Lista de Poemas

DONNA, CHE LIETA COL PRINCIPIO NOSTRO

Senhora minha, que tão leda estais
Coo princípio de tudo, e o mereceste
Por essa vida santa que viveste,
E em sédia gloriosa vos sentais,

Ó rara e portentosa entre as demais,
Ora, no Olhar que tudo vê celeste,
Vê o meu amor e a pura fé que veste
De lágrimas choradas versos tais.

E sente um coração tão fiel na terra
Qual o é no céu agora, e que não tende
A mais de ti que ao Sol dos olhos teus.

E pois, para vencer a dura guerra
Que neste mundo só a ti me prende,
Roga que eu vá depressa a estar nos céus.

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ANIMA BELLA DA QUEL NODO SCIOLTA

ANIMA BELLA DA QUEL NODO SCIOLTA

Alma tão bela desse nó já solta
Que mais belo não sabe urdir natura,
Tua mente volve à minha vida obscura
Do céu à minha dor em choro envolta.

Da falsa suspeição liberta e absolta
Que outrora te fazia acerba e dura
A vista em mim pousada, ora segura
Podes fitar-me, e ouvir-me a ânsia revolta.

Olha do Sorge a montanhosa fonte
E verás lá aquele que entre o prado e o rio
De recordar-te e de desgosto é insonte.

Onde está teu albergue, onde existiu
O amor que abandonaste. E o horizonte
De um mundo que desprezas, torpe e frio.

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ITE, RIME DOLENTI, AL DURO SASSO

Oh, vai, verso dolente, à pedra dura
Que o meu caro tesouro em terra esconde,
E chama quem do céu inda responde,
Se bem que o corpo esteja em tumba escura.

Diz-lhe que vivo exausto de amargura,
De navegar sem já saber por onde,
Salvando apenas sua esparsa fronde
De perder-se na morte que se apura,

Sempre arrazoando dela, viva e morta,
Como se viva e já feita imortal,
Para que o mundo a reconheça e ame.

E que lhe praza ser quem me conforta
No instante que se apressa. Venha e, qual
Está no céu, a si me leve e chame.

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ITALIA MIA

Itália minha, se o falar não vale
Dessas chagas mortais
Que o belo corpo assim te dilaceram-
Praz-me que meus suspiros sejam quais
Tibre, Arno e Pó esperam.
Que, grave e triste, aqui, eu me não cale.
Reitor celeste: ao mal
Vieste piedoso combater na terra:
Volta, Senhor, a teu país dilecto.
Perfeito que és, completo,
Vê por quão leves causas crua guerra.
E os peitos a quem cerra
Marte soberbo e fero,
Abre-os, ó Pai, desfeitos em doçura,
Ao som de quanto é vero
Em minha voz que só de Ti se apura.

E vós, a quem fortuna o freio há dado
De terras tão formosas,
De que a piedade em vós se vai delindo:
A que vem cá tanto estrangeiro armado?
Porque é que o verde prado
De sangue bárbaro se vai tingindo?
Derros vos iludindo,
Sois como cegos, pois que amor contais
Que existe, ou lealdade, em venais peitos.
Ao imigo sujeitos
Mais estareis quanto o comprardes mais.
Ó águas diluviais
Colhidas em deserto
Para inundar os nossos campos breves!
Quem poderá estar certo
Ao dar a mão a quem tem pés tão leves?

Bem próvida a natura quando alteou
Entre nós e os tudescos
Dos fortes Alpes o limite duro.
Mas a vontade estulta em gigantescos
Esforços se empenhou
E trouxe-os como sarna ao corpo puro
Ou dentro ao mesmo muro
Feras selvagens e a virtuosa grei
Que delas, por melhor, será dolente:
Sendo isto procedente
Dessas, ó dor maior, tribos sem lei,
Às quais, como direi, Mário rasgou o flanco
Qual a memória inda não stá exangue:
Quando, no último arranco,
Águas bebiam que já eram sangue.

César eu calo, que sangrento o verde
Pelas encostas fez
Das veias dels por nosso ferro abertas.
Ora não sei de que astro a rispidez
Perante o céu nos perde,
Se não são culpas vossas mais que certas,
Vontades tão despertas
Para gastar do mundo a parte bela.
De quem será juízo ou é pecado,
Se o povo desgraçado
É quem de aflito por vós paga aquela
Gente que nos flagela,
E detestável mais,
Que as almas vende a troco de áureo peso.
Eu falo pra que ouçais,
Não por ódio de alguém, ou por desprezo.

Que mais necessitais que alguém vos prove
Os bárbaros enganos
Que alçando os dedos com a morte brinquem?
Pior é a tortura do que o são os danos.
E o vosso sangue chove
Mais amplamente em ódios que vos trinquem.
No madrugar se afinquem
Os vossos pensamentos: vereis claro
Quem será caro a quem se tem por vil.
Nosso sangue gentil
É derramado por um esforço ignaro.
Fazeis ídolo raro
De um nome sem sentido:
Que o furor desta gente só repousa
No seu pensar perdido:
Pecado é nosso e não natural cousa.

Esta terra não é que andei primeiro?
Não é este o meu ninho
Em que criado fui tão docemente?
Pátria não é da fé e do carinho,
A madre em cujo seio
Dorme quem me gerou, foi meu parente?
Por Deus, que a vossa mente
Disto se mova, e pios contempleis
As lágrimas do povo doloroso
Que só de vós repouso
Ainda espera: e quanto vos mostreis
Que para el viveis, logo contra o furor
Das armas tomará em fúria absorto,
Pois que o antigo valor
No coração da Itália não está morto.

Mirai, senhors, como o tempo voa
E foge a doce vida
E a morte espreita já por sobre o ombro.
Estais ora aqui: pensai nessa partida,
Quando alma nua aproa,
E solitária, ao duvidoso assombro.
Cruzando neste combro
Deveis depor no val ódios malignos,
Os ars contrários à vida serena;
E se o tempo em dar pena
Aos outros vós gastais que a actos mais dignos
Ou das mãos ou dos signos, O vosso ser se entregue
E a mais honesto estudo se converta. Que a vida aqui sossegue
E que a celeste estrada seja aberta.
Canção, tuas razões
Discretamente e com cautela digas,
Pois que te hás-de ir por entre altiva gente que é presa por demente
De usanças miseráveis, tão antigas, Do vero sempre imigas. Entrega teus apelos
Aos animosos poucos que o bem praz. E, se puders movê-los,
A eles grita, como eu grito: Paz!

(Tradução de Jorge de Sena)

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Identificação e contexto básico

Francesco Petrarca (em italiano: Francesco Petrarca) foi um influente erudito, poeta e um dos primeiros humanistas do período pré-Renascença. Nasceu em Arezzo, na Toscana, e escreveu em latim e em italiano (toscano). É amplamente considerado uma figura seminal na transição da Idade Média para o Renascimento.

Infância e formação

Devido ao exílio político de seu pai, Petrarca passou parte de sua infância em Avinhão, na França, e em outras cidades. Estudou Direito em Montpellier e Bolonha, mas sua verdadeira paixão era pela literatura clássica. Ele se dedicou ao estudo intensivo de autores greco-romanos, como Cícero e Virgílio, e foi um dos pioneiros na redescoberta e valorização dos textos antigos.

Percurso literário

O percurso literário de Petrarca é marcado pela dualidade entre sua produção em latim, voltada para a erudição e a filosofia, e sua poesia em vernáculo italiano, que o tornou famoso. Sua obra mais célebre em italiano é "Il Canzoniere" (O Cancioneiro), uma vasta coleção de poemas, composta ao longo de muitos anos, que narra seu amor por Laura e suas reflexões sobre a vida, a morte e a fé. Em latim, escreveu obras como "De viris illustribus" (Sobre homens ilustres), "Africa" (um poema épico sobre Cipião Africano) e "Epistolae" (cartas).

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias "O Cancioneiro" é a obra-prima de Petrarca em vernáculo, composta por 366 poemas (maioritariamente sonetos), dedicados à sua musa Laura. Os temas centrais incluem o amor intenso e atormentado, a beleza idealizada de Laura, a passagem do tempo, a efemeridade da vida, a busca pela glória terrena e a esperança de salvação divina. Sua poesia é caracterizada por um profundo lirismo, introspecção e análise psicológica. Petrarca aperfeiçoou a forma do soneto, estabelecendo o modelo que se tornaria conhecido como "soneto petrarquiano", com sua estrutura de oitava e sexteto e a forma como os temas são desenvolvidos e resolvidos. Sua linguagem é elegante, precisa e rica em recursos retóricos, transmitindo uma expressividade única aos seus sentimentos. O tom de sua poesia é predominantemente lírico, confessional e elegíaco, com momentos de exaltação e profunda melancolia. Ele explorou a dualidade entre os desejos terrenos e as aspirações espirituais, um conflito que se tornou central em sua obra e influenciou a poesia posterior.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Petrarca viveu em um período de transição crucial, onde o pensamento medieval dava lugar às novas ideias do Humanismo. Ele foi um dos principais impulsionadores desse movimento, defendendo a retomada dos valores e saberes da Antiguidade Clássica. Sua época foi marcada pela instabilidade política na Itália, com o papado em Avinhão, e por um crescente interesse nas artes e nas letras.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Petrarca foi marcada por um amor idealizado e duradouro por Laura, cuja identidade real ainda é objeto de debate, mas que se tornou o centro de sua produção poética. Ele era um viajante incansável e manteve contato com muitas figuras importantes de sua época, incluindo papas e reis. Sua vida também foi marcada por crises espirituais e pela busca pela reconciliação entre seus desejos terrenos e sua fé.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Petrarca alcançou grande renome em vida, sendo coroado poeta laureado em Roma. Sua obra em latim era admirada por sua erudição, enquanto "O Cancioneiro" o consagrou como o maior poeta lírico de sua geração. Sua influência sobre a poesia europeia foi imensa, estabelecendo o modelo do amor cortês e da poesia lírica por séculos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Petrarca foi profundamente influenciado pelos poetas latinos, como Virgílio, Ovídio e Horácio, e pelos filósofos como Cícero. Ele, por sua vez, influenciou gerações de poetas no Renascimento e em períodos posteriores, como Boccaccio, Shakespeare, Camões, e muitos outros. O "petrarquismo" tornou-se um estilo dominante na poesia lírica por séculos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Petrarca é analisada sob diversas perspectivas: como a expressão de um amor idealizado e platónico, como um estudo profundo da condição humana e da dualidade de desejos, e como um marco na consolidação da identidade individual e da subjetividade na literatura.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é que Petrarca, apesar de ter estudado Direito, não exerceu a profissão, dedicando-se integralmente aos estudos e à escrita. Ele também tinha um fascínio particular pela figura de Cícero, a quem considerava um mestre.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Francesco Petrarca faleceu em Arquà, perto de Pádua. Sua morte foi sentida como a perda de um dos maiores intelectuais de seu tempo. Sua memória é celebrada como a de um pioneiro do Humanismo e um mestre da poesia lírica, cujo legado continua a inspirar e a ser estudado.