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Passa entre as sombras de arvoredo Um vago vento que parece Que não passou, que passa a medo, Ou que há porque desaparece. O ouvido escuta o não-ouvir, A alma, no ouvido debruçada, Sente uma angústia a não sentir E quer melhor ou pior que nada. É como quando a alma não tem Quem ame, quem spere ou quem sinta, Quando considera um bem O próprio mal, desde que não minta. E entre onde as sombras do arvoredo Sequestram sons e brisas prendem, Este não passar passa a medo E certas folhas se desprendem. Então porque há folhas que caem, Volta a ilusão de haver o vento, Mas elas, caindo hirtas, traem, Que não há brisa no momento. Oh, som sozinho dessa queda Das folhas secas no ermo chão, Oh, som de nunca usada seda Apertada na inútil mão, Com que terrível semelhança A qualquer voz feita em bruxedo, Lembrais a morte e a desesp'rança, E o que não passa passa a medo. 18/10/1930
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Fernando Pessoa
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