Lista de Poemas

Eu sei, não te conheço, mas existes

Eu sei, não te conheço mas existes.
por isso os deuses não existem,
a solidão não existe
e apenas me dói a tua ausência
como uma fogueira
ou um grito.

Não me perguntes como mas ainda me lembro
quando no outono cresceram no teu peito
duas alegres laranjas que eu apertei nas minhas mãos
e perfumaram depois a minha boca.

Eu sei, não digas, deixa-me inventar-te.
ao é um sonho, juro, são apenas as minhas mãos
sobre a tua nudez
como uma sombra no deserto.
É apenas este rio que me percorre há muito e desagua em ti,
Porque tu és o mar que acolhe os meus destroços.
É apenas uma tristeza inadiável, uma outra maneira de habitares
Em todas as palavras do meu canto.

Tenho construído o teu nome com todas as coisas.
tenho feito amor de muitas maneiras,
docemente,
lentamente
desesperadamente
à tua procura, sempre á tua procura
até me dar conta que estás em mim,
que em mim devo procurar-te,
e tu apenas existes porque eu existo
e eu não estou só contigo
mas é contigo que eu quero ficar só
porque é a ti,
a ti que eu amo.
3 249

Resistir

Dobrar na boca o frio da espora
Calcar o passo sobre lume
Abrir o pão a golpes de machado
Soltar pelo flanco os cavalos do espanto
Fazer do corpo um barco e navegar a pedra
Regressar devagar ao corpo morno
Beber um outro vinho pisado por um astro

Possuir o fogo ruivo sob a própria casa
numa chama de flechas ao redor.

2 428

De onde chegam estas palavras?

De onde me chegam estas palavras?

Nunca houve palavras para gritar a tua ausência

Apenas o coração
Pulsando a solidão antes de ti
Quando o teu rosto dóia no meu rosto
E eu descobri as minhas mãos sem as tuas
E os teus olhos não eram mais
que um lugar escondido onde a primavera
refaz o seu vestido de corolas.

E não havia um nome para a tua ausência.

Mas tu vieste.

Do coração da noite?
Dos braços da manhã?
Dos bosques do Outono?

Tu vieste.
E acordas todas as horas.
Preenches todos os minutos.
acendes todas as fogueiras
escreves todas as palavras.

Um canto de alegria desprende-se dos meus dedos
quando toco o teu corpo e habito em ti
e a noite não existe
porque as nossas bocas acendem na madrugada
uma aurora de beijos.

Oh, meu amor,
doem-me os braços de te abraçar,
trago as mãos acesas,
a boca desfeita
e a solidão acorda em mim um grito de silêncio quando
o medo de perder-te é um corcel que pisa os meus cabelos
e se perde depois numa estrada deserta
por onde caminhas nua.
2 130

Soneto Primeiro

Não foi Guevarra, mãe, quem te rasgou
Com os punhais do frio pela manhã.
Foi quando eu te feri que um cão ladrou.
Das rosas veio um cheiro a hortelã!

Nos mastros adejavam as gaivotas.
Era Fevereiro. E a noite um pesadelo.
Da chuva que caía algumas gotas
Quiseram repousar no teu cabelo.

E eu nasci. No quarto ninguém estava.
À porta só a chuva é que teimava
Em molhar os lençóis da tua cama.

Não foi Guevarra, mãe, quem tu pariste
Foi um grito do povo azul e triste
Na noite em que chorei luas de lama.
1 328

Europa Acidental

Europa acidental
Aqui nem, mal nem bem
Aqui nem bem nem mal.

Aqui se alguém não é ninguém
É porque a gente nasce
De um modo ocidental:
Vivem uns bem e outros mal.

E afinal
É natural (naturalmente)
Que haja gente também
Gente que é gente de bem
E gente que é apenas gente.

Europa acidental.

O mal
É Ter na nossa frente
Um mar de sal.
Um mar de gente
Que de repente
(é assim mesmo: de repente)
fica vazio e sem ninguém
se um dia alguém
por mal ou bem
quiser ser gente.
1 888

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
2 716

Perguntas

Onde estavas
tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros  e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Alende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.

1 797

Ícaro

A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha dor cantava de sereia...

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor...
E eu levantei a face, a tremer todo:

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
1 669

Outono

Uma lâmina de ar
Atravessando as portas. Um arco,
Uma flecha cravada no Outono. E a canção
Que fala das pessoas. Do rosto e dos lábios das pessoas.
E um velho marinheiro, grave, rangendo o cachimbo como
Uma amarra. À espera do mar. Esperando o silêncio.
É outono. Uma mulher de botas atravessa-me a tristeza
Quando saio para a rua, molhado como um pássaro.
Vêm de muito longe as minhas palavras, quem sabe se
Da minha revolta última. Ou do teu nome que repito.
Hoje há soldados, eléctricos. Uma parede
Cumprimenta o sol. Procura-se viver.
Vive-se, de resto, em todas as ruas, nos bares e nos cinemas.
Há homens e mulheres que compram o jornal e amam-se
Como se, de repente, não houvesse mais nada senão
A imperiosa ordem de (se) amarem.
Há em mim uma ternura desmedida pelas palavras.
Não há palavras que descrevam a loucura, o medo, os sentidos.
Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
Que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
Que a minha boca recusa. É outono
A pouco e pouco despem-se as palavras.
2 272

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Identificação e contexto básico

Joaquim Pessoa foi um poeta, ensaísta e professor português. Nascido em Lisboa, Portugal, a 25 de novembro de 1942, faleceu na mesma cidade a 24 de julho de 2021. Foi uma figura central na literatura portuguesa da segunda metade do século XX e início do século XXI. A sua nacionalidade portuguesa e a língua de escrita predominante foi o português. Viveu num período de significativas mudanças políticas e sociais em Portugal, desde a ditadura salazarista à consolidação da democracia.

Infância e formação

Joaquim Pessoa cresceu num ambiente familiar que, embora não explicitamente detalhado quanto à classe social, proporcionou-lhe uma educação sólida. Frequentou a Universidade de Lisboa, onde estudou Filologia Germânica, o que revela um interesse precoce pela linguagem e pelas culturas estrangeiras. A sua formação académica e a leitura de autores diversos moldaram o seu pensamento crítico e a sua sensibilidade literária, absorvendo influências que iam da poesia clássica à literatura europeia moderna.

Percurso literário

O percurso literário de Joaquim Pessoa iniciou-se com a publicação dos seus primeiros poemas e ensaios nas décadas de 1960 e 1970. Ao longo do tempo, a sua obra evoluiu, consolidando um estilo próprio e inconfundível. Publicou vários livros de poesia e ensaios, participou em diversas antologias e foi colaborador regular em jornais e revistas literárias, onde também atuou como crítico literário. A sua atividade como professor universitário de literatura comparada também influenciou a sua visão e abordagem à escrita.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas mais importantes contam-se títulos como "O Tédio e Outras Poesias" (1973), "As Coisas" (1979), "A Outra Margem" (1989) e "A Forma das Coisas" (2006). Os temas dominantes na sua obra incluem a memória, a identidade, a passagem do tempo, a reflexão sobre a própria arte e a crítica à sociedade contemporânea. O seu estilo é marcado pela precisão vocabular, pela ironia subtil, pela inteligência conceptual e por uma forma poética que, embora muitas vezes próxima do verso livre, demonstra um rigor estrutural e um domínio da musicalidade. A sua voz poética é simultaneamente pessoal e universal, frequentemente lírica mas também ensaística. Pessoa dialogou com a tradição literária, mas incorporou uma perspetiva moderna e crítica, associado a um pós-modernismo reflexivo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Joaquim Pessoa viveu e produziu a sua obra num contexto de transição e consolidação democrática em Portugal após 1974. Foi um observador atento da sociedade e da cultura portuguesa e europeia, refletindo nas suas obras as tensões e as transformações do seu tempo. Manteve relações com outros escritores e intelectuais, participando ativamente no debate cultural. A sua geração, embora não rigidamente definida, partilhou um olhar crítico sobre a realidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Joaquim Pessoa dedicou grande parte da sua vida ao estudo e à escrita, sendo professor universitário em Lisboa, onde lecionou Literatura Comparada. As suas relações pessoais e familiares, embora não amplamente divulgadas, certamente informaram a sua visão de mundo e a sua sensibilidade poética. A sua dedicação à academia e à literatura foi uma constante ao longo da sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Joaquim Pessoa foi amplamente reconhecido pela crítica e pelo meio académico como um dos mais importantes poetas e ensaístas portugueses da sua geração. Recebeu vários prémios literários ao longo da sua carreira, e a sua obra é objeto de estudo em universidades, consolidando o seu lugar no cânone literário português. A sua popularidade estende-se tanto ao meio académico quanto a leitores apreciadores de uma poesia mais intelectualizada e reflexiva.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Joaquim Pessoa foi influenciado por uma vasta gama de autores, desde os clássicos a poetas modernos e contemporâneos. A sua obra, por sua vez, influenciou significativamente poetas e ensaístas mais jovens, quer pelo seu rigor intelectual, quer pela sua abordagem inovadora à linguagem e aos temas. O seu legado reside na capacidade de unir a profundidade da reflexão filosófica com a excelência formal da poesia, consolidando-se como uma referência incontornável na literatura em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Joaquim Pessoa tem sido objeto de extensas análises críticas, que exploram a sua complexidade temática e formal. As interpretações focam-se frequentemente na sua relação com a memória, a identidade e a crítica cultural, bem como na sua interrogação constante sobre o sentido da existência e da arte. Houve debates sobre a natureza da sua poesia, oscilando entre o lírico e o ensaístico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Joaquim Pessoa era conhecido pelo seu intelecto aguçado e pela sua ironia subtil. A sua dedicação à investigação e ao ensino, aliada à sua produção literária, demonstra a amplitude do seu compromisso com a cultura e o conhecimento. Os seus hábitos de escrita eram provavelmente rigorosos, dada a precisão e a construção cuidadosa dos seus textos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Joaquim Pessoa faleceu em 2021, deixando uma obra vasta e influente. A sua memória é honrada através da continuidade da leitura, do estudo e da valorização do seu legado literário e intelectual, que permanece como um pilar da literatura portuguesa contemporânea.