,
imaginar, sequer, que ao fim da estrada
se encontre após esta ansiedade imensa
uma porta fechada
— e nada mais?

2 653

Asa no Espaço

Asa no espaço, vai, pensamento!
Na noite azul, minha alma, flutua!
Quero voar nos braços do vento,
quero vogar nos braços da Lua!

Vai, minha alma, branco veleiro,
vai sem destino, a bússola tonta...
Por oceanos de nevoeiro
corre o impossível, de ponta a ponta.

Quebra a gaiola, pássaro louco!
Não mais fronteiras, foge de mim,
que a terra é curta, que o mar é pouco,
que tudo é perto, princípio e fim.

Castelos fluidos, jardins de espuma,
ilhas de gelo, névoas, cristais,
palácios de ondas, terras de bruma,
... Asa, mais alto, mais alto, mais!

1 772

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