João Soares Coelho

João Soares Coelho

1210–1278 · viveu 68 anos PT PT

João Soares Coelho foi um poeta português do século XVII, autor de uma obra notável pela sua religiosidade e pela sua vertente moralizante. A sua poesia, inserida no contexto do Barroco português, reflete uma profunda preocupação com a transitoriedade da vida e a busca pela salvação divina. Embora não seja tão amplamente conhecido como outros poetas da sua época, Coelho deixou um legado significativo pela sua expressão lírica e pelo seu misticismo.

n. 1210, Cinfães · m. 1278

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Jograr, Mal Desemparado

Jograr, mal desemparado
fui eu pelo teu pescar,
como que houvi a enviar
aa rua por pescado;
por end'o dom que t'hei dado
quer'ora de ti levar.

Assi cho dei, preitejado
que m'houvess'a escusar
da rua; e vês, jograr,
pois me nom hás escusado,
um dom em linho dobrado
pensa ora de mi o dar.

Nom ti baralh'eu mercado
nem queria baralhar;
mais houveste-m'a pagar
em truitas e, pois pagado,
nom mi as dás, como hei contado,
er pensa de mi contar.
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Biografia

Identificação e contexto básico

João Soares Coelho foi um poeta português, cujas obras se inserem no período do Barroco. Pouco se sabe sobre a sua data de nascimento e morte, mas a sua produção literária é datada do século XVII. Era um autor de temática religiosa e moralizante. A sua nacionalidade era portuguesa e a sua língua de escrita o português. O contexto histórico em que viveu foi o de uma sociedade profundamente marcada pela Contrarreforma, pela instabilidade política e pela influência da Igreja Católica.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de João Soares Coelho são escassas. Presume-se que tenha tido acesso a uma educação formal, dada a qualidade e a erudição da sua escrita. É provável que tenha sido formado no seio de uma família com inclinações religiosas ou intelectuais, o que o teria predisposto à escrita de poesia de cariz espiritual e moral. As influências iniciais na sua obra, como em muitos autores barrocos, teriam sido a literatura religiosa, a Bíblia e os textos dos místicos cristãos.

Percurso literário

O percurso literário de João Soares Coelho está essencialmente ligado à sua única obra conhecida, "O Encoberto", publicado em 1659. Esta obra reúne poemas de caráter religioso, devocional e moralizante, dedicados à figura de Cristo e a temas como a fé, a penitência e a vida após a morte. Não se conhecem outras publicações ou colaborações significativas em revistas ou antologias da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de João Soares Coelho resume-se a "O Encoberto". Os temas dominantes são a espiritualidade, a religiosidade, a moralidade e a efemeridade da vida terrena em contraste com a eternidade divina. O seu estilo é característico do Barroco português, com um uso marcado de figuras de estilo como a metáfora, a antítese e o hipérbato, visando criar um efeito de complexidade e dramaticidade. A sua linguagem é erudita e por vezes densa, refletindo a sua preocupação em transmitir mensagens profundas. A voz poética é predominantemente lírica e devocional.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico João Soares Coelho viveu no século XVII, um período de declínio do Império Português e de forte influência da Companhia de Jesus na vida cultural e religiosa. A sua obra reflete o espírito da Contrarreforma, com uma ênfase na devoção, na penitência e na busca pela salvação. A sua produção literária insere-se no contexto do Barroco, um estilo artístico que se caracterizava pelo contraste, pelo movimento e pela exuberância ornamental, aplicados aqui a temas espirituais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de João Soares Coelho são muito limitadas. Não se conhecem detalhes sobre a sua família, relações afetivas ou profissão. É possível que tenha sido um clérigo ou alguém intimamente ligado à vida religiosa, dada a natureza da sua obra. A sua dedicação à escrita de poesia religiosa sugere uma vida voltada para a introspeção e a espiritualidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de João Soares Coelho como poeta foi modesto em vida. A sua obra "O Encoberto" não alcançou grande difusão ou notoriedade, e ele não é frequentemente citado entre os grandes vultos da poesia barroca portuguesa. No entanto, a sua obra tem sido objeto de estudo por parte de especialistas em literatura portuguesa, que reconhecem o seu valor dentro do contexto da poesia religiosa do século XVII.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que tenha sido influenciado por autores religiosos e místicos anteriores, tanto portugueses como espanhóis. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia religiosa portuguesa do século XVII, oferecendo uma perspetiva individual sobre os temas espirituais caros à época. A sua obra, embora específica, representa uma faceta do pensamento e da sensibilidade barroca.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de João Soares Coelho pode ser interpretada como um testemunho da fé e das angústias espirituais de um homem do século XVII, num período de incerteza existencial e religiosa. A análise crítica foca-se na sua linguagem barroca, na sua expressividade religiosa e na sua capacidade de transmitir um sentimento de devoção profunda.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Dado o parco conhecimento sobre a sua vida, não há curiosidades amplamente conhecidas sobre João Soares Coelho. A sua dedicação a uma obra singular e de teor religioso sugere um perfil discreto e voltado para o interior.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não existem registos fidedignos sobre as circunstâncias da morte de João Soares Coelho. A sua memória literária está preservada pela sua obra "O Encoberto", que, apesar de não ter tido grande repercussão na sua época, constitui um documento importante para o estudo da poesia religiosa barroca em Portugal.

Poemas

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Jograr, Mal Desemparado

Jograr, mal desemparado
fui eu pelo teu pescar,
como que houvi a enviar
aa rua por pescado;
por end'o dom que t'hei dado
quer'ora de ti levar.

Assi cho dei, preitejado
que m'houvess'a escusar
da rua; e vês, jograr,
pois me nom hás escusado,
um dom em linho dobrado
pensa ora de mi o dar.

Nom ti baralh'eu mercado
nem queria baralhar;
mais houveste-m'a pagar
em truitas e, pois pagado,
nom mi as dás, como hei contado,
er pensa de mi contar.
532

Dom Vuitorom, o Que Vos a Vós Deu

Dom Vuitorom, o que vos a vós deu
sobre los trobadores a julgar,
ou nom sabia que x'era trobar
ou sabia como vos trobei eu,
que trobei duas vezes mui bem;
e se vos el fez juiz por en,
de vós julgardes outorgo-vo-l'eu.

E se vos el por esto fez juiz,
Dom Vuitorom, devede-l'a seer,
ca vos soub'eu dous cantares fazer,
sem outros seis ou sete que vos fiz,
per que devedes julgar com razom;
[e por en vos digo, Dom Vuitorom],
julgad'os cantares que vos eu fiz!

E pois julgardes como vos trobei,
e ar chamad'o comendador i,
que fezerom comendador sem mi
de mias comendas, per força de rei;
e o que ora nas alças está,
se o em dereit'hei, entregar-mi-as-á,
ca todas estas som forças de rei.
547

Luzia Sánchez, Jazedes Em Gram Falha

Luzia Sánchez, jazedes em gram falha
comigo, que nom fodo mais nemigalha
d'ũa vez; e, pois fodo, se Deus mi valha,
fic'end'afrontado bem por tercer dia.
       Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
       se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Vejo-vos jazer migo muit'aguada,
Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;
mais se eu vos per i houvesse pagada,
pois eu foder nom posso, peer-vos-ia.
       Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
       se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,
que já nom pode sol cospir a saíva
e, de pram, semelha mais morta ca viva,
e se lh'ardess'a casa, nom s'ergeria.
       Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
       se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Deitarom-vos comigo os meus pecados;
cuidades de mi preitos tam desguisados,
cuidades dos colhões, que trag'inchados,
ca o som com foder e é com maloutia.
       Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
       se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.
649

Bom Casament'é, Pera Dom Gramilho

Bom casament'é, pera Dom Gramilho,
ena Porta do Ferr'ũa tendeira;
e direi-vos com'e de qual maneira:
pera ric'home, que nom pod'haver
filho nem filha, podê-l'-á fazer
com aquela que faz cada mês filho.

E de mim vos dig', assi bem me venha:
se ric'home foss'e grand'alg'houvesse
[e parentes chegados nom tevesse],
a quem leixar meu haver e mia herdade,
eu casaria, dig'a Deus verdade,
com aquela que cada mês emprenha.

E bem seria meu mal e meu dano,
per boa fé, e mia meos ventura
e meu pecado grav'e sem mesura,
pois que eu com atal molher casasse,
se ũa vez de mim nom emprenhasse,
pois emprenha doze vezes no ano.
694

Falei Um Dia, Por Me Baralhar

Falei um dia, por me baralhar
com meu amigo, com outr', u m'el visse
e direi-vos que lhi dix', u m'el disse
por que lhi fezera tam gram pesar:
       "Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
       nom foi por al senom porque me quis".

Por baralhar com el e por al nom
falei com outr', em tal que o provasse,
e pesou-lhi mais ca se o matasse
e preguntou-m'e dixi-lh'eu entom:
       "Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
       nom foi por al senom porque me quis".

Ali u eu com outr'ant'el falei,
preguntou-m'el e por que lhi fazia
tam gram pesar ou se o entendia;
e direi-vos como me lhi salvei:
       "Se vos i, meu amigo, pesar fiz,
       nom foi por al senom porque me quis".
508

Fremosas, a Deus Louvado, Com Tam Muito Bem Como Hoj'hei

Fremosas, a Deus louvado, com tam muito bem como hoj'hei,
e do que sõo mais leda: ca todo quant'eu desejei
vi, quando vi meu amigo.
487

Joam Soares, Comecei

- Joam Soares, comecei
de fazer ora um cantar,
vedes por quê: porque achei
boa razom pera trobar -
ca vej'aqui um jograrom
que nunca pode dizer som
nen'o ar pode citolar.

- Joam Peres, eu vos direi
por que o faz, a meu cuidar:
porque beve muit', [est'] eu sei;
e come fode, pois falar
nom pode; por esta razom
canta el mal; mais atal dom
bem dev'el de vós a levar.

- Joam Soares, responder
nom mi sabedes desto bem:
nom canta el mal por bever,
sabede, mais por ũa rem:
porque, des quando começou
a cantar, sempre mal cantou
e cantará, mentre viver.

- Joam Peres, por maldizer
vos foi esso dizer alguém,
ca, pelo vinh'e per foder,
perd'el o cantar e o sem;
mais bem sei eu que o miscrou
alguém convosc'e lhi buscou
mal, pois vos esso fez creer.

- Joam Coelho, el vos peitou
noutro dia, quando chegou,
pois ides del tal bem dizer.

- Joam Peres, já [eu] vos dou
quanto mi deu e mi mandou
e quanto mi há de remeter.
645

Joam Fernández, o Mund'é Torvado

Joam Fernández, o mund'é torvado
e, de pram, cuidamos que quer fiir:
veemo'lo Emperador levantado
contra Roma, e Tártaros viir,
e ar veemos aqui dom pedir
Joam Fernández, o mouro cruzado.

E sempre esto foi profetizado
par dous e cinco sinaes da fim:
seer o mundo assi como é miscrado,
e ar torná'-s'o mouro pelegrim
- Joam Fernández, creed'est'a mi[m]
que sõo home [mui] bem leterado.

E se nom foss'o Antecristo nado,
nom averria esto que avém:
nem fiar[a] o senhor no malado
nen'o malado [e]no senhor rem,
nem ar iria a Ierusalém
Joam Fernández, [o] nom bautiçado.
293

Fui Eu, Madre, Lavar Meus Cabelos

Fui eu, madre, lavar meus cabelos
a la fonte e paguei-m'eu delos
       e de mi, louçana.

Fui eu, madre, lavar mias garcetas
a la fonte e paguei-m'eu delas
       e de mi, louçana.

A la fonte [e] paguei-m'eu deles;
aló achei, madr', o senhor deles
       e de mi, louçana.

[E], ante que m'eu d'ali partisse,
fui pagada do que m'el[e] disse
       e de mi louçana.
782

Amigo, Pois Me Vos Aqui

Amigo, pois me vos aqui
ora mostrou Nostro Senhor,
direi-vos quant'há que sabor
nom ar houve d'al nem de mi:
       per bõa fé, meu amigo,
       des que nom falastes migo.

E ar direi-vos outra rem:
nunca eu ar pudi saber
que x'era pesar nem prazer
nem que x'era mal nem que bem,
       per bõa fé, meu amigo,
       des que nom falastes migo.

Nem nunca o meu coraçom
nem os meus olhos ar quitei
de chorar, e tanto chorei
que perdi o sem des entom,
       per bõa fé, meu amigo,
       des que nom falastes migo.
766

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