Lista de Poemas

Silêncio

Minha casa tão longe do mar.
Minha vida tão lenta e cansada.
Quem me dera deter-me a sonhar!
Uma noite de lua na praia!
Morder musgos avermelhados e ácidos
E ter por fresquíssimo travesseiro
Um montão dessas curvas pedras
Que há polido o sal das águas.
Dar o corpo aos ventos sem nome
Abaixo o arco do céu profundo
E ser toda uma noite, silêncio,
No vazio ruidoso do mundo.

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A hora

Toma-me agora que ainda é cedo
e que levo dálias novas na mão.

Toma-me agora que ainda é sombria
esta taciturna cabeleira minha.

agora que tenho a carne cheirosa
e os olhos limpos e a pele de rosa.

Agora que calça minha planta ligeira
a sandália viva da primavera.

Agora que em meus lábios repica o sorriso
como um sino sacudido às pressas.

Depois..., iah, eu sei
que já nada disto mais tarde terei!

Que então inútil será teu desejo,
como oferenda posta sobre um mausoléu.

Toma-me agora que ainda é cedo
e que tenho rica de nardos a mão!

Hoje, e não mais tarde. Antes que anoiteça
e se volte murcha a corola fresca.

Hoje, e não amanhã. Oh amante! Não vês
que a trepadeira crescerá cipreste?

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Implacável

E te dei o cheiro
De todas minhas dálias e narcos em flor.
E te dei o tesouro
Das fundas minas de meus sonhos de ouro.
E te dei mel,
Do favo moreno que finge minha pele.
E tudo te dei!
E como uma fonte generosa e viva para tua alma fui.
E tu, deus de pedra
Entre cujas mãos nem a hera cresce;
E tu deus de ferro
Ante cujas plantas velei como um cachorro,
Desdenhaste o ouro, o mel e o cheiro.
E agora retornas, mendigo de amor!
A buscar as dálias, a implorar o ouro,
A pedir de novo todo aquele tesouro!
Ouve, mendigo:
Agora que tu queres é que eu não quero,
Se o roseiral floresce,
É já para outro que em casulo cresce.
Vá embora, deus de pedra,
Sem fontes, sem dálias, sem mel, sem hera
Igual que uma estátua,
A quem Deus baixara do pedestal, por vaidade.
Vá embora, deus de ferro!
Que junto a outras plantas se há estendido o cachorro!

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Identificação e contexto básico

Juana de Ibarbourou (nascida Juana Juana Ramírez de Asnar) foi uma poeta uruguaia, amplamente conhecida pelo pseudónimo Juana de América. Nasceu a 8 de março de 1892 em Melo, Cerro Largo, Uruguai, e faleceu a 15 de julho de 1979 no Hospital Italiano de Montevidéu, Uruguai. Originária de uma família de classe média e imersa num contexto cultural influenciado pelas tradições rurais e pela crescente modernidade uruguaia, escreveu em espanhol. Viveu grande parte do século XX, um período de intensas transformações sociais, políticas e culturais na América Latina.

Infância e formação

Juana de Ibarbourou nasceu numa família de origem basca. A sua infância foi passada num ambiente rural, o que viria a influenciar a sua sensibilidade para a natureza. Recebeu educação primária e secundária, mas foi em grande parte autodidata na sua formação literária. Desde cedo, demonstrou um interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências da poesia romântica e simbolista europeia, bem como da literatura hispano-americana emergente. A sua juventude foi marcada por uma sensibilidade apurada e uma precocidade literária.

Percurso literário

O início da escrita de Juana de Ibarbourou deu-se na sua adolescência. O seu primeiro livro, "Las lenguas de diamante" (1918), foi um sucesso imediato, lançando-a para a fama. Ao longo da sua carreira, a sua obra evoluiu, mantendo, no entanto, uma linha de continuidade na sua expressão lírica. Publicou posteriormente "Los cálices vacíos" (1920) e "La rosa de los vientos" (1930), entre outros. Colaborou ativamente em diversas revistas literárias do seu tempo, tanto no Uruguai como noutros países da América Latina, consolidando a sua presença no circuito literário. Não se dedicou à crítica ou tradução de forma proeminente.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Juana de Ibarbourou incluem "Las lenguas de diamante" (1918), "Los cálices vacíos" (1920) e "La rosa de los vientos" (1930). Os temas dominantes na sua poesia são o amor, a natureza, a infância, a beleza feminina, a passagem do tempo e a efemeridade da vida. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem clara, musical e acessível, com um uso frequente de metáforas e imagens sensoriais, muitas vezes inspiradas na flora e fauna. O tom é predominantemente lírico, terno e por vezes melancólico. A sua voz poética é confessional e intimista, mas capaz de ressoar universalmente. Ibarbourou não se focou em experimentações formais radicais, preferindo formas mais tradicionais, mas com grande domínio do ritmo e da sonoridade do verso. É frequentemente associada ao Modernismo hispano-americano, embora a sua poesia transcenda classificações rígidas, mantendo uma singularidade e um apelo popular duradouro. Obras menos conhecidas incluem "Ejemplares de mi obra" (1920) e "Canto a Uruguay" (1931).

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Juana de Ibarbourou floresceu no início do século XX, um período de grande efervescência cultural na América Latina, conhecido como a "Belle Époque" hispano-americana. O seu sucesso coincidiu com um momento em que a literatura latino-americana procurava afirmar a sua identidade própria, distanciando-se dos modelos europeus. A sua poesia dialogou com o Modernismo, mas manteve uma originalidade que lhe permitiu alcançar um vasto público, transcendendo os círculos intelectuais. A sua figura pública, muitas vezes idealizada, refletia a busca por uma identidade nacional e cultural forte no Uruguai.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Em 1913, casou-se com Capitán Ricardo Ibarguren, com quem teve um filho, Julio César. A sua vida pessoal foi, em grande medida, dedicada à poesia e à sua projeção pública. Manteve uma imagem cuidada e uma postura digna, que lhe valeu o epíteto de "Juana de América". As suas relações pessoais e experiências de vida, embora não explicitamente exploradas em detalhe nas suas obras, parecem ter informado a sua sensibilidade para os temas do amor e da perda.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Juana de Ibarbourou alcançou um reconhecimento público e institucional notável em vida. Foi aclamada como uma das maiores poetas da América Latina, sendo "Juana de América" um título que lhe foi atribuído pelos seus admiradores e pela crítica. Recebeu diversas distinções honoríficas ao longo da sua carreira. A sua poesia gozou de grande popularidade junto do público, sendo amplamente lida e declamada, e consolidou o seu lugar no cânone literário hispano-americano.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Juana de Ibarbourou foi influenciada pela poesia romântica, simbolista e modernista, tanto europeia como latino-americana. O seu estilo lírico, acessível e imagético, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas em toda a América Latina, especialmente aqueles que procuravam uma expressão poética clara e emotiva. O seu legado reside na popularização da poesia e na consolidação de uma voz feminina forte e representativa na literatura hispano-americana. A sua obra continua a ser estudada e admirada pela sua beleza formal e pela profundidade dos seus temas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ibarbourou é frequentemente analisada sob a perspetiva da sua lírica, da representação da natureza e do amor, e da sua capacidade de evocar emoções universais. Críticos destacam a sua habilidade em traduzir a beleza do mundo natural e a complexidade dos sentimentos humanos numa linguagem poética acessível e cativante. As interpretações focam-se na sua voz feminina, na sua relação com a tradição e na sua contribuição para a identidade poética latino-americana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua vida foi a controvérsia em torno da sua verdadeira autoria de alguns poemas iniciais, que foram posteriormente confirmados como seus. A sua figura pública, cuidadosamente construída, por vezes ofuscou a profundidade das suas reflexões poéticas. A sua casa em Montevidéu tornou-se um local de peregrinação para admiradores.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Juana de Ibarbourou faleceu em 15 de julho de 1979. A sua morte foi amplamente lamentada e a sua memória é celebrada como um dos pilares da poesia uruguaia e latino-americana. A sua obra continua a ser publicada e estudada, mantendo-se viva na cultura e na literatura.