Lista de Poemas

A F., favorecendo com a boca e desprezando com os olhos

Quando o Sol nasce e a sombra principia,
A doce abelha, a borboleta airosa
Procura luz ardente e fresca rosa,
Que faz a Terra céu e a noite dia.

Mas quando à flor se entrega, à luz se fia,
Uma fica infeliz, outra ditosa,
Pois vive a abelha e morre a mariposa
Na favorável rosa e chama impia.

Fílis, abelha sou, sou borboleta
Que com afecto igual, com igual sorte,
Busco em vós melhor luz, flor mais selecta,

Mas quando a flor é branda, a chama é forte,
Néctar acho na flor, na luz cometa,
A boca me dá vida, os olhos morte.
4 398

Falando com Deus

Só vos conhece, amor, quem se conhece;
Só vos entende bem quem bem se entende;
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica em vós floresce;
Só é senhor de si quem se vos rende;
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por vós quem por vós desce.

Quem tudo por vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em vós cabe.
Ditoso quem no vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha.
Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.
3 254

A uma trança de cabelos negros

Diversa em cor, igual em bizarria
Sois, bela trança, ao lustre de Sofala,
Luto por negra, por vistosa gala,
Nas cores noite, na beleza dia.

Negra, porém de amor na monarquia
Reinais senhora, não servis vassala;
Sombra, mas toda a luz não vos iguala;
Tristeza, mas venceis toda a alegria.

Tudo sois, mas eu tenho resoluto
Que sois só na aparência enganadora
Negra, noite, tristeza, sombra, luto.

Porém na essência, ó doce matadora,
Quem não dirá que sois, e não diz muito,
Dia, gala, alegria, luz, senhora?
3 241

Ao rigor de Lísi

Mais dura, mais cruel, mais rigorosa
Sois, Lísi, que o cometa, rocha ou muro
Mais rigoroso, mais cruel, mais duro,
Que o Céu vê, cerca o mar, a terra goza.

Sois mais rica, mais bela, mais lustrosa
Que a perla, rosa, Sol ou jasmim puro,
Pois por vós fica feio, pobre e escuro,
Sol em Céu, perla em mar, em jardim rosa.

Não viu tão doce, plácida e amena,
(Brame o mar, trema a terra, o Céu se agrave),
Luz o Céu, ave a terra, o mar sirena.

Vós triunfais de sirena', luz e ave,
Claro Sol, perla fina, rosa amena,
Mor cometa, árduo muro, rocha grave.
2 540

Retrato

Vi Fílis, a bela,
Lume dos meus olhos,
Olhos de minha alma,
Alma de meu corpo.
Vi-a, e logo amor.
Vi-a, e Febo logo
Quer que a pinte a cores,
Quer que a cante a coros.
Meti-me em debuxos,
E saí com tonos.
Quem me fora Apeles!
Quem me fora Apolo!
Seu rico cabelo,
Do mais precioso,
Mil troféus alcança
E logra mil louros.
Os raios enlaça,
Para mal dos olhos.
Todo ele é nós cegos,
E nós, cegos todos.
O campo da testa
Belo e belicoso,
Faz de neve fronte
A esquadrão de fogo.
Seus olhos rasgados
De avarentos noto,
Pois quanto mais ricos
Tanto estão mais rotos.
São mar de beleza
Que me tem absorto,
E suas meninas
São os seus cachopos.
Dormidos se mostram,
Mas sabem (que assombro!)
Mais eles dormidos
Que espertos os outros.
Altamente dormem,
Mas entre os seus sonhos,
Mais que de dormidos,
Roncam de formosos.
Feito de apanhia,
Mistura o seu rosto
Com o branco o tinto,
De neve entre copos.
O nariz e as faces
Têm câmbio cheiroso:
Elas flores dão,
Ele dá Favónios.
A boca parece,
Se mal a não apodo,
Pela cor, ferida,
Pelo breve, ponto.
De seus dentes, quando
Descobre o tesouro,
O aljôfar se mete
Nas conchas medroso.
Por ser tão tenrinho,
Tão de leite todo,
Seu colo podia
Andar inda ao colo.
É tão rica jóia,
Brinco tão formoso,
Que todos os dias
O traz ao pescoço.
Põe a mão galharda,
Por quem vivo e morro,
O papel de tinta,
A neve de lodo.
Tudo nela é branco;
Porém eu me assombro
De topar as setas
Onde o alvo topo.
São seus pés tão breves,
Que estes versos toscos
Com ser tão pequenos,
Lhe ficam mui longos.
1 503

A um pé pequeno

Pues os jusgan las ansias del sentido
Instante de jasmin, concepto breve,
Atomo de açucena presumido,
Sospecha de crystal, susto de nieve;

No pié, mentira sois, pues, como aleve,
Ni verdad en un punto haveis cumplido.
Antes digo que escrupulo haveis sido,
Pues de ser o no ser la duda os mueve.

Como, si idea sois de ojos tan claros,
Hazeis la vista fé para creeros,
Y hazeis los ojos fé para miraros?

Yo me persuado en fin, que hede perderos,
Porque si el veros es imaginaros,
Siendo imaginacion, como hede veros?
1 280

Madrigal a uma crueldade formosa

A minha bela ingrata
Cabelo de ouro tem, fronte de prata,
De bronze o coração, de aço o peito;
São os olhos reluzentes
(Por quem choro e suspiro,
Desfeito em cinza, em lágrimas desfeito),
Celestial safiro;
Os beiços são rubins, perlas os dentes;
A lustrosa garganta
De mármore polido;
A mão de jaspe, de alabastro a planta.
Que muito, pois, Cupido,
Que tenha tal rigor tanta lindeza,
As feições milagrosas,
Para igualar desdéns a formosuras,
De preciosos metais, pedras preciosas,
E de duros metais, de pedras duras?
2 094

Sonhando que via a Márcia

Pintais, sono gentil, com belo ornato
Meu claro sol na vossa sombra escura,
Que posto que da morte sois retrato,
Retrato sabeis ser da fermosura.

Eu, vendo o grato rosto e peito ingrato,
Quando fermosa a sigo a temo dura;
Porém firme no amor, fácil no trato,
Me coroa a esperança, a fé me jura.

Cante pois por tal glória, por tal sorte,
Cante vosso louvor, minha Talia
No Ocaso, no Oriente, Sul e Borte;

Chame-vos clara luz, não sombra fria,
Causa da vida, não irmão da morte,
Filho da noite não, mas pai do dia.
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Identificação e contexto básico

Jerónimo Baía foi um poeta português do Renascimento. Nasceu em Vila Viçosa, Portugal, em data incerta, mas que se situa na primeira metade do século XVI. Faleceu em 1597, em Évora. Pertencia a uma família de alguma proeminência local, o que lhe permitiu ter acesso a uma educação sólida. Foi um dos nomes relevantes da poesia portuguesa da sua época, escrevendo em português.

Infância e formação

Detentor de uma formação humanística, Jerónimo Baía estudou em Coimbra, onde provavelmente frequentou a Universidade, adquirindo conhecimentos em latim, grego, filosofia e literatura clássica. Esta formação erudita marcou profundamente a sua obra, impregnando-a de referências clássicas e de um tom reflexivo.

Percurso literário

O percurso literário de Jerónimo Baía desenvolveu-se num contexto de florescimento das letras portuguesas, sob o signo do Renascimento. A sua obra principal, a "Poesia", foi publicada postumamente. Dedicou-se à poesia lírica, com poemas que refletem a influência dos modelos clássicos e renascentistas italianos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Jerónimo Baía é predominantemente poética e é marcada pela influência do Classicismo e do Humanismo. Os seus poemas abordam temas como a fugacidade da vida, a passagem do tempo, a vaidade das glórias terrenas, a busca pela sabedoria e pela virtude, e a reflexão sobre a condição humana. O estilo de Baía é caracterizado pela erudição, pela linguagem cuidada e pelo uso de formas poéticas inspiradas nos modelos greco-latinos, como o soneto e a ode. O seu tom é frequentemente filosófico e melancólico, refletindo uma visão ponderada e por vezes sombria da existência. A sua obra "Poesia", publicada em 1597, é um marco do seu percurso.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Jerónimo Baía viveu num período crucial da história portuguesa, o Renascimento, época de grande expansão marítima, mas também de introspecção intelectual e artística. Pertenceu a uma geração de poetas que procuravam renovar a poesia portuguesa com base nos modelos clássicos e italianos, dialogando com figuras como Sá de Miranda e Luís de Camões, embora a sua obra seja menos conhecida que a destes últimos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Jerónimo Baía, para além da sua formação académica e da sua atividade literária. Acredita-se que tenha levado uma vida dedicada ao estudo e à escrita, influenciada pelo seu ambiente familiar e pela sua formação erudita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora Jerónimo Baía seja um poeta relevante para o estudo da poesia renascentista portuguesa, o seu reconhecimento em vida foi provavelmente limitado, com a sua obra a ganhar maior visibilidade após a publicação póstuma. A sua poesia é apreciada pela sua qualidade literária e pela sua profundidade reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Jerónimo Baía foi influenciado pelos poetas clássicos (Horácio, Virgílio) e pelos humanistas italianos. O seu legado reside na sua contribuição para a lírica renascentista portuguesa, com uma obra que demonstra a sofisticação intelectual e a sensibilidade poética da sua época. Influenciou, de forma mais discreta, a poesia posterior que seguiu os cânones clássicos.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Jerónimo Baía é frequentemente analisada sob a ótica da sua dimensão filosófica e existencial. Os seus poemas convidam a uma reflexão profunda sobre a transitoriedade da vida e a busca por valores duradouros, em consonância com o pensamento humanista da época.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da sua figura é a sua dedicação à poesia erudita num período em que a produção literária em Portugal passava por grandes transformações. A sua discrição pessoal contrasta com a profundidade da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Jerónimo Baía faleceu em 1597. A sua obra foi reunida e publicada postumamente, garantindo a preservação da sua memória e o acesso à sua produção poética para as gerações futuras.