Lista de Poemas

Primavera nos dentes

Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera
4 740

da escrita

Da poesia
faço
uma raiz
que gera
a haste
oculta
da palavra
em flor
____
Abro as portas
desta melancolia
fechada no poema
por nascer
e sinto essa magia
suprema
de o escrever
1 097

É preciso avisar...

É preciso avisar toda a gente
dar notícia informar prevenir
que por cada flor estrangulada
há milhões de sementes a florir



É preciso avisar toda a gente
segredar a palavra e a senha
engrossando a verdade corrente
duma força que nada detenha



É preciso avisar toda a gente
que há fogo no meio da floresta
e que os mortos apontam em frente
o caminho da esperança que resta



É preciso avisar toda a gente
transmitindo este morse de dores
É preciso imperioso e urgente
mais flores mais flores mais flores

3 413

A pressa de chegar...

A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer



A pressa de chegar
O desvario obtuso
O medo de parar
gasto pelo uso
de estar



A pressa de chegar
A pressa a louca pressa
de poder encontrar
aquilo que me esqueça
de levar



A pressa de chegar
correr correr
sem poder esperar
Chegar para morrer

.
.
.





1 440

ecologia lírica

A incógnita
acontece
na cor
que nasce
e reverdece
na flor

até ao limite
de olhá-la
como ela
é
____

O que é que cicia
o mistério (a essência)
desta atmosfera
de sol do meio dia
cuja transparência
parece que gera
o que a terra cria
____

Todos os mitos
imortais
cabem
subitamente
nos alicerces
originais
da semente
____

A pétala sabe
o destino oculto
de todas as coisas
onde o sol começa
____

Criar primeiro o ovo
para a raiz
do pássaro que voa
aquém da casca

Mudar depois as asas
da natureza
sem deixar de ser ave
e ser flor
gerar o movimento
assim eterno
da origem de ser

o que já é
____

O orvalho
respira
a solidão
da noite
na boca
da manhã
____

Um sopro
de luz
abre
no espaço
uma fenda
clara
para o dia
que nasce

1 201

os zeros relativos

Reduzo
o espaço
ao limite
do zero

nasce
o mundo
___

Não se pede à alma
que anteceda o corpo
se o nada só existe
depois de ser
concreto
____

Só das coisas reais
tenho o sentido
da transcendência

Não sei do homem mais
do que a essência
de ter vivido
____

Uma única
pétala
gera
um universo
de formas

em órbita
____

Tomo o ar
que respiro
e dou vida
aos deuses

invento a sombra
____

Do mar
faço a planície
para as estrelas
fecundarem a noite

os dinossauros
cantam
____

E da vida
faço este delírio
de batráquios
em fuga

roendo horizontes
____

Só na morte
ponho o zero
à esquerda
do zero

outro zero
começa
____

Depois
do ouro
velho
queremos
o vermelho

1 015

os infinitos íntimos

Não me cinjas
a voz
não me limites

não me queiras
assim
antecipado

Eu não existo
onde me pensas

Eu estou aqui
agora
é tudo
____

Esta causa
Que me retoma
Em cada dia

Age na esperança
Em que respira
Esta necessidade
De estar vivo
____

No círculo
em que se fecha
o que em mim
respira
há um suicídio
de memórias
que não cabem
no que em mim
existe
____

Já fui longe demais
matando-me nas pedras
que atiro contra mim
sentindo o que não sei
____

Há por aí alguém
que queira vir comigo
atrás do que seremos
quando tivermos sido?
____

O que resta de nós
Dorme a noite invisível
Que ainda nos sobra
____

O que me cansa
é o diabo da esperança
____

O que ficará de mim
nos restos digitais
do tempo
quando chegar
o fim
de que me ausento

1 186

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Identificação e contexto básico

João Apolinário, nome artístico de João Apolinário da Silva, foi um poeta e político brasileiro. Nasceu em Pesqueira, Pernambuco. Sua obra está intrinsecamente ligada à identidade nordestina e às questões sociais de sua terra natal.

Infância e formação

Natural de Pesqueira, agreste de Pernambuco, João Apolinário teve sua infância e juventude marcadas pela realidade socioeconômica do sertão nordestino. A escassez de recursos, a religiosidade popular e as paisagens áridas moldaram sua visão de mundo e, consequentemente, sua produção poética. Pouco se sabe sobre sua formação acadêmica formal, mas sua obra denota um profundo conhecimento da cultura popular e da tradição literária.

Percurso literário

O início da escrita de João Apolinário se deu em meio ao seu engajamento social e cultural. Sua poesia emergiu como uma forma de expressar as dores, as esperanças e a resistência do povo nordestino. Ao longo de sua carreira, manteve uma linha temática coesa, focada nas mazelas sociais e na beleza intrínseca de sua terra.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de João Apolinário, como 'Poemas da Seca' e 'Canto Nordestino', são exemplos de sua poesia engajada. Seus temas recorrentes incluem a seca implacável, a fé inabalável do povo, a figura do retirante e a resistência cultural. Utiliza uma linguagem acessível, próxima da oralidade, com forte apelo imagético para retratar a dureza da vida no sertão, mas também a sua beleza resiliente. O tom é frequentemente elegíaco, mas permeado por uma esperança latente e um profundo senso de pertencimento. Sua poesia dialoga com a tradição da literatura de cordel e com o regionalismo, buscando dar voz aos marginalizados e esquecidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Apolinário viveu e produziu em um período de intensas transformações sociais e políticas no Brasil, especialmente no Nordeste, marcado por ciclos de seca, migração e luta por direitos. Sua obra reflete o contexto de desigualdade social e a busca por identidade cultural da região, dialogando com outros artistas e intelectuais que se debruçavam sobre a questão nordestina.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Paralelamente à sua atividade poética, João Apolinário exerceu funções públicas, dedicando-se à política com o intuito de promover melhorias sociais e culturais em sua comunidade. Essa dualidade entre a arte e a ação política é uma marca de sua trajetória, demonstrando um forte compromisso com a realidade que o cercava.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora não tenha alcançado fama nacional em larga escala, João Apolinário é reconhecido em Pernambuco e em círculos que valorizam a poesia de cunho social e regional. Sua obra tem importância no resgate da memória e da cultura nordestina, sendo apreciada por sua autenticidade e força expressiva.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado João Apolinário foi influenciado pela cultura popular nordestina, pela literatura de cordel e por poetas que retrataram a realidade do sertão. Seu legado reside na preservação da memória poética do Nordeste e na representação autêntica de suas gentes e paisagens, inspirando futuras gerações de poetas a darem voz às suas origens.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Apolinário pode ser interpretada como um grito de resistência contra a opressão e o esquecimento. Seus poemas expõem a dura realidade do sertão, mas também celebram a força e a resiliência do seu povo. A crítica tem apontado a autenticidade de sua linguagem e a profundidade de sua conexão com a terra como seus maiores trunfos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos É conhecido por sua dedicação à preservação das tradições culturais de Pesqueira, sua cidade natal. Sua poesia muitas vezes servia como um espelho das angústias e das esperanças da população local.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória A morte de João Apolinário deixou uma lacuna na poesia regionalista. Sua obra, no entanto, continua a ser estudada e reverenciada como um importante registro da vida e da cultura nordestina.