Lista de Poemas

Pó de Tardes

Cansei de ti
pra ti oferto
as coisas descidas
da cruz do tédio:
meu delírio de Carlitos
embriagado
um pó de tardes
com lua
uma utopia de espanto.
e se isso não te bastar
te entrego o silêncio
do mar
A tarde encantada
de um país proscrito
o rítmo dos buzios
e das bailarinas

878

Só o deserto

Só o deserto
meu amor
sabe do meu amor
por você,
nem a cidade
com seus bichos
pousados
nem a decisão
de sonhar
ou morrer

Só o mar
com seu tremor
diário
atrelado à voz
dos que sonham
e os peixes
com as presas
do luar nas guelras
sabem

872

Um homem

Um homem
não trai seu sonho
nem o deixa
sem o abrigo
da tarde
Assim o tem
como vestimenta
que não o deixa
mentir
que o desnuda
e o abate

Um homem traduz
seu sonho
na sua forma
de cumprir a tarde
como se sonhar
fosse só um ato
e não
um difícil encargo

888

1975

Éramos 33 poetas
apesar das falhas no céu
apesar dos talhos na carne
33 poetas
amontoados sob o silêncio
das tardes com gomos de chuva
por cima da morte
das baleias e do jasmim
dizendo que assim era o plano
que ninguem morreria
no Outono.
33 poetas
como Maria Cristina
que tinha cheiro de hortelã
e maresia
e bunda morena de porcelana
33 poetas
como Luiz Carlos
batalhando no sol de São Gonçalo
ferido nos inúmeros sobrados
que trazia em si e não sabia

33 poetas como tantos
esperando a polícia todo dia
fosse inverno, verão ou primavera.
Isso no tempo do "milagre"
quando eu ia correndo pro
ginásio
e o tempo estava estancado
não era como agora
Éramos como Edgar, caçador
de balões
heroi como todos nós
que sabia subir em jaqueira
e nunca pensou que iria
enlouquecer
33 poetas
como janda em Salvador
falando da guerrilha perdida
da adolescência perdida
de todas as coisas que não iam
mais da certo
apesar do mistério da Bahia
e da dialética das ruas
em plena terça-feira de
carnaval
no verão da anistia
Éramos 33 poetas
como o meu amigo Ernesto
que um dia chegou em casa
e estourou os miolos
com um 38 emprestado

33 poetas
como Odemir
que escreveu um poema assim:
"Marta, um homem não é um trombone"
como Gregório
voltando do exílio
falando dos canaviais
e das lutas pela vida e pela paz
numa avenida paulista
corrompida de carros
Éramos 33 poetas
apesar do tempo ser um animal
solto,
a máquina de quebrar encantação
que antes não quebrava nada
mas hoje me quebra os dentes
e a cartilagem do rosto.
Se desse pra fazer girar a máquina
escreveria um conto
entre plantas e algas de sol
ergueria nas paredes brilhantes
blocos de ventania sumidos
e beberia contigo
nas fontes, nas águas, nos vinhos
nas cidades sem tempo
nos horizontes abertos
com a pele chamuscada
de marítimas vertigens
e perigos.

Onde está Luiz
sumido em 1975?
ninguem sabe
ninguem responde
havia o cheiro de cilade
e sonho
como em São Paulo
sovrevoando
milharal de luzes
diamante aceso
na noite perdida
de 1975

-Anônimos membros do
degredo unânime-

Como em Santa Teresa
longe da Av. São João
do petróleo queimado
e das vidas queimadas
inutilmente
nas ruas escuras
nos planos nefastos
onde para sempre se baniram
a realidade e a ternura
Éramos 33 poetas
com planos na terra
com as almas brandas
e as noites soltas
mas não sabíamos
que o vendaval espalharia
os nossos versos
as vozes, as cópulas,

músicas sobrariam no ar
o tempo, uma rede blindada
faria apagar na memória
os tratados das noites mornas
como se isso fosse possível
e Edgar ainda não subisse
em Jaqueiras,
Ernesto ainda não tomasse
a sua cerveja gelada,
Cristina ainda com sua boca
de fada,
o tempo com sua malha
de máquinas
telha frágil, nó desatado
não viu sua face aguada
só viu seu lado concreto
que não vai pro mar
dá pro deserto
e assim se proclamou
súdito vitalício da
cidade
senhor da dor e da saudade
embora no calendário do tempo
eu não vejo o último verão
sinto os 33 poetas
com seus violões
velhos e gastos
tomarem de assalto
o dia.

1 076

Rio de Janeiro

Noite densa de falas e pontes
que país sangrado é esse
de falsos horizontes e profetas?
No meu tempo não era bem assim,
meus inimigos tinham a cara aberta
meus amigos banhavam-se na maresia
os bondes passavam sob as pontes de luzes
do Rio de janeiro
e não havia canção muda nos meus versos.
Mas o meu tempo também é hoje
de circos derrubados e elefantes proscritos
de noites decretadas e frios ofícios
de trens partindo e vidas divididas.
No meu tempo também era assim,
as luzes do Rio de janeiro me diziam
um animal de sonho espreitava a vida oficial
que eu vivia
e eu amava as pontes de luzes dos Rio,
que eram de marfim e eu não sabia.

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Comentários (1)

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Vilma Barbosa Soares
Vilma Barbosa Soares

Francisco? Francisco é um coração amigo Sumido nos tempos do Rio de Janeiro Mas águas desse Rio onde o nascimento nos mergulhou E onde bravamente bracejamos cada dia. Francisco é saudade De um tempo, uma amizade, uma serra fluminense Para onde íamos sorver conhecimento Aos sábados, depois de quartas-feiras desnorteantes. Francisco ainda é um amigo Nessa saudade de amigo, Nessa amizade que não murcha Mesmo quando já não sabemos onde encontrá-lo E somente o abraçamos em seus versos. vilmabarbosasoares@gmail.com

Identificação e contexto básico

Francisco Orban foi um poeta cuja obra se destaca pela profundidade lírica e pela reflexão sobre a condição humana e o contexto social.

Infância e formação

A infância e formação de Francisco Orban, embora não amplamente detalhadas em fontes públicas, moldaram sua sensibilidade e seu olhar aguçado sobre o mundo, elementos que se manifestam em sua poesia.

Percurso literário

Seu percurso literário foi dedicado à expressão poética, onde buscou traduzir suas vivências e reflexões em versos que tocam o leitor pela sua autenticidade e força expressiva.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Francisco Orban é reconhecida pela sua carga emocional e pela capacidade de abordar temas universais como o amor, a perda, a solidão e a busca por sentido. Seu estilo é marcado pela linguagem acessível, mas carregada de significado, utilizando metáforas impactantes e um ritmo que confere musicalidade aos seus versos. A voz poética em sua obra é frequentemente confessional e introspectiva, convidando o leitor a uma jornada interior. Ele demonstra habilidade em criar imagens vívidas e em explorar a complexidade dos sentimentos humanos, o que o torna um poeta de grande sensibilidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Orban inseriu-se em seu contexto cultural e histórico através de sua produção literária, refletindo em seus poemas as inquietações e os desafios de sua época. Sua obra dialoga com a experiência humana em um mundo em constante transformação.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações específicas sobre a vida pessoal de Francisco Orban que possam ter influenciado diretamente sua obra são limitadas em registros públicos.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A receção da obra de Francisco Orban, embora possa não ter atingido o alcance de outros autores mais celebrados, é marcada pelo apreço daqueles que se conectam com a profundidade e a honestidade de sua expressão poética. Seu reconhecimento reside na capacidade de sua poesia em ressoar com a experiência individual.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de Francisco Orban reside na sua contribuição para a poesia que se conecta diretamente com a alma humana, oferecendo um espelho para as emoções e reflexões do leitor. Sua obra continua a influenciar aqueles que buscam uma poesia autêntica e tocante.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Orban convida a interpretações que exploram as camadas existenciais e emocionais de seus poemas. A análise crítica tende a focar na sua capacidade de expressar a universalidade do sofrimento e da alegria através de uma linguagem poética eficaz.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos sobre a vida de Francisco Orban e seus hábitos de escrita não são amplamente documentados, mas a profundidade de sua obra sugere um olhar atento e sensível para o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Detalhes sobre a morte de Francisco Orban e publicações póstumas não são facilmente encontrados, mas a memória de sua obra persiste através dos leitores que se conectam com seus versos.