Gerard Manley Hopkins

Gerard Manley Hopkins

1844–1889 · viveu 44 anos GB GB

Gerard Manley Hopkins foi um poeta jesuíta inglês, conhecido pela sua abordagem inovadora à métrica e pela intensidade da sua linguagem poética. A sua obra, marcada por uma profunda espiritualidade e uma observação aguçada da natureza, só foi amplamente publicada após a sua morte, mas influenciou gerações de poetas modernos. É celebrado pelo seu uso único do "sprung rhythm" e pela sua capacidade de capturar a vitalidade e a beleza do mundo natural e espiritual.

n. 1844-07-28, Londres · m. 1889-06-08, Dublin

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A Grandeza de Deus

O mundo está carregado da grandeza de Deus.
Vai chamejar — chispas em sacudidas folhas de metal;
Vai expandir-se — óleo que imprensado escorre, tal e qual,
E alaga. Por que o homem não teme o açoite dos céus?
Gerações têm caminhado, quanto elas têm caminhado!
Tudo tem manchas de homem, partilha cheiro de homem,
O solo está desnudo, mas pés calçados não o sentem;
Pelas lides, pelo tráfego, um mundo sujo e crestado;
E, apesar disso tudo, a natureza nunca se esgota;
Todas as coisas nela vivem num frescor renovado;
Inda que no turvo ocaso sumam as últimas luzes,
A manhã, na fímbria castanha do oriente, brota —
Porque o Espírito Santo, sobre este mundo vergado,
Vigia com peito cálido e oh! luzentes asas.
(tradução de Aíla de Oliveira Gomes)
:
God’s Grandeur
Gerard Manley Hopkins
THE WORLD is charged with the grandeur of God.
It will flame out, like shining from shook foil;
It gathers to a greatness, like the ooze of oil
Crushed. Why do men then now not reck his rod?
Generations have trod, have trod, have trod;
And all is seared with trade; bleared, smeared with toil;
And wears man’s smudge and shares man’s smell: the soil
Is bare now, nor can foot feel, being shod.
And for all this, nature is never spent;
There lives the dearest freshness deep down things;
And though the last lights off the black West went
Oh, morning, at the brown brink eastward, springs—
Because the Holy Ghost over the bent
World broods with warm breast and with ah! bright wings.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Gerard Manley Hopkins foi um poeta e sacerdote jesuíta inglês, amplamente considerado um dos poetas mais importantes do século XIX, embora a maior parte da sua obra tenha sido publicada postumamente. Nasceu em 1844 e faleceu em 1889. A sua dupla identidade como artista e homem de fé é central para a compreensão da sua poesia, que explora a intersecção entre o mundo natural e o divino. A sua escrita está inserida no contexto da Inglaterra vitoriana, um período de grandes transformações sociais, industriais e intelectuais, mas também de um forte florescimento cultural.

Infância e formação

Hopkins nasceu numa família de classe média anglicana, com forte inclinação artística e literária. O seu pai era poeta e o seu tio, um estudioso de literatura. Desde cedo, manifestou um talento excecional para a escrita e uma profunda sensibilidade estética. Estudou Clássicos no Balliol College, Oxford, onde se destacou academicamente e desenvolveu um interesse pela poesia, sendo influenciado por poetas como John Keats e por textos clássicos. Durante o seu tempo em Oxford, converteu-se ao catolicismo, o que marcou um ponto de viragem na sua vida e o levou a ingressar na Companhia de Jesus.

Percurso literário

O percurso literário de Hopkins foi profundamente moldado pela sua vocação religiosa. Após a sua conversão e entrada na ordem jesuíta, ele fez um voto de destruir a sua própria poesia, focando-se inteiramente na sua vida religiosa. No entanto, o seu desejo de escrever nunca o abandonou completamente, e ele continuou a compor poemas, muitos dos quais mantidos em segredo ou partilhados apenas com um círculo restrito. A sua obra principal, que inclui poemas icónicos como "The Wreck of the Deutschland" e "Pied Beauty", foi reunida e publicada postumamente pelo seu amigo e colega jesuíta Robert Bridges, que reconheceu o génio do poeta.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Hopkins é notável pela sua experimentação formal e pela sua linguagem intensa e original. O seu tema central é a profunda relação entre Deus e a criação, explorando a beleza e a vitalidade do mundo natural como manifestações do divino. Hopkins desenvolveu o conceito de "sprung rhythm" (ritmo saltado), um novo sistema métrico que se afastava das convenções tradicionais, buscando aproximar o ritmo da poesia ao da fala e da respiração natural. O seu vocabulário é rico e inventivo, frequentemente recorrendo a neologismos, arcaísmos e palavras de origem dialetal para criar um efeito de frescura e força. A sua voz poética é apaixonada, espiritual e profundamente observadora, capaz de capturar a essência das coisas através de imagens vívidas e precisas.

Contexto cultural e histórico

Hopkins viveu numa época de intensa atividade intelectual e religiosa na Grã-Bretanha. A sua conversão ao catolicismo colocou-o numa posição marginal na sociedade vitoriana, onde o anglicanismo era a norma. A sua obra reflete as tensões entre a fé e a modernidade, a ciência e a religião, que caracterizaram o período. A sua poesia, apesar de profundamente pessoal e espiritual, dialoga com as preocupações da sua época através da sua exploração da natureza e da busca por significado num mundo em rápida mudança. A sua ligação à tradição literária inglesa é evidente, mas o seu estilo inovador aponta para as vanguardas do século XX.

Vida pessoal

A vida de Hopkins foi dedicada à sua vocação jesuíta, que o levou a uma vida de rigor, disciplina e serviço. As suas relações pessoais foram marcadas pela sua pertença à ordem religiosa, com fortes laços de amizade entre os seus confrades. A sua correspondência, especialmente com Robert Bridges, revela a sua paixão pela poesia e a sua luta para conciliar a sua arte com os seus deveres espirituais. As suas experiências como professor e pároco, bem como as suas crises espirituais, são aspetos da sua vida que se refletem na profundidade e complexidade da sua obra.

Reconhecimento e receção

Em vida, Gerard Manley Hopkins teve pouco reconhecimento como poeta. A sua obra só começou a ser conhecida e apreciada após a publicação póstuma em 1918. A partir daí, a sua influência cresceu exponencialmente, e ele é agora considerado um dos poetas mais inovadores e importantes da literatura inglesa. A sua originalidade formal e a sua visão espiritual inspiraram inúmeros poetas do século XX, como W. H. Auden e Dylan Thomas.

Influências e legado

As influências de Hopkins incluem poetas da Antiguidade Clássica, a Bíblia, e poetas ingleses como John Keats e George Herbert. O seu legado é imenso, tendo revolucionado a métrica e a linguagem poética. A sua exploração do "sprung rhythm" abriu novas possibilidades para a expressão poética, e a sua visão da natureza como reflexo da glória divina continua a inspirar leitores e artistas. A sua obra é estudada em universidades de todo o mundo e a sua influência pode ser sentida em diversas correntes da poesia contemporânea.

Interpretação e análise crítica

A obra de Hopkins tem sido objeto de vasta análise crítica, focada na sua complexidade formal, na sua espiritualidade e na sua relação com a natureza. A interpretação dos seus poemas frequentemente envolve a compreensão da teologia jesuíta e da sua visão do "inscape" (a essência única de cada ser) e do "pitch" (a energia que liga as coisas). As controvérsias críticas centram-se por vezes na dificuldade da sua linguagem ou na interpretação da sua profunda fé num mundo cada vez mais secularizado.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Uma curiosidade sobre Hopkins é o seu entusiasmo pela música e pelas artes visuais, que se refletem na sonoridade e na imagem da sua poesia. A sua dedicação à pintura e ao desenho, especialmente em Oxford, demonstra a sua formação artística. A sua preocupação com o detalhe na observação da natureza é lendária, e ele frequentemente fazia esboços detalhados de paisagens e elementos naturais. A sua paixão por cores vibrantes é também um aspeto marcante.

Morte e memória

Gerard Manley Hopkins faleceu em 1889, aos 44 anos, vítima de febre escarlatina. A sua memória foi preservada e amplificada pela publicação póstuma da sua obra. O seu reconhecimento como um dos grandes poetas ingleses só se consolidou nas décadas seguintes à sua morte, transformando-o numa figura central na história da literatura.

Poemas

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A Grandeza de Deus

O mundo está carregado da grandeza de Deus.
Vai chamejar — chispas em sacudidas folhas de metal;
Vai expandir-se — óleo que imprensado escorre, tal e qual,
E alaga. Por que o homem não teme o açoite dos céus?
Gerações têm caminhado, quanto elas têm caminhado!
Tudo tem manchas de homem, partilha cheiro de homem,
O solo está desnudo, mas pés calçados não o sentem;
Pelas lides, pelo tráfego, um mundo sujo e crestado;
E, apesar disso tudo, a natureza nunca se esgota;
Todas as coisas nela vivem num frescor renovado;
Inda que no turvo ocaso sumam as últimas luzes,
A manhã, na fímbria castanha do oriente, brota —
Porque o Espírito Santo, sobre este mundo vergado,
Vigia com peito cálido e oh! luzentes asas.
(tradução de Aíla de Oliveira Gomes)
:
God’s Grandeur
Gerard Manley Hopkins
THE WORLD is charged with the grandeur of God.
It will flame out, like shining from shook foil;
It gathers to a greatness, like the ooze of oil
Crushed. Why do men then now not reck his rod?
Generations have trod, have trod, have trod;
And all is seared with trade; bleared, smeared with toil;
And wears man’s smudge and shares man’s smell: the soil
Is bare now, nor can foot feel, being shod.
And for all this, nature is never spent;
There lives the dearest freshness deep down things;
And though the last lights off the black West went
Oh, morning, at the brown brink eastward, springs—
Because the Holy Ghost over the bent
World broods with warm breast and with ah! bright wings.
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Acordo, me corta a noite escura

Acordo, me corta a noite escura, não o dia,
Que horas, Oh que negras horas nós não vimos
Esta noite! que visões, coração; e caminhos!
E veremos, na longa espera da luz tardia.
Tal falo com testemunha. Mas quando digo
Horas, digo anos, vida. E minha desdita
São gritos incontáveis, cartas remetidas
Pra tão longe, ah!, ao ser que me é querido.
Sou fel, sou cor-combustão. Foi Deus que escolheu
Amargo o meu sabor: e meu sabor fui eu;
Ossos alçou, saturou meu sangue em castigo.
A levedura da alma amarga a massa ao leu.
Sou como os perdidos, seu castigo é o meu
Ser só um sudorento ser; mas é pior comigo.
(tradução de William Zeytounlian)
:
[I wake and feel the fell of dark, not day]
Gerard Manley Hopkins
I WAKE and feel the fell of dark, not day.
What hours, O what black hours we have spent
This night! what sights you, heart, saw; ways you went!
And more must, in yet longer light's delay.
With witness I speak this. But where I say
Hours I mean years, mean life. And my lament
Is cries countless, cries like dead letters sent
To dearest him that lives alas! away.
I am gall, I am heartburn. God's most deep decree
Bitter would have me taste: my taste was me;
Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse.
Selfyeast of spirit a dull dough sours. I see
The lost are like this, and their scourge to be
As I am mine, their sweating selves; but worse.
.
.
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Lanterna Externa

Uma lanterna move-se na noite escura,
Que às vezes nos apraz olhar. Quem anda
Ali? – medito. De onde, para onde o manda
Dentro da escuridão essa luz insegura?

Homens passam por mim, cuja beleza pura
Em molde ou mente ou mais um dom maior demanda.
Chovem em nosso ar pesado a sua branda
Luz, até que distância ou morte os desfigura.

Morte ou distância vêm. Por mais que para vê-los
Volteie a vista, é em vão: eu perco o que persigo.
Longe do meu olhar, longe dos meus desvelos

Cristo vela. E o olhar de Cristo, em paz ou perigo,
Os vê, coração quer, amor provê, pé ante pé, com suaves zelos:
Resgate e redenção, primeiro, íntimo e último amigo.

(tradução de Augusto de Campos)

:

The Lantern out of Doors
Gerard Manley Hopkins

SOMETIMES a lantern moves along the night,
That interests our eyes. And who goes there?
I think; where from and bound, I wonder, where,
With, all down darkness wide, his wading light?

Men go by me whom either beauty bright
In mould or mind or what not else makes rare:
They rain against our much-thick and marsh air
Rich beams, till death or distance buys them quite.

Death or distance soon consumes them: wind
What most I may eye after, be in at the end
I cannot, and out of sight is out of mind.

Christ minds: Christ’s interest, what to avow or amend
There, éyes them, heart wánts, care haúnts, foot fóllows kínd,
Their ránsom, théir rescue, ánd first, fást, last friénd.

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