Lista de Poemas

O boi branco

Esta constelação em forma de cruz, é ela o Cruzeiro do Sul?
Eu prefiro chamá-la Boi-branco, como os Árabes.
Ele vem de um parque que se estende às margens da noite
e se enfurna entre duas Vias Lácteas.
O rio de luz não tem aplacado sua sede,
e ei-lo que bebe avidamente do golfo das nebulosas.
Sendo um efebo cego nas regiões do dia,
ele nada tem podido acariciar com seus cornos;
mas, agora que as flores nascem nas pradarias da noite
e que a lua brota de um salto como um touro,
seus olhos recobram a visão, e ele parece mais forte que os bois azuis
e os bois selvagens que dormem em nossos desertos.
Le boeuf-blanc
Cette constellation en forme de croix est-elle l’Étoile du Sud?
Je préfère l’appeler Boeuf-blanc, comme les Arabes.
Il vient d’un parc s’étendant au bord du soir
et s’engage entre deux voies lactées.
Le fleuve de la lumière ne l’a pas désaltéré,
et le voici qui boit avidement au golfe des nébuleuses.
Etant un éphèbe aveugle dans les régions du jour,
il n’a pu rien y caresser avec ses cornes;
mais, maintenant que des fleurs naissent aux prairies de la nuit
et que la lunes les broute en bondissant comme une taure,
ses yeux recouvrent la vue, et il paraît plus fort que les boeufs bleus
et les boeufs sauvages qui dorment dans nos déserts.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 048

Ler

Não faças ruído, não fales:
vão explorar uma floresta os olhos, o coração
o espírito, os sonhos...
Floresta secreta, porém palpável:
floresta.
Floresta de rumoroso silêncio,
floresta onde se refugiou o pássaro que se prende à laço,
o pássaro que se prende à laço, que faremos cantar
ou que faremos chorar.
Que faremos cantar, que faremos chorar
o lugar de seu nascimento.
Floresta. Pássaro.
Floresta secreta, pássaro oculto
em vossas mãos.
Lire
Ne faites pas de bruit, ne parlez pas:
vont explorer une forêt les yeux, le coeur,
l’espirit, les songes...
Forêt secrète bien que palpable:
forêt.
Forêt bruissant de silence,
forêt où s’est évadé l’oiseau à prendre au piège,
l’oiseau à prendre au piège qu’on fera chanter
ou qu’on fera pleurer.
A qui l’on fera chanter, à qui l’on fera pleurer
le lieu de son éclosion.
Forêt. Oiseau.
Forêt secrète, oiseau caché
dans vos mains.
tradução de Antônio Moura e originais em francês
(incluídos no volumeQuase Sonhos, publicado pela Lumme Editor)
1 235

Comentários (0)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

NoComments

Identificação e contexto básico

Jean-Joseph Rabearivelo foi um proeminente poeta malgaxo. Pseudónimo de Rabearivelo, é amplamente reconhecido como o maior poeta de Madagáscar. Nasceu em Antananarivo. O contexto histórico em que viveu foi o da colonização francesa de Madagáscar, um período de profundas transformações sociais e culturais que marcou a sua obra.

Infância e formação

Rabearivelo teve uma infância marcada por dificuldades, tendo perdido os pais precocemente e sido criado por familiares. A sua formação foi em grande parte autodidata, devorando livros em francês e português, e absorvendo tanto a cultura ocidental quanto a rica tradição oral malgaxo. A educação formal, embora limitada, proporcionou-lhe o acesso a uma vasta gama de conhecimentos. Influenciou-se fortemente pelas leituras de poetas simbolistas franceses, como Baudelaire e Verlaine, mas também pela história e mitologia malgaxas.

Percurso literário

O início da escrita de Rabearivelo deu-se na juventude, impulsionado por um desejo profundo de expressar a sua identidade e as complexidades da sua terra sob o jugo colonial. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, transitando de uma exploração inicial de temas mais universais para um mergulho cada vez mais profundo nas especificidades da cultura malgaxo e na sua própria experiência existencial. Colaborou em diversas publicações literárias da época, contribuindo para a difusão da sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

As obras principais de Rabearivelo incluem "La Coupe de Sève" (A Taça de Seiva), "Sylves" (Selvas) e "Traduit de tous les soleils" (Traduzido de Todos os Sóis). Os temas dominantes na sua poesia são a identidade malgaxo, a nostalgia, a morte, a passagem do tempo, a relação com os ancestrais e a resistência cultural face à colonização. Utilizou uma linguagem rica e evocativa, com forte musicalidade e densidade imagética, muitas vezes inspirada na tradição oral. O seu estilo é frequentemente melancólico, lírico e introspectivo, com uma voz poética que busca a universalidade na experiência particular. Rabearivelo é associado ao movimento simbolista, mas a sua originalidade reside na fusão única com elementos culturais africanos.

Contexto cultural e histórico

Rabearivelo viveu e escreveu sob o domínio colonial francês, um período de repressão cultural e exploração. Esta realidade histórica permeia a sua obra, que frequentemente evoca a perda da soberania e a busca por uma identidade malgaxo autêntica. A sua poesia dialoga com a tradição oral malgaxo e com a poesia simbolista europeia, criando uma ponte entre o local e o universal. Foi um dos primeiros poetas africanos a ganhar reconhecimento internacional.

Vida pessoal

A vida pessoal de Rabearivelo foi marcada por dificuldades financeiras e uma saúde frágil. As suas relações familiares, embora complexas devido à perda precoce dos pais, nutriram a sua sensibilidade e a sua busca por raízes. A sua dedicação à poesia era total, dedicando a sua vida à escrita e à exploração da sua cultura. As suas crenças espirituais e filosóficas eram profundamente ligadas à cosmovisão malgaxo.

Reconhecimento e receção

Embora o reconhecimento em vida tenha sido limitado a círculos específicos, Jean-Joseph Rabearivelo é hoje aclamado como um dos maiores poetas africanos do século XX. A sua obra tem sido objeto de estudo e admiração, sendo traduzida para diversas línguas, o que atesta o seu lugar no cânone literário internacional.

Influências e legado

Rabearivelo foi influenciado por poetas simbolistas franceses como Charles Baudelaire e Paul Verlaine, mas também pela rica tradição oral e mitológica de Madagáscar. O seu legado reside na sua capacidade de fundir estas influências, criando uma voz poética inconfundível que influenciou gerações posteriores de poetas africanos e malgaxos. A sua obra é um testemunho da resiliência cultural e da riqueza da expressão artística africana.

Interpretação e análise crítica

A obra de Rabearivelo tem sido interpretada sob diversas perspetivas, incluindo a análise pós-colonial e estudos comparativos com a literatura ocidental. A sua poesia convida a reflexões sobre a identidade, a memória histórica e a universalidade da experiência humana, mesmo no contexto específico da colonização.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Rabearivelo era conhecido pela sua intensa dedicação à escrita e pela sua profunda melancolia. Passava longas horas imerso em leituras e na criação poética, muitas vezes em condições de grande pobreza. A sua obra é um reflexo da sua luta pela expressão cultural em meio a um ambiente opressor.

Morte e memória

Jean-Joseph Rabearivelo faleceu em 1937. As circunstâncias da sua morte são frequentemente associadas à sua fragilidade e melancolia. Publicações póstumas continuaram a divulgar a sua obra, consolidando a sua importância na literatura mundial.