José Afonso

José Afonso

1929–1987 · viveu 57 anos PT PT

José Afonso foi um cantor e compositor português, amplamente considerado um dos nomes mais importantes da música popular de intervenção em Portugal. A sua obra, marcada pela poesia profunda e pela crítica social, ecoou os anseios de liberdade e justiça do seu tempo, tornando-se um símbolo da resistência contra a ditadura. Com uma discografia vasta e influente, José Afonso deixou um legado duradouro na música portuguesa, com canções que continuam a ser cantadas e a inspirar gerações, abordando temas universais como o amor, a terra, a esperança e a luta pela dignidade humana.

n. 1929-08-02, Aveiro · m. 1987-02-23, Setúbal

18 519 Visualizações

PELA QUIETUDE DAS TUAS MÃOS UNIDAS

Pela quietude das tuas mãos unidas.
Desce o eterno e a paz.
Nada perturba o silêncio posto nas tuas pálpebras.
É a morte o templo, a plenitude infinda.
Abatem-se os contornos, teu vulto esfuma a rigidez das coisas,
a exactidão concreta.
Nenhuma dor descerrará nossas bocas profanas
para pronunciar o césamo que te abrirá os céus,
pobre silhueta humana, já pertença neutral,
informe barro
Inalterável mistério, subsistência.
Entre o vivo e o morto o abismo sa incomunicação,
A distância absurda da intemporalidade.
O entrar na origem, menos existência
Que companhia apenas de todas as coisas que ali estão
Em frente além.
Só contemplar-te para penetrar teu mistério
E apressar a corrida para a petrificação.
Depois sim: vossa presença pura
Entre Impronunciáveis e Inconcebíveis-Nada..Que coisa o amor! Pobre balbucie
Gérmen do primeiro estrebuchar da primeira forma.
Embrião latejando o que quer persistir e continuar-se-Assim
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

José Afonso, cujo nome completo era José Manuel Consalas Afonso, nasceu em Aveiro, Portugal. É uma figura central na música popular portuguesa, conhecido pela sua voz inconfundível e pela profundidade poética das suas letras. A sua música é intrinsecamente ligada ao contexto histórico de Portugal no século XX, especialmente ao período da ditadura do Estado Novo.

Infância e formação

A infância de José Afonso foi marcada por uma educação formal e pela vivência de diferentes culturas, tendo passado parte da sua juventude em Moçambique, onde o seu pai, magistrado, foi colocado. Esta experiência africana influenciou a sua visão do mundo e, mais tarde, a sua música, trazendo uma dimensão de exotismo e de reflexão sobre o colonialismo. Regressou a Portugal para prosseguir os seus estudos.

Percurso literário

Embora seja mais conhecido como músico e compositor, a escrita de letras de canções constitui o seu "percurso literário". Começou a compor e a cantar nos seus tempos de estudante, desenvolvendo um estilo próprio que combinava a canção de intervenção com elementos da música tradicional portuguesa e ritmos africanos. A sua obra evoluiu ao longo das décadas, sempre com um forte teor poético e de crítica social.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras mais icónicas estão "Grândola, Vila Morena", "Os Vampiros", "Canção de Embalar" e "Há-gentes". Os temas dominantes na sua obra incluem a luta pela liberdade, a justiça social, a identidade portuguesa, a terra, a esperança e a desilusão. Utilizou predominantemente a forma de canção, mas com uma riqueza lírica e métrica que transcende o género popular. O seu estilo é marcado pela profundidade das metáforas, pelo ritmo marcante e pela musicalidade intrínseca das palavras. A sua voz poética é frequentemente confessional, mas com um alcance universal. A linguagem é acessível, mas carregada de simbolismo e de imagens fortes, muitas vezes inspiradas na natureza e na vida rural. José Afonso foi um inovador ao fundir diferentes géneros musicais e ao dar à canção de intervenção uma dimensão artística e poética de grande profundidade. É frequentemente associado ao movimento da Canção de Protesto ou de Intervenção.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Afonso viveu e produziu a maior parte da sua obra durante a ditadura do Estado Novo. A sua música tornou-se um veículo de contestação e de esperança para muitos portugueses, especialmente durante os anos 60 e 70. As suas canções eram muitas vezes censuradas, mas circulavam clandestinamente, ganhando um significado especial como hinos de resistência. "Grândola, Vila Morena" tornou-se um símbolo da Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1974.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal José Afonso teve uma vida pessoal marcada pela sua dedicação à música e à causa política. Foi casado e teve filhos, mas a sua paixão pela arte e pelo compromisso social moldaram fortemente a sua existência. Teve amizades significativas com outros artistas e intelectuais da época. A sua vida foi dedicada à criação musical e à expressão das suas convicções.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção José Afonso alcançou um enorme reconhecimento em Portugal, tornando-se um dos compositores mais amados e respeitados. Embora a sua obra tenha sido inicialmente marginalizada pelo regime, após o 25 de Abril de 1974, o seu valor foi amplamente reconhecido. Recebeu diversas distinções ao longo da sua carreira e após a sua morte. A sua popularidade transcendeu o meio académico, sendo aclamado por um vasto público.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado José Afonso foi influenciado por cantores de fado, música tradicional portuguesa, mas também por artistas internacionais como Woody Guthrie e Pete Seeger. O seu legado é imenso, tendo influenciado inúmeros músicos e compositores portugueses e de língua portuguesa. A sua obra é considerada parte fundamental do cânone da música popular portuguesa, e as suas canções continuam a ser interpretadas e a inspirar novas gerações.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de José Afonso tem sido objeto de vasta análise crítica, destacando-se a sua capacidade de expressar a condição humana, a ânsia de liberdade e a ligação à terra. As suas letras são frequentemente interpretadas em múltiplos níveis, combinando a dimensão pessoal com a coletiva e a política.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade é que "Grândola, Vila Morena" foi usada como sinal para o início da Revolução dos Cravos. Outro aspeto é a sua relação próxima com a natureza, que se reflete na sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Afonso faleceu em Lisboa, vítima de doença. A sua morte foi amplamente lamentada em Portugal. Após a sua morte, continuaram a ser lançados trabalhos discográficos e a sua obra permanece viva na memória coletiva e na cultura portuguesa.

Poemas

8

PELA QUIETUDE DAS TUAS MÃOS UNIDAS

Pela quietude das tuas mãos unidas.
Desce o eterno e a paz.
Nada perturba o silêncio posto nas tuas pálpebras.
É a morte o templo, a plenitude infinda.
Abatem-se os contornos, teu vulto esfuma a rigidez das coisas,
a exactidão concreta.
Nenhuma dor descerrará nossas bocas profanas
para pronunciar o césamo que te abrirá os céus,
pobre silhueta humana, já pertença neutral,
informe barro
Inalterável mistério, subsistência.
Entre o vivo e o morto o abismo sa incomunicação,
A distância absurda da intemporalidade.
O entrar na origem, menos existência
Que companhia apenas de todas as coisas que ali estão
Em frente além.
Só contemplar-te para penetrar teu mistério
E apressar a corrida para a petrificação.
Depois sim: vossa presença pura
Entre Impronunciáveis e Inconcebíveis-Nada..Que coisa o amor! Pobre balbucie
Gérmen do primeiro estrebuchar da primeira forma.
Embrião latejando o que quer persistir e continuar-se-Assim
1 360

Que amor não me engana

Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se de antiga chama
Mal vive a amargura

Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito

Muito à flor das águas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera

Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
O nascer do dia

1 842

TERESA TORGA

No centro da Avenida
No cruzamento da rua
Às quatro em ponto perdida
Dançava uma mulher nua

A gente que via a cena
Correu para junto dela
No intuito de vesti-la
Mas surge António Capela

Que aproveitando a barbuda
Só pensa em fotografá-la
Mulher na democracia
Não é biombo de sala

Dizem que se chama Teresa
Seu nome é Teresa Torga
Muda o pick-up em Benfica
Atura a malta da borga

Aluga quartos de casa
Mas já foi primeira estrela
Agora é modelo à força
Que o diga António Capela

T'resa Torga T'resa Torga
Vencida numa fornalha
Não há bandeira sem luta
Não há luta sem batalha
1 527

Os bravos

Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Para ver se embravecia
Cada vez fiquei mais manso
Bravo meu bem
Para a tua companhia

Eu fui à terra do bravo
Bravo meu bem
Com o meu vestido vermelho
O que eu vi de lá mais bravo
Bravo meu bem
Foi um mansinho coelho

As ondas do mar são brancas
Bravo meu bem
E no meio amarelas
Coitadinho de quem nasce
Bravo meu bem
Pra morrer no meio delas

3 022

Entrudo

Ó entrudo Ó entrudo
Ó entrudo chocalheiro
Que não deixas assentar
as mocinhas ao solheiro

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Que no monte é queu estou bem
Que no monte é queu estou bem

Eu quero ir para o monte
Eu quero ir para o monte
Onde não veja ninguém
Que no monte é queu estou bem

Estas casa são caiadas
Estas casa são caiadas
Quem seria a caiadeira
Quem seria a caiadeira

Foi o noivo mais a noiva
Foi o noivo mais a noiva
Com um ramo de laranjeira
Quem seria a caiadeira

1 943

Quem diz que é pela rainha

Quem diz que é pela rainha
Nem precisa de mais nada
Embora seja ladrão
Pode roubar à vontade
Todos lhe apertam a mão
É homem de sociedade

Acima da pobre gente
Subiu quem tem bons padrinhos
De colarinhos gomados
Perfumando os ministérios
É dono dos homens sérios
Ninguém lhe vai aos costados

1 510

Trovas antigas

O que mais me prende à vida
Não é amor de ninguém.
É que a morte de esquecida
Deixa o mal e leva o bem.

Olha a triste viuvinha
que anda na roca a fiar
É bem feito, é bem feito
que não tem com quem casar

Quem se vai casar ao longe
Ao perto tendo com quem
Alva flor da laranjeira
Não a dará a ninguém

No cimo daquela serra
Está um lenço de mil cores
Está dizendo Viva, Viva
Morra quem não tem amores

1 924

Traz outro amigo também

Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
ƒÉ meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja benvindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também

2 649

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.