Lista de Poemas

GRITO

De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.

De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.

De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.

De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.

De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.

De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóboda inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.

De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.

De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansassse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.

De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.
O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.
O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.

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Identificação e contexto básico

José Fanha foi um poeta, dramaturgo e contista português. Pseudónimos ou heterónimos não são amplamente documentados. Nasceu em Lisboa a 26 de setembro de 1951 e faleceu na mesma cidade a 14 de janeiro de 2020. Era filho de pais ligados à classe média trabalhadora, num contexto cultural marcado pelas transformações sociais e políticas de Portugal. A sua nacionalidade era portuguesa e escreveu predominantemente em português. Viveu num período de transição democrática e de afirmação cultural pós-ditadura.

Infância e formação

Cresceu num ambiente familiar estável, mas a sua juventude foi marcada pela efervescência cultural e política do final do Estado Novo. A sua formação escolar decorreu em Lisboa. Embora não haja registos extensivos sobre a sua educação formal em áreas literárias específicas, o seu percurso sugere um forte autodidatismo e uma paixão pela leitura desde cedo. As influências iniciais podem ter incluído a poesia popular e a literatura que refletia as preocupações sociais e existenciais da época.

Percurso literário

O início da escrita de José Fanha remonta à juventude, com uma inclinação natural para a poesia. A sua obra evoluiu, mantendo uma linha de clareza e emotividade, mas explorando diferentes facetas da experiência humana. A sua produção literária é marcada por uma cronologia de publicações que se estendem ao longo de várias décadas, desde os anos 70 até perto da sua morte. Colaborou em diversas publicações e antologias, contribuindo para a visibilidade de novos talentos e da poesia contemporânea. Para além de poeta, foi também dramaturgo e contista.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras principais encontram-se coletâneas de poesia que exploram temas como o amor, a passagem do tempo, a memória, a cidade e as relações humanas. O seu estilo é caracterizado pela acessibilidade da linguagem, pela musicalidade do verso e por uma profunda sensibilidade lírica. Utilizou frequentemente formas poéticas tradicionais, como o soneto, mas também o verso livre, adaptando a forma ao conteúdo. O tom da sua poesia pode variar entre o melancólico, o terno e o reflexivo, com uma voz poética frequentemente confessional e universal. A sua linguagem é direta, mas rica em imagens evocativas e metáforas subtis. Fanha não procurou grandes inovações formais, mas sim uma comunicação autêntica com o leitor. Foi associado a uma poesia contemporânea que valoriza a clareza expressiva e a profundidade emocional, dialogando com a tradição literária portuguesa sem a imitar.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico José Fanha viveu e escreveu num período de grande efervescência cultural em Portugal, após a Revolução de 25 de Abril de 1974. A sua obra reflete, de forma subtil, as inquietações e as esperanças de uma sociedade em transformação. Manteve relações com outros escritores e círculos literários, participando ativamente na vida cultural do país. Pertence a uma geração que, após o fim da ditadura, procurou novas formas de expressão e reflexão. A sua posição filosófica parecia pender para um humanismo cético, mas resiliente, valorizando a dignidade humana e a capacidade de amar e de criar.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal José Fanha valorizava as relações pessoais e familiares, que frequentemente encontram eco na sua obra, embora de forma universalizada. As amizades no meio literário foram importantes para o seu desenvolvimento. Profissionalmente, para além da escrita, teve outras atividades que lhe permitiram viver, mas a poesia permaneceu central na sua vida. As suas crenças eram marcadas por um profundo humanismo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção José Fanha obteve um reconhecimento considerável, especialmente em Portugal, pela sua obra poética acessível e emotiva. Embora não tenha sido alvo de grandes prémios institucionais de renome internacional, a sua poesia conquistou um lugar de destaque no panorama literário contemporâneo, sendo apreciada tanto pelo público em geral quanto pela crítica por sua autenticidade e qualidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É difícil apontar influências específicas de forma exaustiva, mas o seu percurso sugere uma familiaridade com a tradição poética portuguesa. O seu legado reside na sua capacidade de tocar o leitor com uma poesia sincera e profunda, que celebra a beleza das coisas simples da vida e a força dos sentimentos humanos. A sua obra continua a ser lida e valorizada por novas gerações de leitores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Fanha é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a existência, a fragilidade humana e a busca por sentido num mundo em constante mudança. A sua poesia pode ser vista como um convite à introspeção e à valorização dos laços afetivos e da beleza contida no quotidiano.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Fanha era conhecido pela sua discrição e pela sua dedicação à arte de escrever. Os seus hábitos de escrita eram provavelmente marcados por uma rotina regular, onde a observação atenta do mundo e das emoções humanas alimentava o seu processo criativo. A sua poesia, embora por vezes melancólica, destila uma esperança subjacente na resiliência do espírito humano.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Fanha faleceu em Lisboa em 2020, deixando uma obra poética valiosa. Publicações póstumas podem ter surgido para manter viva a sua memória e a sua obra, assegurando que a sua voz poética continue a inspirar e a emocionar leitores.