Lista de Poemas

Não Voltarei a Ser Jovem

Que é certo a vida passa
só se começa a compreender mais tarde
— como todos os jovens, decidi
levar a minha vida por diante.
Deixar marca eu queria
e partir entre aplausos
— envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.
Porém, passou o tempo
e a verdade mais amarga assoma:
envelhecer, morrer,
é o argumento único da obra.
(dePoemas Póstumos)
1 177

Contra Jaime Gil de Biedma

Que adianta, gostaria de saber, mudar de casa,
deixar para trás uma cave mais negra
que a minha fama – e já é dizer muito –,
por cortinas brancas
e arranjar criada,
renunciar à vida de boémio,
se vens tu depois, calaceiro,
embaraçoso hóspede, pateta vestido com meus fatos,
zangão de colmeia, inútil, néscio,
com tuas mãos lavadas,
sujar-me a casa e comer no meu prato?

Acompanham-te os balcões dos bares
derradeiros da noite, os chulos, as floristas,
as ruas mortas da alvorada
e os ascensores de luz amarelenta
quando, bêbado, chegas
e páras a olhar no espelho
a cara destruída,
com olhos ainda violentos
que não queres fechar. E se te increpo,
ris-te, recordas-me o passado
e dizes que envelheço.

Poderia lembrar-te que já não tens graça.
Que teu estilo casual, teu desenfado
chegam a ser truculentos
quando se tem mais de trinta anos,
e o teu encantador
sorriso de jovem sonolento
– certo de agradar – é um resto pungente,
um propósito patético.
Enquanto me fitas com teus olhos
de verdadeiro órfão, e choras
e me prometes que não o fazes mais.

Se não fosses tão puta!
E se eu não soubesse, há algum tempo,
que és forte quando sou débil
e que és débil quando me enfureço...
De teus regressos guardo uma impressão confusa
de pânico, pena e descontentamento,
e o desespero
e a impaciência e o ressentimento
de voltar a sofrer, outra vez mais,
a humilhação imperdoável
da excessiva intimidade.

Com muito custo, levar-te-ei pra cama,
como quem vai ao inferno
para dormir contigo.
Morrendo a cada passo de impotência,
tropeçando nos móveis,
às cegas, atravessamos o andar
torpemente abraçados, vacilando
de álcool e soluços reprimidos.
Oh ignóbil servidão de amar seres humanos,
e a mais ignóbil
que é amar-se a si próprio!

(de Poemas Póstumos)

1 582

Voltar

Minha lembrança eram imagens,
no instante, de ti:
essa expressão e um matiz
dos olhos, um pouco suave

na inflexão de tua voz,
e teus bocejos furtivos
de lebréu que dormiu mal
toda a noite em meu quarto.

Voltar, passados os anos,
rumo à felicidade
— para ver-se e recordar
que estou também mudado.

(de Moralidades)

826

Peeping Tom

Olhos de solitário, rapazinho atônito
que surpreendi a olhar-nos
naquele pinhalzinho, junto à Faculdade de Letras,
há mais de onze anos,

quando ia a separar-me,
ainda aturdido de saliva e areia,
depois de nos rebolarmos os dois meio vestidos,
felizes como bichos.

Tua lembrança, é curioso
com que dissimulada intensidade de símbolo,
está unida àquela história,
minha primeira experiência de amor correspondido.

Pergunto-me por vezes que é feito de ti.
E se agora em tuas noites junto a um corpo
regressa a velha cena
e ainda espreitas nossos beijos.

Assim do passado volta a mim,
como um grito desconexo,
a imagem de teus olhos. Expressão
do meu próprio desejo.

(de Moralidades)

985

Pelo Visto

Pelo visto é possível manifestar-se homem.
Pelo visto é possível dizer não.
De uma vez e na rua, de uma vez, por todos
e por todas as vezes em que não podemos.

Importa pelo visto o facto de estar vivo.
Importa pelo visto que até a injusta força
precise, admita nossas vidas, esses mínimos actos
cada dia na rua realizados por todos.

E será preciso não esquecer a lição:
saber, a cada instante, que no gesto que fazemos
há uma arma escondida, saber que estamos vivos
ainda. E que a vida
é possível ainda, pelo visto.

(de Companheiros de Viagem)

*

Pandémica e Celeste

quam magnus numerus Libyssae harenae
aut quam sidera multa, cum tacet nox,
furtivos hominum vident amores
Catulo, VII

Imagina agora que tu e eu
muito tarde na noite
vamos falar de homem para homem, finalmente.
Imagina-o,
numa dessas noites memoráveis
de rara comunhão, com a garrafa
meio vazia, os cinzeiros sujos,
e depois de esgotado o tema da vida.
Que te vou mostrar um coração,
um coração infiel,
nu da cintura para baixo,
leitor hipócrita – mon semblable, – mon frère!

Porque não é a impaciência do buscador de orgasmos
que me atira do corpo para outros corpos
jovens, se for possível:
procuro também o doce amor,
o terno amor que adormeça a meu lado
e alegre a minha cama ao acordar,
próximo como um pássaro.
Se jamais posso despir-me,
se nunca pude penetrar nuns braços
sem sentir – ainda que só por um momento –
igual deslumbramento que aos vinte anos!

Para saber de amor, para aprendê-lo,
ter estado sozinho é necessário.
E é necessário em quatrocentas noites
– com quatrocentos corpos diferentes –
ter feito amor. Que seus mistérios,
como disse o poeta, são da alma,
mas um corpo é o livro onde se lêem.

E por isso me alegro de me ter rebolado
sobre a areia espessa, os dois meio vestidos,
enquanto buscava esse tendão do ombro.
Comove-me a lembrança de tantas ocasiões...
Aquela estrada de montanha
e os bem empregados abraços furtivos
e o instante indefeso, de pé, após a travagem,
colados contra o muro, ofuscados pelas luzes.
Ou aquele entardecer perto do rio,
nus e a rir-nos, coroados de hera.
Ou aquele portal em Roma – em via del Babuino.
E lembranças de caras e cidades
quase desconhecidas, de corpos entrevistos,
de escadas sem luz, de camarotes,
de bares, de passagens desertas, de prostíbulos,
e de infinitas barracas de praia,
de fossos de um castelo.
Lembranças vossas, sobretudo,
oh noites em hotéis de uma só noite,
definitivas noites em sórdidas pensões,
em quartos recém-frios,
noites que devolveis a vossos hóspedes
um esquecido sabor a si próprios!
A história em corpo e alma, como uma imagem destruída,
de la langueur goutée à ce mal d’être deux.
Sem desprezar
– alegres como um feriado a meio da semana –
as experiências da promiscuidade.

Embora saiba que nada me valeriam
trabalhos de amor disperso
se não houvesse o verdadeiro amor.
Meu amor,
imagem total da minha vida,
sol das próprias noites que lhe roubo.

Sua juventude, a minha,
– música de meu fundo –
sorri ainda na imprecisa graça
de cada corpo jovem,
em cada encontro anônimo,
iluminando-o. Dando-lhe uma alma.
E não há coxas formosas
que não me façam pensar em suas formosas coxas
quando nos conhecemos, antes de irmos para a cama.

Nem paixão de uma noite de dormida
que possa comparar-se
com a paixão que dá o conhecimento,
os anos de experiência
do nosso amor.
Porque em amor também
é importante o tempo,
e doce, de algum modo,
verificar com mão melancólica
sua perceptível passagem por um corpo
– enquanto basta uma expressão familiar
nos lábios,
ou a ligeira palpitação de um membro,
para me fazer sentir a maravilha
daquela graça antiga,
fugaz como um reflexo.

Sobre sua pele esvaída,
quando passem mais anos e estejamos no fim,
quero esmagar os lábios invocando
a imagem do seu corpo
e de todos os corpos que alguma vez amei
ainda que um só instante, desfeitos pelo tempo.
Para pedir a força de poder viver
sem beleza, sem força e sem desejo,
enquanto continuamos juntos
até morrer em paz, os dois,
como dizem que morrem os que amaram muito.

(de Moralidades)

923

Valsa do Aniversário

Não há nada tão doce como um quarto
para dois, quando já não nos queremos demasiado,
nos arredores da cidade, num hotel calmo,
e casais duvidosos e uma criança com gânglios,
se não é esta leve sensação
de irrealidade. Algo como o estio
em casa de meus pais, há algum tempo,
como viagens nocturnas de comboio. Chamo-te
para dizer que não te digo nada
que já não saibas, ou talvez
para beijar-te vagamente
mesmo nos lábios.
Saíste da varanda.
O quarto escureceu
enquanto nos olhamos, contrafeitos
por não sentirmos o peso de três anos.
Tudo é igual, parece
que não foi ontem. E este sabor nostálgico,
que os silêncios nos põem na boca,
possivelmente leva-nos ao equívoco
de nossos sentimentos. Mas não
sem alguma reserva, pois sob isto
algo mais forte vence e é (para dizê-lo
talvez de um modo menos impreciso)
difícil recordar que nos queremos,
se não for com certa imprecisão, e o sábado,
que é hoje, fica tão próximo
de ontem ao fim do dia e de depois
de amanhã
pela manhã...
(de Companheiros de Viagem)
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Identificação e contexto básico

Jaime Gil de Biedma foi um poeta espanhol, nascido em Barcelona e falecido na mesma cidade. Foi uma figura central da chamada Generación de los 50 ou Generación de medio siglo, um grupo de escritores que emergiram na Espanha do pós-guerra. Escrevia em castelhano. O seu contexto histórico foi o da Espanha franquista, um período de repressão política e cultural que influenciou a sua obra, levando-o a um certo hermetismo e introspeção.

Infância e formação

Nascido numa família aristocrática catalã, Gil de Biedma teve uma educação privilegiada. Estudou Direito na Universidade de Barcelona e completou a sua formação com estágios em Londres, onde entrou em contacto com a literatura e a cultura anglo-saxónicas, que viriam a influenciar a sua escrita. Esta experiência internacional marcou profundamente a sua visão de mundo e o seu estilo literário.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se no ambiente universitário e em círculos intelectuais de Barcelona. A sua obra poética, embora publicada em grande parte postumamente, começou a ser escrita na década de 1950. Publicou alguns poemas em revistas literárias e antologias da época, mas a compilação e difusão da sua obra consolidaram-se após a sua morte. A sua evolução poética é marcada por uma crescente depuração formal e uma maior profundidade existencial.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Jaime Gil de Biedma incluem "Variaciones sobre tema amoroso" (1954), "El pie de la letra" (1957) e "Moralitats" (1960), que foram posteriormente reunidas em "Poesía completa" (1974). Os temas centrais da sua obra são o amor (muitas vezes homossexual e não correspondido), a morte, a passagem inexorável do tempo, a melancolia, a solidão, a memória e a busca por uma identidade autêntica num contexto social repressivo. O seu estilo é caracterizado pela clareza, pela precisão léxica, pelo uso de um verso livre mas rigoroso, e por uma honestidade brutal na expressão dos seus sentimentos e das suas angústias. A sua voz poética é pessoal e confessional, mas atinge uma dimensão universal. A sua linguagem é despojada de ornamentos excessivos, privilegiando a intensidade emocional e a reflexão.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Gil de Biedma viveu a maior parte da sua vida sob o regime franquista, um período de grande censura e isolamento cultural da Espanha. Apesar disso, manteve contacto com a produção literária internacional, especialmente a anglo-saxónica. Pertenceu à Generación de los 50, que procurava renovar a poesia espanhola, afastando-se do lirismo excessivo e aproximando-se de uma linguagem mais coloquial e direta, sem, no entanto, abandonar a profundidade expressiva.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Jaime Gil de Biedma teve uma vida pessoal marcada por relações afetivas complexas e pela consciência da sua homossexualidade num contexto social conservador. Trabalhou na área de direitos autorais numa editora, o que lhe permitiu ter um contacto próximo com o mundo literário. Sofreu de uma doença crónica (um cancro) que o acompanhou nos seus últimos anos de vida, tema que se reflete em algumas das suas composições.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha sido publicada em grande parte postumamente, Jaime Gil de Biedma é hoje considerado um dos poetas mais importantes da literatura espanhola do século XX. A sua poesia, inicialmente conhecida em círculos restritos, ganhou ampla difusão e reconhecimento académico, sendo estudada e admirada pela sua modernidade, pela sua força lírica e pela sua integridade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por poetas como W. H. Auden, T. S. Eliot e Federico García Lorca. O seu legado é notável pela forma como introduziu uma voz poética genuinamente moderna e confessional na poesia espanhola, abrindo caminho para poetas posteriores que exploraram a intimidade e a experiência pessoal com franqueza. A sua obra é considerada um marco na poesia contemporânea em língua espanhola.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Gil de Biedma é frequentemente analisada sob a ótica da sua experiência como homossexual na Espanha franquista, da sua luta contra a doença e da sua profunda meditação sobre a efemeridade da vida e a busca por sentido. As suas reflexões sobre a memória e a identidade são centrais nas interpretações críticas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Jaime Gil de Biedma era conhecido pela sua inteligência mordaz, pelo seu humor irónico e pela sua elegância. Um aspeto curioso é a sua relação com o mundo empresarial, contrastando com a sua sensibilidade poética. A sua correspondência e diários, quando publicados, revelam um homem de grande profundidade e complexidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Barcelona vítima de cancro. A sua morte prematura acentuou o reconhecimento da sua obra, impulsionando a publicação póstuma de "Poesía completa", que se tornou um livro de referência. A sua memória é mantida viva através de estudos, edições e da sua contínua presença nas antologias de poesia espanhola.