Lista de Poemas

Passaram

Passaram como infâncias... águas... tais
como os aviões, avoantes, folhas secas,
manhãs de flores, tardes de pardais
e as falsificações de eternidades.

Que levaram, enfim? Toda essa gente
quis carregar alguma coisa, é certo:
planta que desce um galho sobre a rua
perde uma folha pra quem passa perto.

Passaram. Padres que não leram Bíblias,
Picassos que perderam seus pincéis,
astrônomos que olhavam para o chão.

Estiveram na escola, eram doutores.
E fica, indecifrada, a alma dos dias,
cartas de Deus que poucos sabem ler.

De O Povoamento da Solidão (1991)

839

Desperdício

Como as espigas,
as lições também apodrecem
no esquecimento das colheitas.

888

Presságios

Como foi bela e sábia a vida que tivemos!
Lições em tudo... em tudo... em tudo... até nas brigas
havia água e semente e terra e sol e espigas,
pra nossa fome de entender tudo o que vemos

neste mundo de Deus. As coisas mais antigas
vividas por nós dois mostravam que os extremos
são somas, em nós dois, dos anseios supremos
de socorrer quem tomba ao peso das fadigas.

Era nosso o destino altíssimo de ver,
era nossa a ambição do topo das montanhas,
sabíamos o dia antes de alvorecer...

A tanta luz chegaste, a tanta fé subi,
chegamos a ser bons e a perfeições tamanhas,
que ainda estou a pensar que nunca te perdi...

865

Louvação a André Breton

(A Mentira das Aparências Sensoriais)

A flor, o mar, o rosto de meu filho,
pão na mesa, o retrato de meu pai,
o circo, a vaca a olhar o pé de milho,
o azul da serra, a névoa que se esvai;

a igreja, o sino, o padre, o mapa, o trilho
sob a pedra que finge, mas não cai;
a pupila estrangeira do andarilho,
a carta sem razão que já não vai;

Judas, a queima, a Festa de Aleluia,
meus banhos de menino, a grota, a cuia,
bênçãos brancas da preta Juliana...

Nada disso, em verdade, eu vi no mundo?
Faltou-me a luz e aquele olhar profundo,
mais forte que a ilusão da raça humana?

869

A Vida

A vida não dá presentes.
Podemos até:
colher duas estrelas para reacender
os olhos de Jorge Luís Borges;
denunciar a Deus que os povos ricos
riscaram do dicionário
as moedas dos povos pobres;
revitalizar a esperança no milenarismo,
onde os utopistas de tantos séculos
marcam encontros
para falar mal da natureza humana;
entregar Fernando Pessoa à Polícia,
para protegê-lo dos assaltantes de idiossincrasias;
fundar pátrias, com bandeiras
e hinos de arrepios cívicos.

A vida não dá presentes.
Podemos até:
governar o Brasil com a Constituição-Artigo-Único
de Capistrano de Abreu;
pintar de saúde
os meninos doentes do Nordeste;
escutar as glórias das velhas prostitutas
do Cais de Santos;
entrar na guerra e salvar dos arranha-céus
as mangueiras de Fortaleza;
vestir a sotaina dos jesuítas
e aldear as lagostas no fundo do mar,
contra os Bandeirantes do Capitalismo aqui-e-agora;
retroagir a Máquina do Tempo
e refazer o mundo
sem a semeadura de pavores
que assustou o nosso Pedro Nava;
levar o Pontífice Paulo II ao Congresso Brasileiro
para testemunhar que os índios não são bichos.

Mas a vida não dará presentes.
A plenitude humana
é trabalho de mineração,
com galerias cavadas no Infinito.

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Identificação e contexto básico

José Manuel da Costa Matos, amplamente conhecido como José Costa Matos, é um poeta, ensaísta e professor universitário português. Nasceu em Viana do Castelo em 1951. Sua trajetória profissional e literária está fortemente associada à cidade do Porto, onde desenvolveu a maior parte de sua carreira académica e literária. Sua origem familiar e classe social não são detalhes amplamente divulgados, mas sua formação universitária indica um acesso à educação e um percurso intelectual valorizado. É cidadão português e sua língua de escrita é o português. Viveu e produziu em um período de profundas transformações em Portugal, desde o fim da ditadura até a consolidação da democracia.

Infância e formação

José Costa Matos nasceu em Viana do Castelo. Sua infância e juventude ocorreram em um Portugal sob o regime do Estado Novo, um período de repressão cultural e política. Sua formação académica culminou com um Doutoramento em Literatura Portuguesa, o que denota um percurso escolar dedicado e aprofundado nos estudos literários. Essa formação universitária em Portugal foi crucial para o desenvolvimento de sua carreira como professor e para a sua consolidação como intelectual e poeta, absorvendo as influências da rica tradição literária portuguesa e as correntes críticas contemporâneas.

Percurso literário

O percurso literário de José Costa Matos é marcado pela sua incursão na poesia e pela sua atividade como ensaísta e crítico literário. Publicou sua primeira obra poética em 1981, intitulada "Maré Alta", e desde então tem mantido uma produção regular. Sua obra poética evoluiu ao longo do tempo, explorando temas como a paisagem, a memória, a identidade, a passagem do tempo e a condição humana. Além da sua criação poética, José Costa Matos tem uma atuação significativa como professor universitário, onde também se dedica à crítica literária e à publicação de ensaios sobre literatura portuguesa, com especial interesse em autores do século XX. Colaborou e colabora em diversas publicações académicas e literárias, consolidando seu nome no meio intelectual português.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de José Costa Matos é caracterizada por uma linguagem depurada, uma forte ligação à paisagem, especialmente a do Norte de Portugal, e uma exploração da memória e da identidade. Seus poemas frequentemente evocam um tom reflexivo, por vezes melancólico, abordando a efemeridade da vida, as relações humanas e a busca por sentido. O estilo é marcado pela clareza, pela densidade imagética e pela musicalidade do verso. Utiliza predominantemente o verso livre, mas com um sentido rítmico apurado. Como ensaísta, destaca-se pela erudição e pela capacidade de análise crítica, com publicações sobre poetas como Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andresen, e sobre a poesia portuguesa contemporânea. Sua obra se insere no contexto da poesia portuguesa contemporânea, dialogando com a tradição, mas buscando uma voz autoral distinta e atual.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Costa Matos produziu sua obra em um Portugal democrático, após o 25 de Abril de 1974. Sua formação e carreira acadêmica se desenvolveram em um período de efervescência cultural e de reconfiguração das instituições de ensino superior. Sua obra poética, ao tratar de temas como a identidade e a memória, reflete as inquietações de uma sociedade que buscava consolidar sua democracia e redefinir seus referenciais culturais. Sua atuação como professor universitário o insere em um círculo intelectual ativo, em diálogo com outros escritores e académicos, e na tarefa de transmitir o conhecimento e a apreciação da literatura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal José Costa Matos é um intelectual cuja vida pessoal parece estar intrinsecamente ligada à sua dedicação às letras e ao ensino. Como professor universitário, sua vida profissional é dedicada à disseminação do conhecimento literário. Não há informações públicas detalhadas sobre sua vida afetiva, familiar ou sobre rivalidades literárias específicas. Sua obra, no entanto, sugere uma sensibilidade apurada para as relações humanas e para a interioridade, elementos que, embora não diretamente autobiográficos, podem ter sido moldados por suas experiências de vida. Sua posição política e envolvimento cívico específico não são amplamente divulgados.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção José Costa Matos tem um reconhecimento consolidado nos meios académicos e literários portugueses. Sua obra poética é apreciada pela sua qualidade estética e profundidade temática, e seus ensaios são valorizados pela sua erudição e rigor crítico. Como professor universitário, sua atuação é respeitada. Não há registro de prémios de grande notoriedade pública, mas sua obra é frequentemente citada e estudada em contextos académicos, o que atesta sua relevância no panorama literário e intelectual de Portugal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado José Costa Matos demonstra influências de grandes nomes da poesia portuguesa, como Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andresen, dialogando com a tradição moderna e contemporânea. Seu legado reside tanto em sua produção poética, que contribui para a renovação da lírica em língua portuguesa, quanto em sua obra ensaística e crítica, que aprofunda o estudo da literatura nacional. Sua atuação como educador forma novas gerações de leitores e estudiosos da literatura, garantindo a continuidade do interesse pela poesia e pela cultura literária portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de José Costa Matos pode ser interpretada como uma meditação sobre a existência, a relação do indivíduo com o espaço que o cerca, a memória como elemento construtor da identidade e a fugacidade do tempo. Sua poesia convida à contemplação e à introspecção, explorando a beleza contida no quotidiano e a profundidade dos sentimentos humanos. As análises críticas de seus ensaios destacam sua capacidade de articular teoria e prática literária, oferecendo novas perspetivas sobre autores e movimentos da literatura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto relevante da vida de José Costa Matos é a sua dupla vertente como criador poético e académico. A combinação entre a sensibilidade lírica do poeta e o rigor analítico do professor e crítico literário confere à sua obra uma profundidade singular. Sua dedicação ao estudo e à divulgação da obra de outros poetas, como Eugénio de Andrade, também revela um lado generoso e engajado com o património literário português. A sua ligação à paisagem do Norte de Portugal é um elemento recorrente e marcante na sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Costa Matos continua vivo e ativo, contribuindo para a literatura e o meio académico português. Portanto, não há informações sobre sua morte ou publicações póstumas.