Francis Ponge

Francis Ponge

1899–1988 · viveu 89 anos FR FR

Francis Ponge foi um poeta e escritor francês, conhecido pela sua abordagem singular e meditativa sobre o mundo material e a linguagem. A sua obra, que desafia as categorizações tradicionais, explora objetos quotidianos e elementos naturais com uma profundidade filosófica e uma atenção minuciosa à palavra. Ponge dedicou-se a desconstruir a poesia convencional, focando-se na experiência sensorial e na materialidade da existência, o que lhe conferiu um lugar único na literatura do século XX.

n. 1899-03-27, Montpellier · m. 1988-08-06, Le Bar-sur-Loup

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A borboleta

Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como em xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam voo.
Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,
Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.
Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega, e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.
Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, ela vagabundeia pelo jardim.


(tradução: Adalberto Müller e Carlos Loria. Publicado em: Francis Ponge O PARTIDO DAS COISAS, S. Paulo, Iluminuras, 2000.)

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Le papillon
Francis Ponge

Lorsque le sucre élaboré dans les tiges surgit au fond des fleurs, comme des tasses mal lavées, - un grand effort se produit par terre tous les Papillons tout à coup prennent leur vol.

Mais comme chaque chenille eut la tête aveuglée et laissée noire, et le torse amaigri par la véritable explosion d'où les ailes symétriques flambèrent,
Dès lors le papillon erratique ne se pose plus qu'au hasard de sa course, ou tout comme.
Allumette volante, sa flamme n'est pas contagieuse. Et d'ailleurs, il arrive trop tard et ne peut que constater les fleurs écloses. N'importe : se conduisant en lampiste, il vérifie la provision d'huile de chacune. Il pose au sommet des fleurs la guenille atrophiée qu'il emporte et venge ainsi sa longue humiliation amorphe de chenille au pied des tiges.

Minuscule voilier des airs maltraité par le vent en pétale superfétatoire, il vagabonde au jardin.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Francis Ponge, nome completo Francis Jean Gaston Louis Ponge, nasceu em Bolonha, França. Foi um poeta e ensaísta francês de renome, cuja obra se distingue pela sua originalidade e pela profunda meditação sobre o mundo e a linguagem. Viveu num período de intensas transformações sociais e culturais na Europa, o que se refletiu subtilmente na sua perspetiva sobre a realidade.

Infância e formação

Ponge nasceu numa família burguesa, o que lhe proporcionou um acesso a uma educação e a um ambiente cultural relativamente privilegiados. A sua formação intelectual foi marcada por leituras diversas e por uma crescente sensibilidade para as nuances da linguagem e para a descrição detalhada do mundo. Absorveu influências que moldaram a sua visão única sobre a poesia e a prosa poética.

Percurso literário

O início da escrita de Ponge foi gradualmente se desenvolvendo, culminando na publicação de obras que se afastavam das convenções literárias da época. A sua evolução ao longo do tempo foi marcada por uma constante exploração da linguagem e pela tentativa de capturar a essência dos objetos. A sua obra principal, "Le Parti pris des choses" (O Partido das Coisas), publicada em 1942, é um marco na sua carreira e na literatura francesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ponge, com "Le Parti pris des choses" como expoente máximo, explora a descrição minuciosa e meditativa de objetos do quotidiano, como pedras, cigarros, ou pão. O seu estilo caracteriza-se por uma prosa poética densa, com um vocabulário preciso e uma atenção extrema à materialidade das palavras e das coisas. Ponge procurava despir os objetos da sua carga simbólica habitual para revelar a sua existência pura. O seu tom é muitas vezes reflexivo e quase científico, mas impregnado de uma profunda admiração pela vida e pela linguagem.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ponge viveu em França durante um período turbulento, marcado por duas Guerras Mundiais e por importantes mudanças políticas e sociais. Embora não tenha sido um autor abertamente político, a sua obra reflete uma certa melancolia e uma profunda reflexão sobre a condição humana em tempos de incerteza. A sua posição na literatura francesa é a de um inovador, influenciando gerações posteriores com a sua abordagem única.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Francis Ponge são menos proeminentes na sua obra, que se foca mais na observação externa e na reflexão sobre o mundo. No entanto, a sua dedicação à escrita e à exploração literária foi uma constante ao longo da sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Francis Ponge é amplamente reconhecido como um dos grandes poetas e prosadores franceses do século XX. A sua obra, embora por vezes considerada hermética, tem sido objeto de estudo e admiração, consolidando o seu lugar no cânone literário.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ponge influenciou muitos escritores e poetas posteriores, pela sua originalidade na exploração da linguagem e na abordagem dos objetos. A sua capacidade de ver o extraordinário no ordinário continua a inspirar leitores e criadores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ponge é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a relação entre o homem, o mundo e a linguagem. A sua busca pela essência das coisas e a sua atenção à forma poética têm sido objeto de análise crítica, destacando a sua originalidade e a sua capacidade de desafiar as convenções literárias.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Ponge é a sua metodologia de escrita, que envolvia longos períodos de observação e reflexão sobre um único objeto antes de começar a escrever sobre ele. Essa dedicação à minúcia e à investigação sensorial é um aspeto distintivo do seu processo criativo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Francis Ponge faleceu na França. A sua obra continua a ser publicada e estudada, mantendo viva a sua memória e o seu legado literário.

Poemas

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A borboleta

Quando o açúcar elaborado nos talos surge no fundo das flores, como em xícaras mal lavadas - um grande esforço se produz no solo de onde, súbito, as borboletas alçam voo.
Porém, como cada lagarta teve a cabeça ofuscada e enegrecida, e o torso adelgaçado pela verdadeira explosão de onde as asas simétricas flamejaram,
Desde então, a borboleta errática só pousa ao acaso do percurso, ou quase isso.
Fósforo voejante, sua chama não é contagiosa. E, além do mais, ela chega muito tarde e pode apenas constatar as flores desabrochadas. Não importa: comportando-se como acendedora de lâmpadas, verifica a provisão de óleo de cada uma. Pousa no cimo das flores o farrapo atrofiado que carrega, e vinga assim sua longa humilhação amorfa de lagarta ao pé dos caules.
Minúsculo veleiro dos ares maltratado pelo vento como pétala superfetatória, ela vagabundeia pelo jardim.


(tradução: Adalberto Müller e Carlos Loria. Publicado em: Francis Ponge O PARTIDO DAS COISAS, S. Paulo, Iluminuras, 2000.)

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Le papillon
Francis Ponge

Lorsque le sucre élaboré dans les tiges surgit au fond des fleurs, comme des tasses mal lavées, - un grand effort se produit par terre tous les Papillons tout à coup prennent leur vol.

Mais comme chaque chenille eut la tête aveuglée et laissée noire, et le torse amaigri par la véritable explosion d'où les ailes symétriques flambèrent,
Dès lors le papillon erratique ne se pose plus qu'au hasard de sa course, ou tout comme.
Allumette volante, sa flamme n'est pas contagieuse. Et d'ailleurs, il arrive trop tard et ne peut que constater les fleurs écloses. N'importe : se conduisant en lampiste, il vérifie la provision d'huile de chacune. Il pose au sommet des fleurs la guenille atrophiée qu'il emporte et venge ainsi sa longue humiliation amorphe de chenille au pied des tiges.

Minuscule voilier des airs maltraité par le vent en pétale superfétatoire, il vagabonde au jardin.

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A forma do mundo

É preciso, antes de tudo, que eu confesse uma tentação absolutamente encantadora, longa, característica, irresistível para meu espírito.
É a de dar ao mundo, ao conjunto das coisas que vejo ou que concebo através da visão, não, como faz a maioria dos filósofos, e como é certamente razoável, a forma de uma grande esfera, de uma grande pérola, mole e nebulosa, como que brumosa, ou, ao contrário, cristalina e límpida, da qual, como disse um deles, o centro estaria em toda parte e a circunferência em nenhuma, nem tampouco a de uma "geometria no espaço", a de um incomensurável tabuleiro, ou a de uma colmeia com inumeráveis alvéolos ao mesmo tempo vivos e habitados, ou mortos e abandonados, como certas igrejas que se tornaram celeiros ou cocheiras, como certas conchas, outrora adjacentes a um corpo em movimento e voluntário de molusco, as quais flutuam vazias pela morte, e não hospedam nada além da água e um pouco de pedregulho, até o momento em que um bernardo-eremita as escolherá para habitáculo e nelas se pregará pela cauda, e nem mesmo a de um imenso corpo da mesma natureza que o corpo humano, do mesmo modo que o poderíamos imaginar, considerando-se os sistemas planetários como equivalentes aos sistemas moleculares, e aproximando-se o telescópico do microscópico.
Mas, antes, de um modo bem arbitrário ao mesmo tempo, a forma das coisas mais particulares, as mais assimétricas e de reputação contingente (e não apenas a forma, mas todas as características, as particularidades de cores, de perfumes), como, por exemplo, um ramo de lilases, um camarão no aquário natural de rochas no molhe de Grau-du-Roi, uma esponja na minha banheira, um buraco de fechadura com uma chave dentro.
E com razão poderão zombar de mim, ou me pedirão que preste contas a um asilo, mas nisso encontro toda a minha alegria.
(Proêmes. Gallimard, 1948; Tradução: Adalberto Müller - Inédita)
:
La forme du monde
Francis Ponge
Il faut d’abord que j’avoue une tentation absolument charmante, longue, caractéristique, irrésistible pour mon esprit.
C’est de donner au monde, à l’ensemble des choses que je vois ou que je conçois pour la vue, non pas comme le font la plupart des philosophes et comme il est sans doute raisonnable, la forme d’une grande sphère, d’une grande perle, molle et nébuleuse, comme brumeuse, ou au contraire cristalline et limpide, dont comme l’a dit l’un d’eux le centre serait partout et la circonférence nulle part, ni non plus d’une "géométrie dans l’espace", d’un incommensurable damier, ou d’une ruche aux innombrables alvéoles tour à tour vivantes et habitées, ou mortes et désaffectées, comme certaines églises sont devenues des granges ou des remises, comme certaines coquilles autrefois attenues à un corps mouvant et volontaire de mollusque, flottent vidées par la mort, et n’hébergent plus que de l’eau et un peu de fin gravier jusqu’au moment où un bernard-l’hermite les choisira pour habitacle et s’y collera par la queue, ni même d’un immense corps de la même nature que le corps humain, ainsi qu’on pourrait encore l’imaginer en considérant dans les systèmes planétaires l’équivalent des systèmes moléculaires et en rapprochant le télescopique du microscopique.
Mais plutôt, d’une façon tout arbitraire et tour à tour, la forme de choses les plus particulières, les plus asymétriques et de réputation contingentes (et non pas seulement la forme mais toutes les caractéristiques, les particularités de couleurs, de parfums), comme par exemple une branche de lilas, une crevette dans l’aquarium naturel des roches au bout du môle du Grau-du-Roi, une serviette-éponge dans ma salle de bain, un trou de serrure avec une clef dedans.
Et à bon droit sans doute peut-on s’en moquer ou m’en demander compte aux asiles, mais j’y trouve tout mon bonheur.
(1928)
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