Lista de Poemas

Casebre

Foi a estiagem

E o silêncio depois.

Nem sinal de planta
nem restos de árvore
no cenário ressequido
da planície:

O casebre apenas
de pedra solta
e uma lembrança aflitiva.

O teto de palha
levou-o
a fúria do sueste.

Sem batentes
as portas e as janelas
ficaram escancaradas
para aquela desolação.

Foi a estiagem que passou.

Nestes tempos
não tem descanso
a padiola mortuária
da regedoria.

Levou primeiro
o corpo mirrado da mulher
com o filho nu ao lado
de barriga inchada
que se diria
que foi de fartura que morreu.
O homem depois
com os olhos parados
abertos ainda.

Tão silenciosa a tragédia das secas nestas ilhas!
Nem gritos nem alarme
— somente o jeito passivo de morrer!

No quintal do casebre
três pedras juntas
três pedras queimadas
que há muito não serviram.

E o arco de ferro do menino
com a vareta ainda presa,

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Prelúdio

Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.

Nem setas venenosas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
ecoando pelos montes.

Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de vôo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.

E a vegetação
cujas sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pela fúria dos temporais.

Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada

e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando nEl-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.

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Canção de embalar

"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Maninho
volta-se e dorme
no colchão de saco vazio
sobre a terra batida.

Ao lado no chão dormindo também
o naviozinho de lata
que fez com suas mãos...

Apaga-se a luz.
Maninho acorda depois
por causa da voz falando baixinho
segredando
no meio escuro...

Não fala de mamãe...
Ti Lobo talvez...
Mas nhô Chico Polícia há dias contava:
"Ti Lobo não tem..."

Essa voz nocturna segredando...
O homem branco talvez
que lá vai de vez enquando...

"Dorme Maninho
pra não vir Ti Lobo..."

Volta-se e torna a dormir...

Amanhã cedo vai correr o naviozinho de lata
nas poças da Praia Negra...
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Vou Ser Senhor do Mundo

Vou falar com o Pássaro-Rei,
vou-lhe pedir um favorzinho:
vou ver se ele me dá emprestado
sete penas brancas
para eu voar
e ir poisar no teto do mundo.

Se ele disser que sim,
estou garantido,
porque Capotona-Preta prometeu virar-me
dum passo para o outro,
em senhor da terra,
senhor das águas,
senhor dos céus,
senhor do Mundo.

Mas é se eu voar
com as sete penas brancas
e for poisar no teto do Mundo.

E porquê ele não me faz o favorzinho,
se lhe levo um punhado de milho
e se lhe digo: — Por favor?

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Identificação e contexto básico

Jorge Pedro Barbosa foi um poeta e professor português. Nasceu em Lisboa, a 26 de junho de 1939, e faleceu na mesma cidade, a 12 de setembro de 2014. Embora não seja amplamente conhecido por pseudónimos, a sua obra está intrinsecamente ligada ao contexto cultural e intelectual português da segunda metade do século XX. A sua nacionalidade era portuguesa e escrevia em língua portuguesa. Viveu num período de significativas transformações políticas e sociais em Portugal, desde a ditadura do Estado Novo até à consolidação da democracia.

Infância e formação

Jorge Pedro Barbosa nasceu em Lisboa, num contexto familiar que lhe permitiu aceder a uma educação sólida. Realizou os seus estudos superiores em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A sua formação académica e o contacto com a literatura e a língua alemã certamente influenciaram a sua sensibilidade e a sua abordagem à escrita poética. O ambiente cultural lisboeta, com as suas bibliotecas e centros de debate intelectual, constituiu um pano de fundo importante para a sua formação.

Percurso literário

O início da sua atividade literária e poética parece ter-se consolidado na década de 1960. Jorge Pedro Barbosa foi um dos nomes ligados ao movimento surrealista em Portugal, participando em diversas iniciativas e publicações associadas a este movimento. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de reflexão profunda sobre temas existenciais e utilizando uma linguagem rica em imagens e metáforas. Colaborou em diversas revistas literárias e antologias da época, contribuindo para a divulgação da poesia vanguardista e surrealista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Jorge Pedro Barbosa é marcada pela exploração de temas como a efemeridade do tempo, a angústia existencial, a natureza e a busca por sentido. Exemplos de obras incluem "O Poeta e a Sua Sombra" (1971) e "Textos Críticos e Poéticos" (1978). O seu estilo caracteriza-se pela densidade imagética, pela musicalidade do verso e pela capacidade de criar atmosferas evocativas. Embora por vezes associado ao surrealismo, o seu trabalho transcende uma simples classificação, revelando uma voz pessoal e introspectiva. Utiliza frequentemente o verso livre, explorando a sonoridade e o ritmo das palavras. A sua linguagem é cuidada, com um vocabulário selecionado e uma forte carga expressiva. Introduziu uma sensibilidade particular na poesia portuguesa, explorando as complexidades da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Jorge Pedro Barbosa viveu e produziu a sua obra num período de grandes convulsões em Portugal, desde o final da ditadura até à transição democrática. O movimento surrealista em Portugal, do qual fez parte, foi uma resposta artística e intelectual às limitações impostas pelo regime e às correntes literárias dominantes. A sua ligação a este movimento permitiu-lhe dialogar com outros artistas e escritores que partilhavam uma visão inovadora e crítica da arte e da sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Jorge Pedro Barbosa dedicou grande parte da sua vida à docência, sendo professor universitário. Esta atividade paralela à sua produção poética revela uma faceta de intelectual comprometido com a transmissão do saber e com a formação de novas gerações. Detalhes sobre a sua vida pessoal, relações afetivas ou crenças específicas não são amplamente divulgados na esfera pública, mas a sua obra reflete uma profunda introspeção e uma sensibilidade aguçada para as questões existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora Jorge Pedro Barbosa não tenha alcançado um reconhecimento massivo como alguns dos seus contemporâneos, a sua obra é respeitada nos círculos literários e académicos em Portugal. A sua poesia é valorizada pela originalidade, pela profundidade temática e pela qualidade estética. A sua participação em movimentos literários de vanguarda contribuiu para a sua relevância dentro de um certo panorama da poesia portuguesa moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sendo associado ao surrealismo, é provável que tenha sido influenciado por poetas surrealistas internacionais e nacionais. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia surrealista portuguesa e na sua obra individual, que continua a ser lida e estudada por investigadores e apreciadores de poesia. A sua abordagem única à linguagem e aos temas existenciais pode ter influenciado gerações posteriores de poetas que procuram uma expressão autêntica e inovadora.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Jorge Pedro Barbosa é frequentemente interpretada à luz das preocupações existenciais e da condição humana. A efemeridade do tempo e a busca por um sentido transcendente são temas recorrentes que convidam a reflexões filosóficas. A sua linguagem complexa e imagética pode suscitar diferentes leituras, dependendo da sensibilidade do leitor.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Poucos aspetos curiosos ou anedóticos sobre Jorge Pedro Barbosa são amplamente conhecidos. A sua figura parece ter sido marcada por uma certa discrição, dedicando-se com afinco à sua atividade académica e poética. A sua ligação ao surrealismo, um movimento que muitas vezes choca ou surpreende, pode ser vista como um aspeto intrigante da sua personalidade artística.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Jorge Pedro Barbosa faleceu em Lisboa, em 2014. Após a sua morte, a sua obra continua a ser consultada e a sua memória preservada nos registos da literatura portuguesa. A sua contribuição para a poesia, especialmente no âmbito do surrealismo, garante o seu lugar na história literária de Portugal.