Lista de Poemas

Elegia: indo para o leito

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra a vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

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A pulga

Repara nesta pulga e aprende bem
Quão pouco é o que me negas com desdém.
Ela sugou-me a mim e a ti depois,
Mesclando assim o sangue de nós dois.
E é certo que ninguém a isto aludo
Como pecado ou perda de virtude.
Mas ela goza sem ter cortejado
E incha de um sangue em dois revigorado:
É mais do que teríamos logrado.

Poupa três vidas nesta que é capaz
De nos fazer casados, quase ou mais.
A pulga somos nós e este é o teu
Leito de núpcias. Ela nos prendeu,
Queiras ou não, e os outros contra nós,
Nos muros vivos deste Breu, a sós.
E embora possas dar-me fim, não dês:
É suicídio e sacrilégio, três
Pecados em três mortes de uma vez.

Mas tinge de vermelho, indiferente,
A tua unha em sangue de inocente.
Que falta cometeu a pulga incauta
Salvo a mínima gota que te falta?
E te alegres de dizes que não sentes
Nem a ti nem a mim menos potentes.
Então, tua cautela é desmedida.
Tanta honra hei de tomar, se concedida,
Quanto a morte da pulga à tua vida.

3 412

GO AND CATCH A FALLING STAR

Agarra a estrela cadente,
mandrágora vê se emprenhas,
encontra o tempo fugente,
quem ao Diabo deu as manhas,
diz-me como ouvir sereias,
não sofrer de invejas feias
e que brisa
nos avisa
dos caminhos que alma pisa.

Se é teu destino buscar
que não há quem veja ou meça,
noite e dia hás-de trotar
té que a neve te embranqueça,
e ao voltar dirás que baste
maravilhas que passaste
e que não
viste então
uma mulher sem senão.

Se uma achaste verdadeira,
valeu-te a pena a cruzada.
Mas eu não caio na asneira
de tê-la por minha amada.
Honesta seria ainda
ao tempo da tua vinda.
Mas agora
já teve hora
de a dois ou três ser traidora.

2 071

SEXTO E ÚLTIMO DOS SONETOS SACROS

Não te orgulhes, ó Morte, embora te hão chamado
poderosa e terrível, porque tal não és,
já que quantos tu julgas ter pisado aos pés,
não morrem, nem de ti eu posso ser tocado.

Do sono e paz que sempre a teu retrato é dado
muito maior prazer se tira em teu revés,
pois que o justo ao deitar-se com tua nudez
ossos te deita e não seu esprito libertado.

Escrava és de suicidas, e de Reis, da Sorte;
Venenos, guerras, doenças são teus companheiros;
magias nos dão sonos bem mais verdadeiros,
melhors do que o teu golpe. Porque te inchas, Morte?

Despertamos no Eterno um breve adormecer,
e a morte não será, que Morte hás-de morrer.

(Tradução de Jorge de Sena)

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Thobias Ludovice
Thobias Ludovice

Será possível saber de quem é a tradução para português? Antecipadamente grato

Identificação e contexto básico

John Donne foi um poeta, satírico, advogado e clérigo anglicano inglês. É amplamente considerado o principal expoente da poesia metafísica inglesa. Sua obra abrange tanto poemas de amor seculares quanto sermões e poemas religiosos. Viveu durante a era Jacobeana e trabalhou em um período de transição cultural e religiosa significativa na Inglaterra.

Infância e formação

Donne nasceu em uma família católica romana em Londres. Sua infância foi marcada pela forte influência da fé católica, em uma época em que os católicos enfrentavam perseguição na Inglaterra protestante. Recebeu uma educação cuidadosa em casa e posteriormente frequentou a University of Oxford e a University of Cambridge, embora não tenha obtido diplomas formais em ambas, em parte devido às suas crenças religiosas. Sua formação foi moldada por uma educação clássica e por um ambiente intelectual e religioso complexo.

Percurso literário

O início da carreira literária de Donne foi marcado por poemas de amor, muitas vezes satíricos e eróticos, que circularam em manuscrito entre seus amigos e conhecidos. Mais tarde em sua vida, após uma crise pessoal e religiosa, ele se ordenou na Igreja da Inglaterra e se tornou um pregador e poeta religioso proeminente. Sua poesia religiosa explora a luta espiritual, o relacionamento com Deus e a meditação sobre a morte.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Donne incluem "Songs and Sonnets" (canções e sonetos), "Holy Sonnets" (sonetos sagrados) e "Metaphysical Poems". Seus temas dominantes incluem o amor (tanto físico quanto espiritual), a morte (vista como uma transição e um mistério), a religião, a fé e a dúvida. Stilisticamente, Donne é conhecido pelo uso intensivo de 'conceits' – comparações elaboradas e surpreendentes entre coisas díspares, muitas vezes de natureza intelectual ou científica. Ele emprega o verso livre e formas mais tradicionais, como o soneto, com grande flexibilidade. Sua linguagem é muitas vezes coloquial, mas capaz de atingir grande profundidade retórica e intensidade emocional. Sua voz poética é frequentemente argumentativa, intelectual e apaixonada, explorando as complexidades da experiência humana. Ele é associado ao movimento metafísico, caracterizado pelo intelecto agudo e pela exploração de paradoxos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Donne viveu em uma Inglaterra marcada por conflitos religiosos entre católicos e protestantes, pela ascensão do puritanismo e pelas tensões políticas da era Jacobeana. Ele teve contato com círculos literários e intelectuais da época, incluindo influências de pensadores e poetas contemporâneos. Sua obra reflete as ansiedades e os debates intelectuais de seu tempo, particularmente no que diz respeito à fé, à razão e à natureza do universo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal John Donne teve uma vida pessoal turbulenta. Ele se apaixonou e se casou secretamente com Ann More, o que lhe custou seu cargo e levou a um breve período de prisão. Sua esposa sofreu com múltiplas gravidezes e morreu jovem, um evento que o afetou profundamente e se refletiu em sua poesia, especialmente nos sonetos sagrados e em poemas sobre a morte. Após a morte de Ann, Donne dedicou-se à vida eclesiástica, tornando-se um pregador respeitado.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora sua obra tenha circulado em manuscritos durante sua vida, o reconhecimento formal de Donne como um grande poeta veio postumamente. Sua poesia foi redescoberta no início do século XX por críticos como T.S. Eliot, que o reabilitou como um poeta moderno e influente. Hoje, ele é considerado um dos maiores poetas de língua inglesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Donne foi influenciado pela poesia clássica, pela filosofia escolástica e pela ciência emergente de sua época. Seu legado é imenso, especialmente como o pai da poesia metafísica. Ele influenciou gerações de poetas com seu estilo intelectual, sua exploração de temas complexos e seu uso inovador da linguagem. Poetas como Eliot, Auden e Dylan Thomas reconheceram sua dívida para com Donne.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Donne tem sido objeto de inúmeras interpretações críticas, focando em seus temas de amor, morte, religião e no uso do 'conceit'. Sua poesia desafia leituras fáceis, exigindo um engajamento intelectual e emocional do leitor. A tensão entre o secular e o sagrado, o corpo e a alma, é um ponto central de análise.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Donne era conhecido por sua inteligência viva e por sua personalidade carismática. Ele era um orador talentoso e um pregador apaixonado. Uma curiosidade é que, antes de sua ordenação, ele contemplou seriamente uma carreira militar e em viagens. Há relatos de que ele teria posado para um retrato póstumo, pintado a partir de um lençol que o cobria em seu caixão, para que sua esposa tivesse uma lembrança dele.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória John Donne morreu em Londres. Suas obras completas, incluindo sermões e poemas, foram publicadas após sua morte. Sua memória é celebrada como um dos pilares da poesia inglesa, e seus poemas continuam a ser lidos e estudados em todo o mundo.