AFINAL

Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.

Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora dEle há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.

Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.

Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,

Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam

Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,

Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.

Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!

Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,

Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.

Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.

Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.

Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...

Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.

Dentro de mim estão presos e atados ao chao
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,

A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minhalma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções!

40 Fernando Pessoa

A NOVA POESIA PORTUGUESA
SOCIOLOGICAMENTE CONSIDERADA

I

Ao movimento literário representado e peculiar da nascente geração portuguesa tem sido feito pela opinião pública o favor de o não compreender. E esse movimento que, sobretudo na poesia, com crescente nitidez acusa a sua individualidade representativa, não tem sido compreendido, porque uma parte do público, a que tem mais de trinta anos, está inadaptabilizável, por já velha, a esse movimento, e consta, perante ele, de incompreendedores natos; porque outra parte, ou por circunstâncias de bacharelosa espécie educativa, ou por descuidada na manutenção espiritual do sentimento de raça, ou ainda por sentimentos de desviado e estéril entusiasmo, gerados por absorção na intensa e mesquinha vida política nossa, está colocada num estado de pseudo-alma descritível como sendo de incompreendedores de ocasião; e porque a outra, restante, aquela de quem são os novos poetas e literatos e os que os acompanham no obscuro sentimento racial que os guia não tomou ainda consciência de si como o que realmente é, porquanto o movimento poético actual é ainda embrião quanto a tendências, nebulosa quanto a ideias que de si ou de outras coisas tenha.
Urge que – pondo de parte misticismos de pensamentos e de expressão, úteis apenas para despertar pelo ridículo, que a sua obscuridade para os profanos causa, o interesse alegre do inimigo social – com raciocínios e cingentes análises se penetre na compreensão do actual movimento poético português, se pergunte à alma nacional nele espelhada o que pretende e a que tende e se ponha em termos de compreensibilidade lógica o valor e a significação, perante a sociologia, desse movimento literário e artístico.
42 Fernando Pessoa

II

Em primeiro lugar, é evidente que aquilo a que se chama uma corrente literária deve de algum modo ser representativo do estado social da época e do país em que aparece. Porque uma corrente literária não é senão o tom essencial que de comum têm os escritores de determinado período, e que representa, postas de parte as inevitáveis peculiaridades individuais, um conceito geral do mundo e da vida, e um modo de exprimir esse conceito, que, por ser comum a esses escritores, deve forçosamente ter raiz no que de comum eles têm, e isso é a época e o país em que vivem ou em que se integram.
E se a literatura é fatalmente a expressão do estado social de um período político, a fortiori o deve ser, adentro da literatura, o género literário que mais de perto cinge e mais transparentemente cobre o sentimento e a ideia expressos – e esse género literário é a poesia.
Não é isto, porém, que de momento importa. Saber pela literatura as ideias de uma época só pode ter interesse para a posteridade, que não tem outro meio de a tornar presente ao seu raciocínio. O que nos ocupa é saber se a literatura nos poderá ser um indicador sociológico, se nos pode ser ponteiro para indicar a que horas da civilização estamos, ou, para falar com clareza, para nos informar do estado de vitalidade e exuberância de vida em que se encontra uma nação ou época, para que, pela literatura simplesmente, possamos prever ou concluir o que espera o país em que essa literatura é actual. E é precisamente isto que a priori se não pode imaginar. Reportemo-nos, pois, à evidência analisada dos factos.
Desbravemos, porém, o terreno, aclarando alguns termos essenciais e simplificando, para não sermos longos, as condições
Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas ideias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence. É por isso que ninguém compara a grandeza ruidosa de Roma à super-grandeza da Grécia. A Grécia criou uma civilização, que Roma simplesmente espalhou, distribuiu. Temos ruínas romanas e ideias gregas. Roma é, salvo o que sobremorre nas fórmulas invitais dos códigos, uma memória de uma glória; a Grécia sobrevive-se nos nossos ideais e nos nossos sentimentos.
Servir-nos-ão de material para a análise duas nações apenas – a Inglaterra e a França; e isto porque, tendo essas uma unidade nacional, uma continuidade de vida e uma influência civilizacional acentuada, o problema se limita simplesmente à análise que desejamos fazer, sem impor, como imporia o estudo de qualquer nação ou mais complexa, ou mais afastada no tempo, uma prévia análise diferencial A escassez do material, porém, importa apenas quando é superficial a análise; porque, se pour appliquer un brin de paille il faut démonter tout le système de l'univers, ao raciocinador ideal bastaria, visto que o sistema do universo se acha logicamente contido no brin de paille, analisá-lo bem, a ele brin de paille, para deduzir o sistema do universo.
Tomaremos a Inglaterra e a França para material de análise. E tomaremos períodos nítidos, pois que o espaço não permite a co-análise de períodos literária ou politicamente embrionários.
45 Fernando Pessoa

III

A história literária da Inglaterra mostra três períodos distintos, ainda que subdivisíveis em subperíodos – o isabeliano, que vai de 1580, aproximadamente, até a um ponto pouco mais ou menos coincidente com o fim da República; o tratável de «neoclássico» que, pouco depois começando, ocupa quase todo o século XVIII, começando porém a morrer desde 1780, aproximadamente; e o moderno, que vem desde então até aos nossos dias. Destes três períodos o primeiro impõe-se como, por muito, o maior, não só por ser mais alto o tom poético geral do período, mas também porque as suas culminâncias poéticas – Spenser, Shakespeare e Milton – põem na sombra quantos nomes ilustres os outros dois períodos apresentem. O segundo período é inferior aos outros dois: o tom poético é aquele, intolerável, que a França do ancien&régime derramou pela Europa de que tinha a hegemonia social. O terceiro período contém figuras que, sem serem supremas, são, como Coleridge, Shelley ou Browning, grandes indiscutivelmente.
Vejamos agora a que períodos políticos estas épocas literárias correspondem. A época isabeliana corresponde ao período da vida inglesa cuja realização foi feita pela República e na pessoa, preeminentemente, de Cromwell. Foi um período criador; nele deu a Inglaterra ao mundo moderno um dos grandes princípios civilizacionais que lhe são peculiares – o de governo popular, princípio que depois a Revolução&Francesa, parcamente criadora, simplesmente transformou no de democracia republicana. O segundo período da vida política inglesa, o que vem desde a queda da República, culmina na revolução, de mera substituição dinástica, de 1688, e vem morrer por 1780 nas almas, e de facto com a reforma eleitoral de 1832, é absolutamente nulo e estéril para a Inglaterra; nele, ela nada criou nem mesmo a sua própria grandeza, visto que a hegemonia social na Europa era então da França. Neste segundo período a Inglaterra não fez senão ir realizando, apática e frouxamente, o princípio do governo popular que havia criado. Também no terceiro período a Inglaterra nada criou de civilizacional; criou a sua própria grandeza e nada mais – visto que a hegemonia europeia tem sido mais sua do que de outra nação no século XIX, conforme o vincaram para a história Nelson, em Trafalgar, e Wellington em Waterloo.
Virando-nos agora para a França, e desprezando, como já dissemos, o embrionário e informe, vemos igualmente três períodos, incoincidentes, porém no tempo, com os três períodos ingleses. O primeiro período acompanha o ancien&régime, culmina no tempo de Luís&XIV e dura até ao fim do século XVIII, emprestando o tom à literatura europeia. O segundo período, o romântico, começa depois da queda do ancien régime e vai terminando à medida que o republicanismo se vai realizando nas almas, de 1848 a 1870, aproximada mas incorrectamente. De então para cá, em seguida ao período (de 1871 a 1881 pouco mais ou menos) de lenta consolidação republicana, vem o terceiro período, aquele a que caracterizam o realismo, o simbolismo e outros anti-romantismos (1).
Vejamos agora como se nos mostram os correspondentes períodos políticos. O primeiro, ancien régime, foi um período em que a França nada criou para a civilização, visto que criou apenas a sua própria grandeza e a correspondente hegemonia social europeia, cujo reflexo longínquo e fraquejante é a influência de que ainda goza. O segundo período é aquele que, precipitando-se na prematura Revolução Francesa, se vai realizando só depois, nas almas de 1848 a 1870, pouco mais ou menos, e é neste período que a França cria para a civilização a ideia de democracia republicana. Não a cria, é claro, tão criadoramente como a Inglaterra de Cromwell, que a origina no mundo moderno; torna-a porém mais intensa e nítida, desenvolve-a – o que é também, ainda que secundariamente, uma criação. Finalmente, no terceiro período, o de 1870 para cá, a França nada cria para a civilização, nem mesmo a sua própria grandeza cria, visto que decai em valor europeu: vai vivendo, como a Inglaterra no segundo período, e realizando, apática e despiciendamente, o princípio de democracia republicana que em anterior período criara.
Pois isto, analisemos. Em primeiro lugar, é evidente a analogia, quanto a valor civilizacional, e, portanto, a vitalidade nacional, entre o primeiro período francês e o terceiro inglês, entre o segundo período francês e o primeiro inglês, e entre o terceiro período francês e o segundo da Inglaterra. Tão perfeita é a analogia social e civilizacional como a analogia literária. A literatura inglesa atinge o seu auge no primeiro, a francesa no segundo período. São relativamente ricas a inglesa no terceiro período, a francesa no primeiro. E a inglesa no seu período segundo e a francesa no terceiro seu estão no mesmo nível de abatimento literário perante os outros períodos. Vemos, pois, que o valor dos criadores literários corresponde ao valor criador das épocas a que correspondem; de modo que a literatura não só traduz as ideias da sua época mas – e é isto que importa que fixemos – o valor da literatura, perante a história literária, corresponde ao valor da época, perante a história da civilização.
Avançando na análise, porém, revela-se-nos que a posição cronológica das literaturas se dá, relativamente aos correspondentes movimentos sociais, de modo diverso nos três períodos. Assim, no primeiro período, o criador, da Inglaterra, o movimento literário que culmina em Shakespeare (entre 1590 e 1610) precede o movimento político que só começa ao decair ele. E, em França, o movimento romântico vai decaindo à medida que se vai realizando no espírito o correspondente, e socialmente exuberante, movimento político. No segundo período inglês e terceiro francês, análogos como já vimos, a corrente literária vem depois da corrente política que lhe corresponde; como em França se vê pelo aparecimento do movimento simbolista, realista e outros, claramente, nos anos que sucedem àqueles em que se consolidou a república; e em Inglaterra pelo facto de Pope, em quem a corrente literária culmina (Dryden, talvez maior, é um poeta de transição, pertencente em parte ainda ao período anterior), ser da geração seguinte à dos consolidadores da nova fórmula, característica da época, a de monarquia constitucional. – No terceiro período inglês e primeiro francês temos a coincidência no tempo entre a corrente e culminâncias literárias e o movimento e culminâncias políticas. É sob Luís&XIV que a vida literária é de mais valor, e o movimento reformista inglês (de 1770 a 1832) que envolve em si as causas da hegemonia inglesa moderna e inclui as guerras em que ela se fixou, coincide com o romantismo britânico.
Examinemos agora quais os característicos interiores destas correntes literárias. As correntes literárias do segundo período inglês e do terceiro francês – aqueles períodos em que essas nações nada criaram, nem para os outros nem para si – oferecem como mais importante facto espiritual a desnacionalização da literatura; visto que a literatura inglesa do século XVIII é vazada em moldes franceses e a literatura francesa de 1880 para cá é tudo menos francesa de espírito. Assim, para dar o único exemplo que o espaço pode admitir, o simbolismo, essencialmente confuso, lírico e religioso, é absolutamente contrário ao espírito lúcido, retórico e céptico do povo francês. As correntes literárias do terceiro período inglês e primeiro francês – as dos períodos em que os países criaram a sua própria grandeza e hegemonia social, mas, de civilizacional, nada – mostram um equilíbrio entre o espírito nacional e a influência estrangeira: assim, a influência alemã é patente mas não dominante no romantismo inglês e a influência da antiguidade tão importante como a do espírito nacional na literatura dos séculos XVII e XVIII em França. Finalmente, nos períodos criadores – o primeiro inglês e segundo francês – temos na literatura o espírito nacional patente e dominante, absorvendo e absolutame
58 Fernando Pessoa

II

Qualquer corrente literária tira os característicos que o raciocinador lhe pode encontrar de uma tripla relacionação sociológica. Essa tripla relação revela-se à nossa análise como sendo: 1º, com o movimento social da nação em que aparece; 2º, com as outras correntes literárias, nacionais ou estrangeiras, passadas ou contemporâneas; 3º, com a alma do povo a que pertence. Esgotando, por uma análise minuciosa, as características de uma corrente literária em face destes três elementos sociológicos, aqui logicamente normativos, tê-la-emos caracterizado nítida – e diferencialmente. A análise esboçada no nosso anterior artigo, e feita sobre os períodos inglês e francês de máxima grandeza literária e social, levou-nos a atribuir ao movimento literário, que corresponde a uma época criadora, três característicos – o preceder o movimento social criador, o ter novidade e o ter nacionalidade. Isto é, como se vai ver, incompleto, ainda que não erróneo. Vamos agora arrancar às épocas criadoras, aos seus períodos literários, o seu segredo sociológico, em tudo que a sua tripla relacionação sociológica, citada, possa envolver. Paralelamente, iremos apontando as coincidências dos característicos, que essas épocas nos forem revelando, com os característicos que chemin faisant incontestabilizaremos, da nossa actual corrente literária.
Preaclaremos, porém, a questão, resolvendo em seus elementos historicamente – isto é, cronologicamente – constitutivos, a corrente literária característica das épocas de máxima grandeza nacional. Colheremos assim, de começo, uma impressão exterior desse movimento literário.
Toda a corrente literária desta espécie suprema é subdivisível em três subperíodos – um, precursor, em fins do período literário antecedente; outro, aquele que constitui essencialmente a corrente; e, último, aquele em que se dissolve a alma desse período em elementos aurorealmente característicos do período literário subsequente. Assim, no período em questão, da Inglaterra temos o subperíodo precursor com

...Dan Chaucer, whose sweet breath
Preluded those melodious bursis, that fill
The spacious times of great Elisabeth
With sounds that echo still;

a figura culminantemente típica de Chaucer, e neste o par onde ele se mostra precursor é mais o aparecer de figuras de certa grandeza do que o surgir de figuras pré-indicadoras do espírito da corrente. O sinal da vindoura grandeza nacional (literária, primeiro) está apenas no valor da precursora figura literária. Chaucer é inegavelmente inglês; mas não é completamente e tipicamente inglês, reconhecível imediatamente como inglês como depois, na corrente propriamente, o serão Spenser, Shakespeare e mesmo Milton. De resto, se essa figura precursora precontivesse elementos espiritualmente distintivos do período em si, o período teria já ipso facto, começado com ela. Em França o subperíodo precursor trai-se maximamente na figura de Rousseau-poeta, expressão esta que não se explica por quaisquer versos que Rousseau (trata-se, é claro, de Jean-Jacques) escrevesse, mas pelo elemento essencialmente poético que a prosa de Rousseau contém e que é – como compulsada, a mais mal-apreciadora história da literatura francesa revelará – o que há nele de, por envolver o princípio do sentimento da natureza, alvorescentemente indicador do vindouro romantismo francês (2).
E se Chaucer está a mais distância do princípio do verdadeiro período inglês, do que Rousseau do francês, repare-se em quão mais lenta é a evolução social pré-isabeliana da Inglaterra do que a evolução pré-revolucionária da França.
O período – o verdadeiro período – subdivide-se, por sua parte, em três estádios, classificáveis de sua juventude, virilidade e velhice. O primeiro estádio é em Inglaterra, o que vai de Wyatt e Surrey até Spenser, e onde apare já o tom, o espírito da época, incompletamente caracterizado com relação ao que se vai tornar no estádio subsequente, mas amplamente típico e grande no grande poeta Spenser; em França, o de André&Chénier e de Chateaubriand-poeta (tomada esta expressão no já indicado sentido), onde, com igual nitidez, se percebe a nacionalizada rotura com o período anterior, num tom poético inadivinhável ainda em Rousseau, em quem parece apenas preexistir com uma tendenciada artificialidade. O segundo estádio é aquele em que o espírito da época se intensifica, se alarga a toda a amplitude de que a sua alma é capaz, se torna mais ele, e, por isso, gera os máximos poetas. É, em Inglaterra, o estádio-Shakespeare. É, em França, o de Lamartine, Hugo, Musset. Finalmente, no terceiro estádio, o espírito da época como que se torna mais rígido, mais reflectido, por mais cansado: a intensidade desce para meditatividade. É, em Inglaterra, o período de Milton e dos lírios jacobitas. Em França, é o estádio de Leconte&de&Lisle, de Sully-Prudhomme. Por último, há uma espécie de sobrevivência vaga do espírito da época, mas já sob a forma essencial e espiritual da época subsequente. O que a época moribunda empresta a essa subsequência próxima é um resto de vida, manifestado por uma intensidade e relativa grandeza nos poetas em que alvorece a época seguinte, que, por ter sido a outra a máxima, da nação, forçosamente lhe há-de ser inferior. É o caso de Dryden e dos liristas carolinos que, ainda se veja que são já o princípio de um outro período, traem ainda, numa certa grandeza e intensidade, a glória de que são sucessores. É o caso de Verlaine, o mais notável dos iniciadores da sua época poética, dando ainda uma intensidade, que lhe vem do contacto que teve com o período anterior, à sua desnacionalizada obra lírica. E se em França as épocas mais se sobrepõem, é fácil ver que a extraordinária rapidez do movimento social moderno é a causa imixtora dos fenómenos.
Vejamos, agora, se, sob este ponto de vista exterior, a actual corrente literária portuguesa alguma analogia oferece com as outras correntes que estudámos. Note-se, primeiro, quando a nossa corrente principia. O seu tom especial e distintivo, quando começa a aparecer? É fácil constatá-lo. É com o Só de António&Nobre, com aquela parte da obra de Eugénio&de&Castro que toma aspectos quinhentistas, e com Os&Simples de Guerra&Junqueiro. Começa, portanto, pouco mais ou menos coincidentemente com o começo da última década do século XIX. Fixado o início do período, procuremos o precursor. Continua a não haver dificuldade: o precursor é Antero&de&Quental. É exactamente análogo a Chaucer e a Rousseau-poeta em, a par de não ter ainda nacionalidade (compare-se o seu tom com o de António Nobre, inferior como poeta, mas superior como português), ter já plena originalidade, isto é, ser já nacional por não ser inspirado em elemento algum poeticamente estrangeiro; originalidade que nem Junqueiro, na primeira fase, que é a coincidente com Antero, nem outro qualquer – inacionalizado ainda aquele por huguesco, os outros por huguismos, parnasianismos ou simbolismos – se pode considerar como tendo. – Igualmente marcado está o primeiro estádio da corrente literária propriamente dita. Vimos em que obras começa: é fácil ver que vai desde elas até à Oração à Luz de Junqueiro, e à Vida&Etérea de Teixeira&de&Pascoaes, onde começa a aparecer já o segundo estádio, onde se vê a corrente, ao continuar-se, tomar um aspecto outro absolutamente. O modo de exprimir intensifica-se, complica-se de espiritualidade, o conteúdo sentimental e intelectual alarga-se até aos confins da consciência e da intuição. A nova fase de António&Correia&de&Oliveira, o aparecimento de novos poetas, escrevendo já no novo estilo, marcam nitidamente a existência do segundo estádio. Como, por enquanto, a nossa corrente literária não tem mais idade do que esta, a analogia, não pode aspirar a abranger mais. No que abrange, porém, a analogia é perfeita. Exteriormente, o nosso actual movimento literário, até onde chega, assemelha-se às máximas correntes literárias da França e da Inglaterra. Apliquem
59 Fernando Pessoa

IV

Seguindo o método estabelecido na segunda secção deste artigo, o nosso raciocínio, incidindo directamente sobre a obra dos nossos novos poetas, devia poder deduzir, com qualquer coisa como facilidade, as ideias metafísicas orgânicas no seu espírito. Acontece, porém, que a íntima complexidade e novidade da nossa actual poesia torna essa análise directa extremamente difícil. A primeira constatação que o raciocínio faz na análise de que se trata é de que a nossa poesia novíssima é completamente e absorventemente metafísica e religiosa; a segunda constatação é, porém, a da fluidez, incerteza e carácter indefinido dessa religiosidade e desse metafisismo. É perto de impossível encontrar os nossos novos poetas fixos sobre um ponto metafísico qualquer: nem a ideia que fazem de Deus ou da natureza se apresenta de princípio nítida, nem sequer é deduzível das suas obras se têm ou não ideias de algum modo definidas sobre, suponha-se, a imortalidade da alma ou a autodeterminação da vontade. A única imediata constatação que a análise pode sem custo fazer é que a poesia dos nossos novos poetas é 1 – panteísta, 2 – não-materialista, 3 – diversa de qualquer poesia propriamente espiritualista, mas contendo elementos característicos do espiritualismo. Para além desta quase que visual constatação, o problema toma uma complexidade que desconcerta e perturba.
Sendo isto assim, vemo-nos forçados, para elucidação do assunto, a orientar de outro modo a nossa análise. A dificuldade de a fazer de modo directo leva-nos a concluir que, com mais probabilidade de segurança, só a poderemos fazer diferencialmente. Mas diferencialmente como? Seguindo a linha evolutiva da poesia europeia no que metafísica, destacando os períodos culminantes dessa poesia, fixando a direcção metafísica dessa evolução e os característicos metafísicos do último grande período, e depois, comparando a nossa nova poesia a essa, perante a qual ela se deve mostrar facilmente ou uma decadência, ou uma reacção, ou uma continuação superior, um novo estado evolutivo. Autoriza-nos a esta análise deste modo diferencial, em primeiro lugar o facto de, estando Portugal integrado na civilização europeia, a sua poesia estar também inevitavelmente, e por isso a significação dessa poesia só se poder obter, na sua essência última, sociológica ou metafísica, por uma comparação com o período literário importante que europeiamente a precedeu – obtida preliminarmente a significação evolutiva desse período e, daí, deduzindo, os prováveis característicos do período literário que se lhe seguirá; para que, da coincidência ou incoincidência dos patentes característicos metafísicos da nossa nova poesia com a desse deduzido período, aptamente se avalie se esta poesia representa o estádio poético europeu seguinte, ou se tem de ser relegada para o lugar secundário e restrito de mera poesia ou de decadência ou de reacção. – Esta análise diferencial é-nos, em segundo lugar, autorizada e imposta pelo facto de, sendo uma corrente literária, em sua essência, a expressão de um novo conceito do universo, e um conceito do universo sendo simplesmente uma metafísica, a análise dos períodos literários sob o ponto de vista metafísico ser a análise do que neles é realmente típico e fundamental; donde se conclui que esta, a análise metafísica e diferencial da nossa nova poesia, mais do que outra qualquer análise, que anteriormente fizéssemos, porá em nudez e evidência o que de fundamentalmente grande e novo a nossa nova poesia literariamente contenha e sociologicamente represente.
Para ampla segurança desta análise e natural preparação para a síntese ulterior, temos que: 1º – estabelecer quais sejam os períodos capitais e evolutivamente marcantes da literatura europeia; 2º – fixar, digressando, para podermos proceder com segura clareza, quantos e quais sejam os sistemas metafísicos definidamente fundamentais; 3º – determinar, aplicando esta constatação àquela, quais os sistemas metafísicos intimamente e caracteristicamente almas daquelas culminantes épocas de evolução; 4º – concluir, comparando as metafísicas dessas épocas, e que sistema para que sistema, ou de que espécie de sistema para que espécie de sistemas, evolui a metafísica da poesia europeia, e, portanto, a alma da civilização da Europa; 5º – deduzir – determinada essa linha de íntima evolução espiritual, e fixado qual o último grande período literário europeu e qual a sua metafísica – qual deva ser a metafísica do grande período que se lhe deve seguir; 6º – comparar a metafísica da nossa actual poesia tornada nítida e classificada por um confronto definidor com os sistemas metafísicos preliminarmente descobertos, com a metafísica deduzível como devendo ser a desse novo grande período da literatura da Europa. Dessa comparação sairá determinada, não só definitivamente qual a metafísica da nossa nova poesia (o que imediatamente pretendemos saber), mas também qual a significação sociológica que haja em ter essa poesia a metafísica que se descobrir que tem (o que é o fim imediato e último de todos estes nossos artigos). Isto é, se se constatar que a Alma Portuguesa está criando, através da sua actual Poesia, um novo conceito emocional e portanto colectivo e nacional – do Universo e da Vida, e que esse conceito é aquele que na linha evolutiva da alma europeia representa um novo estádio criador, ter-se-á estabelecido uma analogia irrefutável entre o actual período literário e o que, nos períodos máximos das nações maximamente criadoras de civilização, precedem um grande período de vida nacional socialmente criadora, e, de resto, já são esse grande período na sua expressão poética, isto é, na sua mais alta e permanente expressão. Por outras palavras: se aquilo se verificar, terá já começado a dilatação da alma europeia que representará uma nova Renascença, ainda que essa dilatação exista, por enquanto, apenas na alma do país donde essa Nova Renascença raiará para o que na Europa estiver acordado para a receber.
69 Fernando Pessoa

SOBRE TRÊS ESTÁDIOS DA POESIA


O progresso da poesia, isto é, o das formas poéticas – pois da mesma poesia, que é a verdade viva, não pode haver progresso, nem Homero foi ainda superado –, obedece àquela dura lei a que todo progresso obedece; em outras palavras, é um caso particular de um fenómeno geral. Designa-se por progresso a aquisição de uma coisa que é uma vantagem social por meio da perda de outra coisa, que era uma vantagem social também. É caso típico o da formação da Europa moderna: surgiu através da criação, diversa e colorida, das nacionalidades distintas; resultou na perda do influxo romano e do uso universal da língua latina, pelos quais as nações da Europa tinham naturalmente a fraternidade que hoje se busca em vão, porque artificialmente.
As formas poéticas, adentro da nossa civilização – isto é, da Grécia até nós –, atravessaram três estádios distintos: o estádio quantitativo, da poesia grega e latina, em que o ritmo se fundava na quantidade das sílabas, pressupondo e exigindo uma exactidão e musicalidade de dicção e pronúncia que hoje nem sequer concebemos; o estádio silábico, em que o número das sílabas no verso, a acentuação, e artifícios como a rima e a estrofe rimada faziam por compensar a perda da antiga precisão quantitativa; o estádio rítmico, em que se não cura de quanto seja regra, ou o pareça, mas se reduz a poesia, tão-somente, a uma prosa com pausas artificiais, isto é, independentes das que são naturais em todo o discurso e nele se indicam pela pontuação.
Cada estádio, ou, antes, cada forma pela qual cada estádio se distingue, tem, como tudo, vantagens e desvantagens. A poesia quantitativa, apertadíssima, obrigava todavia a uma disciplina verbal de tal ordem que se reflectia no mesmo pensamento; por isso a poesia grega e latina é de uma notável clareza e limpidez. A poesia silábica, menos apertada, se dissolve a disciplina do pensamento, mantém, contudo a da emoção; é preciso sentir claro, por obscuro que se pense, para lançar equilibradamente o movimento estrófico, alinhando e rimando. A poesia rítmica nem disciplina a inteligência nem a emoção, a não ser que estas estejam disciplinadas em, e por, si mesmas; segue, porém, todos os movimentos do espírito, como a sombra os do corpo, mas, como esta, se nos não precavermos no onde estamos, com grandes e desmedidas distorções. A primeira estorva a emoção em proveito do pensamento; a segunda estorva o pensamento em proveito da emoção; a terceira a ambos estorva, ou tende a estorvar, em proveito do que, transcendendo pensamento e emoção, é a mesma individualidade.
É regra de toda a vida social que, quanto mais liberdade nos é dada, menos podemos dar a nós mesmos. Se me fecharem num subterrâneo, tenho liberdade de fazer muita coisa sem risco de cair do telhado abaixo. No telhado, em pleno ar livre, tenho que ver melhor onde ponho os pés. A vantagem e desvantagem da poesia rítmica, ou livre, é que ela exige de nós que nos disciplinemos com uma força e uma segurança que as poesias menos livres nos não exigiam, pois elas mesmas tinham em si com que disciplinar-nos. Isto é vantagem porque a disciplina assim adquirida é mais íntima e profunda; é desvantagem porque é muito mais difícil de adquirir.
Diz-se que todos os caminhos vão dar a Roma; mas, se assim é, alguns hão-de ir para lá muito tortos. Há dois caminhos direitos entre dois pontos: o que vai de um ponto ao outro em linha recta; e o que dá a volta ao mundo até chegar lá, em complemento da mesma linha. Figura o primeiro, no caso presente, a poesia livre; figura o segundo a poesia presa. O segundo é mais fácil, porque dá mais espaço para se dar por ele; o primeiro é mais difícil, porque temos que estar certos desde o princípio.


(em «Prefácio» a Acrónios, de Luís Pedro, Lisboa, 1932)
75 Fernando Pessoa

APRESENTAÇÃO DA REVISTA ATHENA


Tem duas formas, ou modos, o que chamamos cultura. Não é a cultura senão o aperfeiçoamento subjectivo da vida. Esse aperfeiçoamento é directo ou indirecto; ao primeiro se chama arte, ciência ao segundo. Pela arte nos aperfeiçoamos a nós; pela ciência aperfeiçoamos em nós o nosso conceito, ou ilusão, do mundo.
Como, porém, o nosso conceito do mundo compreende o que fazemos de nós mesmos, e, por outra parte, no conceito, que de nós formamos, se contém o que formamos das sensações, pelas quais o mundo nos é dado; sucede que em seus fundamentos subjectivos, e portanto na sua maior perfeição em nós – que não é senão a sua maior conformidade com esses mesmos fundamentos –, a arte se mistura com a ciência, a ciência se confunde com a arte.
Com tal assiduidade e estudo se empregam os sumos artistas no conhecimento das matérias, de que hão-de servir-se, que antes parecem sábios do que imaginam, que aprendizes da sua imaginação. Nem escasseiam, assim nas obras como nos dizeres dos grandes sabedores, lucilações lógicas do sublime; em a lição deles se inventou o dito, o belo é o esplendor do vero, que a tradição exemplarmente errónea, atribuiu a Platão. E na acção mais perfeita que nos figuramos – a dos que chamamos deuses – amamos por instinto as duas formas da cultura: figuramo-los criando como artistas, sabendo como sábios, porém em um só acto; pois o que criam, o criam inteiramente, como verdade, que não como criação; e o que sabem, o sabem inteiramente, porque o não descobriram mas criaram. Se é lícito que aceitemos que a alma se divide em duas partes – uma como material, a outra puro espírito –, de qualquer conjunto ou homem hoje civilizado, que deve a primeira à nação que é ou em que nasceu, a segunda à Grécia antiga. Exceptas as forças cegas da Natureza, disse Sumner&Maine, quanto neste mundo se move, é grego na sua origem.
Estes gregos, que ainda nos governam de além dos próprios túmulos desfeitos, figuraram em dois deuses a produção da arte, cujas formas todas lhes devemos e de que só não criaram a necessidade e a imperfeição. Figuraram em o deus Apolo a liga instintiva da sensibilidade com o entendimento em cuja acção a arte tem origem como beleza. Figuraram em a deusa Atena a união da arte e da ciência, em cujo efeito a arte (como também a ciência) tem origem como perfeição. Sob o influxo do deus nasce o poeta, entendendo nós por poesia, como outros, o princípio animador de todas as artes; com o auxílio da deusa se forma o artista.
Com esta ordem de símbolos – e assim nesta matéria como em outras – ensinaram os gregos que tudo é de origem divina, isto é, estranho ao nosso entendimento, e alheio à nossa vontade. Somos só o que nos fizeram ser, e dormimos com sonhos, servos orgulhosos neles da liberdade que nem neles temos. Por isso o nascitur que se diz do poeta, se aplica também a metade do artista. Não se aprende a ser artista; aprende-se porém a saber sê-lo. Em certo modo, contudo, quanto maior o artista nato, maior a sua capacidade para ser mais que o artista nato. Cada um tem o Apolo que busca, e terá a Atena que buscar. Tanto o que temos, porém, como o que teremos, já nos está dado, porque tudo é lógico. Deus geometriza, disse Platão.
Da sensibilidade, da personalidade distinta que ela determina, nasce a arte per o que se chama a inspiração – o segredo que ninguém falou, a sésame dita por acaso, o eco em nós do encantamento distante.
A só sensibilidade, porém, não gera a arte; é tão somente a sua condição, como o desejo o é do propósito. Há mister que ao que a sensibilidade ministra se junte o que o entendimento lhe nega. Assim se estabelece um equilíbrio; e o equilíbrio é o fundamento da vida. A arte é a expressão de um equilíbrio entre a subjectividade da emoção e a objectividade do entendimento, que, como emoção e entendimento, e como subjectiva e objectivo, se entrepõem, e por isso, conjugando-se, se equilibram.
Tem a arte, para nascer, que ser de um indivíduo; para não morrer, que ser como estranha a ele. Deve nascer no indivíduo per, que não em, o que ele tem de individual. No artista nato a sensibilidade, subjectiva e pessoal, é, ao sê-lo, objectiva e impessoal também. Por onde se vê que em tal sensibilidade se contém já, como instinto, o entendimento; que há portanto fusão, que não só conjugação, daqueles dois elementos do espírito.
A sensibilidade conduz normalmente à acção, o entendimento à contemplação. A arte, em que estes dois elementos se fundem, é uma contemplação activa, uma acção parada. É esta fusão, composta em sua origem, simples em seu resultado, que os gregos figuraram em Apolo, cuja acção é a melodia. Não tem porém valia como arte essa dupla unidade senão com seus elementos não só unidos mas equivalentes.
Pobre de sensibilidade e de pessoa, a arte é uma matemática sem verdade. Por muito que um homem aprenda, nunca aprende a ser quem não é; se não for artista, não será artista, e da arte que finge se dirá o que Scaliger disse da de Erasmo: «ex alieno ingenio poeta, ex suo versificator» – poeta pelo engenho alheio, versificador pelo próprio.
Pobre de entendimento, porém, e da objectividade que há nele, no génio sobressai a loucura, em que se funda; no talento a estranheza, em que se fundamenta; no engenho a singularidade, em que tem origem. O indivíduo mata a individualidade.
Na arte buscamos para nós um aperfeiçoamento directo; podemos buscá-lo temporário, ou constante, ou permanente. Nossa índole, e as circunstâncias, determinarão a espécie, que é também o grau, de nossa escolha.
Aperfeiçoamento temporário, não o há senão o do esquecimento; porque; como forçosamente o que temos de mau está em nós, o aperfeiçoarmo-nos temporariamente, isto é, sem aperfeiçoamento, não pode ser mais que o esquecermo-nos de nós, e da imperfeição que somos. Ministram por natureza este esquecimento as artes inferiores – a dança, o canto, a representação –, cujo fim especial é o de distrair e de entreter, e que, se excedem esse fim, também a si mesmas se excedem.
Aperfeiçoamento constante quer dizer, não o aperfeiçoamento, senão a presença constante de estímulos para ele. Não há estímulos, porém, senão exteriores; serão tanto mais fortes, quanto mais exteriores; serão tanto mais exteriores, quanto mais físicos e concretos. Ministram por natureza este estímulo constante as artes superiores concretas – a pintura, a escultura, a arquitectura ––, cujo fim especial é o de adornar e de embelezar. Constantes como aperfeiçoamento, são porém permanentes como estímulos dele; de aí o serem superiores. Podem elas, contudo, admitir, como todo concreto, uma animação do abstracto; na proporção em que, sem desertarem de seu fito, o fizerem, a si mesmas se excederão.
O aperfeiçoamento permanente não pode dar-se senão por aquilo que no homem é já mais permanente e mais aperfeiçoado. Operando e animando nesse elemento do espírito se fará o homem viver cada vez mais nele, se o fará viver uma vida cada vez mais perfeita. É a abstracção o último efeito da evolução do cérebro, a última revelação que em nós o destino fez de si mesmo. É ainda a abstracção substancialmente permanente; nela, e na operação dela a que chamamos razão, não vive o homem servo de si, como na sensibilidade, nem pensa superficial do ambiente, como com o entendimento: vive e pensa sub specie aeternitatis, desprendido e profundo. Nela, pois, e por ela, se deve efectuar o aperfeiçoamento permanente do homem. As artes que por natureza ministram tal aperfeiçoamento são as artes superiores abstractas – a música e a literatura, e ainda a filosofia, que abusivamente se coloca entre as ciências, como se ela fora mais que o exercício do espírito em se figurar mundos impossíveis.
Assim, porém, como qualquer das artes superiores pode descer ao nível da ínfima, quando se dê o fito que naturalmente convém àquela, assim também as inferiores e as concretas podem, em certo<
83 Fernando Pessoa

ACTO V


O FAUSTO NEGRO

(Prólogo no Inferno)


Tecedeiras a tecer:
Teçamos, teçamos
O pano da vida.
Teçamos, teçamos
Com louca lida.

De negro, de negro
Com pontos dourados,
De negro, de negro
Com breves bordados.

Teçamos a rede
Da vida em tear
Que a morte tem sede
Da rede rasgar.
Teçamos, teçamos
Pra cedo acabar.


Uma voz

Eu sou o Spírito de Alegria,
Minha mortalha minha mão fia,
Fia-a contente de ter que fiar.
Por isso a fia sem a acabar,
Fia de noite, fia de dia,
Fia, fia, fia, fia,
Fia de noite e de dia fia.

Bem sei que a obra é para tristeza,
Mas há o fazê-la que a faz beleza,
Bem sei que a morte é seu fio e a dor
Constante no fiar. Mas fia com amor.
E por isso cumpre-me a minha alegria
Minha mão (...) que fia e fia,
Fia de noite fia de dia,
Fia, fia, fia, fia
Fia de dia e de noite fia.




É o maior horror da alma
Ver claro em pensamento que é profundo
Ver o Terror Supremo! a ambição
De morrer pra não pensar, já não
Por duvidar – mas – oh, maior horror!
Por ver, por ver, por ver!



O animal teme a morte porque vive,
O homem também, e porque a desconhece.
Só a mim me é dado com horror
Temê-la por lhe conhecer a inteira
Extensão e mistério, por medir
O infinito seu de escuridão.
Não que a conheça, não, nem compreenda
Mas que como ninguém meço e compreendo
Toda a extensão do seu mistério negro.
Para esta minha dor não foram feitas
Palavras que expressem e nem mesmo
Sentimento que a sinta como tal.
Dor que transcende o verbo e o sentimento
Criando um sentimento para si
Do qual o Horror é apenas a aparência
Pensável e sensível do exterior.
Indefinível sentimento fundo
Que me foge quando eu a analisá-lo
Me preparo e só deixa como um rasto
Da fantásmica luz de escuridão
À qual cerrar os olhos d'alma tenho.
O horror cabe bem n'alma, mas aqui
Não me cabe uma alma neste horror. Além
Do vulgar medo à extinção suprema
Há a épica aceitação da morte
E além d'ambas este perder d'alma
Num escurecido e lúcido terror.




Já ouço o impetuoso
Circular ruído de arrastadas folhas,
E num vago abrir d'olhos na luz sinto
As amarelidões e palidezes
Onde o outono sopra nuamente.
Deixá-lo que assim seja – que me importa?
Como um fresco lençol eu quereria
Puxar sombra e silêncio sobre mim
E dormir – ah, dormir! – num deslizar
Suave e brando para a inconsciência
Num apagar sentido docemente.




Do eterno erro na eterna viagem,
O mais que saibas na alma que ousa,
É sempre nome, sempre linguagem
O véu e a capa de uma outra coisa.

Nem que conheças de frente o Deus,
Nem que o eterno te dê a mão,
Vês a verdade, rompes os véus,
Tens mais caminho que a solidão.

Todos os astros, inda os que brilham
No céu sem fundo do mundo interno,
São só caminhos que falsos trilham
Eternos passos do erro eterno.

Volta a meu seio, que não conhece
Enigma ou deuses porque os não vê,
Volta a meus braços, neles esquece
Isso que tudo só finge que é.

Meus ramos tecem dosséis de sono,
Meus frutos ornam o arvoredo;
Vem a meus braços em abandono
Todos os Deuses fazem só medo.

Não há verdade que consigamos,
Ao Deus dos deuses nunca hás-de ver...
Dosséis de sono tecem meus ramos.
Dorme sob eles como qualquer.




Monólogo à Noite

Tenha eu a dimensão e a forma informe
Da sombra e no meu próprio ser sem forma
Eu me disperse e suma!
Toma-me, ó noite enorme, e faz-me parte
Do teu frio e da tua solidão,
Consubstancia-me com os teus gestos
Parados, de silêncio e de incerteza,
Casa-me no teu sentido (...)
E anuladamente... Que eu me torne parte
Das raízes nocturnas e dos ramos
Que se agitam ao luar... Seja eu pra sempre
Uma paisagem numa encosta em ti...
Numa absoluta (...) inconsciência
Eu seja o gesto irreal do teu beijo
E a cor do teu luar nos altos montes
Ou, negrume absoluto teu, que eu seja
Apenas quem tu és e nada mais...
Suspende-me no teu aéreo modo,
Comigo envolve as estrelas e espaço!
E que o meu vasto orgulho se contente
De teu ser infinito, e a vida tenha
Piedade por mim próprio no consolo
Da tua calma inúmera e macia...




Vejo que delirei.
Nem delirando fui feliz; mas fui-o
Apenas para obter esse cansaço
Que não obtive outrora: desejar
A morte enfim. Eis a felicidade
Suprema: recear nem duvidar,
Mas estar de prazer e dor tão lasso
A nada já sentir, longe de mim
Como era antigamente: e também longe
Dos homens do (...) natural
Estranho! com saudade só me lembro
Do meu grão tempo de infelicidade,
Saudade não, e um orgulho (que é só
O que dela me resta hoje) e não quero
Àquele tempo regressar. Já nada quero!
Caí e a queda assim me transformou!
Saudosamente ainda me lembra
D'ultra acordado estar, mas a queda
Tirou já o desejo de voltar
(Se pudesse). Deixou só um sentimento
De desejar eterna quietação
Ânsia cansada de não mais viver;
Ambição vaga de fechar os olhos
E vaga esp'rança de não mais abri-los.
Meu cérebro esvaído não lamenta
Nem sabe lamentar. Tumultuárias
Ideias mistas do meu ser antigo
E deste, surgem e desaparecem
Sem deixar rastos à compreensão.
E ainda com elas, sonhos que parecem
Memórias dessa infância, dessas vozes
Já deslembradas, vãs, incoerentes,
Amargas, vãs desorganizações
Que nem deixam sofrer. Vem pois, oh, Morte!
Sinto-te os passos! Grito-te! O teu seio
Deve ser, suave e escutar o teu coração
Como ouvir melodia estranha e vaga
Que enleva até ao sono, e passa o sono.
Nada, já nada posso, nada, nada...
Vais-te, Vida. Sombras descem. Cego. Oh, Fausto!

(Expira)
91 Fernando Pessoa

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Atque in perpetuum, frater, ave atque vale!

CAT.

Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares. Quem ama, ama só a igual, porque o faz igual com amá-lo. Como porém o homem não pode ser igual dos Deuses, pois o Destino os separou, não corre homem nem se alteia deus pelo amor divino; estagna só deus fingido, doente da sua ficção.
Não morrem jovens todos a que os Deuses amam, senão entendendo-se por morte o acabamento do que constitui a vida. E como à vida, além da mesma vida, a constitui o instinto natural com que se a vive, os Deuses, aos que amam, matam jovens ou na vida, ou no instinto natural com que vivê-la. Uns morrem; aos outros, tirado o instinto com que vivam, pesa a vida como morte, vivem morte, morrem a vida em ela mesma. E é na juventude, quando neles desabrocha a flor fatal e única, que começam a sua morte vivida.
No herói, no santo e no génio os Deuses se lembram dos homens. O herói é um homem como todos, a quem coube por sorte o auxílio divino; não está nele a luz que lhe estreia a fronte, sol da glória ou luar da morte, e lhe separa o rosto dos de seus pares. O santo é um homem bom a que os Deuses, por misericórdia, cegaram, para que não sofresse; cego, pode crer no bem, em si, e em deuses melhores, pois não vê, na alma que cuida própria e nas coisas incertas que o cercam, a operação irremediável do capricho dos Deuses, o jugo superior do Destino. Os Deuses são amigos do herói, compadecem-se do santo; só ao génio, porém, é que verdadeiramente amam. Mas o amor dos Deuses, como por destino não é humano, revela-se em aquilo em que humanamente se não revelara amor. Se só ao génio, amando-o, tornam seu igual, só ao génio dão, sem que queiram, a maldição fatal do abraço de fogo com que tal o afagam. Se a quem deram a beleza, só seu atributo, castigam com a consciência da moralidade dela; se a quem deram a ciência, seu atributo também, punem com o conhecimento do que nela há de eterna limitação; que angústias não farão pesar sobre aqueles, génios do pensamento ou da arte, a quem, tornando-os criadores, deram a sua mesma essência? Assim ao génio caberá, além da dor da morte da beleza alheia, e da mágoa de conhecer a universal ignorância, o sofrimento próprio, de se sentir par dos Deuses sendo homem, par dos homens sendo deus, êxul ao mesmo tempo em duas terras.
Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens, ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor.
Mas para Sá-Carneiro, génio não só da arte mas da inovação nela, juntou-se, à indiferença que circunda os génios, o escárnio que persegue os inovadores, profetas, como Cassandra, de verdades que todos têm por mentira. In qua scribebat, barbara terra fuit. Mas, se a terra fora outra, não variara o destino. Hoje, mais que em outro tempo, qualquer privilégio é um castigo. Hoje, mais que nunca, se sofre a própria grandeza. As plebes de todas as classes cobrem, como uma maré morta, as ruínas do que foi grande e os alicerces desertos do que poderia sê-lo. O circo, mais que em Roma que morria, é hoje a vida de todos; porém alargou os seus muros até os confins da terra. A glória é dos gladiadores e dos mimos. Decide supremo qualquer soldado bárbaro, que a guarda impôs imperador. Nada nasce de grande que não nasça maldito, nem cresce de nobre que se não definhe, crescendo. Se assim é, assim seja! Os Deuses o quiseram assim.


(publicado em Athena, nº 2, Lisboa, Novembro de 1924)
93 Fernando Pessoa

SOBRE UM MANIFESTO DE ESTUDANTES


Há três coisas com que o espírito nobre, de velho ou de jovem, nunca brinca, porque o brincar com elas é um dos sinais distintivos da baixeza da alma: são elas os deuses, a morte e a loucura. Se, porém, o autor do manifesto o escreveu a sério, ou crê louco o Dr. Raul Leal, ou não crendo, usa o parecer crê-lo para o conspurcar. Só a última canalha das ruas insulta um louco, e em público. Só qualquer canalha abaixo dessa imita esse insulto, sabendo que mente.
Ainda sobre vileza. O Doutor Artur Leitão, se escreveu um opúsculo antipático, escreveu-o contudo contra o presidente do conselho, então ditador: atacou um homem que tinha consigo toda a força das autoridades do Estado e da Tradição; um homem que, a ser louco, sem dúvida exerceria, pelo lugar que ocupava, uma acção largamente nefasta.
Os estudantes são de melhor cálculo. Entrincheirados simultaneamente no governo civil e na Época – isto é, na república e na monarquia –, seguros por isso do apoio de toda a imprensa e da consequente dificultação de qualquer protesto, atacam e insultam confiadamente. Atacam e insultam a quem? A um homem que não os atacou, que está sozinho ou tão pouco acompanhado que é como se o estivesse, sem posição que o torne perigoso a quem se ataca, sem influência que torne prejudicial a sua acção, supondo que ela em sua essência o seja. E por que foram movidos a esse insulto? Por aquilo mesmo que os devera demover, se o intentassem; por um manifesto em que sem dúvida transparece uma alta inteligência e se mostra uma altíssima dignidade. Estúpidos e sórdidos, são por isso incapazes de conceber a possibilidade de um talento alheio que não compreendam, ou senão de rebelar-se contra a alheia dignidade, como se a existência dela os humilhasse.
De resto, terão eles culpa? Fortes, como estão, com a força alheia, cujo apoio os torna representantes e símbolos dela, esta vasa do liberalismo e da democracia é já o transbordar das forças desintegrantes, de cuja acção provém a nossa miséria nacional. Sim, eles não são eles próprios: são o ambiente que os produziu. São bem o resultado da Monarquia dos Braganças e da República Portuguesa. São bem o produto de uma sociedade em que vários séculos de educação fradesca e jesuítica prepararam, pela anulação do espírito crítico e científico, o advento das ideias «liberais»; em a qual, portanto, a estagnação da inteligência se completou, como era lógico, com a perversão do carácter e a ruína da ordem.
É por essa mesma estupidez, e esta mesma complexa vileza, que o manifesto dos estudantes sendo que é de jovens, é entristecedor. Moços, cuja inteligência deveria ser, não por certo disciplinada porém álacre e dispersa, rastejam assim na imbecilidade. Jovens, cuja moral devia pecar só pelos defeitos do impulso e da precipitação, mostram-nos, no emprego da subtileza baixa, da desonestidade da inteligência e do cálculo sórdido, os vícios menos desculpáveis da decrepitude.
Nem as ideias doentias de grandeza, nem as ideias de perseguição bastam, de per si, separadas ou juntas para provar a paranóia. Há mister que se manifestem de certa maneira, que se desenvolvam de certo modo, e que nelas e em seu desenvolvimento haja o que se chama sistematização. E, provada que não seja a paranóia, pode a morbidez mental revelada descer facilmente – e quase sempre se verá que desce – do nível das psicoses para o das neuropsicoses cuja gravidade é muito menor, como a sua natureza muito diferente. Tenho notado – leigo que sou – em casos de simples histero-epilepsia a eclosão episódica e irregular de tais ideias; nunca, porém, nelas se estabelece uma coordenação tal que simulem de perto um delírio sistematizado.
No Dr. Raul&Leal não se revelam ideias de perseguição. No manifesto dele parece haver, em algumas referências à Igreja Católica, um esboço muito vago delas. Como, porém, na sua conversação e nos actos da sua vida tais ideias nunca surgem nem mesmo vagas, podemos considerar o que no manifesto as simula com menos que episódico, pormenor antes da só imaginação exaltada sobretudo literariamente, que da inteligência em desvio. A exaltação mórbida do orgulho e da personalidade é que nele é manifesta e frequente. Carece, porém, de linha mórbida directriz, que a constitua em delírio. E tem, talvez, ainda que doentia na sua manifestação, uma razão de ser que de certo modo o não é, e que é de todo a diferença do delírio das grandezas.
A presença ou ausência de elementos justificativos de um orgulho excessivo é um facto primordial para se fazer juízo em casos destes. O orgulho desmedido, e, por desmedido, doentio, de um homem de génio não tem analogia, senão na forma externa, com o delírio orgulhoso de um megalómano vulgar. Quando um homem de génio, cujo génio reconhecemos já, manifesta um orgulho doentio, desculpamos-lhe o excesso da afirmação pela razão, que lhe vemos, para fazê-la. Que diríamos, porém, se esse mesmo homem de génio manifestasse esse mesmo orgulho, do mesmo modo legítimo porque o homem é o mesmo, antes que o reconhecêssemos como génio? Tê-lo-íamos, talvez, por louco. Assim, muitas vezes, o que nos parece a loucura dos outros não é mais que a nossa própria incompreensão.
Como sabem os estudantes, como sabe quem quer que seja, se o orgulho desmedido do Dr. Raul Leal não é ilegítimo hoje só para ter sido sempre legítimo amanhã? Acham excessivo, mesmo como doença, o aspecto desse orgulho? Acham sofística a demonstração de que não é louco quem diz que quer fundar uma nova religião, «terceiro reino divino»?
Por muitos que sejam os sintomas de desequilíbrio que uma psiquiatria justa possa encontrar no Dr. Raul Leal, não são tantos quantos os sintomas de loucura, de degeneração, de perversão intelectual e moral que um psiquiatra eminente, O Dr. Binet-Sanglé, encontrou na pessoa de Jesus Cristo, o qual, contudo, fundou uma religião, como mesmo os estudantes de Lisboa devem saber.
Os três volumes intitulados La&Folie&de&Jésus constituem, sem dúvida, um exemplo de probidade clínica e de exposição psiquiátrica. Nelas podem os estudantes aprender, lendo, como se demonstra um caso de loucura. Fechado eles, porém, podem aprender, reflectindo, que é a loucura que dirige o mundo. Loucos são os heróis, loucos os santos, loucos os génios, sem os quais a humanidade é uma mera espécie animal, cadáveres adiados que procriam.
Disse o que tinha que dizer. Concluo saudando, que assim manda a tradição.
Aos estudantes de Lisboa não desejo mais – porque não posso desejar melhor – de que um dia possam ter uma vida tão digna, uma alma tão alta e nobre como as do homem que tão nesciamente insultaram. A Raul Leal, não podendo prestar-lhe, nesta hora da plebe, melhor homenagem, presto-lhe esta, simples e clara, não só da minha amizade, que não tem limites, mas também da minha admiração pelo seu alto génio especulativo e metafísico, lustre, que será, da nossa grande raça. Nem creio que em minha vida, como quer que decorra, maior honra me possa caber que a presente que é a de tê-lo por companheiro nesta aventura cultural em que coincidimos, diferentes e sozinhos, sob o chasco e o insulto da canalha.


(1923)
102 Fernando Pessoa

NO TÚMULO DE CHRISTIAN ROSENCREUTZ

NO TÚMULO DE CHRISTIAN&ROSENCREUTZ

Não tínhamos ainda visto o cadáver de nosso Pai prudente e sábio. Por isso afastámos para um lado o altar. Então pudemos levantar uma chapa forte de metal amarelo, e ali estava um belo corpo célebre, inteiro e incorrupto..., e tinha na mão um pequeno livro em pergaminho, escrito a oiro, intitulado T., que é, depois da Bíblia, o nosso mais alto tesouro nem deve ser facilmente submetido à censura do mundo.

FAMA&FRATERNITATIS&ROSEAE&CRUCIS.

I

Quando, despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à Noite que nos a Alma obstrui,

Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida...
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.

Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adão Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,

Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
De além o Abismo, Spírito Seu, Lha veda,
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.


II

Mas antes era Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.

Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste Mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.

Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
O Segredo do Mestre e o Bem profundo;

Não só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue actual de Cristo enfim libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.


III

Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vemo-la, porque em sonho, em falsidade.

Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra, Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.

Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?

...................................

Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Roseacruz conhece e cala.
112 Fernando Pessoa

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia –
Treze de Junho, quente de alegria,
Citadino, bucólico e humano,
Onde até esses cravos de papel
Que têm uma bandeira em pé quebrado
Sabem rir...
Santo dia profano
Cuja luz sabe a mel
Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto
O meu santo,
Se bem que nunca me pegasses
Teu franciscano sentir,
Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.
Os cravos de papel creio que são
mais propriamente, aqui,
Do dia de S. João...
Mas não vou escangalhar o que escrevi.
Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante... Ia eu dizendo, Santo António,
Que tu és o meu santo sem o ser.
Por isso o és a valer,
Que é essa a santidade boa,
A que fugiu deveras ao demónio.
És o santo das raparigas,
És o santo de Lisboa,
És o santo do povo.
Tens uma auréola de cantigas,
E então
Quanto ao teu coração –
Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,
Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,
Etcetera...
Mas qual de nós vai tomar isso à letra?
Que de hoje em diante quem o diz se digne
Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu
E não a vêem, de olhar só os ramos.
Chama-se a isto ser doutor
Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.
Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste
As bilhas que talvez não concertaste.
Mais que a tua longínqua santidade
Que até já o Diabo perdoou,
Mais que o que houvesse, se houve, de verdade
No que – aos peixes ou não – a tua voz pregou,
Vale este sol das gerações antigas
Que acorda em nós ainda as semelhanças
Com quando a vida era só vida e instinto,
As cantigas,
Os rapazes e as raparigas,
As danças
E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.
Nós somos todos quem nos quer o povo.
O verdadeiro título de glória,
Que nada em nossa vida dá ou traz
É haver sido tais quando aqui andámos,
Bons, justos naturais em singeleza,
Que os descendentes dos que nós amámos
Nos promovem a outros, como faz
Com a imaginação que há na certeza,
O amante a quem ama,
E o faz um velho amante sempre novo.
Assim o povo fez contigo
Nunca foi teu devoto: é teu amigo,
Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!
Deita-te noutra cama!)
Santos, bem santos, nunca têm beleza.
Deus fez de ti um santo ou foi o Papa?...
Tira lá essa capa!
Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico
Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste
Em tua vida real por mal ou bem,
Que coisas, ou não-coisas se te devem
Com isso a estéril multidão arraste
Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,
Essa prolixa nulidade, a que se chama história,
Que foste tu, ou foi alguém,
Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual
O teu retrato, como está aqui,
Neste bilhete postal.
E parece-me até já que te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu –
O povo que não sabe onde é o céu,
E nesta hora em que vai alta a lua
Num plácido e legítimo recorte,
Atira risos naturais à morte,
E cheio de um prazer que mal é seu,
Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,
Sê sempre assim!
Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,
Esquece a doutrina e os sermões.
De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.
Foste Fernando&de&Bulhões,
Foste Frei António –
Isso sim.
Porque demónio
É que foram pregar contigo em santo?


9-6-1935.
118 Fernando Pessoa

ALEISTER CROWLEY FOI ASSASSINADO?

Entrevista com Fernando Pessoa

Deve estar ainda na memória de todos, porque foi largamente tratado no Diário de Notícias, e ainda mais largamente, com ampla reportagem fotográfica, no Notícias Ilustrado, o estranho caso do desaparecimento em Portugal de Aleister&Crowley, o poeta, ocultista e «homem de mistério» inglês que se sumiu por completo, deixando na Boca do Inferno, onde foi achada a 25 de Setembro, uma carta em linguagem misteriosa, de onde parecia depreender-se um suicídio.
Mais tarde surgiu, não entre o grande público, mas nos meios restritíssimos dos cafés, a hipótese de uma blague, cuja base parece ter sido apenas uma circunstância insuficiente de o achador da carta ser jornalista e amigo pessoal de Fernando Pessoa, o indivíduo que mais lidara com Crowley aqui em Portugal. Se o suicídio nunca deveras se provou (só o aparecimento do cadáver, como bem pensou a nossa Polícia, o poderia provar), também ninguém pode provar que houvesse blague. E o caso, em boa verdade ficou sempre misterioso.
Começam agora a saber-se, ou a constar, mais coisas, vindas de fora de Portugal, e o caso, que parecia em princípio não ter outra explicação senão um suicídio ou uma blague, tende a assumir aspectos acentuadamente mais sinistros.
Há já tempo que se sabe, por exemplo, que, logo que constou no estrangeiro o desaparecimento de Crowley, um agente da polícia inglesa apareceu na redacção do Détective de Paris, a comprar um exemplar de um número de Maio de 1929 onde vinha um extenso artigo sobre Crowley e sobre a sua actividade de espionagem (nunca se soube bem a favor de quem), durante a Grande Guerra. E o que é certo é que o Détective, logo que soube que estava em Paris o Sr. Ferreira Gomes achador da carta na Boca do Inferno, se apressou a entrevistá-lo, dedicando uma boa parte do seu número de 30 de Outubro a um extenso relato do acontecimento.
Agora constou em Lisboa, sem dúvida por uma daquelas inconfidências que seguem, como sombras, o passo de todos os segredo, que a polícia inglesa tinha chegado à conclusão de que Crowley havia sido assassinado.
Ora nós sabíamos que tinha sido o Sr. Fernando Pessoa quem tinha estado em contacto mais constante com Crowley, aquando da estada dele em Portugal, e sabíamos também – por lho termos ouvido contar – que estava em contacto com entidades estrangeiras, amigos e conhecidos de Crowley, que se lhe dirigiram, pedindo informações logo que o desaparecimento constou nos jornais lá de fora. Concluímos, portanto, que, se alguém soubesse alguma coisa do assunto, seria o antigo director do \– Não – diz-nos Fernando Pessoa –, não há o que V. chama «notícias» do Crowley. Quer o secretário dele, que está em Inglaterra, quer um íntimo amigo dele, que está na Alemanha, continuam a revelar-se, quando me escrevem, desorientados com o caso. Parecem, na verdade, não estar absolutamente convencidos do suicídio, mas também parecem não saber de que é que hão-de estar convencidos. Do que não tenho dúvidas, pelo tom das cartas, é que, se Crowley está vivo algures, um e outro (e são os seus mais íntimos), lhe ignoram por completo o paradeiro.
– E você, o que pensa?
– Não penso, que é o mais cómodo. A princípio, ao verificar a absoluta autenticidade da carta e a estranheza da sua data e assinatura (Sol em Balança e Tu Li Yu, respectivamente), acreditei em absoluto no suicídio; claramente o disse, porque o acreditava, na Investigação Criminal. Hoje reconheço falhas lógicas no argumento que me serviu para essa conclusão. A data astrológica, provando que a carta foi escrita depois das 6 horas da tarde do dia 23 de Setembro, não prova, na verdade, que Crowley se houvesse suicidado em seguida; e o facto, que me pareceu sinistro, de Crowley assinar com o nome chinês, de que ele uma vez me disse ser «uma das suas encarnações anteriores», não prova nada, pois ele pode bem ter-me mentido, com o propósito antecipado e sabendo as conclusões que eu viria a tirar, ao dar-me, aliás no acaso de uma conversa, essa informação sobre o seu passado longínquo.
– Então?...
– Então, nada. Também me custa, não sei porquê, a acreditar numa blague. De duas coisas é que eu tenho a certeza A primeira é de que realmente vi o Crowley no dia 24 de Setembro, quando a Polícia Internacional diz que ele já tinha passado a fronteira. A segunda é que Crowley, não sei com que fim, me ocultou o regresso de Miss Jaeger em 19 de Setembro. Só pela Polícia e por determinadas entidades estrangeiras é que eu depois vim a saber que ele não só continuava a ignorar o seu paradeiro, mas até tinha ido com ela ao consulado, onde ela foi buscar auxílio para a sua viagem de regresso à Alemanha.
– E ela está na Alemanha?
– Está. Ela, afinal, nunca tinha feito mistério da sua partida. Deixou aqui, na Cook e em outros lugares, o seu endereço na Alemanha, para lhe reexpedirem para lá quaisquer cartas que viessem para ela. E já me escreveu duas vezes de lá. Também não parece saber o que é feito do Crowley, a quem, aliás, chama «bandido» numa das cartas.
– É verdade! O que é isso que consta da polícia inglesa? – E, rapidamente, indicámos os boatos que corriam sobre conclusões trágicas da investigação daquela polícia.
Fernando Pessoa hesita um pouco, mas, depois, diz:
– Olhe: isso, assim nitidamente posto não me tinha constado, mas também não me espanta. Sei com absoluta certeza que estiveram aqui dois agentes investigadores ingleses a tratar do caso Crowley. Logo no dia 29 de Setembro me apareceu aqui, neste escritório, um deles; veio com um disfarce verbal transparente, tanto que não só eu, mas um amigo meu, inglês, que por acaso aqui estava, imediatamente desconfiámos do «professor de línguas» que nos havia aparecido. Mais tarde soube, de óptima fonte, que este não era um polícia oficial, mas um investigador particular, que aqui estava tratando de outro assunto, e recebeu instruções especiais para tratar deste. Isto explica o seu aparecimento imediato às notícias dos jornais. E também soube depois, por um lapso verbal, de um inglês meu amigo, e neste caso informador involuntário, que mais tarde viera aqui outro indivíduo – esse sem dúvida oficial – a investigar o mesmo assunto.
– E V. sabe alguma coisa das conclusões a que chegaram esses investigadores?
– De oficial, nada; nem tenho, excepto por dedução, a certeza da existência dele, que aliás relaciono com essa história do outro agente oficial que visitou o Détective em Paris. Do «professor de línguas» não só tenho a certeza visual e lógica, mas consegui saber por favor especial três resultados das suas investigações.
Sei que ele conseguiu «levar a sua investigação a bom fim», ou que, pelo menos, supõe que o fez; sei que nem admite a hipótese do suicídio nem a hipótese da blague; e sei que, desde o primeiro dia da investigação, me «riscou do caso», com o fundamento, que me deixa perplexo, de que entre Crowley e os jornais havia um elemento de ligação muito mais íntimo e valioso do que eu.
– Mas uma coisa que não é suicídio nem blague, o que é que pode ser senão o assassínio?
– É, com efeito, o que ocorre; e é por isso que eu lhe disse que, embora sejam novos para mim, me não espantam os boatos sinistros que V. me contou. Posso admitir que quisessem assassinar o Crowley, mas admiti-lo-ia com mais facilidade se pudesse compreender que um indivíduo, antes de ser assassinado, se desse ao trabalho de escrever uma carta (incontestavelmente autêntica), dizendo que se suicidava. É ser boa vítima demais...
De repente, Fernando Pessoa sorri, leva a mão à carteira, e tira dela um recorte de jornal.
– Olhe, já que fala de assassínio, vou-lhe ler um documento curioso. Isto é um recorte do diário inglês Oxford Mail, de 15 de Outubro; é de notar que Crowley era muito conhecido e admirado em Oxford, embora seja Cambridge a sua universidade. O título do artigo é «Aleister Crowl
119 Fernando Pessoa

A NOVA POESIA PORTUGUESA NO SEU ASPECTO PSICOLÓGICO

I

Qualquer fenómeno literário – corrente, ou grupo, ou individualidade – é susceptível de ser considerado sob três aspectos e sob três aspectos tem de ser considerado para ser completamente compreendido. Esses três pontos de vista são o psicológico, o literário e o sociológico. Isto é, qualquer fenómeno da literatura tem de ser estudado – 1º, em si, directamente como produto de alma ou de almas; 2º, nas suas relações e filiação exclusivamente literárias, como produto literário; e 3º, na sua significação como produto final, como facto que se dá adentro de, e por, uma sociedade, explicado por ela e explicando-a, tido, pois, como indicador sociológico. No estudo – suponha-se – de uma qualquer corrente literária, importa pouco sob qual dos três aspectos primeiro a examinarmos, logo que sob todos os três aspectos sucessivamente e completamente o assunto se raciocine. Como fenómeno literário, como fenómeno psíquico, como fenómeno social, sucessivamente analisada, os três aspectos de uma corrente interexplicam-se e completam-se, fornece cada qual elementos especiais e essenciais para a interpretação sintética e integral da corrente. Nem o estudo total, nem qualquer dos estudos parciais, fica completo sem estarem completos, e coordenadamente completos, todos os três.
Por isso o nossa análise da actual corrente literária portuguesa – iniciada e feita sob o ponto de vista sociológico em dois anteriores artigos – só ficará completa, e esses artigos em toda a sua extensão lógica compreensíveis, quando, neste escrito e em outro, juntarmos à análise sociológica uma dupla análise complementar, primeiro psicológica, e literária depois.
Começámos pela análise sociológica porquanto, sendo essa a mais envolventemente explicativa das três, de princípio ficava, posta ela inicialmente, abrangido em todo o seu valor e superfície o movimento literário estudado. Levou-nos essa análise sociológica a conclusões que não pareceriam estranhas, talvez, aos habituados a seguir raciocínios, mas que, ainda assim, eram de desorientar os de inteligência menos afeita a ler nas entrelinhas da concisão dialéctica. O nosso anterior estudo, partindo de uma análise dos períodos máximos das literaturas inglesa e francesa – tomados esses para exemplos – e da sua relação com as máximas e – provou-se – homócronas épocas sociais, veio, por uma aproximação, detalhe a detalhe feita, a constatar a semelhança completa do nosso actual período, tomada a literatura como indicador sociológico, com aquelas grandes épocas, chamadas a depor, do mesmo representativo modo, as literaturas suas. Daí as naturais, referidas, conclusões sobre a vindoura grandeza lusitana. Esses detalhes, esses, por assim dizer, traços fisionómicos por onde a parecença entre os três períodos se colhia flagrante, eram do número, completo, de nove; três diziam respeito à relação entre os períodos literários máximos e as épocas políticas, ou antecedentes, ou contemporâneas ou subsequentes; e estes três pontos eram os exclusivamente sociológicos. Os outros seis, sumariamente então tratados, por não serem para sociologia puramente – referiam-se à originalidade, à elevação, e à grandeza dos representantes individuais dos períodos e à nacionalidade, anti-tradicionalidade, e carácter não popular dos mesmos.
Ficou, no artigo citado, esgotada e provada quanto possível – dada a juvenilidade da nossa actual corrente literária – a semelhança sociológica. Igualmente, no quarto capítulo, se provou que, constatadas que fossem a originalidade, a elevação e a grandeza de uma corrente literária, a sua anti-tradicionalidade ficava provada na sua originalidade – como seria original se se baseasse em tradições? – a sua não popularidade provada na sua elevação – como ser popular sendo espiritualmente e metafisicamente complexa? – e, provado isto, de si ficava também provada a nacionalidade, o carácter nacional da corrente visto que, como ali mais cingentemente provámos, originalidade absoluta só da alma de uma raça pode subir à tona da sua literatura. Poesia absolutamente original e poesia absolutamente nacional são expressões interconvertíveis.
Tudo está agora, portanto, em provar a originalidade, a elevação e a grandeza das figuras individuais. Compete isto em parte a uma análise psicológica, e em parte a um estudo literário. Da análise psicológica sairá caracterizada a corrente literária, e, assim sendo, a sua originalidade ou não originalidade, a sua elevação ou não elevação quedarão, ipso facto, em relevo – relevo que o estudo propriamente literário acentuará, rebuscando a filiação exclusivamente literária da corrente e a importância dessa filiação – se influência nítida e constante, como a do estilo francês dos séculos XVII e XVIII sobre as outras literaturas europeias; se mera ocasionação, mero ponto de partida, breve abandonado e excedido, como a da Renascença da Itália perante o estilo da época isabeliana em Inglaterra. Esse mesmo estudo literário, analisando o grau da construtividade, de intensidade e de individualidade que se revelem nas obras da corrente, dirá da grandeza dos seus poetas.
138 Fernando Pessoa

REINCIDINDO...

I

No Dia, de 24 de Abril, o autor de uma Carta de Coimbra, intitulada «A literatura e o futuro», faz sobre o nosso anterior artigo considerações adversamente críticas. Em si, essa Carta, que poderia ter sido mais oferenda a qualquer deus que o fosse da lógica, não tem excepcional importância similirrefutatória. Mas como, sobre dar expressão pelo menos pública, e até certo ponto lúcida, a dúvidas e pasmos que o nosso artigo, especialmente pelo modo de enunciar as conclusões, causou, a Carta nos dá ensejo de, sem que num ápice hajam de ser alteradas essas conclusões, clarificar uns pontos e intensificar outros, respondemos-lhe, e, ao mesmo tempo, continuando o nosso sumário estudo da grande corrente literária, que entre nós começa a abrir caminho, esperamos poder tornar, pela lógica, mais próximo da possibilidade de compreender, que concebivelmente entre bacharéis haja, aquilo com que terminava o nosso estudo – com «ressurgimentos assombrosos», «supra-Camões» e todas as outras alegorias.
Importa, porém, declarar, antes de tudo, que nem para nós, autor dele, oferece o nosso anterior escrito coisa que se pareça com perfeição em matéria racionativa. Em sete páginas não se pode clara e completamente pôr uma argumentação analítica que, para ser rigidamente exaustiva, sem pressas que a carência de tempo, ou dogmatismos e axiomatismos que a escassez de espaço impõe, tem de se deixar estender, em plena liberdade por uma quase centena de páginas. Notamos isto ainda que mal pareça, para que ocasionais como-que-falhas dialécticas – esses dogmatismos e pressas citados – não nos sejam registados em desprimor de sinceridade ou certeza, ou de possibilidade, que em nós haja, de irrefutabilizar, desenvolvido que possa ser o raciocínio, as conclusões últimas da nossa análise construtiva.
140 Fernando Pessoa

NAUFRÁGIO DE BARTOLOMEU


Nenhum livro para crianças deve ser escrito para crianças. Escrever de coisas simples com simplicidade é quanto se exige daquela espécie de adido à pedagogia que o sr. Lopes&Vieira quer ser. Assim, João&de&Deus não escreveu a Enjeitadinha senão com o escrúpulo de ser simples. E porque o assunto era também simples, as crianças compreendem-no. Se quisesse ser infantil, acontecia-lhe isto – seria infantil. O sr. Lopes Vieira quer escrever para crianças mediante intuição da alma infantil, como uma criança escrevendo para crianças. Mesmo que se saísse bem nisto, não se sairia bem disto. Porque as crianças não escrevem. Escrever como uma criança é tolerável sendo criança, porque ser criança o torna tolerável. Mas o que uma criança escreve ou não se publica, ou se publica para adultos, psicólogos. E que interesse tem para as crianças esta baba pedagógica? Que interesse há para os adultos nesta tradução para verso do estilo do sr. Nunes da Mata? Que interesse fica para os psicólogos desta pobreza de senso comum, obediência aos elogios de parvos ou videiros e nesta abstenção das voluptuosidades de pensar e criar arte, do S. Francisco de Assis da Livraria Ferreira?
Salvo no caso dum génio supremo, com chave para todas as portas da expressão, o querer ser simples dá com o querente na vizinhança de quem quer ser sublime. Este dá consigo em absurdo. Aquele escorrega-se para idiota. É este, ao que parece, o trágico fim cómico de quem foi o autor do Ar Livre e de O Poeta Saudade. Como estes fenómenos de combustão-em-asneira encontrassem uma atmosfera de elogios propícia, a chama aumentou até vir queimar a crítica para fora da indiferença. Esse fenómeno de elogios – esse sim é que era merecedor de uma análise de química psicológica.
A fama que o sr. Lopes Vieira tem, ex-ganhou-a dignamente, porque foi com uma obra bela, e por vezes grande, que se enfameceu. Foi com moeda de lei que adquiriu o incenso com que se estonteou. Como muitos outros, e em parte pela mesma razão turibular, criou fama e deitou-se a dormir. E visto que estes livros para crianças, e parte de outros, recentes, são o seu sono, bem se pode dizer que dorme como uma besta.
Mas voltemos, acusadoramente, ao caso.
O sr. Lopes Vieira é um criminoso. É-o por três razões. Está estragado, com o seu gato-por-lebre de simplicidade, o rudimentar senso estético de crianças que, mesmo que sejam só duas, são classificáveis de inúmeras, ante o horror do crime. – Está tornando ridículos assuntos que conviria tratar com uma decência que a estupidez, mesmo quando involuntária, nunca tem. Pobres cães nossos amigos, tinhosos de Lopes Vieira! Pobre Bartolomeu Dias, tão embobecido de pedagogia! – E, por último, para tudo de nocivo ser, o sr. Lopes Vieira é até antipedagógico, porque quem escreve

Que era de antes o mar? Um quarto escuro
Onde os meninos tinham medo de ir,

merece uma inquisição de professores.
Educados na estupidez pela leitura das obras infantis do sr. Lopes Vieira, levados ao antipatriotismo pelo inevitável desdém que um livro como o Bartolomeu Marinheiro leva a ter pelo navegador que ali aparece vestido de bebé de Carnaval, cheios de fobias por lhes terem sido metaforizadas na infância coisas como que um quarto escuro é logicamente terrível, os homens do Portugal de amanhã (adoptados escolarmente, como tudo o que dissemos neste artigo leva a crer que sejam os livros do sr. Lopes Vieira) terão por Shakespeare o sr. Júlio&Dantas, por Shelley o sr. Lopes Vieira... e serão espanhóis.
Porque em que diabo pode vir a dar uma nação de parvos, de antipatriotas e de panofóbicos senão em deixar de ser nação?

Fernando Pessoa


(publicado em Teatro – Revista de Crítica, nº1, 1913)
146 Fernando Pessoa

POEMAS CURTOS

Meu ser vive na Noite e no Desejo.
Minha alma é uma lembrança que há em mim;


12/12/1919




Longe de mim em mim existo
À parte de quem sou,
A sombra e o movimento em que consisto.


1920




Não haver deus é um deus também


1926




Saudade eterna, que pouco duras!


26/04/1926




... Vaga história comezinha
Que, pela voz das vozes, era a minha...
Quem sou eu? Eles sabem e passaram.


1928




E a extensa e vária natureza é triste
Quando no vau da luz as nuvens passam.


1928




O meu coração quebrou-se
Como um bocado de vidro
Quis viver e enganou-se...


01/10/1928





O abismo é o muro que tenho
Ser eu não tem um tamanho.


1929




Mas eu, alheio sempre, sempre entrando
O mais íntimo ser da minha vida,
Vou dentro em mim a sombra procurando.


1929




Tenho pena até... nem sei...
Do próprio mal que passei
Pois passei quando passou.


1929




Teu corpo real que dorme
É um frio no meu ser.


1930




Deus não tem unidade,
Como a terei eu?


24/08/193




Quando nas pausas solenes
Da natureza
Os galos cantam solenes.


1930




Tão linda e finda a memoro!
Tão pequena a enterrarão!
Quem me entalou este choro
Nas goelas do coração?


25/12/1931



Entre o sossego e o arvoredo,
Entre a clareira e a solidão,
Meu devaneio passa a medo
Levando-me a alma pela mão.
É tarde já, e ainda é cedo.

(...)

1932




CEIFEIRA

Mas não, é abstracta, é uma ave
De som volteando no ar do ar,
E a alma canta sem entrave
Pois que o canto é que faz cantar.


1932




Eu tenho ideias e razões,
Conheço a cor dos argumentos
E nunca chego aos corações.


1932




Aquele peso em mim – meu coração.


1932




O sol doirava-te a cabeça loura.
És morta. Eu vivo. Ainda há mundo e aurora.


1932




Tenho principalmente não ter nada,
Dormir seria sono se o tivesse.


26/04/1932




Minhas mesmas emoções
São coisas que me acontecem.


31/08/1932




Quase anónima sorris
E o sol doura o teu cabelo.
Porque é que, pra ser feliz,
É preciso não sabê-lo?


25/09/1932



Quero, terei –
Se não aqui,
Noutro lugar que inda não sei.
Nada perdi.
Tudo serei.


09/01/1933




Teu inútil dever
Quanta obra faça cobrirá a terra
Como ao que a fez, nem haverá de ti
Mais que a breve memória.


1934




O som continuo da chuva
A se ouvir lá fora bem
Deixa-nos a alma viúva
Daquilo que já não tem.

(...)

1934




Exígua lâmpada tranquila,
Quem te alumia e me dá luz,
Entre quem és e eu sou oscila.

30/11/1934



O meu sentimento é cinza
Da minha imaginação,
E eu deixo cair a cinza
No cinzeiro da Razão.

12/06/1935




Já estou tranquilo. Já não espero nada.
Já sobre meu vazio coração
Desceu a inconsciência abençoada
De nem querer uma ilusão.

20/07/1935




Criança, era outro...
Naquele em que me tornei
Cresci e esqueci.
Tenho de meu, agora, um silêncio, uma lei.
Ganhei ou perdi?





Onde, em jardins exaustos
Nada já tenha fim,
Forma teus fúteis faustos
De tédio e de cetim.
Meus sonhos são exaustos,
Dorme comigo e em mim.




Não combati: ninguém mo mereceu.
A natureza e depois a arte, amei.
As mãos à chama que me a vida deu
Aqueci. Ela cessa. Cessarei.
147 Fernando Pessoa

IV

Analisemos agora, para o mesmo fim perscrutador de coincidências, quais os caracteres especiais apresentados pelas correntes literárias, nacionais ou estrangeiras.
Analisados, os períodos literários inglês e francês que vêm acompanhando o nosso estudo, revelam, sob o aspecto exclusivamente literário ora em vista, três elementos distintivos – a novidade (ou originalidade), a elevação, e a grandeza. Por elevação entendemos do tom literário geral, por grandeza o conter grandes figuras individuais, grandes poetas. Todos os três elementos são indispensáveis para a caracterização inconfundível do período. Se originalidade bastasse, faria candidatura a magno período literário um que podia ser original numa espécie poética secundária, como um novo epigramatismo, um novo género de poesia artificial: está no caso a poesia dos trovadores&provençais. Por isso, sobre novidade, há nestes períodos elevação. Mas elevação só pode ser verdadeiramente e completamente elevação quando – ao contrário do que acontece com o simbolismo francês, que não caracteriza um grande período criador – é universalizada, intensificada por poetas à altura dessa elevação. A não ser assim, queda-se, como a citada corrente francesa, sempre próxima da mera esquisitice e extravagância, do puro delírio às vezes, constantemente imperfeita e deselevada da altura a que, em um ou outro verso, em raríssimas poesias, intermitentemente atinge. De modo que já um mero raciocínio a priori nos dá como característico indissoluvelmente triplo das correntes literárias supremas a originalidade, a elevação do tom, e a grandeza nos seus representantes individuais. É inútil apontar quão novos sob todos os pontos de vista, são, cada qual no seu tempo, o isabelianismo e o romantismo francês: desde o modo de pensar ante os homens e as coisas até ao modo de exprimir, tudo é original. De igual inutilidade é referir que o tom desses períodos literários é elevado, e que há neles grandes figuras de poetas.
Resta saber se aqui há, também, coincidência entre os característicos dos períodos francês e inglês e os do período actual português. Novidade, temos; o próprio crítico de O Dia não a nega, antes se confessa apavorado por ela. Basta comparar Os&Simples, a Pátria, a Oração&à&Luz, a Vida&Etérea e, de resto, tudo mais quanto na nova corrente esteja, ao que haja em qualquer outra corrente literária nacional ou estrangeira, e de qualquer tempo, para ver que há entre nós um modo de pensar, de sentir, de exprimir tão inconfundivelmente original como o do romantismo francês ou o do isabelianismo, se não mais original ainda. E, quanto a elevação, basta reparar na altura inspiracional do tom poético geral do nosso período, ver como nos menos notáveis poetas da corrente a expressão tem uma feição, um relevo, estranhos e inconfundíveis. Ainda que o espaço seja para pouco, duas expressões, que qualquer ledor das coisas do tempo reconhecerá como probamente citáveis como representativas, podem aduzir-se aqui, para alívio de cépticos. Tomemos isto, de Teixeira&de&Pascoaes,

A folha que tombava
Era alma que subia,

e isto, de Jaime&Cortesão,

E mal o luar os molha,
Os choupos, na noite calma,
Já não têm ramos nem folha,
São apenas choupos d'Alma.

Em nenhuma literatura do mundo atingiu nenhum poeta maior elevação do que estas expressões, e especialmente a extraordinária primeira, contêm. E elas são representativas. Citámo-las não só para comprovação da elevação como também para indicação da originalidade do tom poético da nova poesia portuguesa. Haverá, é claro, quem não sinta a elevação e a originalidade daqueles versos. O raciocinador, porém, limita-se a apresentar raciocínios. Não é obrigado a uma preliminar distribuição de inteligência.
Resta o terceiro ponto: a grandeza. Haverá aqui, também analogia? Tanto quanto a juvenilidade da nossa corrente literária permite a aproximação, a analogia não nos parece menos flagrante. A comparação só pode versar sobre o primeiro estádio dos três períodos, e, para mais auxílio, sobre o subperíodo precursor. Quanto a este, Antero&de&Quental nada tem de temer de Rousseau-poeta, ou de Chaucer mesmo, considerado tudo. E repare-se que Antero teve co-precursores de mais valor que os contemporâneos (co-precursores) de Rousseau e de Chaucer. No que respeita ao primeiro estádio, o poema supremo do nosso, a Pátria, de Junqueiro, escusa de se acanhar na comparação com Chateaubriand-poeta, ou mesmo com a Faerie Queene, de Spenser. Com respeito ao primeiro, a superioridade do nosso poeta é manifesta. Com respeito ao segundo, a questão de superioridade é caso para argumentar. Porque se não há dúvida que em originalidade e exuberância o poema de Spenser sobreleva ao de Junqueiro, também se não pode negar que em intensidade lírica, em espírito dramático, em poder de construção poética, a Pátria domina a Faerie&Queene.
De modo que, se há neste mundo analogias e absolutos, entre a nossa actual corrente literária e as máximas, que nos vêm servindo para a comparação, há, nos pontos já analisados, uma analogia absoluta.
150 Fernando Pessoa

IV

Ainda que rápida, já há nesta análise elementos para a apreciação ponderada da moderna poesia portuguesa.
O primeiro facto que se nota é que a actual corrente literária portuguesa é absolutamente nacional, e não só nacional com a inevitabilidade bruta de um canto popular, mas nacional em ideias especiais, sentimentos especiais, modos de expressão especiais e distintos de um movimento literário completamente português: e, de resto, se fosse menos, não seria um movimento literário, mas uma espécie de traje psíquico nacional, relegável da categoria de movimento de arte para a, para este caso sociológico nula, de um mero costume característico.
O segundo facto a notar é que o movimento poético português contém individualidades de vincado valor: não são Miltons nem Shakespeares, mas são gente que se extrema além de pelo tom, que é da corrente, pelo valor mesmo, dentre os contemporâneos europeus, com excepção de um ou dois italianos, e esses não integrados em movimento ou corrente alguma que, distintiva ou nacional, tenha sombra de direito a ser comparada com a hodierna corrente poética lusitana.
O terceiro e último facto que se impõe é que este movimento poético dá-se coincidentemente com um período de pobre e deprimida vida social, de mesquinha política, de dificuldades e obstáculos de toda a espécie à mais quotidiana paz individual e social, e à mais rudimentar confiança ou segurança num, ou de um, futuro.
Vistos estes elementos sociológicos do problema, salta aos olhos a inevitável conclusão. É ela a mais extraordinária, a mais consoladora, a mais estonteante que se pode ousar esperar. É ela de ordem a coincidir absolutamente com aquelas intuições proféticas do poeta Teixeira&de&Pascoaes sobre a futura civilização lusitana, sobre o futuro glorioso que espera a Pátria Portuguesa. Tudo isso, que a fé e a intuição dos místicos deu a Teixeira de Pascoaes, vai o nosso raciocínio matematicamente confirmar.
É que os característicos que acabamos de descobrir no nosso actual movimento poético indicam, absolutamente, a sua analogia com as literaturas inglesa do primeiro e francesa do segundo período, e, portanto, impõem que se conclua daí a fatal analogia com as épocas de que aquelas literaturas são representativas.
A analogia é absoluta. Temos, primeiro, a nota principal da completa nacionalidade e novidade do movimento. Temos, depois, o caso de se tratar de uma corrente literária contendo poetas de indiscutível valor. E note-se – para o caso de se argumentar que nenhum Shakespeare nem Victor&Hugo apareceu ainda na corrente literária portuguesa – que esta corrente vai ainda no princípio do seu princípio, gradualmente, porém, tornando-se mais firme, mais nítida, mais complexa. E isto leva a crer que deve estar para muito breve o inevitável aparecimento do poeta ou poetas supremos, desta corrente, e da nossa terra, porque fatalmente o Grande Poeta, que este movimento gerará, deslocará para segundo plano a figura, até agora primacial, de Camões. Quem sabe se não estará para um futuro muito próximo a ruidosa confirmação deste deduzidíssimo asserto?
Pode objectar-se, além de muita coisa desdenhável num artigo que tem de não ser longo, que o actual momento político não parece de ordem a gerar génios poéticos supremos, de reles e mesquinho que é. Mas é precisamente por isso que mais concluível se nos afigura o próximo aparecer de um supra-Camões na nossa terra. É precisamente este detalhe que marca a completa analogia da actual corrente literária portuguesa com aquelas, francesa e inglesa, onde o nosso raciocínio descobriu o acompanhamento literário das grandes épocas criadoras. Porque a corrente literária, como vimos, precede sempre a corrente social nas épocas sublimes de uma nação. Que admira que não vejamos sinal de renascença na vida política, se a analogia nos manda que vejamos apenas uma, duas ou três gerações depois do auge da corrente literária?
Ousemos concluir isto, onde o raciocínio excede o sonho: que a actual corrente literária portuguesa é completa e absolutamente o princípio de uma grande corrente literária, das que precedem as grandes épocas criadoras das grandes nações de quem a civilização é filha.
Que o mal e o pouco do presente nos não deprimam nem iludam: são eles que confirmam o nosso raciocínio. Tenhamos a coragem de ir para aquela louca alegria que vem das bandas para onde o raciocínio nos leva! Prepara-se em Portugal uma renascença extraordinária, um ressurgimento assombroso. O ponto de luz até onde essa renascença nos deve levar não se pode dizer neste breve estudo; desacompanhada de um raciocínio confirmativo, essa previsão pareceria um lúcido sonho de louco.
Tenhamos fé. Tornemos essa crença, afinal, lógica, num futuro mais glorioso do que a imaginação o ousa conceber a nossa alma e o nosso corpo, o quotidiano e o eterno de nós. Dia e noite, em pensamento e acção, em sonho e vida, esteja connosco, para que nenhuma das nossas almas falte à sua missão de hoje, de criar o supra-Portugal de amanhã.


(publicado na revista A Águia, série II, nº 4, Porto, Abril de 1912)
152 Fernando Pessoa

III

Retomemos a tripla relacionação, já notada, em que cada época literária deve estar para com o movimento social, as correntes literárias, e a alma nacional. Do estudo dessa relacionação constará o espírito da corrente. Um a um examinemos os três elementos da questão. Comecemos pelo primeiro.
Em que relação está o movimento literário, correspondente às grandes épocas criadoras, com o movimento social que há nessas, ou caracteriza essas épocas? Em três relações especiais se nos deve mostrar essa relação – com respeito aos característicos sociais – 1º, do período a que o período literário sucede; 2º, do período com que coincide; 3º, do período que precede.
Vejamos a que espécie de período social sucedem as grandes épocas literárias inglesas e francesas. Esse período é, em Inglaterra, o período pré-Tudor: em França, é o fim do reinado de Luís&XV, e todo o de Luís&XVI. Que têm, de análogo, estes dois períodos sociais? São ambos períodos de apagada e estéril vida política, de despotismo fácil, de agitação nula e como que servil, se agitação chega a haver – períodos onde se parece ter ficado numa estagnação social, paz ou guerra que haja. Do grande período subsequente só há pré-indicação na literatura, porque é neste período que aparecem os precursores do magno período literário que se vai seguir. Vivem neste período Chaucer em Inglaterra, Rousseau em França. Ora a actual corrente literária portuguesa sucede à parte pré-revolucionária do nosso período constitucional, porquanto, começando com a última década do século XIX, a qual corrente literária coincide no seu início com o movimento de 31 de Janeiro. Politicamente estéril, infecundo – e servilmente agitado, nulo de grandezas e de utilidades, o nosso período constitucional é socialmente análogo àqueles da França e Inglaterra que citámos. Basta, para lhe apontar a nulidade política, indicar que foi um período constitucional que nem constitucional foi. O constitucionalismo nunca esteve implantado entre nós. Se houve no mundo período reles e mesquinho, foi reles e mesquinho esse. Até aqui está, portanto, a nossa corrente literária em coincidência com as outras, nesta especial relacionação social. Continua a haver coincidência no que diz respeito ao vislumbrar apenas literário do período que se segue. Foi no período constitucional pré-revolucionário que apareceu Antero&de&Quental, em que já vimos o precursor da nossa corrente literária.
Passe-se agora a considerar o período político com que o período literário coincide. O período literário inglês começa no reinado de Henrique&VIII, de quem Wyatt e Surrey são contemporâneos, e acaba em coincidência aproximada com a revolução, de substituição dinástica, de 1688. O período francês coincide com o período social que se estende desde a grande revolução até 1870, pouco mais ou menos. Que tem de distintivo o período social inglês que se nos revela coincidente com a magna corrente literária inglesa? Que tem de analogamente distintivo o período francês correspondente? A agitação revolucionária ou transformadora é o que ambos têm de distintivo. Do período francês de 1789-1870 é inútil falar neste respeito. Do período inglês note-se que começa com Henrique VIII sob quem a Inglaterra rompeu com Roma e a religião católica (primeiro facto indicador de uma transformação que se nota na história da Inglaterra) e atravessa todo o período maximamente transformador que vai daí até Cromwell. Paralelamente, a corrente literária portuguesa rompe coincidentemente com o movimento de 31 de Janeiro, primeiro sinal de transformação política, e vai acompanhando toda a agitação transformadora que é de hoje em Portugal e cujo segundo passo, vitoriosamente transformador este, foi o que pôs ponto, em 5 de Outubro de 1910, ao período revolucionário (1891-1910) do constitucionalismo português. Note-se bem: o que importa é que o período de 1890 até ao, e através do, presente é um período transformativo; não vem por enquanto para o caso o valor ou durabilidade que se queira atribuir ou não atribuir a essa transformação. Esse ponto pertence à parte final do artigo, é para quando hajam de ser tiradas as conclusões gerais. Depende, evidentemente, de se provar ou não a analogia absoluta entre o actual período social português e os magnos períodos da história da França e da Inglaterra. Se essa analogia não provar, haverá azo para discussões e argumentos. Mas se se provar – veremos que se provará – a mais arguta especiosação monarquista nada valerá contra a valorização – na hipótese, sociologicamente irrefutabilizada – do movimento republicano português. Repare-se, porém e ainda, em uma outra semelhança que se aproxima de todo o nosso período social e aqueles a que o estamos comparando: é que a par de serem períodos de transformação política, esses períodos, no estádio coincidente com aquele em que estamos, traem uma assombrosa desmoralização na vida nacional, desmoralização que herdam de períodos anteriores, mas que neles se agrava de uma anarquização e tumultização da vida política que mesmo a quem de longe os estuda perturbam e entontecem. Comparem-se o período da Revolução Francesa e o período isabeliano com os períodos políticos respectivamente anteriores. Levada a análise até esta relativa minúcia, a analogia torna-se flagrante para além de quanto se poderia esperar.
O terceiro ponto a analisar – o que diz respeito ao período político que as grandes épocas literárias precedem – não oferece, é claro, interesse analógico dado que não passámos ainda do princípio do segundo estádio do período literário. Mas é bom fixar os característicos desse período, para, caso a nossa época ofereça analogia em todos os pontos analisáveis, se poder concluir que o futuro se encarregará inevitavelmente de neste ponto também a mostrar análoga. Já no anterior artigo estudámos este ponto. Vimos que, depois do auge, ou segundo estádio, da corrente literária, vem, coincidindo com o terceiro estádio, a época vincadamente e terminantemente criadora. Passada ela, e já em coincidência com o princípio do período literário seguinte, vem a fixação do sistema político criado – o constitucionalismo em Inglaterra, a república em França, cada qual o sistema em acordo com o carácter do povo a que pertence. A república inglesa, e, em França, os vários constitucionalismos e republicanismos precursores, representam épocas de transição, maximamente criadoras por maximamente transformadoras e porque introduziram o elemento novo (o de governo popular em Inglaterra, o de democracia em França) que, equilibrado por fim com os elementos tradicionais, fixaram o tipo de governo novo e nacional – em Inglaterra a monarquia liberal, em França a república conservadora. Esta fixação coincide, como já apontámos, com o fim do terceiro estádio do grande período literário e princípio do período literário seguinte.
163 Fernando Pessoa

V

Falta agora examinar os característicos das magnas épocas literárias em face da alma do povo que as produz. A análise é fácil e será, por isso, rápida. O primeiro característico, neste respeito destas correntes é a sua não popularidade, o segundo a antitradicionalidade, e o terceiro, mas o principal e basilar, a nacionalidade. Isto é, estas correntes interpretam completamente a alma nacional; como, porém, a interpretam com plena elevação – o que já sabemos quanto a elevação –, com total largueza espiritual, desdobrando-lhe as inconscientes tendências filosóficas ou religiosas em detalhes intelectuais e espirituais, traduzindo a alma popular para a arte suprema, forçosamente se colocam fora da compreensão popular, entendendo por compreensão popular tudo quanto não seja a compreensão e uma elite ou aristocracia de inteligência. Daí a sua não popularidade, máxima na época em que existem, por agravada pela novidade do tom poético, menor nas épocas subsequentes, mas anulada nunca. Redizendo, estas correntes, filiadas absolutamente na alma do povo, não a exprimem: representam-na, interpretam-na. Ninguém negará a absoluta nacionalidade do isabelianismo como inglês e, como francês, do romantismo da França. Tão-pouco se pode negar a não popularidade das duas correntes, máxima na primeira, cuja mera forma de expressar mesmo a um indivíduo culto fere como extremamente complexa e intelectualizada, menor na segunda, que ainda assim está longe de popularmente acessível, tanto que a corrente classificada por um crítico francês como sendo faite pour des cénacles et deste coteries (3).
Ora, como estas correntes são as de máxima nacionalidade dos seus respectivos países; como, portanto, as correntes anteriores forçosamente haveriam sido, ou menos ou nada nacionais, a plena nacionalidade das correntes máximas importa uma quebra com o espírito dessas anteriores correntes, envolve, pois, anti-tradicionalidade. Quando a corrente anterior é desnacionalizada, a quebra com ela é flagrantíssima e consciente – e combativamente feita; é o caso do romantismo francês ante o chamado «classicismo» da época precedente. Quando a anterior corrente é, porém, não tanto desnacionalizada mas antes incompletamente nacional, a quebra é feita inconscientemente naturalmente, inagressivamente. É o caso do isabelianismo que rompe com a simplicidade e incompleta nacionalidade do seu precursor Chaucer, única quase-tradição com que, aliás, podia romper, visto que, sobre ser o máximo período da literatura inglesa é – e é o que para o caso importa – o primeiro no tempo, não tendo, portanto, época literária anterior com cujo espírito quebrasse.
Retomemos a parte essencial e analógica do nosso estudo. A anti-tradicionalidade e não popularidade do tom poético do nosso actual período literário são flagrantes, flagrantíssimas. Poucos movimentos literários se têm colocado mais acima da compreensão geral, pela complexa intelectualização ou misticização do seu exprimir-se; poucos se afastaram tanto da tradição literária da sua terra. Resta saber se esses dois característicos se devem a uma completa interpretação da alma nacional. É fácil provar que sim. Há, porém, dois modos de o provar. Um – longo – é por uma análise analogial da alma portuguesa e dos característicos espirituais da nova corrente poética. Há outro método, mais simples, mais directo, e menos duvidoso. Vejamos. Os novos poetas portugueses não tiram da tradição os elementos constitutivos do espírito da sua corrente – isto já vimos; tão-pouco tiram esses elementos de correntes literárias estrangeiras – já o verificámos quando foi preciso constatar a novidade do tom poético deste período. Então de onde os tiram? Tira-os cada poeta da sua própria alma, no que tem de individual e peculiar? Nesse caso não haveria corrente literária, mas poetas isolados. Ora, como realmente há corrente literária, é forçoso admitir que o que a produz é o que nas almas há de superindividual, o que elas têm de comum. E o que elas têm é uma de três coisas – a raça, o meio nacional, ou o meio civilizacional, isto é, europeu. O meio europeu não é, porque então a corrente literária basear-se-ia nas correntes literárias estrangeiras contemporâneas, o que não acontece, provada, como está, a sua novidade. O meio nacional também não é, pois que então reproduziria o espírito do meio, que é ou nulamente, ou catolicamente, religioso: e ela é religiosa e não católica. Não há senão que admitir, portanto, que reproduz a alma da raça. E como é anti-tradicional, não a reproduz misturando-lhe elementos passados; como é não popular, não a reproduz misturando-lhe elementos pouco espirituais ou pouco intelectuais, populares no mau sentido do epíteto. Quer dizer, pois, que a nova corrente interpreta a alma nacional directamente, nuamente e elevadamente. Quer dizer que é absolutamente idêntica às grandes correntes literárias da França e da Inglaterra. Resulta, portanto, provada, ponto por ponto, detalhe por detalhe, a analogia entre a nossa corrente literária e as grandes correntes literárias percursoras dos grandes períodos criadores de civilização.


(3) Lanson, Histoire de la Littérature Française.
166 Fernando Pessoa

HORA ABSURDA

HORA&ABSURDA

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida p'la maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia... A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!... Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...

Os feixes dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas.
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...

Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
De Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

O palácio está em ruínas. Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-Outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada.

A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros...
E que querem ao lado aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?..

Porque me aflijo e me enfermo?... Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Veio o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...

Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes... Ainda
Há rastos de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...

Todos os ocasos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...

Ergueram-se a um tempo todos os remos... Pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar... Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...

Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...

Sermos, e não sermos mais! Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Porque não há-de ser o Norte o Sul?... O que está descoberto?...

E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há coisas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprezo? Porque não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque –
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há-de vir.
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem....

É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã – como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema – Vitória!

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma.
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...


04/07/1913 (Exílio, nº 1, Abril de 1916)
172 Fernando Pessoa

O CASO MENTAL PORTUGUÊS


Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria «provincianismo». Como todas as definições simples esta, que é muito simples, precisa, depois de feita, de uma explicação complexa.
Darei essa explicação em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto é, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer país, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental – a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto, neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas. Por natureza, forma o povo um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; e o pensamento é individual.
O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém com ideias de outrem. Na classe média mental, o indivíduo, que mentalmente já existe, sabe já escolher – por ideias e não por instinto – entre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor a ambas uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental.
O que caracteriza a terceira camada, o escol, é, como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus – os que o levaram a aceitá-la – e não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas.
Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais – económicas ou outras – não se ajusta exactamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro pertence mentalmente ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.
Quando, portanto, digo que a palavra «provincianismo» define, sem outra que a condicione, o estado mental presente do povo português, digo que essa palavra «provincianismo», que mais adiante definirei, define a mentalidade do povo português em todas as três camadas que a compõem. Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da nação.
Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver, em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como os campónios, ou como provincianos, ou como citadinos. Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campónio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro.
Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constitui a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são artifícios o transporte sobre rodas, o discurso disposto em verso escrito, renegam a naturalidade original dos pés e da prosa falada.
A artificialidade, porém, é de dois tipos. Há aquela, acumulada através das eras, e que, tendo-a já encontrado quando nascemos, achamos natural; e há aquela que todos os dias se vai acrescentando à primeira. A esta segunda é uso chamar «progresso» e dizer que é «moderno» o que vem dela. Ora o campónio, o provinciano e o citadino diferençam-se entre si pelas suas diferentes reacções a esta segunda artificialidade. O que chamei campónio sente violentamente a artificialidade do progresso; por isso se sente mal nele e com ele, e intimamente o detesta. Até das conveniências e das comodidades do progresso se serve constrangido, a ponto de, por vezes, e em desproveito próprio, se esquivar a servir-se delas. É o homem dos «bons tempos», entendendo-se por isso os da sua mocidade, se é já idoso, ou os da mocidade dos bisavós, se é simplesmente párvuo.
No pólo oposto, o citadino não sente a artificialidade do progresso. Para ele é como se fosse natural. Serve-se do que é dele, portanto, sem constrangimento nem apreço. Por isso o não ama nem desama: é-lhe indiferente. Viveu sempre (física ou mentalmente) em grandes cidades; viu nascer, mudar e passar (real ou idealmente) as modas e a novidade das invenções; são pois para ele aspectos correntes, e por isso incolores, de uma coisa continuamente já sabida, como as pessoas com quem convivemos, ainda que de dia para dia sejam realmente diversas, são todavia para nós idealmente sempre as mesmas.
Situado mentalmente entre os dois, o provinciano sente, sim, a artificialidade do progresso, mas por isso mesmo o ama. Para o seu espírito desperto, mas incompletamente desperto, o artificial novo, que é o progresso, é atraente como novidade, mas ainda sentido como artificial. E, porque é sentido simultaneamente como artificial é sentido como atraente, e é por artificial que é amado. O amor às grandes cidades, às novas modas, às «últimas novidades», é o característico distintivo do provinciano.
Se de aqui se concluir que a grande maioria da humanidade civilizada é composta de provincianos, ter-se-á concluído bem, porque assim é. Nas nações deveras civilizadas, o escol escapa, porém, em grande parte, e por sua mesma natureza, ao provincianismo. A tragédia mental de Portugal presente é que, como veremos, o nosso escol é estruturalmente provinciano.
Não se estabeleça, pois seria erro, analogia, por justaposição, entre as duas classificações, que se fizeram, de camadas e tipos mentais. A primeira, de sociologia estática, define estados mentais em si mesmos; a segunda, de sociologia dinâmica, define estados de adaptação mental ao ambiente. Há gente do povo mental que é citadina em suas relações com a civilização. Há gente do escol, e do melhor escol – homens de génio e de talento –, que é campónio nessas relações.
Pelas características indicadas como as do provinciano, imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem uma semelhança perfeita com a da criança. A reacção do provinciano, às suas artificialidades, que são as novidades sociais, é igual à da criança às suas artificialidades, que são os brinquedos. Ambos as amam espontaneamente, e porque são artificiais.
Ora o que distingue a mentalidade da criança é, na inteligência, o espírito de imitação; na emoção, a vivacidade pobre; na vontade, a impulsividade&incoordenada. São estes, portanto, os característicos que iremos achar no provinciano; fruto, na criança, da falta de desenvolvimento civilizacional, e assim ambos efeitos da mesma causa – a falta de desenvolvimento. A criança é, como o provinciano, um espírito desperto, mas incompletamente desperto.
São estes característicos que distinguirão o provinciano do campónio e do citadino. No campónio, semelhante ao animal, a imitação existe, mas à superfície, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da a
182 Fernando Pessoa

II

Sabido que uma corrente literária é a expressão pela literatura de uma comum noção do mundo, da arte e da vida – posto de parte o que é individual, por individual precisamente –, o estudo psicológico de qualquer corrente envolve o destrinçar-lhe na alma a sua tripla unidade de atitudes. Que três aspectos são esses do seu espírito uno? O primeiro é a sua metafísica – isto é, o conceito do universo e das coisas que subjaz as manifestações dessa corrente. O segundo é a estética – curando bem que por isto se não quer dizer as suas teorias de arte (essas pertencem, como parte da sua teoria das coisas, à sua metafísica), mas o seu modo de ser literário, a sua alma literária. O terceiro é a sua sociologia, e isto significa as teorias sociais, 1º, que constituem a aspiração da corrente; 2º, que, determinando-se, se alteram, na fixação directa em estudo, já extra-literários, propriamente sociológicos; e 3º, que, encontrando-se com realidades sociais, se sintetizam, realizando-se numa nova fórmula vivida, perdendo ao realizar-se o que de impraticável tivessem. Claro está que a parte última deste estudo é puramente sociológica; mas isso é inevitável, dado que uma corrente literária é basilarmente, e representativamente, uma corrente social; tanto assim que – como o temos indicado teoricamente já aqui, e praticamente na feição realizada do nosso anterior artigo – um estudo literário completo é, em grande parte – e máximo e ultimamente mesmo – um estudo sociológico.
Posto isto, encaremos a metodologia desta análise. O método analítico a empregar varia ligeiramente conforme qual dos três aspectos do psiquismo de uma corrente se investiga. Assim, ao determinar a estética da corrente, a análise incide directa sobre as obras dos poetas, porque estes, representando o máximo de emoção e de requinte revelador de expressão, mais do que os prosadores são representativos do momento-alma da raça e dos processos mentais que da inconsciência divina do povo sobem, feitos arte e consciência, para a interpretação estremecida dos seus versos. – Ao inquirir da metafísica, a análise divide-se entre as obras de arte – destacando sempre, por sua superior representatividade, os poetas – e as que dão expressão directa, racionada e intencionalmente filosófica, ao conceito do universo, característico do momento racial. Reportarmo-nos, nessa análise, só às obras metafísicas, ou apenas às obras literárias, seria – não diremos impossibilitar, mas por certo dificultar a investigação. É que – por estranho que de relance pareça – tanto o poeta como o filósofo ao interpretarem, cada um de seu modo, as intuições metafísicas de uma época, ao mesmo tempo as revelam e as escondem. Revelam-nas porque são poeta e filósofo, e, portanto, desdobradores em consciência e raciocínio do que a raça e a hora acumulam no fundo das suas almas. Escondem-nas – o poeta, porque a emoção, ainda que surgindo directamente do fundo intuitivo, é, de sua natureza, atraiçoadora da precisão intelectual; o filósofo, porque a actividade de raciocínio, vantajosa em tornar precisas as intuições fundamentais que a raça lhe dá, é, de seu carácter, destruidora dos processos emotivos que, eles só, surgindo directamente do fundo oculto da alma, podem conservar a essas intuições fundamentais a sua cor primitiva, o seu preciso tom intuicional. E, mais, tanto poeta como filósofo, sendo individualidades, acrescentam cada qual ao comum fundo de raça o seu especial temperamento, elemento esse que facilmente desvirtuará uma interpretação exacta, superpessoal, do metafisismo da época. A alma de uma época está em todos os seus poetas e filósofos, e em nenhum; é por isso que é em todos e em nenhum que a nossa análise se encontra obrigada a procurá-la. – Semelhante método tem de ser aplicado no estudo da sociologia da corrente, mais complexo, porém, aqui, porque a três fontes, que não a duas, tem o raciocínio de ir beber. Os literatos, os filósofos e sociólogos-teoristas, e os acontecimentos finais e solucionais do período são essas três fontes. Como na nossa actual corrente não há, por ser ainda cedo, sociólogos-teoristas, e como os acontecimentos de criação social, que caracterizarão a época, só virão, como sempre, no fim do período, que ora avança apenas para o seu auge literário, releve-se-nos que não entremos em uma análise inutilmente extensa da forma como esta investigação deverá ser feita. Só temos um elemento – poetas – para essa dedução: veremos mais adiante o que, só com ele, se pode fazer, firmando-nos desde já na consciência de que essa dedução fatalmente será incompletíssima, uma simples intuição quase, um mero vislumbre de adivinhar.
Vejamos agora, reportando-nos à nossa já feita divisão dos máximos períodos em estádios, em que hora dos períodos temos de ir procurar esses poetas, esses filósofos que servem à nossa análise para nos revelar a alma da corrente. Verifica-se, sem dificuldade, que a estética de uma corrente fica determinada (é natural) quando, ao entrar no seu segundo estádio, ela atinge a sua capacidade máxima de expressão. É o estádio-Shakespeare no período inglês, o estádio-Hugo no da França, logo que fica formado o estilo de Shakespeare e o de Vítor&Hugo. Atingida e fixada essa máxima capacidade de expressão, sucede um alargamento de ideação que pouco depois chega ao auge, coincidentemente, pouco mais ou menos com o meio do segundo estádio e estendendo-se até ao princípio do terceiro até que, variando, se prolonga por este dentro. É em coincidência com este auge ideativo da poesia que geralmente aparecem os filósofos do período. Quanto à sociologia da época, só nos poetas desde o auge ideativo do segundo, e pelo terceiro estádio, e nos filósofos e tratadistas do mesmo tempo se poderá trair, posteriores um pouco, porém, os tratadistas e os filósofos. Os poetas do princípio do estádio segundo só a um raciocínio muito pacientemente perscrutador de obscuras intuições inconscientemente proféticas poderão entre-sugerir uma ideia do género de essa futura realização social.
Como em anterior artigo mostrámos, a nova poesia portuguesa desde a "Oração à Luz" que entrou no segundo estádio. Podemos, portanto, arrancar-lhe o segredo da sua estética, nitidamente; com menos nitidez, e aproximadamente, entrever a sua metafísica: e, para que o estudo se não trunque, procurar dizer a cor dos longes vagos da sua sociologia ainda indecisos no horizonte da história.
188 Fernando Pessoa

O PROVINCIANISMO PORTUGUÊS


Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do Orpheu, disse a Mário de Sá-Carneiro: «V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si». O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante&D.&Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando – toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Virgílio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a Divina&Comédia superior à Eneida. O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.
É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes na Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.
A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment – o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele «desenvolvimento da largueza de consciência» em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.
O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça&de&Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, A Relíquia, Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole&France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.
Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.


(publicado em Notícias Ilustrado, nº 9, série II, Lisboa, 12/08/1928)
189 Fernando Pessoa

VI

Tirem-se, rapidamente, as tónicas conclusões finais. São três. A primeira é que para Portugal se prepara um ressurgimento assombroso, um período de criação literária e social como poucos o mundo tem tido. Durante o nosso raciocínio deve o leitor ter reparado que a analogia do nosso período é mais com o grande período inglês do que com o francês. Tudo indica, portanto, que o nosso será, como aquele, maximamente criador. Paralelamente se conclui o breve aparecimento na nossa terra do tal supra-Camões. Supra-Camões? A frase é humilde e acanhada. A analogia impõe mais. Diga-se «de um Shakespeare» e dê-se por testemunha o raciocínio, já que não é citável o futuro. A segunda conclusão é que, tendo o movimento literário português nascido com e acompanhado o movimento republicano, é dentro do republicanismo, e pelo republicanismo, que está, e será, o glorioso futuro, deduzido. São duas faces do mesmo fenómeno criador. Fixemos isto: ser monárquico é, hoje, em Portugal, ser traidor à alma nacional e ao futuro do Pátria Portuguesa. A terceira conclusão é que o republicanismo, que fará a glória da nossa terra e por quem novos elementos civilizacionais serão criados, não é o actual, desnacionalizado, idiota e corrupto, do tripartido republicano. De modo que é bom fixar isto, também: que ser monárquico é ser traidor à alma nacional, ser correligionário do Sr. Afonso&Costa, do Sr. Brito&Camacho, ou do Sr. António&José&de&Almeida, assim como de vária horrorosa subgente sindicalista, socialista e outras coisas, representa paralela e equivalente traição. O espírito de tudo isso é absolutamente o contrário do espírito da nova corrente literária. Tudo ali á importado do estrangeiro, tudo é sem elevação nem grandeza, popular com o que há de mais Mouraria na popularidade. Para nada de morte lhes faltar, nem anti-tradicionais são: herdaram cuidadosamente os métodos de despotismo, de corrupção e de mentira que a monarquia tão como seus amou.
Não nos admire que isto assim seja. No reinado de Isabel, período da Inglaterra que corresponde ao nosso actual, ainda nada se vislumbrava do princípio e governo popular que havia de ser criação da época. Conservemo-nos, por enquanto, absolutamente portugueses, rigidamente republicanos, intransigentemente inimigos do republicanismo actual. Brevemente começará a raiar nas nossas almas a intuição política do nosso futuro. Talvez o supra-Camões possa dizer alguma coisa sobre o assunto. Esperemos que ele não se demore. No entretanto, sursum&corda! Sabemos que o futuro será glorioso. Confiemos nele. Por enquanto abstenhamo-nos de agir, a não ser negativamente para combater e apenas pela palavra e pelo escrito os portugueses estrangeiros que nos desgovernam e isso só se a indignação no-lo impuser como desabafo. A hora da acção ainda não chegou. Primeiro virá a teoria política da época. Depois virá o pô-la em prática. E quando a hora chegar virá – não tenhamos dúvida – o homem e força que a imporá, eliminando os obstáculos, que são esta gente de agora, monárquicos e republicanos. Suavemente, se puder ser, será a transformação feita, a criação começada. Mas se assim não for, se esta gente de hoje não curar de se tornar portuguesa, confiemos, sem horror, que o Cromwell vindouro os saberá afastar, aplicando-lhes, por triste necessidade, a ultima&ratio de Napoleão, de Cavaignac, e do coronel conde de Gallifet.



(publicado em A Águia, série II, nº 5, Porto, Maio de 1912)
190 Fernando Pessoa

AS CARICATURAS DE ALMADA NEGREIROS


A arte chamada satírica é aquela cujo intuito consiste traduzir um objecto, sem erro de tradução, para inferior a si próprio. Baseia-se por isso em um dos três sentimentos donde essa intenção pode nascer – o ódio ou aversão, o desprezo, e o interesse fútil, e consciente de ser fútil, que é uma espécie de desprezo carinhoso. A revolta, o riso, o sorriso – eis as três manifestações que consoante o sentimento gerador, tenta produzir com respeito ao objecto que trata.
Toda a outra arte procura tornar o seu objecto superior a si-próprio, busca nele uma qualquer espécie de além-ele.
Desde que a intenção da arte deixe de ser o tornar o objecto superior a si-próprio, passa fatalmente a ser o torná-lo inferior a si próprio, visto que a via média não existe, porque (pois que a arte é essencialmente interpretação) uma coisa é igual a si-própria nunca na arte, mas só na vida.
Basta considerar um objecto futilmente, como meramente interessante, para o inferiorizar, visto que cada Coisa ou Sensação, momento espacial ou psíquico do Mistério, ou, pelo menos, da Vida, basta que seja considerada sem uma consciência clara ou obscura de que é isso, para ser ipso facto traduzida para inferior a si-própria.
Daí o existir, além do ódio (que produz a revolta) e o desprezo (que produz o riso), o interesse fútil (que produz o sorriso) como sentimento gerador de obra satírica, propriamente assim chamada.
Daí o carácter basilarmente negativo da arte satírica.
Acontece porém que toda a arte é criação; ora sendo toda a arte criação, e sendo toda a criação, por sua natureza, afirmação, resulta que a arte satírica, que é negativa, encerra em sua essência o paradoxo de que é grande na proporção em que sai para fora de ser satírica. Quanto mais satírica menos satírica. Aí estão o Dom&Quixote e A Tale of a Tub a pedirem que os citemos como exemplos.
Não se julgue porém que isto – mera constatação – leva escondido o puxar para desprezível a arte de satirizar. Nessa arte, como na outra, pode haver, e em cada um dos seus três géneros, brilhantismo, talento e génio. Pode haver mesmo um artista genial em nos dar o interesse fútil das coisas; basta que no-lo dê com a plena dolorosa consciência dessa futilidade. E isso é porque (voltemos ao mesmo paradoxo) já essa dor da consciência do fútil nos leva para além da sátira.
Porque o génio satírico é aquele que, quer faça sátira pelo ódio, quer pelo desprezo, quer pelo interesse fútil, nos dá o além odioso, o além ridículo, o além fútil. O talento, em qualquer dos três géneros, será aquele que cegantemente, multiformalmente, nos der o fútil como fútil, o ridículo como ridículo, o odioso como odioso. – O meramente inteligente ou brilhante será aquele que, não sem individualidade, mas sem vincada forma pessoal e acentuado polimorfismo, nos der o que ao seu género convenha.

Se, de posse destes claros elementos para a crítica, nos aproximarmos da obra de Almada&Negreiros, agora exposta em Lisboa, não teremos dificuldade para pragas em lhe encontrar classificação.
Almada Negreiros pertence aos satiristas que se aplicam a dar a futilidade das coisas. A sua arte é suavemente para o sorriso. Não tem nem ódios nem desprezos, pelo menos artisticamente; por isso a sua arte não nos deixa na alma rasto de revolta ou eco de gargalhada. Ele observa interessadamente, mas não traz, pelo menos por enquanto, sentimentos profundos para a sua observação. Vê, acha curioso, e fixa em traço e cor o sorriso da sua alma atenta.
Isto, porém, é uma classificação de espécie, não de valor. O que nos importa saber é o valor do artista dentro do género a que pertence.
Que Almada Negreiros não é um génio – manifesta-se em não se manifestar. Nada de dolorosamente consciente de quanto o fútil simboliza e resume das coisas da Vida. Um ou outro assunto é tratado mais a sério; mas nem esse sério leva em si pequena porção que seja de individualidade e especialidade, nem, mesmo, o sério é o doloroso.
Mas que este artista tem brilhantismo e inteligência, muito e muita – eis o que está fora de se poder querer negar. Mas terá talento? O ponto para quem quer discutir é este.

Eu creio que ele tem talento. Basta reparar que ao sorriso do seu lápis se liga o polimorfismo da sua arte para voltarmos as costas a conceder-lhe inteligência apenas.
É interessante de vários modos, interessado de várias maneiras na futilidade da Vida, apanhando-lhe ora este, ora aquele, momento de espuma, sem consciência, infelizmente, de que essa espuma é a orla de um mar antigo, vasto e misterioso.
E o seu polimorfismo – a que atribuí-lo, cingindo-nos criticamente só a ele? Será poliaptidão do artista, incerteza em encontrar-se, ou uma assemelhável imitação ou adaptação a vários géneros? Creio na Síntese, sempre, e aqui ela vem em meu auxílio. Porque me parece que de todos estes três elementos se forma o multiformismo do artista. Há qualquer coisa de procurar; há, infelizmente, também qualquer coisa de achar (nos outros); – mas há também, para quem sabe ver, nitidamente personalidade e originalidade através de essas influenciações e tentativas.


(publicado em A Águia, nº 16, série II, Porto, Abril de 1913)
191 Fernando Pessoa

ORPHEU, REVISTA TRIMESTRAL DE LEITURA

Nº 1

(Janeiro-Fevereiro-Março 1915)

Como se dê o caso de sermos colaborador desta revista, e como, caso – não a querendo por isso criticar – preferíssemos dar uma ideia da sua orientação, fatalmente consumiríamos um impossível número de colunas, limitar-nos-emos a algumas observações, que não constituirão crítica, nem explicação, mas que visam apenas a orientar no assunto os espíritos curiosos e para quem meia palavra baste.
Como o leitor não sabe, o movimento romântico inglês foi iniciado definitivamente pela publicação, em 1798, das Lyrical Ballads de Wordsworth e Coleridge. Este livro – que contém dois dos maiores poemas de todas as literaturas, o «Ancient Mariner» de Coleridge e a «Tintern Abbey» de Wordsworth – teve por toda a Inglaterra um êxito de gargalhada. Entre os que mais riram destacou-se Byron, que no English Bards and Scotch Reviewers, deu a qualquer dos poetas das Ballads uma desagradável proeminência no ridículo. Até ao fim da vida, Lord&Byron teve sempre mais ou menos sob sátira esses dois poetas; mas acontece que a sua terceira fase, que é o seu maior – se não o seu único – título de glória, foi escrita sob a influência desses dois. Escusamos de historiar como o meio inglês se foi adaptando, e como Wordsworth acabou Poet Laureate; o caso de Byron, que morreu antes de essa adaptação estar feita, resume tudo o que, de ensinamento, estes factos possam sugerir.
Nas sóbrias laudas do seu Essay Suplementary à edição de 1815 das Lyrical Ballads, Wordsworth escreveu estes períodos:
«Se há conclusão que, mais do que qualquer outra, nos seja imposta pela revista, que fizemos, da sorte e do destino das obras poéticas, é a seguinte: que todo o autor, na proporção em que é grande e ao mesmo tempo original, tem tido sempre que criar o sentimento estético pelo qual há-de ser apreciado; assim foi sempre e assim continuará a ser... Para o que é propriamente seu, ele terá, não só que limpar, senão que muitas vezes que abrir, o seu próprio caminho; estará no caso de Aníbal entre os Alpes.»
Estas palavras pertencem já à Eternidade. Chamamos sobre elas a atenção e o racicínio do leitor. Não lhe diremos, se é nossa opinião ou não que haja homens de génio entre os colaboradores de Orpheu. Isso não o auxiliaria a compreender, nem alteraria a decisão do futuro.


(publicado em O Jornal, nº 3, de 06/04/1915)
194 Fernando Pessoa

CHUVA OBLÍQUA

Poemas Interseccionistas de Fernando Pessoa

I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvores, estrada a arder em aquele porto.
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

II

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso.
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro...

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...


III

A Grande Esfinge do Egipto sonha por este papel dentro...
Escrevo – e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

Escrevo – perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Cheops.
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egipto me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...

Ouço a Esfinge rir por dentro
O Som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do tecto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Cheops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

Funerais do rei&Cheops em ouro velho e Mim!...


IV

Que pandeiretas o silêncio deste quarto!..
As paredes estão na Andaluzia
E há danças sensuais no brilho fixo da luz...

De repente todo o espaço pára...
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do tecto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...


V

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carrossel
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruído dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes da feira e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de Primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de ouro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje...


VI

O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé dum muro de quintal,
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar de um cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão verde, tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa e o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás da minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há árvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...

8 de Março de 1914


(Orpheu, nº 2, Abril-Maio-Junho de 1915)
198 Fernando Pessoa

CRÍTICA A CIÚME, DE ANTÓNIO BOTTO


O livro Ciúme de António&Botto representa uma nova fase da sua fase de sempre. Certos elementos, dos que compõem a essência dos seus poemas, emergem neste livro mais declarada ou distintivamente do que em seus livros anteriores. É esta a diferença, que poderá ser tida por pequena ou por grande consoante a sensibilidade de cada um e a reacção dessa sensibilidade perante uns e outros poemas – os da fase anterior e os da presente.
De um modo geral, ainda que concreto, pode dizer-se que a obra poética de António Botto gira e se anima em torno de quatro ideias, ou estados mentais – a emoção sem paixão, a inteligência das superfícies, o sentimento contraditório, e a ironia emotiva. Estes quatro elementos não são, porém, diversos, desconexos ou simplesmente justapostos: derivam de um mesmo fundo temperamental, que por todos eles igual e concordantemente se manifesta.
Por emoção sem paixão entendo, como sem dificuldades entenderá qualquer, que os estados emotivos do poeta não comportam, nem envolvem, nenhum aprofundamento ou intensificação. António Botto não analisa emotivamente as suas emoções, nem de tal modo nelas se concentra que automaticamente se animem, aqueçam, se convertam em paixões.
Com análise emotiva das emoções – oposição implícita à análise intelectual delas – quero significar aquele estado em que o poeta, ou homem, se concentra sonhadoramente no que sente, e assim o multiplica, o desdobra, o sente diversa e divididamente. Tal estado merece o nome de paixão, não porque envolva intensidade, mas porque implica absorção. Em António Botto não se dá tal estado. As suas emoções são simples e directas, embora os seus sentimentos – isto é, os prolongamentos temperamentais dessas emoções – sejam porventura complicados. Isto, porém, é já outro assunto, de que mais adiante se tratará.
Se não existe em António Botto essa análise emotiva das emoções, tão-pouco existe, ainda menos existe a paixão propriamente dita – aquela exaltação da emoção por meio da qual esta exclui todo outro elemento, e, concentrando-se num ponto ou fito, imprime ao espírito uma unidade emotiva.
Por inteligência das superfícies entendo, como é intuitivo, aquela inteligência que se preocupa tão-somente com os aspectos exteriores das coisas – quer os seres externos, a que comummente chamamos coisas, quer aqueles seres internos, que são as nossas ideias e emoções. Se António Botto pouco se preocupa com a análise emotiva das suas emoções, tão-pouco, ou menos ainda, se preocupa com a análise intelectual delas. Deixa-as passar e fita-as bem. Se por vezes lhes desdobra os mantos, todavia nunca as interroga. «Deixa-me ver como és por fora», diz ele a cada coisa que sente.
Isto ficará mais claro, ou, se se preferir, menos obscuro, se compararmos a acção da inteligência das superfícies com a dos outros tipos de inteligência, a que podemos chamar a inteligência de aprofundamento e a inteligência de definição. A primeira busca ir até ao fundo das coisas, à alma e essência dos seres, e pode ser intuitiva e é até por isso mesmo extra-intelectual. A segunda, atenta ao mesmo fito, não pretende consegui-lo por um processo de sondagem, mais análogo à visão que ao entendimento: procura antes, por uma análise paciente da superfície, deduzir dela o fundo, ver nela não o que ela é, mas o que simboliza ou figura. Por isso, na exposição, a inteligência de aprofundamento é normalmente gnómica ou analógica a de definição normalmente raciocinada ou discursiva. É que esta vive mais do processo do que do intuito dele.
É evidente que a inteligência de definição de pouco ou nada serve a um poeta; o seu ritmo é de natureza oposta ao ritmo da emoção, em que a poesia assenta: dá-se uma interferência de ondas, e portanto uma anulação de efeitos, como em Boileau ou Pope, que são prosadores em verso. E a inteligência de aprofundamento, se deveras pode servi-lo muitas vezes estorva com o que dá e confunde com o que afirma; são duas visões simultâneas – uma do fundo, outra da superfície; só quando, o que é raro, exactamente se sobrepõem, surge, como no Kubla Khan de Coleridge, uma grande obra de arte, e então como que sobrenatural. Uma e outra valem mais, para o poeta, nos seus reflexos do que nas suas presenças: servem-no desde que ele se não sirva delas. Assim Poe, prodigioso raciocinado, escreveu poemas admiráveis, sem sombra de raciocínio porque sabia raciocinar: o raciocínio ausente está presente no facto de esses poemas não serem, como em substância são, simples loucura. Assim Shakespeare, prodigioso aprofundador, escreveu versos espantosos, sem sombra de aprofundamento, porque sabia aprofundar: a frase, naturalmente, vive da luz que lhe ministra uma presença que lhe é estranha.
Por sentimento contraditório quero dizer aquela subtileza da emoção consigo mesma, pela qual imediatamente compreende que traz sempre em si dois elementos opostos. Toda emoção sentida é a diagonal de um paralelogramo de forças: vive de ambas e a ambas anula. Como toda a vida é, de um modo ou de outro, um sistema de atracção e repulsão, tudo quanto sentimos contém obscuramente duas forças, essas duas forças; e há certos estados de sentimento – entendendo este como a permanência, consciente ou inconsciente, da emoção – em que a diagonal se decompõe, talvez por fraqueza em sentir, nas duas forças de que se forma. Então o espírito toma consciência de cada emoção como dupla, de cada sentimento como a contradição de si mesmo. O homem sente que, ao sentir, é dois. É o odi&et&amo de Catulo.
Foi sempre esta uma das feições mais constantes, e mais características da obra poética ou outra, de António Botto. Sempre ele se mostrou sentindo o contrário do que estava a sentir. Sempre ele disse, ao mesmo tempo o avesso do que dizia. O mesmo ritmo de todos os seus versos traz, no fluxo audível, o sussurro implícito do refluxo que se lhe vai seguir.
A ironia emotiva nasce naturalmente do sentimento contraditório, desde que a paixão não intervenha, ou a inteligência não seja de aprofundar ou definir. Se a paixão intervém, a contradição do sentimento sofre-se com revolta. Se a inteligência aprofunda ou define, a contradição do sentimento repele-se com raiva. Se, como em António Botto, nem uma nem outra coisa se dá, a contradição do sentimento aceita-se com um sorriso – um sorriso triste, talvez; mas um sorriso triste é, em si mesmo, uma contradição e uma ironia.
Que está, afinal, no fundo de tudo isto? Um temperamento conscientemente emotivo, que, por emotivo exclui tanto a paixão como as formas intensas da inteligência; que, por consciente, conhece as suas contradições e se alimenta da ironia delas. Em resumo, António Botto. E assim o que a análise dividira em quatro, tem a mesma lógica que reconhecer que a vida reunira em um.
Em seus livros anteriores, António Botto afirmara-se mais como só um emotivo sem paixão e um contraditório de sentimentos. Neste, melhor consigo, estabelece-se como também um inteligente das superfícies e um ironista das suas emoções. Em outras palavras, revela-se, agora, o total de si mesmo.
E isto, que se diz em poucas palavras, levou tantas para dizer que se ia dizer!


(Publicado em Diário de Lisboa, de 01/031935)
202 Fernando Pessoa

VI

Na classificação dos sistemas filosóficos temos a considerar duas coisas: a constituição do espírito e os fins a que tende na sua actividade metafísica.
O espírito humano, por sua própria natureza de duplamente – interiormente e exteriormente – percipiente, nunca pode pensar senão em termos de um dualismo qualquer; mesmo que se esforce por chegar, e até certo ponto chegue, a uma concepção altamente monística, dentro dessa concepção monística há um dualismo. Mesmo que dos dois elementos constitutivos da experiência – matéria e espírito – se negue a realidade a um, não se lhe nega a existência como irrealidade, como aparência – o que transforma o dualismo espírito-matéria em dualismo realidade-aparência; mas realidade-aparência é, para o espírito, um dualismo.
O género de dualismo, porém, depende de, é condicionado por, o que se considera a Realidade Absoluta, a realidade realmente real; e é a procura dessa realidade que é o fim da especulação metafísica. O espírito não pode admitir duas realidades: a ideia de realidade absoluta envolve a ideia de unidade. Mesmo, portanto, que o espírito admita, como em alguns sistemas – e flagrantemente no espiritualismo clássico – acontece, dois princípios, com igual objectividade, reais, é forçado a admitir que o género de realidade de um desses princípios é superior ao da do outro.
Temos, pois, que todo o sistema filosófico envolve um dualismo e um monismo. A constituição do espírito impõe-lhe, por mais que ele lhe queira fugir, que pense dualisticamente; a noção de realidade obriga-o a pensar monisticamente. O espírito não pode construir um sistema pura e integralmente monístico; e um sistema puramente dualístico não seria um sistema filosófico.
Todo o sistema filosófico sendo, portanto, a tentativa para reduzir a um monismo o dualismo essencial do nosso espírito, é de subentender que represente uma sistematização de elementos da Experiência em torno àquela parte da Experiência – matéria ou espírito – que o filósofo, por causas que, em sua essência, são de temperamento, considera a Realidade. Temos, pois, que, consoante para o filósofo o espírito ou a matéria se apresenta como a realidade essencial, um de dois sistemas pode directamente surgir – o espiritualismo ou o materialismo. – Para o materialista a forma essencial de realidade, seja ela especializadamente qual for no seu especial sistema, é sempre uma realidade de que forma parte inalienavelmente um elemento ou espacial, ou, pelo menos, de inconsciência. – Para o espiritualista, através das várias formas que pode tomar o espiritualismo, há sempre de central e essencial um elemento, o elemento consciência, que é o que o espírito imediatamente concebe como sua base própria. Daqui partem todas as teorias características do espiritualismo – a imoralidade da alma (concebida impossibilidade de anular a consciência), o livre-arbítrio (concebida superioridade do consciente sobre o inconsciente) e a existência de um Deus clara ou obscuramente tido como pessoal, isto é, como consciente.
A ideação metafísica pode, porém, tentar monismo de outro modo mais queridamente absoluto. Não há, é certo, outros elementos da Experiência que não a matéria e o espírito; o pensamento, porém, de certo modo tenta suprimir este dualismo. E de três modos o pode fazer: 1º Negando toda a realidade objectiva a um dos elementos da Experiência, isto é (consoante já passim vimos), reduzindo o dualismo ao minimamente dualístico (ainda que impossivelmente de todo monístico) dualismo de realidade-aparência. Conforme é o espírito ou a matéria o elemento eliminado, temos o materialismo absoluto ou o espiritualismo absoluto. – 2º Admitindo a realidade igual de ambos os elementos da Experiência; ora, como isto resulta num absurdo de sistema – dado que a existência de duas, iguais, realidades é impensável – fatalmente essa dupla realidade tira o seu carácter de realidade de ser, basilarmente, a dupla manifestação de qualquer coisa em sua essência tida por nem matéria nem espírito, ainda que somente existente e real naquelas suas manifestações. Se essa substância as transcendesse, isto é, fosse outra coisa, existisse substancialmente à parte da sua manifestação através de matéria e espírito, estaríamos então piorados para três realidades – 3º Negando a realidade a ambos elementos da Experiência, considerando-os apenas como a manifestação, não real mas ilusória, de uma transcendente e verdadeira e só realidade. – Temos assim, além dos citados materialismo e espiritualismo absolutos, no segundo sistema citado o panteísmo, e no terceiro o transcendentalismo.
O leitor reparou que no primeiro género de sistemas acima expostos há duas formas – uma materialista, outra espiritualista. O mesmo acontece ao panteísmo e ao transcendentalismo. É que, por mais que abstractamente ideemos, realmente não temos outros modelos por onde idear senão espírito e matéria. Mesmo, portanto, que concebamos um Transcendente, inconscientemente e involuntariamente o teremos de conceber como feito à imagem da matéria ou à semelhança do espírito. Assim, temos um panteísmo materialista e um panteísmo espiritualista. O primeiro – o de Espinosa – é o que encerra o que Espinosa, não se sabe porquê, chama Deus, nos seus atributos. Estes, são como que o corpo de Deus; mas para além desse corpo, Deus não é nada. É só o corpo de si próprio. Vê-se que o modelo é materialista; tanto quanto um panteísmo pode ser materialista, é-o o sistema de Espinosa. – O panteísmo espiritualista admite Deus substância de tudo, mas permanecendo Deus e diverso através da sua manifestação por seus atributos. Faça-se uma distinção subtil, que tem de ser subtilmente compreendida: para o panteísta materialista tudo é Deus; para o panteísta espiritualista Deus é tudo. Se houvesse sido pensado coerentemente, e despidamente de influências de estreita teologia, teria sido este o sistema de Malebranche.
Com o transcendentalismo acontece o mesmo. Importa fixar bem a diferença entre o panteísmo e o transcendentalismo, tanto mais que estabelecemos nós estes termos independentemente de como tenham sido usados antes, assim como, de resto, fazemos esta classificação de modo absolutamente original. – Para o panteísmo de qualquer das duas espécies, matéria e espírito são manifestações reais de Deus, exista ele (panteísmo espiritualista) ou não (panteísmo materialista) como Deus além das suas duas manifestações. Para o transcendentalista, matéria e espírito são manifestações irreais de Deus, ou, antes, para não errarmos, do Transcendente, o Transcendente manifestando-se como a ilusão, o sonho de si próprio. – Dos transcendentalistas, para o transcendentalista materialista (Schopenhauer), a essência real, de que as coisas são a ilusão, é qualquer coisa vaga cujo carácter essencial é ser inconsciente; ora, como a consciência é a base dos sistemas espiritualistas, temos aqui um sistema que, apesar de transcendentalista, o é anti-espiritualista –, isto é, materialisticamente. – É escusado definir o transcendentalismo espiritualista, que representa a hipótese contrária.
Um outro sistema pode, porém, surgir, limite e cúpula da metafísica. Suponha-se que a um transcendentalista qualquer esta objecção se faz: O Aparente (matéria e espírito) é para vós irreal, é uma manifestação irreal do Real. Como, porém, pode o Real manifestar-se irrealmente? Para que o irreal seja irreal é preciso que seja real: portanto o Aparente é uma realidade irreal, ou uma realidade real – uma contradição realizada. O Transcendente, pois, é e não é ao mesmo tempo, existe à parte e não à parte da sua manifestação, é real e não real nessa manifestação. – Vê-se que este sistema é, não o materialismo nem o espiritualismo, mas sim o panteísmo, transcendentalizado; chamemos-lhe pois o transcendentalismo panteísta. Há dele um exemplo único e eterno. É essa catedral do pensamento – a filosofia de Hegel.
O transcendentalismo panteísta envolve e transcende todos os<
210 Fernando Pessoa

III

Perscrutemos qual a estética da nova poesia portuguesa.
A primeira constatação analítica que o raciocínio faz ante a nossa poesia de hoje é que o seu arcaboiço espiritual é composto de três elementos – vago, subtileza e complexidade. São vagas, subtis e complexas as expressões características do seu verso, e a sua ideação é, portanto, do mesmo triplo carácter. Importa, porém, estabelecer, de modo absolutamente diferencial, a significação daqueles termos definidores. Ideação vaga é coisa que é escusado definir de exaustivamente explicante que é de per si o mero adjectivo; urge, ainda assim, que se observe que ideação vaga não implica necessariamente ideação confusa, ou confusamente expressa (o que aliás redunda, feita uma funda análise psicológica, precisamente no mesmo). Implica simplesmente uma ideação que tem o que é vago ou indefinido por constante objecto e assunto, ainda que nitidamente o exprima ou definidamente o trate; sendo contudo evidente que quanto menos nitidamente o trate ou exprima mais classificável de vaga se tornará. Uma ideação obscura é, pelo contrário, apenas uma ideação traça ou doentia. Vaga sem ser obscura é a ideação da nossa actual poesia; vaga e frequentemente – quase caracteristicamente obscura é do simbolismo francês, cujo carácter patológico mais adiante explicaremos. – Por ideação subtil entendemos aquela que traduz uma sensação simples por uma expressão que a torna vivida, minuciosa, detalhada – mas detalhada não em elementos exteriores, de contornos ou outros, mas em elementos interiores, sensações – sem contudo lhe acrescentar elemento que se não encontre na directa sensação inicial. Assim Albert&Samain, quando diz

Je ne dis rien, et tu m'écoutes
Sous tes immobiles cheveux, (4)

desdobra a sensação directa de um silêncio à deux, opressivo e nocturno, na tripla sensação de silêncio, de almas que falam nesse silêncio, e da imobilidade dos corpos, mas não dá outra impressão do que a, intensa, desse silêncio. Do mesmo modo, nos versos de Mário&Beirão

Charcos onde um torpor, vítreo torpor, se esquece,
Nuvens roçando a areia, os longes baços...
Paisagem como alguém que, ermo de amor se desse,
Corpo que estagna frio a beijos ou a abraços, (5)


há simplesmente um desdobrar, como em leque, de uma sensação crepuscular, que cada termo maravilhosamente intensifica, mas não alarga. Finalmente, entendemos por ideação complexa a que traduz uma impressão ou sensação simples por uma expressão que a complica acrescentando-lhe um elemento explicativo, que, extraído dela, lhe dá um novo sentido. A expressão subtil intensifica, torna mais nítido (6); a expressão complexa dilata, toma maior. A ideação subtil envolve ou uma directa intelectualização de uma ideia ou uma directa emocionalização de uma emoção: daí o ficarem mais nítidas, a ideia por mais ideia, a emoção por mais emoção. A ideação complexa supõe sempre ou uma intelectualização de uma emoção, ou uma emocionalização de uma ideia: é desta heterogeneidade que a complexidade lhe vem. São de ideação complexa, por exemplo, os versos de Mário Beirão

A boca, em morte e mármore esculpida,
Sonha com as palavras que não diz (7)

de Teixeira&de&Pascoaes

A folha que tombava
Era alma que subia; (8)

e expressões como choupos d'alma (9) de Jaime&Cortesão ou o ungido de universo (10) de Guerra&Junqueiro.
Feita esta constatação, que nos leva ela a concluir? Subtileza e complexidade ideativas vêm a ser, como da anterior exposição se depreende, modos analíticos da ideação: desdobrar uma sensação em outras – subtileza – é acto analítico, e acto analítico, ainda mais profundo, o de tomar uma sensação simples complexa por elementos espiritualizantes nela própria encontrados. Ora a análise de sensações e de ideias é o característico principal de uma vida interior. A poesia de que se trata é, portanto, uma poesia de vida interior, uma poesia de alma, uma poesia subjectiva. Será então uma nova espécie de simbolismo? Não é: é muito mais. Tem, de facto, de comum com o simbolismo o ser uma poesia subjectiva; mas, ao passo que o simbolismo é, não só exclusivamente subjectivo, mas incompletamente subjectivo também, a nossa poesia nova é completamente subjectiva e mais do que subjectiva. O simbolismo é vago e subtil; complexo, porém, não é. É-o a nossa actual poesia; é, por sinal a poesia mais espiritualmente complexa que tem havido, excedendo, e de muito, a única outra poesia realmente complexa – a da Renascença, e, muito especialmente, do período isabeliano inglês. O característico principal da ideação complexa – o encontrar em tudo um além – é justamente a mais notável e original feição da nova poesia portuguesa.
Mas a nossa poesia de hoje é, como acima dissemos, mais do que subjectiva. Absolutamente subjectivo é o simbolismo: daí o seu desequilíbrio, daí o seu carácter degenerativo, há muito notado por Nordau. A nova poesia portuguesa, porém, apesar de mostrar todos os característicos da poesia de alma, preocupa-se constantemente com a natureza, quase exclusivamente, mesmo, na natureza se inspira. Por isso dizemos que ela é também uma poesia objectiva. Quais são os característicos psíquicos da poesia objectiva? Fácil é apontá-los. São três, e a sua diferença dos característicos da poesia de alma assenta sobre isto – que, ao passo que a observação da alma implica análise, a da natureza, a do exterior, envolve síntese, visto que qualquer impressão do exterior é sempre uma síntese, e uma síntese complexa, de impressões secundárias, memórias, e obscuras e instâneas associações de ideias. São três, dizíamos, os característicos da poesia objectiva. O primeiro é a nitidez, revelada na forma ideativa do epigrama, chamando assim, convenientemente, à fase sintética, vincante, concisa: quando, exemplificando, dissermos que o tipo da poesia objectiva, apenas epigramática, é a dos séculos XVII e XVIII, em França especial e originantemente, teremos dado ideia clara do que por nitidez e epigrama no caso presente entendemos. O epigrama, porém, subjaz, como forma ideativa, toda a poesia do exterior, assim como o seu contrário, o vago, é base de toda a poesia contrária, a de alma. Epigramática como nenhuma é a poesia de Vítor&Hugo, que é muito mais do que epigramática. Epigramática é – e este ponto é que urge notar – a nossa actual poesia, e por ser, ao mesmo tempo vaga e epigramática é que ela é grandemente, magnificamente equilibrada. A frase choupos d'alma, por exemplo, sendo – como apontámos – complexa no que de poesia subjectiva, é epigramática no que de poesia objectiva; é mesmo tipicamente epigramática, com a sua forma sintética, de contraste. Da sua complexidade íntima vem a sua beleza espiritual; do seu epigramatismo de forma nasce o seu perfeito equilíbrio e completa e perceptível beleza. Do mesmo são epigramáticas as frases citadas de Mário Beirão, o segundo trecho, e de Teixeira&de&Pascoaes. A actual poesia portuguesa possui, portanto, equilibrando-lhe a inigualada intensidade e profundeza espiritual, o epigramatismo sanificador da poesia objectiva. – Segundo característico da objectividade poética é aquilo a que podemos chamar a plasticidade (11); e entendemos por plasticidade a fixação expressiva do visto ou ouvido como exterior, não como sensação, mas como visão ou audição. Plástica neste sentido, foi toda a poesia grega e romana, plástica a poesia dos parnasianos, plástica (além de epigramática e mais) a de Vítor&Hugo, plástica, de novo modo, a de Cesário&Verde. A perfeição da poesia plástica consiste em dar a impressão exacta e nítida (sem ser exactamente epigramática) do exterior como exterior, o que não impede de, ao mesmo tempo, o dar como interior, como emocionado. É o que se dá nos quatro versos, em primeiro lugar citados, de Mário Beirão que a uma objectividade (plasticidade) perfeita unem uma perfeita subjectividade (subtileza). Outros ex
213 Fernando Pessoa

É um estado de guerra, pensei eu, entre mim e as ficções sociais Muito bem O que posso eu fazer

– É um estado de guerra, pensei eu, entre mim e as ficções sociais. Muito bem. O que posso eu fazer contra as ficções sociais? Trabalho sozinho, para não poder, de modo nenhum, criar qualquer tirania. Como posso eu colaborar sozinho na preparação da revolução social, na preparação da humanidade para a sociedade livre? Tenho que escolher um de dois processos, dos dois processos que há; caso, é claro, não possa servir-me de ambos. Os dois processos são a acção indirecta, isto é, a propaganda, e a acção directa, de qualquer espécie.
«Pensei primeiro na acção indirecta, isto é, na propaganda. Que propaganda poderia eu fazer só por mim? À parte esta propaganda que sempre se vai fazendo em conversa, com este ou aquele, ao acaso e servindo-nos de todas as oportunidades, o que eu queria saber era se a acção indirecta era um caminho por onde eu pudesse encaminhar a minha actividade de anarquista energicamente, isto é, de modo a produzir resultados sensíveis. Vi logo que não podia ser. Não sou orador e não sou escritor. Quero dizer: sou capaz de falar em público, se for preciso, e sou capaz de escrever um artigo de jornal; mas o que eu queria averiguar era se o meu feitio natural indicava que, especializando-me na acção indirecta, de qualquer das duas espécies ou em ambas, eu poderia obter resultados mais positivos para a ideia anarquista que especializando os meus esforços em qualquer outro sentido. Ora a acção é sempre mais proveitosa que a propaganda; excepto para os indivíduos cujo feitio os indica essencialmente como propagandistas – os grandes oradores, capazes de electrizar multidões e arrastá-las atrás de si, ou os grandes escritores, capazes de fascinar e convencer com os seus livros. Não me parece que eu seja muito vaidoso, mas, se o sou, não me dá, pelo menos, para me envaidecer daquelas qualidades que não tenho. E, como lhe disse, nunca me deu para me julgar orador ou escritor. Por isso abandonei a ideia da acção indirecta como caminho a dar à minha actividade de anarquista. Por exclusão de partes, era forçado a escolher a acção directa, isto é, o esforço aplicado à prática da vida, à vida real. Não era a inteligência, mas a acção. Muito bem. Assim seria.
«Tinha eu pois que aplicar à vida prática o processo fundamental de acção anarquista que eu já tinha esclarecido – combater as ficções sociais sem criar tirania nova, criando já, caso fosse possível, qualquer coisa da liberdade futura. Ora como diabo se faz isso na prática?
«Ora o que é combater na prática? Combater na prática é a guerra, é uma guerra, pelo menos. Como é que se faz a guerra às ficções sociais? Antes de mais nada, como é que se faz guerra? Como é que se vence o inimigo em qualquer guerra? De uma de duas maneiras: ou matando-o, isto é, destruindo-o; ou aprisionando-o, isto é, subjugando-o, reduzindo-o à inactividade. Destruir as ficções sociais não podia eu fazer; destruir as ficções sociais só o podia fazer a revolução social. Até ali, as ficções sociais podiam estar abaladas, cambaleando, por um fio; mas destruídas, só o estariam com a vinda da sociedade livre e a queda positiva da sociedade burguesa. O mais que eu poderia fazer nesse sentido era destruir – destruir no sentido físico de matar – um ou outro membro das classes representativas da sociedade burguesa. Estudei o caso e vi que era asneira. Suponha você que eu matava um ou dois, ou uma dúzia de representantes da tirania das ficções sociais... O resultado? As ficções sociais ficavam mais abaladas? Não ficavam. As ficções sociais não são como uma situação política que pode depender de um pequeno número de homens, de um só homem por vezes. O que há de mau nas ficções sociais são elas, no seu conjunto, e não os indivíduos que as representam senão por serem representantes delas. Depois, um atentado de ordem social produz sempre uma reacção; não só tudo fica na mesma, mas, as mais das vezes, piora. E, ainda por cima, suponha, como é natural, que, depois de um atentado, eu era caçado; era caçado e liquidado de uma maneira ou outra. E suponha que eu tinha dado cabo de uma dúzia de capitalistas. Em que vinha isso tudo dar, em resumo? Com a minha liquidação, ainda que não por morte, mas por simples prisão ou degredo, a causa anarquista perdia um elemento de combate: e os doze capitalistas, que eu teria estendido, não eram doze elementos que a sociedade burguesa tinha perdido, porque os elementos componentes da sociedade burguesa, não são elementos de combate, mas elementos puramente passivos, pois que o "combate" está, não nos membros da sociedade burguesa, mas no conjunto de ficções sociais, em que essa sociedade assenta. Ora as ficções sociais não são gente em quem se possa dar tiros... Você compreende bem? Não era como o soldado de um exército que mata doze soldados de um exército contrário; era como um soldado que mata doze civis da nação do outro exército. E matar estupidamente, porque não se elimina combatente nenhum... Eu não podia portanto pensar em destruir, nem no todo nem em nenhuma parte, as ficções sociais. Tinha então que subjugá-las, que vencê-las subjugando-as, reduzindo-as à inactividade.
Apontou para mim o indicador direito súbito!
– Foi o que eu fiz!
Retirou logo o gesto, e continuou.
– Procurei ver qual era a primeira, a mais importante, das ficções sociais. Seria a essa que me cumpria, mais que a nenhuma outra, tentar subjugar, tentar reduzir à inactividade. A mais importante, da nossa época pelo menos, é o dinheiro. Como subjugar o dinheiro, ou, em palavras mais precisas, a força, ou a tirania do dinheiro? Tornando-me livre da sua influência, da sua força, superior portanto à sua influência, reduzindo-o à inactividade pelo que me dizia respeito a mim. Pelo que me dizia respeito a mim, compreende você? porque eu é que o combatia: se fosse reduzi-lo à inactividade pelo que respeita a toda a gente, isso não seria já subjugá-lo, mas destruí-lo, porque seria acabar de todo com a ficção dinheiro. Ora eu já lhe provei que qualquer ficção social só pode ser "destruída" pela revolução social, arrastada com as outras na queda da sociedade burguesa.
«Como podia eu tornar-me superior à força do dinheiro? O processo mais simples era afastar-me da esfera da sua influência, isto é, da civilização; ir para um campo comer raízes e beber água das nascentes; andar nu e viver como um animal. Mas isto, mesmo que não houvesse dificuldade em fazê-lo, não era combater uma ficção social; não era mesmo combater: era fugir. Realmente, quem se esquiva a travar um combate não é derrotado nele. Mas moralmente é derrotado, porque não se bateu. O processo tinha que ser outro – um processo de combate e não de fuga. Como subjugar o dinheiro, combatendo-o? Como furtar-me à sua influência e tirania, não evitando o seu encontro? O processo era só um – adquirido, adquiri-lo em quantidade bastante para lhe não sentir a influência; e em quanto mais quantidade o adquirisse, tanto mais livre eu estaria dessa influência. Foi quando vi isto claramente, com toda a força da minha convicção de anarquista, e toda a minha lógica de homem lúcido, que entrei na fase actual – a comercial e bancária, meu amigo – do meu anarquismo.
Descansou um momento da violência, novamente crescente, do seu entusiasmo pela sua exposição. Depois continuou, ainda com um certo calor, a sua narrativa.
– Ora você lembra-se daquelas duas dificuldades lógicas que eu lhe disse que me haviam surgido no princípio da minha carreira de anarquista consciente?... E você lembra-se de eu lhe dizer que naquela altura as resolvi artificialmente, pelo sentimento e não pela lógica? Isto é, você mesmo notou, e muito bem, que eu não as tinha resolvido pela lógica...
– Lembro-me, sim...
– E você lembra-se de eu lhe dizer que mais tarde, quando acertei por fim com o verdadeiro processo anarquista, as resolvi então de vez, isto é, pela lógica?
– Sim.
– Ora veja como ficaram resolvidas... As dificuldades eram estas: n
218 Fernando Pessoa

DEZ MINUTOS COM FERNANDO PESSOA


A calva socrática, os olhos de corvo de Edgar&Poe, e um bigode risível, chaplinesco – eis a traços tão fortes como precisos a máscara de Fernando Pessoa. Encontrámo-lo friorento e encharcado desta chuva cruel de Dezembro a uma mesa do Martinho&da&Arcada, última estampa romântica dos cafés do século XX. É ali que vivem agora os derradeiros abencerragens do Orpheu. A lira não se partiu. Ecoa ainda, mas menos bárbara, trazida da velha Grécia, no peito de uma sereia, até à foz romana do Tejo. Fernando Pessoa tem três almas, baptizadas na pia lustral da estética nova: Álvaro de Campos, o das Odes convulsivo de dinamismo, Ricardo Reis, o clássico, que trabalha maravilhosamente a prosa descobrindo, na cinza dos túmulos, tesouros de imagens, e Alberto Caeiro o superclássico, majestoso como um príncipe. Mas desta vez fala Fernando Pessoa – em «pessoa». O título da sua obra recente, Mensagem, está entre nós, como um hífen de amizade literária. Porquê o título?
O poeta desce a escada de Jacob, lentamente, coberto de neblinas e de signos misteriosos. A sua inteligência geometriza palavras, que vai rectificando empós. A sua confidência é quase soturna, trágica de inspiração íntima:
– Mensagem é um livro nacionalista, e, portanto, na tradição cristã representada primeiro pela busca do Santo&Graal, e depois pela esperança do Encoberto.
É difícil de entender, mas os poetas falam como as cavernas com boca de mistério. De resto, os versos são ouro de língua, fortes como tempestades.
– É um livro novo?
– Escrito em mim há muito tempo. Há poemas que são de 1914, quase do tempo do Orpheu.
– Mas estes são agora mais clássicos, digamos. Versos de almas tranquilas...
– Talvez. É que eu tenho várias maneiras de escrever – nunca uma.
– E como estabelece o contacto com o deserto branco do papel?
Pessoa, numa nuvem do ópio:
– Por impulso, por intuição, que depois altero. O autor dá lugar ao crítico, mas estes sabe o que aquele quis fazer...
– A sua Mensagem...
– Projectar no momento presente uma coisa que vem através de Portugal, desde os romances de cavalaria. Quis marcar o destino imperial de Portugal, esse império que perpassou através de D.&Sebastião, e que continua, «há-de ser».
Fernando Pessoa recolhe-se. Disse tudo. Sobe a escada de Jacob, e desaparece à nossa vista, num céu constelado de enigmas e de belas imagens. Ferreira Gomes, que está ao nosso lado, olha-nos com mistério. Que é do poeta?

A.P.


(entrevista ao Diário de Lisboa, dirigida por Artur Portela, no dia 14/02/1934)
221 Fernando Pessoa

Ele tirou da boca o charuto, que se apagara; reacendeu-o lentamente; fitou o fósforo que se extinguia; depô-lo ao de leve no cinzeiro; depois, erguendo a cabeça, um momento abaixada, disse:
– Oiça. Eu nasci do povo e na classe operária da cidade. De bom não herdei, como pode imaginar, nem a condição, nem as circunstâncias. Apenas me aconteceu ter uma inteligência naturalmente lúcida e uma vontade um tanto ou quanto forte. Mas esses eram dons naturais, que o meu baixo nascimento me não podia tirar.
«Fui operário, trabalhei, vivi uma vida apertada; fui, em resumo, o que a maioria da gente é naquele meio. Não digo que absolutamente passasse fome, mas andei lá perto. De resto, podia tê-la passado, que isso não alterava nada do que se seguiu, ou do que lhe vou expor, nem do que foi a minha vida, nem do que ela é agora.
«Fui um operário vulgar, em suma; como todos, trabalhava porque tinha que trabalhar, e trabalhava o menos possível. O que eu era, era inteligente. Sempre que podia, lia coisas, discutia coisas, e, como não era tolo, nasceu-me uma grande insatisfação e uma grande revolta contra o meu destino e contra as condições sociais que o faziam assim. Já lhe disse que, em boa verdade, o meu destino podia ter sido pior do que era; mas naquela altura parecia-me a mim que eu era um ente a quem a Sorte tinha feito todas as injustiças juntas, e que se tinha servido das convenções sociais para mas fazer. Isto era aí pelos meus vinte anos – vinte e um o máximo – que foi quando me tornei anarquista.
Parou um momento. Voltou-se um pouco mais para mim. Continuou, inclinando-se mais um pouco.
– Fui sempre mais ou menos lúcido. Senti-me revoltado. Quis perceber a minha revolta. Tornei-me anarquista consciente e convicto – o anarquista consciente e convicto que hoje sou.
– E a teoria que você tem hoje, é a mesma que tinha nessa altura?
– A mesma. A teoria anarquista, a verdadeira teoria, é só uma. Tenho a que sempre tive, desde que me tornei anarquista. Você já vai ver... Ia eu dizendo que, como era lúcido por natureza, me tornei anarquista consciente. Ora o que é um anarquista? É um revoltado contra a injustiça de nascermos desiguais socialmente – no fundo é só isto. E daí resulta, como é de ver, a revolta contra as convenções sociais que tornam essa desigualdade possível. O que lhe estou indicando agora é o caminho psicológico, isto é, como é que a gente se torna anarquista; já vamos à parte teórica do assunto. Por agora, compreenda você bem qual seria a revolta de um tipo inteligente nas minhas circunstâncias. O que é que ele vê pelo mundo? Um nasce filho de um milionário, protegido desde o berço contra aqueles infortúnios – e não são poucos – que o dinheiro pode evitar ou atenuar; outro nasce miserável, a ser, quando criança, uma boca a mais numa família onde as bocas são de sobra para o comer que pode haver. Um nasce conde ou marquês, e tem por isso a consideração de toda a gente, faça ele o que fizer; outro nasce assim como eu, e tem que andar direitinho como um prumo para ser ao menos tratado como gente. Uns nascem em tais condições que podem estudar, viajar, instruir-se – tornar-se (pode-se dizer) mais inteligentes que outros que naturalmente o são mais. E assim por aí adiante, e em tudo...
«As injustiças da Natureza, vá: não as podemos evitar. Agora as da sociedade e das suas convenções – essas, porque não evitá-las? Aceito – não tenho mesmo outro remédio – que um homem seja superior a mim por o que a Natureza lhe deu – o talento, a força, a energia; não aceito que ele seja meu superior por qualidades postiças, com que não saiu do ventre da mãe, mas que lhe aconteceram por bambúrrio logo que ele apareceu cá fora – a riqueza, a posição social, a vida facilitada, etc. Foi da revolta que lhe estou figurando por estas considerações que nasceu o meu anarquismo de então – o anarquismo que, já lhe disse, mantenho hoje sem alteração nenhuma.
Parou outra vez um momento, como a pensar como prosseguiria. Fumou e soprou o fumo lentamente, para o lado oposto ao meu. Voltou-se, e ia a prosseguir. Eu, porém, interrompi-o.
– Uma pergunta, por curiosidade... Porque é que você se tornou propriamente anarquista? Você podia ter-se tornado socialista, ou qualquer outra coisa avançada que não fosse tão longe. Tudo isto estava dentro da sua revolta... Deduzo do que você disse que por anarquismo você entende (e acho que está bem como definição do anarquismo) a revolta contra todas as convenções e fórmulas sociais e o desejo e esforço para a abolição de todas...
– Isso mesmo.
– Porque escolheu você esta fórmula extrema e não se decidiu por qualquer das outras... das intermédias?...
– Eu lhe digo. Eu meditei tudo isso. É claro que nos folhetos que eu lia via todas essas teorias. Escolhi a teoria anarquista – a teoria extrema como você muito bem diz – pelas razões que lhe vou dizer em duas palavras.
Fitou um momento coisa nenhuma. Depois voltou-se para mim.
– O mal verdadeiro, o único mal, são as convenções e as ficções sociais, que se sobrepõem às realidades naturais – tudo, desde família ao dinheiro, desde a religião ao estado. A gente nasce homem ou mulher – quero dizer, nasce para ser, em adulto, homem ou mulher; não nasce, em boa justiça natural, nem para ser marido, nem para ser rico ou pobre, como também não nasce para ser católico ou protestante, ou português ou inglês. É todas estas coisas em virtude das ficções sociais. Ora essas ficções sociais são más porquê? Porque são ficções, porque não são naturais. Tão mau é o dinheiro como o estado, a constituição da família como as religiões. Se houvesse outras, que não fossem estas, seriam igualmente más, porque também seriam ficções, porque também se sobreporiam e estorvariam as realidades naturais. Ora qualquer sistema que não seja o puro sistema anarquista, que quer a abolição de todas as ficções e de cada uma delas completamente, é uma ficção também. Empregar todo o nosso desejo, todo o nosso esforço, toda a nossa inteligência para implantar, ou contribuir para implantar, uma ficção social em vez de outra, é um absurdo, quando não seja mesmo um crime, porque é fazer uma perturbação social com o fim expresso de deixar tudo na mesma. Se acharmos injustas as ficções sociais, porque esmagam e oprimem o que é natural no homem, para que empregar o nosso esforço em substituir-lhes outras ficções, se o podemos empregar para as destruir a todas?
«Isto parece-me que é concludente. Mas suponhamos que não o é; suponhamos que nos objectam que isto estará muito certo, mas que o sistema anarquista não é realizável na prática. Vamos lá a examinar essa parte do problema.
«Porque é que o sistema anarquista não seria realizável? Nós partimos, todos os avançados, do princípio, não só de que o actual sistema é injusto, mas de que há vantagem, porque há justiça, em substitui-lo por outro mais justo. Se não pensamos assim, não somos avançados, mas burgueses. Ora de onde vem este critério de justiça? Do que é natural e verdadeiro, em oposição às ficções sociais e às mentiras da convenção. Ora o que é natural é o que é inteiramente natural, não o que é metade, ou um quarto, ou um oitavo de natural. Muito bem. Ora, de duas coisas, uma: ou o natural é realizável socialmente ou não é; em outras palavras, ou a sociedade pode ser natural, ou a sociedade é essencialmente ficção e não pode ser natural de maneira nenhuma. Se a sociedade pode ser natural, então pode haver a sociedade anarquista, ou livre, e deve haver, porque é ela a sociedade inteiramente natural. Se a sociedade não pode ser natural, se (por qualquer razão que não importa) tem por força que ser ficção, então do mal o menos; façamo-la, dentro dessa ficção inevitável, o mais natural possível, para que seja, por isso mesmo, o mais justa possível. Qual é a ficção mais natural? Nenhuma é natural em si, porque é ficção; a mais natural, neste nosso caso, será aquela que pareça mais natural, que s
226 Fernando Pessoa

uma pausa

(uma pausa)

A MESMA – Falar do passado – isso deve ser belo, porque é inútil e faz tanta pena...
SEGUNDA – Falemos, se quiserdes, de um passado que não tivéssemos tido.
TERCEIRA – Não. Talvez o tivéssemos tido...
PRIMEIRA – Não dizeis senão palavras. É tão triste falar! É um modo tão falso de nos esquecermos!... Se passeássemos?...
TERCEIRA – Onde?
PRIMEIRA – Aqui, de um lado para o outro. Às vezes isso vai buscar sonhos.
TERCEIRA – De quê?
PRIMEIRA – Não sei. Porque o havia eu de saber?

(uma pausa)

SEGUNDA – Todo este país é muito triste... Aquele onde eu vivi outrora era menos triste. Ao entardecer eu fiava, sentada à minha janela. A janela dava para o mar e às vezes havia uma ilha ao longe... Muitas vezes eu não fiava; olhava para o mar e esquecia-me de viver. Não sei se era feliz. Já não tornarei a ser aquilo que talvez eu nunca fosse...
PRIMEIRA – Fora de aqui, nunca vi o mar. Ali, daquela janela, que é a única de onde o mar se vê, vê-se tão pouco!... O mar de outras terras é belo?
SEGUNDA – Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca...

(uma pausa)

PRIMEIRA – Não dizíamos nós que íamos contar o nosso passado?
SEGUNDA – Não, não dizíamos.
TERCEIRA – Porque não haverá relógio neste quarto?
SEGUNDA – Não sei... Mas assim, sem o relógio, tudo é mais afastado e misterioso. A noite pertence mais a si própria... Quem sabe se nós poderíamos falar assim se soubéssemos a hora que é?
PRIMEIRA – Minha irmã, em mim tudo é triste: Passo Dezembros na alma... Estou procurando não olhar para a janela... Sei que de lá se vêem, ao longe, montes... Eu fui feliz para além de montes, outrora... Eu era pequenina. Colhia flores todo o dia e antes de adormecer pedia que não mas tirassem.. Não sei o que isto tem de irreparável que me dá vontade de chorar... Foi longe daqui que isto pôde ser... Quando virá o dia?
TERCEIRA – Que importa? Ele vem sempre da mesma maneira... sempre, sempre, sempre...

(uma pausa)

SEGUNDA – Contemos contos umas às outras... Eu não sei contos nenhuns, mas isso não faz mal... Só viver é que faz mal... Não rocemos pela vida nem a orla das nossas vestes... Não, não vos levanteis. Isso seria um gesto, e cada gesto interrompe um sonho... Neste momento eu não tinha sonho nenhum, mas é-me suave pensar que o podia estar tendo... Mas o passado – porque não falamos nós dele?
PRIMEIRA – Decidimos não o fazer... Breve raiará o dia e arrepender-nos-emos... Com a luz os sonhos adormecem... O passado não é senão um sonho... De resto, nem sei o que não é sonho... Se olho para o presente com muita atenção, parece-me que ele já passou... O que é qualquer coisa? Como é que ela passa? Como é por dentro o modo como ela passa?... Ah, falemos, minhas irmãs, falemos alto, falemos todas juntas... O silêncio começa a tomar corpo, começa a ser coisa... Sinto-o envolver-me como uma névoa... Ah, falai, Falai!...
SEGUNDA – Para quê?... Fito-vos a ambas e não vos vejo logo... Parece-me que entre nós se aumentaram abismos... Tenho que cansar a ideia de que vos posso ver para poder chegar a ver-vos... Este ar quente é frio por dentro, naquela parte que toca na alma... Eu devia agora sentir mãos impossíveis passarem-me pelos cabelos – é o gesto com que falam das sereias... (Cruza as mãos sobre os joelhos. Pausa.) Ainda há pouco, quando eu não pensava em nada, estava pensando no meu passado.
PRIMEIRA – Eu também devia ter estado a pensar no meu...
TERCEIRA – Eu já não sabia em que pensava... No passado dos outros talvez..., no passado de gente maravilhosa que nunca existiu... Ao pé da casa de minha mãe corria um riacho... Porque é que correria, e porque é que não correria mais longe, ou mais perto?... Há alguma razão para qualquer coisa ser o que é? Há para isso qualquer razão verdadeira e real como as minhas mãos?...
SEGUNDA – As mãos não são verdadeiras nem reais... São mistérios que habitam na nossa vida... às vezes, quando fito as minhas mãos, tenho medo de Deus... Não há vento que mova as chamas das velas, e olhai, elas movem-se... Para onde se inclinam elas?... Que pena se alguém pudesse responder!... Sinto-me desejosa de ouvir músicas bárbaras que devem agora estar tocando em palácios de outros continentes... É sempre longe na minha alma... Talvez porque, quando criança, corri atrás das ondas à beira-mar. Levei a vida pela mão entre rochedos, maré-baixa, quando o mar parece ter cruzado as mãos sobre o peito e ter adormecido como uma estátua de anjo para que nunca mais ninguém olhasse...
TERCEIRA – As vossas frases lembram-me a minha alma...
SEGUNDA – É talvez por não serem verdadeiras... Mal sei que as digo... Repito-as seguindo uma voz que não ouço que mas está segredando... Mas eu devo ter vivido realmente à beira-mar... Sempre que uma coisa ondeia, eu amo-a... Há ondas na minha alma... Quando ando embalo-me... Agora eu gostaria de andar... Não o faço porque não vale nunca a pena fazer nada, sobretudo o que se quer fazer... Dos montes é que eu tenho medo... É impossível que eles sejam tão parados e grandes... Devem ter um segredo de pedra que se recusam a saber que têm... Se desta janela, debruçando-me, eu pudesse deixar de ver montes, debruçar-se-ia um momento da minha alma alguém em quem eu me sentisse feliz...
PRIMEIRA – Por mim, amo os montes... Do lado de cá de todos os montes é que a vida é sempre feia... Do lado de lá, onde mora minha mãe, costumávamos sentarmo-nos à sombra dos tamarindos e falar de ir ver outras terras... Tudo ali era longo e feliz como o canto de duas aves, uma de cada lado do caminho... A floresta não tinha outras clareiras senão os nossos pensamentos... E os nossos sonhos eram de que as árvores projectassem no chão outra calma que não as suas sombras... Foi decerto assim que ali vivemos, eu e não sei se mais alguém... Dizei-me que isto foi verdade para que eu não tenha de chorar...
SEGUNDA – Eu vivi entre rochedos e espreitava o mar... A orla da minha saia era fresca e salgada batendo nas minhas pernas nuas... Eu era pequena e bárbara... Hoje tenho medo de ter sido... O presente parece-me que durmo... Falai-me das fadas. Nunca ouvi falar delas a ninguém... O mar era grande demais para fazer pensar nelas... Na vida aquece ser pequeno... Éreis feliz, minha irmã?
PRIMEIRA – Começo neste momento a tê-lo sido outrora... De resto, tudo aquilo se passou na sombra... As árvores viveram-no mais do que eu... Nunca chegou nem eu mal esperava... E vós, irmã, porque não falais?
TERCEIRA – Tenho horror a de aqui a pouco vos ter já dito o que vos vou dizer. As minhas palavras presentes, mal eu as digo, pertencerão logo ao passado, ficarão fora de mim, não sei onde, rígidas e fatais... Falo, e penso nisto na minha garganta, e as minhas palavras parecem-me gente... Tenho um medo maior do que eu. Sinto na minha mão, não sei como, a chave de uma porta desconhecida. E toda eu sou um amuleto ou um sacrário que estivesse com consciência de si próprio. É por isto que me apavora ir, como por uma floresta escura, através do mistério de falar... E, afinal, quem sabe se eu sou assim e se é isto sem dúvida que sinto?...
PRIMEIRA – Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!... Mesmo viver sabe a custar tanto quando se dá por isso... Falai, portanto, sem reparardes que existis... Não nos íeis dizer quem éreis?
TERCEIRA – O que eu era outrora já não se lembra de quem sou... Pobre da feliz que eu fui!... Eu vivi entre as sombras dos ramos, e tudo na minha alma é folhas que estremecem. Quando ando ao sol a minha sombra é fresca. Passei a fuga dos meus dias ao lado de fontes, onde eu molhava, quando sonhava de viver, as pontas tranquilas dos meus dedos... Às vezes, à beira dos lagos, debruçava-me e fitava-me... Quando eu sorria, os meus dent
230 Fernando Pessoa

COISAS ESTILÍSTICAS QUE ACONTECERAM A UM GOMIL,
CINZELADO, QUE SE DIZIA TER SIDO BATIDO NO CÉU,
EM TEMPOS DA VELHA FÁBULA, POR UM DEUS AMOROSO


Pegue-se num corno, chame-se-lhe prosa, e ter-se-á o estilo do sr. Manuel de Sousa Pinto.
E, contudo, é um homem inteligente este crítico de alguma arte. Não é, é certo, um homem de talento, por mais que no caso o sr. João&de&Barros tenha um sim de ida-e-volta. Mas não nos leve esta crítica de anzol a reagir excessivamente. É um homem inteligente o sr. Sousa Pinto. A espécie de inteligentes a que pertence é a dos críticos, e o género de críticos em que entra é o dos críticos de segunda ordem.
É um género entre vulgar e raro. Conhece-se facilmente. Crítico de segunda ordem alia à capacidade de apreciação a incapacidade de compreensão e de análise. É mais ou menos razoavelmente seguro na crítica a coisas que não envolvem reforma ou novidade. E, em matéria de pôr opiniões por escrito, dispõe de um estilo que, quando normal, é simples, vivo e interessante; mas ideias e forma, só as tem adaptadas a uma espécie quase sub-literária – a crónica.
Daqui se conclui que o crítico de segunda ordem é um bom crítico que é um mau crítico. Há três ordens de maus críticos: estes, os de segunda ordem, porque não são de primeira; os sectários (como Brunetière), porque são sectários; e os que não são críticos porque não são críticos (como grande número de poetas e artistas, e mesmo de pensadores por outros caminhos). Destas três espécies de hereges da apreciação, os últimos nunca devem cair em dar parecer, e os primeiros e os segundos devem escrever o velho «conhece-te» em letras muito grandes, num papel muito branco que terão sempre colado na parede, defronte da sua mesa de trabalho.
Há três coisas que o crítico de segunda ordem nunca deve cair em fazer: em ter opinião própria, em criticar as obras que tenham novidade ou complexidade, e em produzir arte. Não deve querer ter opinião própria porque opinião própria, na crítica, envolve o pré-estabelecimento raciocinado ou meditado de princípios ou teorias próprias; e um crítico de segunda ordem tem, por natureza, tanto poder de teorizar como uma tainha ou um caracol. Não deve criticar novidades e complexidades porque não tem individualidade bastante para se despegar naturalmente do usual e do simples, nem inteligência que baste para se arrancar a ele à força. No primeiro destes erros tem o sr. Pinto caído um pouco, no segundo mais alguma coisa do que um pouco. Mas o que nos importa é que, levado pelo que deve ser vaidade, pelo seu imperfeito senso crítico, e sem dúvida também por elogios que vária gente inferior lhe tem videiramente e até sinceramente feito, o sr. Sousa Pinto se meteu, intelectualmente, no leito de Procrustes de romancear, donde saiu sem pés nem cabeça. Porque, francamente, esta léria do Gomil dos Noivados é impossível de gramar. Uma pieguice córnea, um amadorismo em espiral, uma artificialidade vesga (porque o sr. Sousa Pinto não é um artificial; quer sê-lo), um cubismo de modos-de-querer-dizer, no manejo de um assunto que pedia o mais simples e directo dos estilos – o Gomil dos Noivados é tudo isto – tudo isto intersticiado, como nestes casos é fatal, de quedas esticantes na banalidade de expressão, na banalidade de noticiário e de carnet mondain, no nível do «gentilíssima» e do «elegantíssima». Recorra-se à citação.

Por mais que diligenciasse afugentá-la, mais se fortalecia no ânimo sobressaltado do príncipe a convicção terrível daquela glacial indiferença indespertável, como mais apavorante se antolhava à princesa, de si mesmo desgostada, a incompatibilidade daquela desigualíssima intimidade (pág. 71).

Este estilo é a caricatura de si-próprio. Aquele «ânimo sobressaltado», que é de costureira, aquela «convicção terrível daquela glacial indiferença indespertável», que é de repórter doido, aquilo da «desigualíssima intimidade», que é de discurso de conselheiro – dá nisto um homem inteligente, e que é, creio e lamento, estudioso e trabalhador.
Deixe-se disso, Sousa Pinto. Torne à crónica, homem; escreva como deve e pode e deixe os romances aos romancistas. Mande ao diabo os Joões de Barros e Joaquins Mansos e todo o resto da «coterie» de-entre-porta-e-porta da Livraria Ferreira.
Isto é amável e sincero. Não é o «Torna-te às terras que batatas criam» de Castilho, nem o «Go back to the shop, Mr. John!» da Quartely Revew a Keats. É a tradução para explicado e extenso do comentário «arre!» que pus a lápis na última página do seu livro, entre a palavra FIM e o bendito desaparecer para sempre do seu estuporadíssimo gomil. Quem lhe mandou tocar rabecão? O sr. não sabe música...

Fernando Pessoa


(publicado em Teatro – Revista de Crítica, nº 2, de 8 de Março de 1913)
232 Fernando Pessoa

RÉPLICA AO DR ADOLFO COELHO

RÉPLICA AO DR. ADOLFO COELHO


Meu caro amigo – O convite geral feito na sua secção de inquérito literário, e aquele com que verbalmente honrou a obscuridade ou a juventude do meu nome, foram, como sabe, de princípio aceites por mim para, no seu jornal, levantar a luva que inquiridos vários arremessaram à Renascença&Portuguesa. Lançado, porém, que por mim fui no caminho da contra-argumentação, breve verifiquei que, tendo por dever meu responder a tudo quanto no seu inquérito se dissesse contra a Renascença Portuguesa, as dimensões escritas da resposta excederiam, e de muito, as dimensões de um artigo de jornal; ao passo que a nulidade do meu nome, por mais que o meu raciocínio lhe fosse capa para o público, impedia-me de, sequer, pensar em pedir-lhe a inserção de artigos sobre artigos, discutindo, ponto por ponto, a como que argumentação dos adversários da nossa novíssima poesia. Resolvi, por isso, guardar para folheto a resposta extensa e completa a quantos simulacros de objecções várias competências nominais houvessem deixado cair nas suas colunas. Preparo esse folheto, que a Renascença Portuguesa editará.
Nessa atitude me conservaria, se o Prof. Adolfo&Coelho não tivesse feito incidir uma parte do seu depoimento sobre um artigo meu, publicado na A&Águia, e que visa precisamente a explicar, na sua significação sociológica, a nossa novíssima poesia; chamado assim, como que por meu nome, à baila jornalística, sinto-me com o direito e o dever de abrir uma clareira na minha renúncia à publicidade maior e a valer-me, na extensão de um artigo, do seu amável convite.
Os argumentos que empregarei contra as objecções do Prof. Adolfo Coelho servir-me-ão, ao mesmo tempo e de sumário modo, de resposta geral a outras adversas referências feitas à Renascença Portuguesa e à nossa nova poesia; porquanto, explicativos como são daquelas, implícita resposta levam a todos os seus inimigos. Isto não exclui – bom é que se note – a mais detalhada resposta no folheto. Apenas a prepara e imperfeitamente a resume.
Por ora, pois, responderei apenas às vagas objecções feitas contra o carácter renovador e grande da nossa novíssima poesia pelo Prof. Adolfo Coelho no seu quase erudito artigo. Esse artigo é sereno e aparentemente lúcido e motivado; infelizmente, quem se der ao trabalho de lhe procurar o fio condutor de uma lógica, encontra-lhe uma íntima desconexão, desmentindo a sua fisionomia de ligado e conexo.
Seja como for, perscrutemos em que se baseia o Prof. Adolfo Coelho para descrer de uma renascença literária em Portugal e de ser a nossa poesia novíssima representativa dessa renascença. Cinge-se a duas considerações, que era indispensável que estivessem submersas em elementos acidentais e anedóticos. Essas duas objecções, que não pecam por explícitas nem por argumentadas se perdem, são: 1º – que a nossa nova poesia não mostra avanço, especialmente no que diz respeito à grandeza individual dos seus representantes, sobre a poesia da geração de 1860 a 1870; 2º – que não mostra avanço espiritual – isto é, em compreensão da Natureza, expressão de emoções, etc., – sobre qualquer outra corrente poética – a romântica, suponha-se, consoante exemplos indicados de Byron e Vítor&Hugo. Concretizando mais: para o Prof. Adolfo Coelho a nossa novíssima poesia nem pela grandeza dos seus poetas, nem pela originalidade e grandeza do seu carácter geral se impõe como poesia característica de uma renascença; ou mesmo de um grande período poético. Isto é o essencial e o basilar do artigo; o resto ou provém disto ou não tem nada que ver com o caso.
As duas considerações citadas reduzem-se, para o contra-argumentador, a uma só. É que a grandeza dos poetas de uma corrente literária está sempre em relação com a originalidade, o equilíbrio e a nacionalidade (isto é, o carácter nacional) dessa corrente. Não se pode apontar em toda a história literária movimento que tenha surgido com carácter de originalidade, equilíbrio e nacionalidade que não tenha sido representado por, revelado através de grandes figuras de poeta, e grandes na precisa proporção em que essa corrente é nacional, original e equilibrada.
Assim, as duas poesias que mais se nos oferecem como brotando inesperadas e originais do seio dos seus povos, são a poesia grega e a poesia da Renascença – preeminentemente, a da renascença inglesa. A primeira surge como que virgemente, anadiomenicamente, do oceano escuro do tempo; liga-se por episódios e elementos míticos à anterior poesia da Índia, mas a sua essência, a sua alma, a sua assombrosa alma lúcida e profunda, é-lhe original e própria. De modo igualmente flagrante rompe da noite da idade chamada média a poesia que, começando em Dante, culmina em Shakespeare e acaba em Milton.
Todas as outras épocas literárias são inferiores a estas duas em originalidade. Todas descendem muito mais evidentemente do passado do que estas.
O próprio Romantismo não destaca da Renascença ou mesmo do século XVIII como a Renascença surge da idade média e a poesia grega do que lhe é anterior. Isto é incontestável.
Ora é precisamente nos dois períodos verificados como os maiores da literatura em matéria de originalidade que aparecem as maiores obras individuais, as maiores figuras individuais de poetas. Porque é fora de dúvida, para quem tenha mais do que um vácuo de compreensão, que as alturas máximas da poesia estão na Ilíada e em Shakespeare, e, logo abaixo, nos dramaturgos gregos e nos dois épicos supremos da Renascença: Dante e Milton. De modo que a questão se reduz simplesmente a procurar o grau de originalidade, equilíbrio e nacionalidade no actual período poético português; se essas forem constatadas grandes, inevitavelmente se terá de conclui ou que os novíssimos poetas nossos são grandes poetas, ou, caso seja impossível considerá-los como tais, que brevemente surgirão grandes poetas ou, pelo menos, um grande poeta da nossa nova poesia.
Mas a questão pode ser posta à prova mais restritamente analizando. Em primeiro lugar, escusamos de perscrutar a nacionalidade de uma poesia; se se prova a sua plena e equilibrada originalidade, fica ipso facto, provado o seu carácter de absolutamente nacional. Porque se a poesia de uma nação é em certo período em absoluto original, donde lhe poderá vir essa originalidade, esse poder de ser diversa e outra do que todas as outras poesias, se não de ser a genuína e suprema interpretação do que esse país tem de essencialmente diverso e outro do que outros países – e isso é ser tal país e não outro, é a raça. Fica, portanto, restrita a nossa investigação a constatar a existência ou não-existência, na nossa nova poesia, de originalidade e equilíbrio.
Mas mesmo isto é escusado. O caso é saber constatar originalidade: pois que perfeita e verdadeira originalidade não existe sem equilíbrio perfeito. Vejamos porquê. Primeiro, em que consiste o equilíbrio de um psiquismo qualquer, individual ou colectivo? Essencialmente no grau da sua atenção ao mundo exterior; e quanto mais ele é atento ao mundo exterior, tanto maior seu equilíbrio é. E em que consiste a originalidade? Em ter ideias inteiramente próprias e individuais; e «inteiramente individuais e próprias» quer dizer inteiramente subjectivas. Como, porém, o espírito elabora impressões vindas do exterior, a originalidade será tanto maior quanto maior for o número de impressões do exterior que o espírito é capaz de acolher e elaborar para a originalidade; isto é, quanto maior for a sua atenção ao mundo exterior; quer dizer, pois, quanto maior for o seu equilíbrio. Portanto, originalidade verdadeira e perfeita envolve equilíbrio, nunca é senão originalidade equilibrada.
Mas como é que se pode medir a originalidade de uma corrente literária? Em que é que consiste, propriamente, essa originalidade? Vejamos primeiro o que é uma corrente literária. É manifestamente uma comunidade de ideias ou instituições, característica de poetas e literatos d
242 Fernando Pessoa

RÉPLICA AO DR ADOLFO COELHO (continuação)

RÉPLICA AO DR. ADOLFO COELHO (continuação)


Aqui temos o acto material, que é a queda de uma folha, concebido como acto espiritual; e repare o professor Adolfo Coelho que Pascoaes não compara a queda da folha à ascensão da alma – a queda da folha é, materialmente, a subida da alma.
Comparando estes maravilhosos trechos a trechos de Byron e de Vítor&Hugo, mostrou o professor Adolfo Coelho que não sabe olhar para além das palavras, e da mera gramática das frases.
Eu bem sei que o professor Adolfo Coelho não pode sentir a nossa nova poesia; ouso esperar que possa compreendê-la de longe, através do meu raciocínio.
Que provámos, pois?
Que a nossa nova poesia é a poesia auroral de uma Nova Renascença, que é uma poesia perfeita e plenamente original. Mas, como acima vimos, se é perfeitamente original, é equilibrada: erram, portanto, os que a consideram doentia e confusa, lançando sobre ela a sombra da sua própria incompreensão. – Se é original e equilibrada resulta, como acima provámos, que é inteiramente nacional: erram, portanto, quantos falam em estrangeirismo a propósito dela. – Se é original, equilibrada e nacional produz ou produzirá, como acima o mostrámos, grandes e máximas figuras de poeta: erra, portanto, o professor Adolfo Coelho, primeiro, quando acha inferiores os nossos novíssimos poetas, e depois quando considera messianismo a ideia de um super-Camões, isto é, de um poeta máximo, inevitavelmente maior do que aquele poeta verdadeiramente grande, mas longe de ser um Dante ou um Shakespeare.
São estas, meu caro amigo, as considerações que julgo indispensáveis como resposta ao professor Adolfo Coelho. Servem ao mesmo tempo, como viu, para responder a outros adversários da Renascença Portuguesa.
Repliquei com perfeita serenidade, 1º porque o professor Adolfo Coelho com isenção de dureza escreveu, e 2º porque de outro modo não poderia escrever em atenção à sua pessoa e ao seu jornal. Para o folheto que preparo reservo o tratar no tom que julgar merecido alguns indivíduos pouco inteligentes ou menos correctos, que têm deposto no seu inquérito.
Desculpe-me o espaço que lhe tomei e disponha sempre do seu amigo e admirador,

Fernando Pessoa.


(publicado em República, Lisboa, 21/09/1912)
243 Fernando Pessoa

NÓS OS DE ORPHEU

NÓS OS DE "ORPHEU"


Anunciou Almada, no segundo número de SW, que neste terceiro se inseriria colaboração dos que foram de Orpheu. Cumpre-se.
Procurámos coordenar, Almada e eu, produções inéditas de quantos figuram literariamente na revista extinta e inextinguível a que ambos pertencemos. Excluídos, por motivo de estreiteza de tempo e largueza de distância, os dois colaboradores brasileiros – Ronald&de&Carvalho e Eduardo Guimarães – conseguimos que estivessem presentes todos os outros, com duas excepções, uma delas atenuada com o sacrifício do ineditismo.
De Ângelo&de&Lima, como nada descobríssemos de inédito, decidimos publicar aquele extraordinário soneto – dos maiores da língua portuguesa – em que o poeta descreve a sua entrada na loucura, em que longos anos viveu e em que morreu. O soneto, se não é inédito, está contudo esquecido. Publicando-o, não deixamos de, saudosamente, fazer lembrar quem, não sendo nosso, todavia se tornou nosso.
Nada porém foi possível incluir de Côrtes-Rodrigues, que é directamente de Orpheu, e os poemas de cuja personalidade inventada, Violante&de&Cysneiros, são uma maravilha subtil de criação dramática. Neste caso a dificuldade foi, como no dos brasileiros, geográfica: estas produções foram coordenadas à pressa, Côrtes-Rodrigues vive nos Açores. Aqui lhe deixamos, num abraço, a expressão da nossa camaradagem de sempre; e o perpetrador destas linhas, velho amigo seu, acrescenta a ela o desejo de que Côrtes-Rodrigues se não embrenhe demasiado, como de há tempos se vai embrenhando, no catolicismo campestre, pelo qual facilmente se aumenta o número de vítimas literárias da pieguice fruste e asiática de S.&Francisco&de&Assis, um dos mais venenosos e traiçoeiros inimigos da mentalidade ocidental.
Quanto ao mais, nada mais. Cá estamos sempre.
Orpheu acabou. Orpheu continua.


(em Sudoeste, revista dirigida por José de Almada Negreiros, nº 3, Lisboa, Novembro de 1935)
246 Fernando Pessoa

ASSOCIAÇÕES SECRETAS [4(CONTINUAÇÃO)


Aqui há anos, pouco depois da guerra, o Governo Húngaro decretou a supressão da Maçonaria no seu território. Pouco depois negociava um empréstimo nos Estados Unidos. Estava o empréstimo praticamente feito quando veio da América a indicação final de que ele não seria concedido se não se restabelecessem «certas instituições legítimas». O Governo Húngaro percebeu e viu-se obrigado a entrar em transacções com o Grão-Mestre; disse-lhe que autorizava a reabertura das Lojas com a condição (que parece do Sr. José Cabral) de que nelas pudessem assistir profanos. É escusado dizer que o Grão-Mestre recusou. O Governo manteve portanto a «suspensão» das Lojas... e o empréstimo não se fez. Ora isto sucedeu com a Maçonaria Americana, que não faz propriamente política nem mantém relações muito intensas com as Obediências europeias, à excepção das britânicas. Tratava-se, porém, de uma grave injúria à Maçonaria, e o resultado foi o que se vê.
Não venha o Sr. José Cabral dizer-me que não precisamos de empréstimos do estrangeiro. Nem só de empréstimos vive o país. Precisa, por exemplo, de colónias, sobretudo das que ainda tem. E precisa de muitas outras coisas, incluindo o não incorrer na hostilidade activa dos cinco e tal milhões de maçons que, por apolíticos, ainda nos não têm hostilizado.
Creio que disse o suficiente para que o sr. José Cabral e os outros srs. deputados compreendam perfeitamente qual pode e deve ser o alcance da aprovação deste projecto na vida e no crédito de Portugal. Antes de acabar, porém, quero dar-lhes uma pequena amostra da espécie de gente em cuja antipatia activa incorreríamos.
Tomarei para exemplo a Grande Loja Unida de Inglaterra, não só pela importância que para nós têm as nossas relações com aquele país, mas também porque qualquer acção dessa Grande Loja – a Loja-Mãe do Universo, com cerca de 450 000 maçons em actividade – arrasta consigo todos os maçons de fala inglesa e todas as Obediências dos países protestantes. Do resto da Maçonaria não é preciso falar.
São maçons, sob a obediência da Grande Loja de Inglaterra, três filhos do Rei – o Príncipe de Gales, Grão-Mestre Provincial de Surrey, o Duque de York, Grão-Mestre Provincial de Middlesex, e o Duque de Kent, antigo Primeiro Grande Vigilante. É mação o genro do rei, Conde de Harwood, Grão-Mestre Provincial de West Yorkshire. São maçons o tio do rei, duque de Connaught, Grão-Mestre da Maçonaria Inglesa, e seu filho, o príncipe Artur de Connaught, Grão-Mestre Provincial de Berkshire. São maçons, em sua maioria, os fidalgos ingleses, sobretudo os de antiga linhagem. São maçons, em grande número, os prelados e sacerdotes da Igreja de Inglaterra, o clero mais profundamente culto de todo o mundo, a Igreja protestante que mais perto está, em dogma e ritual, da Igreja de Roma. Não prossigo, porque já basta... Lembro todavia que os três grandes jornais conservadores ingleses – o Times, o Sunday Times e o Daily Telegrafh – são ao mesmo tempo maçónicos...
Acabei. Convém, porém, não acabar ainda. Provei neste artigo que o projecto de lei do sr. José Cabral, além do produto da mais completa ignorância do assunto, seria, se fosse aprovado: primeiro, inútil e improfícuo; segundo, injusto e cruel; terceiro, um malefício para o país na sua vida internacional. Não considerei, porque não tinha que considerar, se a Maçonaria merece o mau conceito em que evidentemente a tem o Sr. José Cabral e outros que nada sabem da matéria. Esse ponto estava fora da linha do meu argumento. Como, porém, a maioria da gente não sabe raciocinar, pode alguém supor que me esquivei a esse ponto. Vou por isso tratar dele embora protestando contra mim mesmo. Quem sofre com isso é o leitor.
A Maçonaria compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o elemento fraternal; e o elemento a que chamarei humano – isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura, e o que resulta de ela existir em muitos países, sujeita portanto a diversas circunstâncias de meio e de momento histórico, perante as quais, de país para país e de época para época, reage, quanto a atitude social, diferentemente.
Nos primeiros dois elementos, onde reside essencialmente o espírito maçónico, a Ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No terceiro, a Maçonaria – como aliás qualquer instituição humana, secreta ou não – apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade de maçons individuais, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa.
Neste terceiro ponto de vista, toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só ideia – a tolerância; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Por isso a Maçonaria não tem uma doutrina. Tudo quanto se chama «doutrina maçónica» são opiniões individuais de maçons, quer sobre a Ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano. São divertidíssimas: vão desde o panteísmo naturalista de Oswald Wirth até ao misticismo cristão de Arthur Edward Waite, ambos eles tentando converter em doutrina o espírito da Ordem. As suas afirmações, porém, são simplesmente suas; a Maçonaria nada tem com elas. Ora o primeiro erro dos anti-maçons consiste em tentar definir o espírito maçónico em geral pelas afirmações de maçons particulares, escolhidas ordinariamente com grande má fé.
O segundo erro dos anti-maçons consiste em não querer ver que a Maçonaria, unida espiritualmente, está materialmente dividida, como já expliquei. A sua acção social varia de país para país, de momento histórico para momento histórico, em função das circunstâncias do meio e da época, que afectam a Maçonaria como afectam toda a gente. A sua acção social varia, dentro do mesmo país, de Obediência para Obediência, onde houver mais que uma, em virtude de divergências doutrinárias – as que provocaram a formação dessas Obediências distintas, pois, a haver entre elas acordo em tudo, estariam unidas. Segue de aqui que nenhum acto político ocasional de nenhuma Obediência pode ser levado à conta da Maçonaria em geral, ou até dessa Obediência particular, pois pode provir, como em geral provém, de circunstâncias políticas de momento, que a Maçonaria não criou.
Resulta de tudo isto que todas as campanhas anti-maçónicas – baseadas nesta dupla confusão do particular com o geral e do ocasional com o permanente – estão absolutamente erradas, e que nada até hoje se provou em desabono da Maçonaria. Por esse critério – o de avaliar uma instituição pelos seus actos ocasionais porventura infelizes, ou um homem por seus lapsos ou erros ocasionais – que haveria neste mundo senão abominação? Quer o Sr. José Cabral que se avaliem os papas por Rodrigo&Bórgia, assassino e incestuoso? Quer que se considere a Igreja de Roma perfeitamente definida em seu íntimo espírito pelas torturas dos Inquisidores (provenientes de um uso profano do tempo) ou pelos massacres dos albigenses e dos piemonteses? E contudo com muito mais razão se o poderia fazer, pois essas crueldades foram feitas com ordem ou com consentimento dos papas, obrigando assim, espiritualmente, a Igreja inteira.
Sejamos, ao menos, justos. Se debitamos à Maçonaria em geral todos aqueles casos particulares, ponhamos-lhe a crédito, em contrapartida, os benefícios que dela temos recebido em iguais condições. Beijem-lhe os jesuítas as mãos, por lhes ter sido dado acolhimento e liberdade na Prússia, no século dezoito – quando expulsos de toda a parte, os repudiava o próprio Papa – pelo mação Frederico&II. Agradeçamos-lhe a vitória de Waterloo, pois que Wellington e Blucher eram ambos maçons. Sejamos-lhe gratos por ter sido ela quem criou a base onde veio a assentar a futura vitória dos Aliados – a Entente Cordiale, obra do mação Eduardo VII. Nem esqueçamos, finalmente, que devemos à Maçonaria a maior obra da literatura moderna – o Fausto, do maçã
247 Fernando Pessoa

PASSOS DA CRUZ

PASSOS&DA&CRUZ

I

Esqueço-me das horas transviadas...
O Outono mora mágoas nos outeiros
E põe um roxo vago nos ribeiros...
Hóstia de assombro a alma, e toda estradas...

Aconteceu-me esta paisagem, fadas
De sepulcros a orgíaco... Trigueiros
Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...

No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés

No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do Outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...


II

Há um poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe dos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice...

Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos
Olhando a hora como quem sorrisse...

Florir o dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...

Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...


III

Adagas cujas jóias velhas galas...
Opalesci amar-me entre mãos raras,
E, fluido a febres entre um lembrar de aras,
O convés sem ninguém cheio de malas...

O íntimo silêncio das opalas
Conduz orientes até jóias caras,
E o meu anseio vai nas rotas claras
De um grande sonho cheio de ócio e salas.

Passa o cortejo imperial, e ao longe
O povo só pelo cessar das lanças
Sabe que passa o seu tirano, e estruge

Sua ovação, e erguem as crianças...
Mas no teclado as tuas mãos pararam
E indefinidamente repousaram...


IV

Ó tocador de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!,
E, beijando-o, descesse plos desvãos
Do sonho, até que enfim eu o encontrasse

Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra – reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...

Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O gesto completo, lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...

Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto.


V

Ténue, roçando sedas pelas horas,
Teu vulto ciciante passa e esquece,
E dia a dia adias para prece
O rito cujo ritmo só decoras...

Um mar longínquo e próximo humedece
Teus lábios onde, mais que em ti, descoras...
E, alada, leve, sobre a dor que choras,
Sem qu'rer saber de ti a tarde desce...

Erra no anteluar a voz dos tanques...
Na quinta imensa gorgolejam águas,
Na treva vaga ao meu ter dor estanques...

Meu império é das horas desiguais,
E dei meu gesto lasso às algas mágoas
Que há para além de sermos outonais...


VI

Venho de longe e trago no perfil,
Em forma nevoenta e afastada,
O perfil de outro ser que desagrada
Ao meu actual recorte humano e vil.

Outrora fui talvez, não Boabdil,
Mas o seu mero último olhar, da estrada
Dado ao deixado vulto de Granada,
Recorte frio sob o unido anil...

Hoje sou a saudade imperial
Do que já na distância de mim vi...
Eu próprio sou aquilo que perdi...

E nesta estrada para Desigual
Florem em esguia glória marginal
Os girassóis do império que morri...


VII

Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma coisa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu doirado assomo...

Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloríola com ter
A árvore do meu uso o único pomo...

Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas...


VIII

Ignorado ficasse o meu destino
Entre pálios (e a ponte sempre à vista),
E anel concluso a chispas de ametista
A frase falha do meu póstumo hino...

Florescesse em meu glabro desatino
O himeneu das escadas da conquista
Cuja preguiça, arrecadada, dista
Almas do meu impulso cristalino...

Meus ócios ricos assim fossem, vilas
Pelo campo romano, e a toga traça
No meu soslaio anónimas (desgraça

A vida) curvas sob mãos intranquilas...
E tudo sem Cleópatra teria
Findado perto de onde raia o dia...


IX

Meu coração é um pórtico partido
Dando excessivamente sobre o mar.
Vejo em minha alma as velas vãs passar
E cada vela passa num sentido.

Um soslaio de sombras e ruído
Na transparente solidão do ar
Evoca estrelas sobre a noite estar
Em afastados céus o pórtico ido...

E em palmares de Antilhas entrevistas
Através de, com mãos eis apartados
Os sonhos, cortinados de ametistas,

Imperfeito o sabor de compensando
O grande espaço entre os troféus alçados
Ao centro do triunfo em ruído e bando...


X

Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos

De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...

Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.

Narrei-me à sombra e não me achei sentido.
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...


XI

Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.

Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?

Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-se...

E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...


XII

Ela ia, tranquila pastorinha,
Pela estrada da minha imperfeição.
Seguia-a, como um gesto de perdão,
O seu rebanho, a saudade minha...

«Em longes terras hás-de ser rainha»
Um dia lhe disseram, mas em vão...
Seu vulto perde-se na escuridão...
Só sua sombra ante meus pés caminha...

Deus te dê lírios em vez desta hora,
E em terras longe do que eu hoje sinto
Serás, rainha não, mas só pastora –

Só sempre a mesma pastorinha a ir,
E eu serei teu regresso, esse indistinto
Abismo entre o meu sonho e o meu porvir...


XIII

Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm,
Soam-me a um outro e anómalo sentido...

Inconscientemente me divido
248 Fernando Pessoa

PREFÁCIO À ANTOLOGIA DE POEMAS PORTUGUESAS MODERNOS


Esta selecta, ou antologia, de poemas portugueses modernos deve ser entendida como a escolha daqueles que nos pareceram não só os melhores, senão também os mais representativos, entre os que foram escritos em certo período – em o período literário português a que conviemos connosco em chamar moderno.
O termo «moderno» nada significa em si mesmo. É moderna toda a civilização europeia em relação com o mundo greco-romano. É moderno tudo desde o Romantismo em relação com tudo entre ele e a Idade Média, e com a mesma Idade Média. É moderno o que veio depois da Guerra Alemã em relação com o que imediatamente a precedeu. No caso presente, entendemos por poemas portugueses modernos os dos poetas portugueses que têm data literária desde a Escola de Coimbra, e incluindo essa Escola.
O tempo repugna as divisões, que a sua continuidade não conhece, como a terra as fronteiras, que não são linhas nela. Mas a história e a lógica, ambas produtos literários, têm que estabelecer fronteiras, em homenagem à literatura. Estabelecemos a nossa, para os poemas portugueses modernos, na eclosão da Escola de Coimbra. Fizemo-lo (pois no mesmo absurdo há que haver razões) porque esta Escola foi o renascimento da poesia portuguesa adentro da poesia portuguesa.
Entre o fim da nossa poesia medieval, que era nossa, e o princípio da Escola de Coimbra, em que de novo fomos nossos em verso, a poesia portuguesa decorreu súbdita de influências estranhas. Portugal poético, como nação independente, adormeceu com Gil&Vicente e metade de Camões, e despertou só com Antero. O intervalo foi alheio. Em Antero, porém, como em Cesário e outros poucos do tempo, se há influências estranhas, há uso próprio dessas influências. Uma coisa é a influência, que só não sofre quem não vive, outra coisa a subordinação. Antero é discípulo da filosofia alemã, porém a poesia de Antero não é discípula de coisa alguma.
Assim o ser poeta português moderno, no sentido em que entendemos «moderno», coincide – excepto os nossos primitivos – com o ser poeta português. A felicidade é dos tempos, que não da nossa escolha. Tal é, tal a aceitamos. Escolhemos de acordo com ela.

Fernando Pessoa


(Antologia de Poemas Portuguesas Modernos, Solução Editora, 1929-1943)
250 Fernando Pessoa

INITIATION

There are many Kabbalas, and it is hard to believe that we cannot attain to union with God, whatever that may mean, unless we are acquainted with the Hebrew alphabet.
There are Errors of the Path, Errors of the Inn and Errors of the Cave. Those are errors of the path where the path itself is taken for its purpose. Those are errors of the Inn where half-way is taken for al the way. Those are errors of the Cave where the cave, which is at the base of the Castle, is taken for the Castle itself (is taken for the Hal of the Castle).
These errors are common to al paths, and that of Gnosis is no more free from them than the mystical and the magical paths.
I can dispense with asceticism, but not with truth, nor will I believe that God will not be manifest to me unless I can sit still for five hours or can breathe naturally through either nostril at will.
The fact is, however, that whatever the path that is taken, it should nut be taken before the preparatory grades, the Neophyte grades, have been traversed Mysticism seeks to transcend the intellect (by intuition), magic to transcend the intellect hi power; gnosis to transcend the intellect by a higher intellect. But to transcend a thing rightly you must first pass through that thing. The advantage of the gnostic path is that there is less temptation to reach the higher intellect without passing through the lower, since both are intellect and there is a difference of quantity between the one and the other, than in the mystic and the magic paths, where there is a difference of quality, not quantity, between emotion and intellect; between the will and intellect.

(Esp. 54A-51)

Oc.

There are three distinct types of initiation symbolic or outer, intellectual (outer of inner), and vital (inner). In the symbolic initiations, which reinforce the will and therefore lead to Magic as attainment, the candidate does not pass through stages of understanding, but through stages of intuition, so to speak; he is continually on the surface and appearance of things, and, though he attains the highest degree in whatever order or orders he goes through, that highest degree need not correspond (generally does not correspond) to anything like a parallel degree in any of the inner initiations. In the intellectual initiations, which reinforce the intellect and therefore lead to Mysticism as attainment, the candidate passes through stages of understanding, but not through stages of life; he may know much, but he need not live that which he knows on the same level as he knows it. In the vital initiations, which reinforce the emotion and therefore lead to Alchemy as an attainment, the candidate lives that which he feels and knows.
(Is this right? Do not rather these initiations differ on another score, whereas the difference between Magic, Mysticism and Alchemy (what of Gnosis?) lies on another plane of interpretation? Are not these initiations rather physical, etheric and astral? (or, perhaps, etheric, astral and spiritual, or astral, mental and spiritual?)
– Possibly there are three modes in which initiations can be interpreted: (1) the three ways of attainment, magical, mystical and gnostic, (2) the three stages of attainment, Neophyte, Adept and Master, (3) the three degrees of attainment, astral, mental and spiritual.

(Esp. 54A-52)

Oc.

But the real meaning of initiation is that this visible world we live in is a symbol and a shadow, that this life we know through the senses is a death and a sleep, or, in other words, that what we see is an illusion Initiation is the dispelling a gradual, partial dispelling – of that illusion. The reason for its secret is that most men are not adapted to understand it and will therefore misunderstand and confuse it if it be made public. The reason for its being symbolic is that initiation is not a knowledge but a life, and that man must therefore think out for himself what the symbols show, for thus he will live their life and not only learn the words in which they are shown.
To say that Xt. is a symbol of the sun is to put the initiatory process the wrong way about. It is the sun that is the symbol of Xt. In other words, Xt. is the reality and the sun the illusion, Xt. the light and the sun the shadow. (The ineffable is light, the GA body, the world shadow – the shadow cast by the dense when lit by the subtle. The light is in the circumference (?) and the shadow cast into the centre (?) – Has this anything to do with the pt. within the c.?) (Cf. the kabbalistic idea of En Soph drawing inwards, manifesting in and not out).
To initiate a man by a complicated and more or less impressive ritual and then confide to him, under pledges of secrecy and oaths more or less terrible, that spring comes after winter this could never have been the device of any initiatory body or system. Rather will it have been to teach him the contrary – that spring following winter is a symbol of greater things, that the natural is a figurement of the supernatural-
This, carried to more or less detail, in symbol, then in doctrine, then in revelation, is the essence of al real initiations, from Eleusis to Kilwinning.
Orders of init: (1) through symbols and (later) explanations in themselves symbolic – cf. Pike; (2) through symbolic doctrine, true on its level, and explanations no longer symbolic; (3) through direct though not necessarily spoken or uttered communication.
I do not say that these things represent a truth and I do not say that they do not. I say that this is the meaning of initiation, that it is thus that initiation exists and that it is for those purposes that it exists.

(Esp. 54A-55)


ESSAY ON INITIATION

The difficulties of the subject are many. We can never be sure whether we are reading a work which is worth reading or the rant of one who knows something. It is not the case of catching an «occult» writer in flagrant nonsense in something we know; that is insufficient. His knowledge may be weak in that point and strong in another. If we are astrologers and read a book dealing, among other things, with alchemy and astrology and find, by the light of our knowledge, that the astrological part is nonsense, we need not hurry to presume that the alchemical part (in which we are unversed) is equally wrong. The fact that a newspaper publishes false news on something we have witnessed or know of will naturally lead us to doubt its news on any other subject. This need not be so.
The fact that a man is a charlatan is not sufficient to prove that he always writes like a charlatan, any more than the fact that Words worth often wrote so wretchedly is proof that he is a wretched poet. A charlatan need not be a charlatan in everything or always a charlatan; a charlatan may be inspired-
Even the writing of conscious. deliberate nonsense does not necessarily mean that real nonsense results. The old tag about many a true word being often spoken in jest is here applicable. It is on record that John Valentine Andrea wrote, when only 16 or 17, the Chemical Nuptials of Christian Rosencreutz as a jest. It is hard to dispute that he did write lhe book. Yet the book, written at that age, and (if we believe his words. and there is no reason not to believe them) in jest, is a great symbolical story. valid in itself. I have known a person blurt out a wrong date – year, month, day, everything wrong – as his birthdate, yet the horoscope erected for that date coincide in lhe main points, even in directions, with the true one.

(Esp. 54A-58)


Essay on Initiation

Not only, however, can inspiration, or what is so called, operate with a conscious medium meaning one who knows that he is writing something which he is normally incompetent 1o write, not only can it operate with an unconscious medium – meaning
253 Fernando Pessoa

HISTÓRIA DE ORPHEU

I

– Comecemos por distinguir três coisas que habitualmente se confundem quando se fazem referências ao Orpheu ou aos «poetas do Orpheu». Por Orpheu entende-se umas vezes a revista com aquele nome, de que saíram só dois números em Março e Junho de 1915; outras vezes os que estiveram ligados a ela, ainda que como simples espectadores próximos ou amigos, e sem que nela influíssem ou colaborassem; outras vezes ainda, os que escreveram subsequentemente em estilo semelhante ou aproximado ao dos que de facto colaboraram no Orpheu.
– Ora eu parto do princípio de que o que você quer saber é como se organizou e lançou a revista Orpheu, e de como foi recebida. É a isso, pois, que vou responder. Isto explicará desde logo, evitando confusões ou melindres que sem esta explicação se poderiam sentir justificados, por que motivo não cito vários poetas e escritores que, pela mesma altura ou mais tarde, escreveram em estilo ou modo parecido com o nosso. Explicará também por que não vou buscar antecedentes, espisódios anteriores à preparação do Orpheu, ou até as origens, reais ou presumíveis, da corrente literária, pois foi uma corrente e não uma escola, que se manifestou no Orpheu mas já antes começara.
– Vamos, pois, ao caso do aparecimento da revista. Em princípios de 1915 (se me não engano) regressou do Brasil Luís de Montalvor, e uma vez, em Fevereiro (creio), encontrando-se no Montanha comigo e com Sá-Carneiro, lembrou a ideia de se fazer uma revista literária trimestral – ideia que tinha tido no Brasil, tanto assim que trazia alguns poemas de poetas brasileiros jovens, e a ideia do próprio título da revista – Orpheu. Acolhemos a ideia com entusiasmo, e como o Sá-Carneiro tinha, além do entusiasmo, a possibilidade material de realizar a revista, passou imediatamente a dar o caso por decidido, e desde logo se começou a pensar na colaboração. Com tanto mais entusiasmo acolhemos a ideia quanto é certo que ambos nós havíamos projectado várias revistas, mas, sempre por qualquer razão, os projectos haviam esquecido. O que esteve mais próximo de se realizar foi o de uma revista pequena, intitulada "Europa", que abriria por um manifesto, de que escrevi apenas uns quatro parágrafos, com colaboração ocasional de Sá-Carneiro, e de que me lembro ser uma das principais afirmações a da nossa necessidade de «reagir em Leonino» contra o ambiente – frase tendente, é claro, para a perfeita elucidação do público.
– O certo, porém, é que se decidiu publicar Orpheu. Sem perda de tempo se adoptaram o nome e a periodicidade, e se estabeleceu o número de páginas – de 78 a 80 em cada número. E ficou igualmente assente que figurariam como directores o Luís de Montalvor e um dos poetas brasileiros seus amigos – Ronald&de&Carvalho. Digo «figurar como directores» sem intuito algum reservado. A direcção real da revista era, e foi sempre, conjunta, por estudo e combinação entre nós três e também o Alfredo Guisado e o Côrtes-Rodrigues, de quem falarei a seguir. Ficou assente, também, que o Luís de Montalvor escrevesse o prefácio da revista, o que de facto fez, não colaborando porém no primeiro número por não ter pronto ou não considerar pronto o poema com que de facto colaborou no nº 2.
No mesmo dia ou no dia seguinte expusemos, Sá-Carneiro e eu, a ideia da revista ao Alfredo Guisado e ao Côrtes-Rodrigues, e pode dizer-se que o número ficou completo, sobretudo depois de termos obtido a colaboração do Almada&Negreiros que providencialmente tinha completado uma pequena série, interessantíssima, de trechos em prosa, a que chamou «Frisos» quando os inseriu na revista.
O Orpheu foi logo para a tipografia, ficando eu apenas a completar o «Opiário» do meu personagem Álvaro de Campos, que, embora hipoteticamente escrito antes da «Ode Triunfal», o foi realmente depois.
O número foi de facto bem organizado. Começava, à parte o prefácio, com uns poemas de Sá-Carneiro e fechava com a «Ode Triunfal» do meu velho e inexistente amigo Álvaro de Campos. E, a propósito da «Ode Triunfal»: para dar, mesmo para os próximos de nós, uma ideia da individualidade do Álvaro de Campos, lembrei ao Alfredo Guisado que fingisse ter recebido essa colaboração da Galiza; e assim se obteve papel em branco do Casino de Vigo, para onde passei a limpo as duas composições. Lembro-me ainda do António&Ferro e Augusto Cunha, então muito novos, e que frequentemente iam pelos Irmãos Unidos, lerem atentamente, sozinhos numa mesa ao fundo, essas composições inesperadas; assim como me lembro do Almada Negreiros, depois de ler com entusiasmo a «Ode Triunfal», me sacudir fortemente pelo braço, vista a minha falta de entusiasmo, e de me dizer quase indignado: «Isto não será como V. escreve, mas o que é é a vida.» Senti que só a sua amizade me poupava à afirmação implícita de que Álvaro de Campos valia muito mais do que eu.
– Assim a blague começava em casa?
– A blague? De certo modo. Mas é bom entendermo-nos sobre isso de blague, pois fomos acusados de «fazer blague» em tudo quanto escrevíamos e fazíamos.
Quando vi que o Orpheu era dado como propriedade de "Orpheu Ltda" observei ao Sá-Carneiro que era preferível dizer «Empresa do Orpheu» ou coisa parecida, e não empregar uma designação de sociedade por quotas. «E se alguém se lembrar de nos pedir a certidão de registo no tribunal do Comércio?» «Você crê?», disse o Sá-Carneiro. «Deixe ir assim. Gosto tanto da palavra limitada.» «Está bem», respondi, «se o caso é esse, vá. Mas, olhe lá, que serviço é este de o António Ferro figurar como editor? Ele não pode ser editor porque é menor.» «Ah, não sabia, mas assim tem muito mais piada!» E o Sá-Carneiro ficou contentíssimo com a nova ilegalidade. «E o Ferro não se importa com isso?», perguntei. «O Ferro? Então V. julga que eu consultei o Ferro?» Nessa altura desatei a rir. Mas de facto informou-se o Ferro e ele não se importou com a sua editoria involuntária nem com a ilegalidade dela.

II

Se eu tivesse previsto os verdadeiros ódios que a revista chegou a levantar, teria insistido mais nestes dois pontos.
– Sá-Carneiro gostou muito que eu o definisse como um histero-epiléptico e a mim mesmo como um histeroneurasténico; dou mais, aliás, pela segunda classificação do que pela primeira. Quando se tratou, porém, de encaixar entre as psiconevroses criaturas de uma saúde mental tão indecente como o Alfredo Guisado ou o Côrtes-Rodrigues, a psiquiatria – ou, pelo menos, a minha – foi abaixo. «São rapazes de muito talento, mas infelizmente são normais», queixou-se então o Sá-Carneiro
– Quando faço qualquer blague tomo sempre as devidas precauções para que não dê flanco nenhum, nem que seja no campo jurídico. Por isso quando o Sá-Carneiro me apareceu com a indicação, em provas, de que a revista era propriedade de «Orpheu, Lda.» e que era seu editor o António Ferro, observei-lhe que as sociedades por quotas têm que estar registadas no Tribunal do Comércio e aquela não estava pois que nem sequer existia, e que o António Ferro, sendo então menor, não podia ser editor de periódico algum. Sá-Carneiro varreu logo as minhas objecções; quanto à sociedade por quotas, que achava a palavra «limitada» muito bonita e que quanto ao Ferro, que «assim tinha mais piada». «Mas o Ferro não se importa com isso?», perguntei. «O Ferro?», respondeu admirado o Sá-Carneiro; «o Ferro nem sabe disso; eu não o consultei.» E foi nestas condições de legalidade que a revista saiu. O Ferro, aliás, quando soube do caso, e por pouco risco que haja de as coisas irem parar a esse campo, achou muita graça à sua editoria involuntária. É um critério de raciocinador, que procura objecções que podem ser postas a um argumento no mesmo momento em que o está dispondo. Ao dispor um argumento, prever já todas as objecções, por absurdas que sejam, que se lhes possam pôr.
– Tão-pouco éramos futuristas, como vulgarmente se crê. Ligado ao Orpheu houve só um futurista,
254 Fernando Pessoa

PALAVRAS DE CRÍTICA A ROMARIA


Pediu-me António Lopes Ribeiro que escrevesse, para este número literário do Diário de Lisboa, um breve artigo sobre prémios literários. Em princípio, poderia escrevê-lo – um artigo de generalidade. Como, porém, sucede que me foi conferido um dos prémios literários do S.P.N., tudo quanto escrevesse, por teórico e abstracto que fosse, forçosamente seria mal interpretado – ou num sentido, ou noutro, ou porventura em todos.
Prefiro, pois, abster-me, sem todavia me abster, e assim substituir ao artigo, cujo tema me foi proposto, uma referência sucinta a um dos prémios do Secretariado que – dado, a meu ver, justissimamente – teve a vantagem de revelar um admirável artista. Refiro-me, como é de supor, ao padre Vasco&Reis e ao seu poema adorável A&Romaria.
Em seu paganismo cristianíssimo, esse poema é organicamente português.
O poema é cristão no sentido particular de católico e por isso mesmo pagão. O catolicismo – cujos méritos ou defeitos, sociais ou outros, não tenho aqui que examinar – em a singularidade notável, provinda talvez do que nele resta de Império Romano, de ser, ao mesmo tempo que universal, particularizado em cada região onde existe. A Igreja de Roma é como um regime de municípios morais centralizados num império imponderável. Vasto sistema sincrético, tanto a podemos considerar uma sobrevivência do paganismo como uma transmutação dele. E em cada país onde essa religião existe, esse paganismo sobrevive, ou se transmuta, de uma maneira peculiar. Nisto se assemelha a Igreja à Ordem&Maçónica, ressalvando que nesta não há elementos pagãos.
Entre os portugueses, em quem, em meu entender, a emoção supera a paixão – e é isto, creio, o que radicalmente nos distingue dos vários espanhóis – o catolicismo assume naturalmente o que poderemos chamar o aspecto franciscano, que é, por assim dizer, o aspecto essencialmente emotivo do cristianismo católico.
Do paganismo latente no catolicismo não se manifesta em nós o aspecto estético, como diversamente nos italianos e nos espanhóis, nem o aspecto imperial, como diversamente nestes e nos franceses, mas o aspecto dispersivo e fluido, próprio de tudo quanto a emoção conduz. O nosso catolicismo é sem contornos – uma meiguice religiosa, preguiçosamente incerta do em que realmente crê. Por isso o nosso vero Deus Manifesto é, não o Deus uno e trino, ou qualquer das Pessoas da Trindade, mas um Cupido católico chamado o Menino Jesus. Por isso não curamos de Maria Virgem, mas só de Maria Mãe. Por isso os nossos santos autênticos são um S. João Baptista menino – isto é, de muito antes de ele ser Baptista – ou um Santo António, concebido irremediavelmente como um adolescente infantil, cuja função distintiva – a de consertar bilhas – é um milagre-brinquedo. Quanto ao Diabo, nunca um português acreditou nele. A emoção não permitiria.
O padre Vasco Reis – a quem Deus fez ser franciscano para fins simbólicos – pertence portuguesmente a este catolicismo amoroso. O seu livro, fortemente concebido e suavemente realizado, vive numa atmosfera de ternura e de luz, como numa Hélade de bruma molhada de sol. Não conheço livro, em prosa ou verso, que interprete tão pagãmente, tão cristãmente, a alma religiosa de Portugal. E por trás disto tudo paira – fundo contra que o visível se destaca – qualquer coisa de imprecisamente emblemático, de coordenadamente incerto, com que se comove, não propriamente a emoção, mas a inteligência. Isso, porém, já não é Portugal: é talento.


Fernando Pessoa

(publicado no suplemento literário do Diário de Lisboa, de 04/01/1935)
256 Fernando Pessoa

CARTA A FRANCISCO MANUEL CABRAL METELLO
A PROPÓSITO DO SEU LIVRO SACHÁ

Meu querido Francisco&Manuel:

Acabo de conviver como se fosse consigo com a leitura da sua novela-filme Sachá. Olhei-lhe os episódios, mais que os li. Atravessei-os como quem passa por gente E tive o prazer de que foi acompanhando-o que fiz essa travessia bariolée.
Não direi, da sua novela, que ela é notável como literatura. Digo, porém, que é notável como elegância A sua intenção suponho não foi que ela fosse outra coisa. Fez V. bem, que o próprio da elegância é não aspirar senão a sê-lo.
Raros, de entre os que escrevem, podem ser verdadeiramente escritores – isto é, escritores superiormente, artistas pela palavra escrita. O exercício superior das letras exige, como toda a especialidade superior, uma predisposição complexa, e uma preparação complexa também. Quanto à predisposição, nada há que dizer senão que ou se nasce com ela, ou de todo se não possui. Quanto à preparação, poucos há, mesmo entre os de certo modo predispostos, que suportem sem inconstância a disciplina que devem querer impor-se. E, mesmo assim, uma predisposição, embora grande, e uma preparação, embora constante, há mister que tenham sido, equilibrada a primeira, e começada a segunda, por uma educação feliz na infância; o que procede de circunstâncias em que nem a herança orgânica, nem a escolha própria, são elementos causais. Nem deve esquecer que a influência do meio, em que vive o escritor já adulto, colabora no resultado. Com tantos e tão diversos elementos construi o Destino, assim em literatura como em outro qualquer modo da inteligência, o acidente final a que se chama o génio.
Em grande número dos que escrevem, portanto, ou o escrever é um simples veículo de ideias, e eles serão filósofos, porém não são escritores; ou a literatura é uma profissão, que exercem, e não serão eles artistas, senão artífices; ou o que escrevem é conscientemente uma distracção de seu espírito, escrita para que se entretenham os outros com aquilo, com que o próprio autor se entreteve. Não falo dos que escrevem fora destas três razões, e supondo que são escritores verdadeiros. Esses, que são a maioria, não são nada.
Nestes três tipos do escritor, que propriamente o não é, um só resultado literário nos pode prender o espírito – a aproximação, que haja em suas obras, da verdadeira literatura. No pensador isto dá-se quando a força da intenção aquece, por sua mesma violência, a frase e a palavra, e a eloquência surge como voz do pensamento. No artífice das letras isto acontece quando a habilidade do fazedor simula de perto, pela acção justa de um instinto mimético, o escrúpulo do artista. No «entretido» isto resulta quando, sendo a sua personalidade inteligentemente interessante, ele consegue transpô-la inconscientemente para o que escreve; não tanto escrevendo, quanto falando-nos por escrito.
V. e o seu Sachá estão no caso desta terceira espécie. Como V. tem uma personalidade decorativamente rica, havia com que interessar, logo que fosse espontâneo na manifestação dela. E V. foi espontâneo: escreveu sem pensar que escrevia, escreveu pensando só em si. Por isso pôde confiar aos quadros da sua novela o segredo subtil de quem é. Por isso a falou, mais que a escreveu; e os episódios da sua narrativa imprecisa participam da sua própria graça e da sua elegância inimitável.
A sua personalidade fútil, feminil, escandalosamente europeia, complicadamente sociável, predestinada poro a poro para todas as astúcias da elegância e todas as subtilezas de conhecê-lo, transparece coloridamente no seu livro. E, se nele V. faz tão naturalmente, com um conhecimento tão autêntico e orgânico, a cinematografia local do semicosmopolitismo elegante, produto da invasão das aristocracias pela grande finança, e em o qual as maneiras são cada vez mais acidentes da moda, e a futilidade cada vez mais uma função do aborrecimento, não é senão porque tudo isso vive em si, e porque essa atmosfera social é uma componente do seu espírito.
E, ainda que não houvesse estas razões gerais para que V. encantasse, revelando-se, haveria outras, particulares, e que sobremaneira prendem (pela ironia, para connosco, do contraste) os espíritos da minha índole. Não são essas razões motivos para que todos apreciem o Sachá; por isso digo que são particulares, e as dou apenas como minhas.
A mim, espírito especulativo e metafísico, e por isso triste e desgracioso, fascina-me a atracção do seu contraste comigo V., sendo como é, põe elegância em tudo; eu, ainda que fosse elegante em alguma coisa, de tal modo o seria que o não seria. O emprego excessivo e absorvente da inteligência, o abuso da sinceridade, o escrúpulo da justiça, a preocupação da análise, que nada aceita como se pudesse ser o que se mostra, são qualidades que poderão um dia tornar-me notável; privam, porém de toda espécie de elegância porque não permitem nenhuma ilusão de felicidade.
Os espíritos constituídos como o meu nascem velhos e vivem vencidos. A mais esplendorosa mocidade física, se por acaso a temos, não chega nunca ao nosso espírito; a maior celebridade tem sempre para nós um sabor soturno de derrota, um laivo cruel de inutilidade e de erro. Força é que tomemos tudo a sério: a futilidade, portanto, é-nos estrangeira. Por isso, ao tornar-nos conscientes, adquirimos para com ela, que por natureza é moça, uma das atitudes dos velhos para com a mocidade: nos piores de índole, a amargura e o despeito do excluído; nos melhores, o carinho triste do saudoso. Tive, creio, a felicidade única de, tendo que ser destes, não ser dos piores. Por isso me fascina, como disse, o contraste de V. comigo; da sua mocidade ingénita, da sua futilidade triunfal, com o meu cansaço inato de predestinado à derrota, ainda que ela possa chamar-se vitória.
V. nasceu vencedor, porque as fadas, no seu nascimento, enganaram a fada maligna. Não venceu V. como os que vencem pela vitória, com o conseguimento, que sempre pesa porque existe; com o esforço, que é sempre vil porque fatiga; com o merecimento, que é racional e por isso sem vida. O seu fado foi mais menino. Coube-lhe a vitória como vida, que não como vitória. Deram-lhe amorosamente como berço o que aos melhores de nós que nos maltratamos, de mau grado cabe como tumba.
Desejo-lhe, meu querido Francisco Manuel, que nunca passe do seu ar e dos seus gestos a mocidade que o Destino lhe concedeu como a um jovem deus, não como episódio passageiro e mortal da idade, senão como segredo da vida e carne do próprio sentimento.
Guardo do que V. escreveu a memória dispersa e nítida que fica dos perfumes. Não é a reminiscência de uma coisa espiritual, porém não o é de uma coisa da matéria. Vive no intervalo das coisas que podem definir-se. É uma aura, uma atmosfera, um agrado indistinto, uma presença para quem sorrimos. Neste caso é V. mesmo.
Tudo mais é filosofia.

Fernando Pessoa

(publicado em Contemporânea, nº 8, Lisboa, Fevereiro de 1923)
258 Fernando Pessoa

Antínoo (trechos)

Era em Adriano fria a chuva fora

Jaz morto o jovem
No raso leito, e sobre o seu desnudo todo,
Aos olhos de Adriano, cuja cor é medo,
A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa

Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite lá fora
A chuva cai como um exausto alarme
Da Natureza em acto de matá-lo.
Memória do que el´ foi não dava já deleite,
Deleite no que el´ foi era morto e indistinto.

Oh mãos que já apertaram as de Adriano quentes,
Cuja frieza agora as sente frias!
Oh cabelo antes preso p´lo penteado justo!
Oh olhos algo inquietantemente ousados!
Oh simples macho corpo feminino
qual o aparentar-se um Deus à humanidade!
Oh lábios cujo abrir vermelho titilava
os sítios da luxúria com tanta arte viva!
Oh dedos que hábeis eram no de não ser dito!
Oh língua que na língua o sangue audaz tornava!
Oh regência total do entronizado cio
Na suspensão dispersa da consciência em fúria!
Estas coisas que não mais serão.
A chuva é silenciosa, e o Imperador descai ao pé do leito.
A sua dor é fúria,
Porque levam os deuses a vida que dão
e a beleza destroem que fizeram viva.
Chora e sabe que as épocas futuras o fitam do âmago do vir a ser;
O seu amor está num palco universal;
Mil olhos não nascidos choram-lhe a miséria.

Antínoo é morto, é morto para sempre,
É morto para sempre, e os amor´s todos gemem.
A própria Vénus, que de Adónis foi amante,
Ao vê-lo então revivo, ora morto de novo,
Empresta renovada a sua antiga mágoa
Para que seja unida à dor de Adriano.

Agora Apolo é triste porque o roubador
Do corpo branco seu ´stá para sempre frio.
Não beijos cuidadosos na mamílea ponta
Sobre o pulsar silente lhe restauram
Sua vida que abra os olhos e a presença sinta
Dela por veias ter o reduto do amor.
Nenhum de seu calor, calor alheio exige.
Agora as suas mãos não mais sob a cabeça
Atadas, dando tudo menos mãos,
Ao projectado corpo mãos imploram.

A chuva cai, e el´ jaz
como alguém que de seu amor ´squeceu todos os gestos
E jaz desperto à espera que regressem quentes.
Suas artes e brincos ora são c´o a Morte.
Humano gelo é este sem calor que o mova;
Estas cinzas de um lume não chama há que acenda.

Que ora será, Adriano, a tua vida fria ?
Quão vale ser senhor dos homens e das coisas ?
Sobre o teu império a ausência dele desce como a noite.
Nem há manhã na esp´rança de um deleite novo;
Ora de amor e beijos viúvas são as tuas noites;
Ora os dias privados de a noite esperar;
Ora os teus lábios não têm fito em gozos,
Dados ao nome só que a Morte casa
À solidão e à mágoa e ao temor

Tuas mãos tacteiam vagas alegria em fuga
Ouvir que a chuva cessa ergue-te a cabeça,
E o teu relance pousa no amorável jovem.
Desnudo el´ jaz no memorado leito;
Por sua própria mão el´ descoberto jaz.
Aí saciar cumpria-lhe teu senso frouxo,
Insaciá-lo, mais saciando-o, irritá-lo
Com nova insaciedade até sangrar teu senso.

Suas boca e mãos os jogos de repôr sabiam
Desejos que seguir te doía a exausta espinha.
Às vezes parecia-te vazio tudo
A cada novo arranco de chupado cio.
Então novos caprichos convocava ainda
À de teus nervos, carne, e tombavas, tremias
Nos teus coxins, o imo sentido aquietado.

...

E de pensar, essa luxúria que é
memória de luxúria revive e toma-Lhe os sentidos p´la mão,
desperta a carne ao toque,
E tudo é outra vez o que era dantes.
No leito o corpo morto se soergue e vive
E vem com el´ deitar-se, junto, muito junto,
E uma invisível mão e rastejante e sábia
A cada uma do corpo entrada da luxúria
Vai murmurar carícias que se esvaem, mas
Se demoram que sangre a derradeira fibra.
Oh doces, cruéis da Párthia fugitivas!

Assim um pouco se ergue, olhando o amante
Que ora não pode amar senão o que se ignora.
Vagamente, mal vendo o que comtempla tanto,
Perpassa os frios lábios pelo corpo todo.
E tão de gelo insensos são os seus lábios que, ai!
Mal à morte lhe sabe o frio do cadáver,
E é qual mortos ou vivos que ambos foram
E amar inda é presença e é motor.
Na dos do outro incúria fria os lábios param
O hálito ausente aí recorda-lhe a seus lábios
Que de pra lá dos deuses uma névoa veio
Entre ele e o jovem. Mas as pontas de seus dedos,
Ainda ociosas perscrutando o corpo, aguardam
Uma reacção da carne ao despertante jeito.
Mas não é compreendida essa de amor pergunta:
É morto o deus que era seu culto o ser beijado!

Levanta a mão pra onde o céu estaria
E pede aos deuses mudos que sua dor lhe saibam.
Que a súplica lhe atendam vossas faces calmas,
Oh poder´s outorgantes! Dá em troca o reino
Nos desertos quietos viverá sequioso,
Nos longes trilhos bárbaros mendigo ou escravo,
Mas a seus braços quente o jovem devolvei!
Renunciai ao espaço que entendeis seu túmulo!

Tomai da terra a graça feminina toda
E num lixo de morte o que restar vertei!
Mas, pelo doce Ganímedes, distinguido
Por Jove acima de Hebe para encher-lhe
A taça nos festins e pra instilar
O amor de amigos que enche o vácuo do outro,
O nó de amplexos femininos resolvei
Em poeira, oh pai dos deuses, mas poupai o jovem
E o alvo corpo e o seu cabelo de oiro!
Ganímedes melhor talvez tu pressentiste
Seria acaso, e por inveja essa beleza
Dos braços de Adriano para os teus roubaste.

Era um gato brincando co´a luxúria,
A de Adriano e a sua própria, às vezes um
E às vezes dois, ora se unindo, ora afastado;
A luxúria largando, ora o àpice adiando;
Ora fitando-a não de frente mas de viés
Ladeando o sexo que semi não espera;
Ora suave empolgado, ora agarrando em fúria,
Ora brinca brincando, agora a sério, ora
Ao lado da luxúria olhando-a, agora espiando
O modo de tomá-la no aparar da sua.

Assim as horas se iam das mãos dadas de ambos,
E das confusas pernas momentos resvalam.
Seus braços folhar mortas, ou cintas de ferro;
Agora os lábios taças, agora o que liba;
Olhos fechados por de mais, de mais fitantes;
Ora o vai-vém frenético operando;
Ora suas artes pluma, ora um chicote.

Viveram esse amor como religião
Oferta a deuses que, em pessoa, aos homens descem.
Às vezes adornado, ou feito enfiar
Meias vestes, então numa nudez de estátua
Imitava algum deus que de homem ser parece
Pela do mármore virtude exacta.
Agora Vénus era, alva dos mar´s saindo:
E agora Apolo ele era, jovem e dourado;
E agora Júpiter julgando em troça
A presença a seus pés do escravizado amante;
Agora agido de rito, por alguém seguido,
Em mistérios que são sempre repostos.

Agora é algo que qualquer ser pode.
Oh, crua negação da coisa que é!
Oh de aurea coma sedução fria de lua!
Fria de mais! De mais! E amor como ela frio!
O amor pelas memórias do amor seu vagueia
Como num labirinto, alegre, louco, triste,
E ora clama o seu nome e lhe pede que venha,
E ora sorrindo está à sua imagem-vinda
Que está no coração quais rostos na penumbra,
Meras luzentes sombras das formas que tinham...

...

Erguer-te-ei uma estátua que será
Prova, para o contínuo das futuras eras,
Do meu amor, tua beleza e do sentido
Que à divindade p´la beleza é dado.
Que a Morte com subtis mãos des
263 Fernando Pessoa

VIII

Feito assim o esboço psicológico da nossa actual poesia, no que respeita à sua estética e à sua metafísica, resta concluir aproximadamente qual deva ser a resultante social das forças da Raça cujo primeiro assomo à tona da realidade ora e apenas se está fazendo nessa, citada, poesia. Melhor dizendo, qual será a criação social a que vai chegar a alma da Raça, por enquanto no seu início de despertar e revelada apenas, por isso, na forma directamente espiritual, a literatura?
Só muito informemente, por razões que já expusemos, essa criação social, em seu género e especialidade, é antevisível. Mas se é antevisível de algum modo e até certo ponto, de que modo e até que ponto o é? – Determinada a metafísica da nova corrente, queda revelado definitivamente, em sua essência última e central, o que essa corrente espiritualmente é e representa. Vimos que essa corrente se traduz por um metafisismo claramente definível como transcendentalismo panteísta: resta saber o que dá o transcendentalismo panteísta posto em tendência social. Daqui não resultará claramente definida qual essa criação social – como ficar definida ao raciocínio, se ainda se não definiu nas almas? – mas resultará ficar atingida na sua fisionomia longínqua.
Sendo o transcendentalismo panteísta um sistema essencialmente envolvedor de uma fusão de elementos absolutamente opostos, segue-se que a criação resultante da nova alma lusitana deverá envolver, em seu resultado definitivo e último, o estabelecimento de qualquer nova fórmula social onde uma fusão dessas se dê. Uma rápida análise, aqui eliminada, determina facilmente que o raciocínio permite profetizar que a futura criação social da Raça portuguesa será qualquer coisa que seja ao mesmo tempo religiosa e política, ao mesmo tempo democrática e aristocrática, ao mesmo tempo ligada à actual fórmula da civilização e a outra coisa nova. Inútil será apontar quão flagrantemente esta dedução vaga e precisa decorre da constatação já feita sobre o carácter fundamental, metafisicamente patente, de alma&lusitana. Igualmente inútil deve ser notar quanto essa futura fórmula deve distar do cristianismo e, especialmente do catolicismo, em matéria religiosa; da democracia moderna, em todas as suas formas, em matéria política; do comercialismo e materialismo radicais na vida moderna, em matéria civilizacional geral. E, finalmente, é da mesma inutilidade acrescentar, acentuando e especializando a sua divergência da democracia, que as formas extremas ou perturbadas desta – anarquismo, socialismo, etc. – serão varridas para fora da realidade, mesmo do sonho nacional; os humanitarismos morrerão ante essa nova fórmula social, de portuguesa origem, mais alta, provavelmente, em sentimento religioso do que outra qualquer que tenha havido, mais rude e cruel talvez em prática social do que o mais rude militarismo comercialista. Console-nos isto, desde já, no meio de ver, de leste a oeste de Portugal, a nossa sub-humanidade política e a nossa proletariagem humanitariante. Tudo isso, que afinal é estrangeiro, morrerá de por si, ou à boca dos canhões do nosso Cromwell futuro.
E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas «daquilo de que os sonhos são feitos». E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal antearremedo, realizar-se-á divinamente (12).


(12) Por inútil para as conclusões sociológicas que unicamente buscamos nesta série de artigos, abandonamos a intenção de fazer o estudo exclusivamente literário da nova corrente poética portuguesa, estudo esse prometido no princípio deste artigo. Ninguém perde com isso.


(textos publicados em A Águia, série II, nº 9 (I, II e III), Maio de 1912; nº 11, Novembro de 1912 (IV e V); nº 12, Dezembro de 1912 (VI, VII e VIII))
265 Fernando Pessoa

CARTAS A FRANCISCO FERNANDES LOPES


CARTA I


Lisboa, 20 de Abril de 1919

Meu caro Lopes:

Um grupo «intelectual», que se organizou recentemente, e do qual sou secretário, decidiu empreender a publicação de uma revista portuguesa exclusivamente destinada ao estrangeiro: revista portuguesa, portanto, apenas por ser escrita só por portugueses, mas não pela língua em que é publicada. Será publicada alternadamente, em francês e em inglês.
O nosso intuito primário é realizar em linguagem escrita aquele aspecto do temperamento português que vulgarmente revelamos só na linguagem falada. Queremos levar ante a Europa a nossa irreverência para com ela; mostrar que somos criaturas que portuguesmente não aceitamos; que os homens de génio cosmopolita, os pensadores de «renome universal», e outros artigos de drogaria não nos merecem nem respeito nem consideração. Temos as coisas preparadas para que o número inicial da revista seja coisa de pulso e de monta – coisa que quebre a tradição de servilismo que pesa sobre as atitudes portuguesas. Pode ser que isto, uma vez realizado, resulte estéril, e que o êxito esperado seja negativo. Ficará de nós, em todo o caso, o exemplo da irreverência para com os ídolos europeus; teremos, ao menos, dito mal em voz alta, o que já é alguma coisa.
Se me dirijo a V. sobre este assunto, é que não esqueci aquelas horas magníficas em que V., sob a arcada do Teatro Nacional, desfez a golpes de raciocínio o sistema filosófico de Bergson. O que nós queremos é, escrito e lúcido, esse seu argumento. Se V. o puder escrever em francês, melhor; se estiver pouco à vontade nisso, deixe, que traduziremos.
Não me venha V. dizer que tem muito que fazer, isso será uma razão para não dar o artigo para o primeiro número da revista, mas não pode ser para nunca o dar. Nem adopte o sistema português de não responder às cartas; porque, como os chefes do grupo a que pertenço não conhecem a V. pessoalmente, fiquei ante eles por fiador da sua personalidade magnificamente destrutiva, mas eu não queria que as suas qualidades de destruidor começassem a manifestar-se pela destruição das esperanças, que tenho em que V. nos auxilie.
Há aqui, agora, um tumultuar de energias secundárias; têm-se ideado e formado revistas para dar à Europa a ideia de que continuamos a ser as mesmas bestas que sempre temos sido. Queremos desobedecer a este mandato imperativo do servilismo adquirido da raça. V. tem dúvida em colaborar connosco? Que diabo! Os homens, cuja raça descobriu novos mares e novas terras, bem podem abalançar-se hoje a descobrir que não há talento a descobrir nos burocratas internacionais da influência intelectual.
Posso, podemos, contar consigo?

Sempre e muito seu,

Fernando Pessoa

Para me escrever, basta assim:

Fernando Pessoa,
Apartado 147, Lisboa.

P S. – Duas coisas que me escapou dizer-lhe: guarde – peço-lhe – a maior reserva sobre o projecto e as intenções que nesta carta lhe narro; quando escrever o seu artigo, cuide, especialmente, de lhe dar toda a coesão e rigidez matemática do seu raciocínio que V. revela na palavra falada. Escreva sintética e descarnadamente e – não se esqueça – comece a agressão pelo título que escolher. – F.P.


(publicada na revista Seara Nova, de 07/11/1942)
288 Fernando Pessoa

CARTA I (continuação)


Como escrevo em nome desses três?... Caeiro por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis – ainda inédita – ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso).
Nesta altura estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever.
Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo. Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo porém a intenção e a ela respondo. Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando-se até se chegar a um Ente Supremo que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões e ainda outras a Ordem Externa do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é Criador ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus, mas segundo a nossa afinação espiritual poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria que é magia também), caminho esse extremamente perigoso, em todos os sentidos; o caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem&Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe no meu poema Eros&e&Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem&Templária de Portugal, indica simplesmente – o que é facto – que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1888. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a ordem) trechos de Rituais que estão em trabalho.
Creio assim, meu querido camarada, ter respondido, ainda com certas incoerências, às suas perguntas. Se há outras que deseja fazer, não hesite em fazê-las. Responderei conforme puder e o melhor que puder. O que poderá suceder, e isso me desculpará desde já, é não responder tão depressa. Abraça-o o camarada que muito o estima e admira.

Fernando Pessoa


(publicada na Presença, nº 49, Coimbra, Junho de 1937)
295 Fernando Pessoa

EPISÓDIOS

A&MÚMIA

I

Andei léguas de sombra
Dentro em meu pensamento.
Floresceu às avessas
Meu ócio com sem-nexo,
E apagaram-me as lâmpadas
Na alcova cambaleante.

Tudo prestes se volve
Um deserto macio
Visto pelo meu tacto
Dos veludos da alcova,
Não pela minha vista,

Há um oásis no Incerto
E, como uma suspeita
De luz por não-há-frinchas,
Passa uma caravana.

Esquece-me de súbito
Como é o espaço, e o tempo
Em vez de horizontal
É vertical.

A alcova
Desce não sei por onde
Até não me encontrar.
Ascende um leve fumo
Das minhas sensações.
Deixo de me incluir
Dentro de mim. Não há
Cá-dentro nem lá-fora.

E o deserto está agora
Virado para baixo.

A noção de mover-me
Esqueceu-se do meu nome.

Na alma meu corpo pesa-me.
Sinto-me um reposteiro
Pendurado na sala
Onde jaz alguém morto.

Qualquer coisa caiu
E tiniu no infinito.


II

Na sombra Cleópatra jaz morta.
Chove.

Embandeiraram o barco de maneira errada.
Chove sempre.

Para que olhas tu a cidade longínqua?
Tua alma é a cidade longínqua.
Chove friamente.

E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto –
Todos nós embalamos ao colo um filho morto.
Chove, chove.

O sorriso triste que sobra a teus lábios cansados,
Vejo-o no gesto com que os teus dedos não deixam os teus anéis.
Porque é que chove?


III

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo,
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?
Por que caminhos seguem,
Não os meus tristes passos,
Mas a realidade
De eu ter passos comigo?

Às vezes, na penumbra
Do meu quarto, quando eu
Para mim próprio mesmo
Em alma mal existo,
Toma um outro sentido
Em mim o Universo –
É uma nódoa esbatida
De eu ser consciente sobre
Minha ideia das coisas.

Se acenderem as velas
E não houver apenas
A vaga luz de fora –
Não sei que candeeiro
Aceso onde na rua –
Terei foscos desejos
De nunca haver mais nada
No Universo e na Vida
De que o obscuro momento
Que é minha vida agora

Um momento afluente
Dum rio sempre a ir
Esquecer-se de ser,
Espaço misterioso
Entre espaços desertos
Cujo sentido é nulo
E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa
Metafisicamente.


IV

As minhas ansiedades caem
Por uma escada abaixo.
Os meus desejos balouçam-se
Em meio de um jardim vertical.

Na Múmia a posição é absolutamente exacta.

Música longínqua,
Música excessivamente longínqua,
Para que a Vida passe
E colher esqueça aos gestos.


V

Porque abrem as coisas alas para eu passar?
Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes.
Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara
Mas há sempre coisas atrás de mim.
Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço.
Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido.
Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras.
Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo.

Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis
A porta abrindo-se conscientemente
Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se.
De onde é que estão olhando para mim?
Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim?
Quem espreita de tudo?

As arestas fitam-me.
Sorriem realmente as paredes lisas.

Sensação de ser só a minha espinha.

As espadas.


(Portugal Futurista, nº 1, 1917)
297 Fernando Pessoa

PALAVRAS DE CRÍTICA A ENTREVISTAS


A todos nós, que vivemos, um dia, a Vida aparece, como se existisse, e nos propõe uma escolha como a das bocetas de Pórcia. Temos que escolher entre o conteúdo da boceta de ouro, e o da de prata, e o da de chumbo. Ignoramos, de diverso modo que Bassânio, o sentido do conteúdo. A de ouro contém o prazer, que se evapora quando a boceta se abre; a de prata o sonho, que se deslustra quando a boceta fica aberta; a de chumbo está vazia, e é essa a que contém a ciência.
Ditoso é, não quem escolhe, senão quem se não arrepende de ter escolhido. Há, porém, alguns mais ditosos que qualquer dos que escolheram: são os que distraíram indefinidamente a decisão da escolha, nem levaram da vida senão a memória das bocetas por abrir. Esses tocaram, sem olhar, o pouco essencial das coisas, que é a aparência delas – do prazer por haver o ouro que por fora o distingue; do sonho inobtido a prata que finge que o denota; da ciência que não ouve o exterior baço e triste, imagem justa e falsa do vácuo de sua verdade.
O autor deste livro é dos que não sabem que as bocetas existem para abrir-se. Num só gesto assim as tomou todas; guardou-as no amplexo que fez, sem querer saber que contivessem. Cingiu a si a aparência absoluta da Vida. Viveu por fora o que, afinal, não vale a pena vivido por dentro. E escreveu como viveu, porque sentir é não abrir bocetas. Teve razão porque não teve. Interpretar é não saber explicar. Explicar é não ter compreendido.


Fernando Pessoa

(publicado como apêndice ao livro Entrevistas de Francisco Manuel Cabral Metello, 1923)
304 Fernando Pessoa

PARA A MEMÓRIA DE ANTÓNIO NOBRE


Quando a hora do ultimatum abriu em Portugal, para não mais se fecharem, as portas do templo de Jano, o deus bifronte revelou-se na literatura nas duas maneiras correspondentes à dupla direcção do seu olhar. Junqueiro – o de Pátria e Finis Patriae – foi a face que olha para o Futuro, e se exalta. António&Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece.
De António Nobre partem todas as palavras com sentido lusitano que de então para cá têm sido pronunciadas. Têm subido a um sentido mais alto e divino do que ele balbuciou. Mas ele foi o primeiro a pôr em europeu este sentimento português das almas e das coisas, que tem pena de que umas não sejam corpos, para lhes poder fazer festas, e de que outras não sejam gente, para poder falar com elas. O ingénuo panteísmo da Raça, que tem carinhos de espontânea frase para com as árvores e as pedras, desabrochou nele melancolicamente. Ele vem no Outono e pelo crepúsculo. Pobre de quem o compreende e ama!
O sublime nele é humilde, o orgulho ingénuo, e há um sabor de infância triste no mais adulto horror do seu tédio e das suas desesperanças. Não o encontramos senão entre o desfolhar das rosas e nos jardins desertos. Os seus braços esqueceram a alegria do gesto, e o seu sorriso é o rumor de uma festa longínqua, em que nada de nós toma parte, salvo a imaginação.
Dos seus versos não se tira, felizmente, ensinamento nenhum. Roça rente a muros nocturnos a desgraça das suas emoções. Esconde-se de alheios olhos o próprio esplendor do seu desespero. Às vezes, entre o princípio e o fim de um seu verso, intercala-se um cansaço, um encolher de ombros, uma angústia ao mundo. O exército dos seus sentimentos perdeu as bandeiras numa batalha que nunca ousou travar.
As suas ternuras amuadas por si próprio; as suas pequenas corridas de criança, mal-ousada, até aos portões da quinta, para retroceder, esperando que ninguém houvesse visto; as suas meditações no limiar; ...e as águas correntes no nosso ouvido; a longa convalescença febril ainda por todos os sentidos; e as tardes, os tanques da quinta, os caminhos onde o vento já não ergue a poeira, o regresso de romarias, as férias que se desmancham, tábua a tábua, e o guardar nas gavetas secretas das cartas que nunca se mandaram... A que sonhos de que Musa exilada pertenceu aquela vida de Poeta?
Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria, é ele ainda, e a vida dele, nunca perfeitamente real nem com certeza vivida, é, afinal, a súmula da vida que vivemos – órfãos de pai e de mãe, perdidos de Deus, no meio da floresta, e chorando, chorando inutilmente, sem outra consolação do que essa, infantil, de sabermos que é inutilmente que choramos.


(publicado em A Galera, nº 5-6, Coimbra, 25/11/1915)
310 Fernando Pessoa

LULLABY *

My heart is full of lazy pain
And an old English lullaby
Comes out of that mist of my brain.

Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

I would give all my singing trade
To be the distant English child
For whom this happy song was made.

When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me;
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullably, mine only joy!

There must have been true happiness
Near where this song was sung to small
White hands clutching a mother's dress.

I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

O what a sorrow comes to me
Knowing the bitterness I have
While that child had this lullaby!

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine,
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

My heart aches to be able to weep.
O to think of this song being sung
And the child smiling in its sleep!

Upon my lap my sovereign sits
And sucks upon my breast;
Meantime his love maintains my life
And gives my sense her rest.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

I was a child too, but would now
Be the child, and no other hearing
This song low-breathed upon its brow.

When thou hast taken thy repast,
Repose, my babe, on me,
So may thy mother and thy nurse
Thy cradle also be.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

O that I could return to that
Happy time that was never mine
And which I live but to regret!

I grieve that duty doth not work
All that my wishing would,
Because I would not be to thee
But in the best I should.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

Ay, sing on in my soul, old voice,
So motherfully laying to sleep
The babe that quietly doth rejoice.

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

Sing on and let my heart not weep
Because sometime a child could have
This song to lull him into sleep!

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy,
Sing lullaby, mine only joy!

Somehow somewhere I heard this song,
I was part of the happiness
That lived its idle lines along.

Yet as I am, and as I may,
I must and will be thine,
Though all too little for thy self
Vouchsafing to be mine.
Sing lullaby, my little boy
Sing lullaby, mine only joy!

Ay, somehow, somewhere I was that
Child, and my heart lay happy asleep.
Now – oh my sad and unknown fate!


* The «Lullaby» quoted is the 134th. poem in Palgrave's Golden Treasury. It was taken by him from Martin Peerson's Private Music, a Song-Book of 1620. The «Lullaby» is here given twice over, and the last stanza twice again.
317 Fernando Pessoa

CARTA III

19.3.1920
às 4 da madrugada

Meu amorzinho, meu Bebé querido:

São cerca de 4 horas da madrugada e acabo, apesar de ter todo o corpo dorido e a pedir repouso, de desistir definitivamente de dormir. Ha três noites que isto me acontece, mas a noite de hoje, então, foi das mais horríveis que tenho passado em minha vida. Felizmente para ti, amorzinho, não podes imaginar. Não era só a angina, com a obrigação estúpida de cuspir de dois em dois minutos, que me tirava o sono. É que, sem ter febre, eu tinha delírio, sentia-me endoidecer, tinha vontade de gritar, de gemer em voz alta, de mil coisas disparatadas. E tudo isto não só por influência directa do mal estar que vem da doença, mas porque estive todo o dia de ontem arreliado com coisas, que se estão atrasando, relativas à vinda da minha família, e ainda por cima recebi, por intermédio de meu primo, que aqui veio às 7,30 uma série de notícias desagradáveis, que não vale a pena contar aqui, pois, felizmente, meu amor, te não dizem de modo algum respeito.
Depois, estar doente exactamente numa ocasião em que tenho tanta coisa urgente a fazer, tanta coisa que não posso delegar em outras pessoas.
Vês, meu Bebé adorado, qual o estado de espírito em que tenho vivido estes dias, estes dois últimos dias sobretudo? E não imaginas as saudades doidas, as saudades constantes que de ti tenho tido. Cada vez a tua ausência, ainda que seja só de um dia para o outro, me abate; quanto mais não havia eu de sentir o não te ver, meu amor, há quase três dias!
Diz-me uma coisa, amorzinho: Porque é que te mostras tão abatida e tão profundamente triste na tua segunda carta a que mandaste ontem pelo Osório? Compreendo que estivesses também com saudades; mas tu mostras-te de um nervosismo, de uma tristeza, de um abatimento tais, que me doeu imenso ler a tua cartinha e ver o que sofrias. O que te aconteceu, amor, além de estarmos separados? Houve qualquer coisa pior que te acontecesse? Porque falas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando dele, quando não tens para isso razão nenhuma?
Estou inteiramente só pode dizer-se; pois aqui a gente da casa, que realmente me tem tratado muito bem, é em todo o caso de cerimónia, e só me vem trazer caldo, leite ou qualquer remédio durante o dia; não me faz, nem era de esperar, companhia nenhuma. E então a esta hora da noite parece-me que estou num deserto; estou com sede e não tenho quem me dê qualquer coisa a tomar; estou meio-doido com o isolamento em que me sinto e nem tenho quem ao menos vele um pouco aqui enquanto eu tentasse dormir.
Estou cheio de frio, vou estender-me na cama para fingir que repouso. Não sei quando te mandarei esta carta ou se acrescentarei ainda mais alguma coisa.
Ai, meu amor, meu Bebé, minha bonequinha, quem te tivesse aqui! Muitos, muitos, muitos, muitos, muitos beijos do teu, sempre teu

Fernando

19.3.1920, às 9 da manhã.

Meu querido amorzinho:

Parece que foi remédio santo o escrever-te o que está acima. A seguir fui-me deitar, sem esperança nenhuma de adormecer, e o facto é que dormi umas 3 ou 4 horas a fio pouca coisa, mas não imaginas a diferença que me fez. Sinto-me muito mais aliviado, e, embora a garganta ainda arda e esteja inchada, o facto de o estado geral ter assim melhorado quer dizer, creio bem, que a doença vai passando. Se as melhoras se acentuarem rapidamente, talvez ainda hoje mesmo vá ao escritório, mas sem me demorar muito; e então eu-próprio te entregarei esta carta.
Espero aí poder ir; tenho certas coisas urgentes a tratar que posso dirigir aí do escritório, embora não vá eu em pessoa; mas que de aqui me é impossível tratar.
Adeus, meu anjinho bebé. Cobre-te de beijos cheios de saudade o teu, sempre, sempre teu

Fernando



CARTA IV

19/3/1920

Meu Bebé pequenino (e actualmente muito mau):

A carta que vai junta é a que mandei ainda agora a tua casa pelo Osório. Espero poder entregar-te as duas amanhã, indo esperar-te à saída do escritório Dupin.
Sobre a informação. Que te deram a meu respeito, não só quero repetir que é inteiramente falsa, como também dizer-te que a «pessoa de respeito», que deu essa informação a tua irmã, ou inventou por completo, e, sobre ser mentirosa, é doida; ou essa pessoa nem sequer existe, e foi tua irmã que a inventou não digo que inventou a pessoa mas que inventou que determinada pessoa lhe disse uma coisa que ninguém lhe disse.
Olha, amorzinho: é sempre mau, nessas coisas, julgar que os outros não passam de parvos.
Sobre essa «pessoa», e o que dela me disseste (naturalmente porque to tinham dito), terei dois detalhes: (1) que essa pessoa sabe que eu gosto de ti, (2) que «sabe» que não é com ideias sérias que gosto de ti.
Ora, comecemos por uma coisa: não há quem saiba se eu gosto de ti ou não, porque eu não fiz de ninguém confidente sobre o assunto. Partamos do princípio que essa «pessoa respeitável» não «saiba», mas calcule que eu gosto de ti. Como há-de haver uma base para calcular isso, é que essa pessoa viu entre nós qualquer troca de olhares, notou entre nós (ou, antes, neste caso, de mim para ti) qualquer coisa. Quer dizer que é pessoa aqui do escritório, ou que aqui vem bastante, ou, ainda, que recebe informações de quem aqui vem bastante. Mas, para poder, ainda que por informações alheias, afirmar que sim, que na verdade eu gosto de ti, essa pessoa, não sendo nenhuma que aqui venha ao escritório, só pode ser alguém ou da família de meu primo (a quem ele tivesse falado das «suspeitas» que tem de vez em quando de eu gost(ar) de ti) ou da família do Osório.
Isto são tudo suposições, e mesmo esta de ser uma pessoa da família de gente cá do escritório, é levar muito longe a tolerância para uma afirmação como a de essa pessoa saber que eu gosto de ti.
Se já quase ninguém há (ninguém que o saiba por confidência minha, quase ninguém que o «calcule» de qualquer modo) que possa saber ao certo se eu te amo; menos há aí então não há ninguém que seja capaz de dizer que eu não te amo com ideias sérias. Para isso era preciso estar dentro de meu coração; e, ainda assim, era preciso ver mal, pois o que se via era asneira.
Quanto à afirmação da «mulher» que eu tenho, se não é inventada por ti para te arredares de mim, faz à pessoa respeitável (se ela existe) que informou tua irmã as seguintes perguntas:
1. Que mulher é?
2. Onde é que eu vivi ou vivo com ela, onde é que a vou ver (se nos supõem dois amantes vivendo em casas separadas), há quanto tempo tenho eu essa mulher?
3. Outras quaisquer informações indicando ou definindo essa «mulher».
Se toda a história não é invenção tua, garanto-te que dás com uma «retirada» imediata da pessoa que informou, a «retirada» de todos quantos são apanhados a mentir. E se a dita «pessoa respeitável» tiver o descaramento de dar detalhes, basta tu verificá-los, investigá-los. Verás que são mentiras, do princípio ao fim.
Ah, o que isto tudo é é um enredo qualquer muito infame, mas, como muitas coisas infames, muito estúpido para me afastar de ti! De quem partirá o enredo? Ou não haverá enredo nenhum, e será isto simplesmente um pé que tu arranjas para te veres livre de mim? Sei lá... Suponho tudo; tenho o direito de supor tudo.
Mas francamente eu merecia ser mais bem tratado pelo Destino do que estou sendo pelo Destino, e pelas pessoas.
Vamos ver se consigo que esta carta te vá parar às mãos ainda hoje, sob qualquer pretexto. Se não, entregar-ta-ei amanhã, quando aqui nos encontrarmos, ao meio dia e meia hora.
Lê bem a carta junta, que te escrevi hoje de madrugada e se desencontrou contigo, pois o Osório a levou quando aqui vieste. Vê o que é escrever uma carta, e depois receber a série de notícias e «graças» que me deste.

P. S.

Afinal qual é a verdade no meio de tu
319 Fernando Pessoa

Vibra, clarim, cuja voz diz
Que outrora ergueste o grito real
Por D.&João,&Mestre&de&Avis,
E Portugal.

Vibra, grita aquele hausto fundo
Com que impeliste, como um remo,
Em El-Rei&D.&João&Segundo
O Império extremo!

Vibra, sem lei ou com a lei,
Como aclamaste outrora em vão
O morto que hoje é vivo – El-Rei
D.&Sebastião!

Vibra chamando, e aqui convoca
O inteiro exército fadado
Cuja extensão os pólos toca
Do mundo dado!

Aquele exército que é feito
De quanto em Portugal é o mundo
E enche este mundo vasto e estreito
De ser profundo.

Para a obra que há que prometer
Ao nosso esforço alado em si,
Convoco todos sem saber
(É a Hora!) aqui!

Os que, soldados da alta glória,
Deram batalhas com um nome,
E de cuja alma a voz da história
Tem sede e fome.

E os que, pequenos e mesquinhos,
No ver e crer da externa sorte,
Calçaram imperiais caminhos
Com vida e morte.

Sim, estes, os plebeus do Império,
Heróis sem ter para quem o ser,
Chamo-os aqui, ó som etéreo
Que vibra o arder!

E os que sonharam, enlevados,
No Outro Império que sorri
Além do mundo e os céus fechados
Aqui! Aqui! –

E, se o futuro é já presente
Na visão de quem sabe ver,
Convoco aqui eternamente
Os que hão-de ser!

Todos, todos! A hora passa,
O génio colhe-a quando vai.
Vibra! Forma outra e a mesma raça
Da que se esvai.

A todos, todos, jeitos num
Que é Portugal, sem lei nem fim,
Convoca, e, erguendo-os um a um,
Vibra, clarim!

E outros, e outros, gente vária,
Oculta neste mundo misto.
Seu peito atrai, rubra e templária,
A Cruz de Cristo.

Glosam, secretos, altos motes
Dados no idioma do Mistério –
Soldados não, mas sacerdotes,
Do Quinto&Império.

Aqui! Aqui! Todos que são
O Portugal que é tudo em si.
Venham do abismo ou da ilusão.
Todos aqui!

Armada intérmina surgindo,
Sobre ondas de uma visão estranha,
Do que por haver ou do que é vindo –
É o mesmo: venha!

Vós não soubestes o que havia
No fundo incógnito da raça,
Nem como a Mão, que tudo guia,
Seus planos traça.

Mas um instinto involuntário,
Um ímpeto de Portugal,
Encheu vosso destino vário
De um dom fatal.

De um rasgo de ir além de tudo,
De passar para além de Deus.
E, abandonando o gládio e o escudo,
Galgar os céus.

Titãs de Cristo! Cavaleiros
De uma cruzada além dos astros,
De que esses astros, aos milheiros,
São só os rastros.

Vibra, estandarte feito som,
No ar do mundo que há-de ser.
Nada pequeno é justo e bom.
Vibra o vencer!

Transcende a Grécia e a sua história
Que em nosso sangue continua!
Deixa atrás Roma e a sua glória
E a Igreja sua!

Depois transcende esse furor
E a todos chama ao mundo visto,
Hereges por um Deus maior
E um novo Cristo!

Vinde aqui todos os que sois,
Sabendo-o bem, sabendo-o mal,
Poetas, ou Santos ou Heróis
De Portugal.

Não foi pra servos que nascemos
De Grécia ou Roma ou de ninguém.
Tudo negamos e esquecemos:
Fomos para além.

Vibra, clarim, mais alto! Vibra!
Grita a nossa ânsia já ciente
Que o seu inteiro voo livra
De poente a oriente.

Vibra, clarim! A todos chama!
Vibra! E tu mesmo, voz a arder,
O Portugal de Deus proclama
Com o fazer!

O Portugal feito Universo,
Que reúne, sob amplos céus,
O corpo anónimo e disperso
De Osíris, Deus.

O Portugal que se levanta
Do fundo surdo do Destino,
E, como a Grécia, obscuro canta
Baco divino.

Aquele inteiro Portugal,
Que, universal perante a Luz,
Reza, ante a Cruz universal;
Ao Deus Jesus.


1923-1935
321 Fernando Pessoa

LUÍS DE MONTALVOR


Há duas espécies de poetas – os que pensam o que sentem, e os que sentem o que pensam.
A terceira espécie apenas pensa ou sente, e não escreve versos, sendo por isso que não existe.
Aos poetas que pensam o que sentem chamamos românticos; aos poetas que sentem o que pensam chamamos clássicos. A definição inversa é igualmente aceitável.
Em Luís&de&Montalvor, autor de um livro de POEMAS a aparecer em breve, a sensibilidade se confunde com a inteligência – como em Mallarmé, porém diferentemente – para formar uma terceira faculdade da alma, infiel às definições. Tanto podemos dizer que ele pensa o que sente, como que sente o que pensa. Realiza, como nenhum outro poeta vivo, nosso ou estranho, a harmonia entre o que a razão nega e o que a sensibilidade desconhece. O resultado – poemas subtis, irreais, quase todos admiráveis – pode confundir os que esperam encontrar na originalidade um velho conhecimento, e no imprevisto o que já sabiam. Mas para os que esperam o que nunca chega, e por isso o alcançam, a surpresa dos seus versos é a surpresa da própria inteligência em se encontrar sempre diferente de si mesma, e em verificar sempre de novo que cada homem é, em sua essência, um conceito do universo diferente de todos os outros. E como, visto que tudo é essencialmente subjectivo, um conceito do universo é ele mesmo o próprio universo, cada homem é essencialmente criador. Resta que saiba que o é, e que saiba mostrar que o sabe: é a essa expressão, quando profunda, que chamamos poesia.
Não nos ilude Luís de Montalvor na expressão essencial dos seus versos: vive num mundo seu, como todos nós; mas vive com vida num mundo seu, ao passo que a maioria, em verso ou prosa, morre o universo que involuntariamente cria.
Palavras estranhas, porém verdadeiras. Como poderiam ser verdadeiras se não fossem estranhas?


publicado em O Imparcial, Lisboa, 15/07/1927)
325 Fernando Pessoa

Essa revolução seria preferivelmente mundial, simultânea em todos os pontos, ou os pontos importan

– Essa revolução seria preferivelmente mundial, simultânea em todos os pontos, ou os pontos importantes, do mundo; ou, não sendo assim, partindo rapidamente de uns para outros, mas, em todo o caso, em cada ponto, isto é, em cada nação, fulminante e completa.
«Muito bem. O que podia eu fazer para esse fim? Só por mim, não a poderia fazer a ela, à revolução mundial, nem mesmo poderia fazer a revolução completa na parte referente ao país onde estava. O que podia era trabalhar, na inteira medida do meu esforço, para fazer a preparação para essa revolução. Já lhe expliquei como: combatendo, por todos os meios acessíveis, as ficções sociais; não estorvando nunca ao fazer esse combate ou a propaganda da sociedade livre, nem a liberdade futura, nem a liberdade presente dos oprimidos; criando já, sendo possível, qualquer coisa da futura liberdade.
Puxou fumo; fez uma leve pausa; recomeçou.
– Ora aqui, meu amigo, pus eu a minha lucidez em acção. Trabalhar para o futuro, está bem, pensei eu; trabalhar para os outros terem liberdade, está certo. Mas então eu? Eu não sou ninguém? Se eu fosse cristão, trabalhava alegremente pelo futuro dos outros, porque lá tinha a minha recompensa no céu; mas também, se eu fosse cristão, não era anarquista, porque então as tais desigualdades não tinham importância na nossa curta vida: eram só condições da nossa provação, e lá seriam compensadas na vida eterna. Mas eu não era cristão, como não sou, e perguntava-me: mas por quem é que eu me vou sacrificar nisto tudo? Mais ainda: porque é que eu me vou sacrificar?
«Vieram-me momentos de descrença; e você compreende que era justificada... Sou materialista, pensava eu; não tenho mais vida que esta; para que hei-de ralar-me com propagandas e desigualdades sociais, e outras histórias, quando posso gozar e entreter-me muito mais se não me preocupar com isso? Quem tem só esta vida, quem não crê na vida eterna, quem não admite lei senão a Natureza, quem se opõe ao estado porque ele não é natural, ao casamento porque ele não é natural, ao dinheiro porque ele não é natural, a todas as ficções sociais porque elas não são naturais, porque carga d'água é que defende o altruísmo e o sacrifício pelos outros, ou pela humanidade, se o altruísmo e o sacrifício também não são naturais? Sim, a mesma lógica que me mostra que um homem não nasce para ser casado, ou para ser português, ou para ser rico ou pobre, mostra-me também que ele não nasce para ser solidário, que ele não nasce senão para ser ele próprio, e portanto o contrário de altruísta e solidário, e portanto exclusivamente egoísta.
«Eu discuti a questão comigo mesmo. Repara tu, dizia eu para mim, que nascemos pertencentes à espécie humana, e que temos o dever de ser solidários com todos os homens. Mas a ideia de "dever" era natural? De onde é que vinha esta ideia de "dever"? Se esta ideia de dever me obrigava a sacrificar o meu bem-estar, a minha comodidade, o meu instinto de conservação e outros meus instintos naturais, em que divergia a acção dessa ideia da acção de qualquer ficção social, que produz em nós exactamente o mesmo efeito?
«Esta ideia de dever, isto de solidariedade humana, só podia considerar-se natural se trouxesse consigo uma compensação egoísta, porque então, embora em princípio contrariasse o egoísmo natural, se dava a esse egoísmo uma compensação, sempre, no fim de contas, o não contrariava. Sacrificar um prazer, simplesmente sacrificá-lo, não é natural; sacrificar um prazer a outro, é que já está dentro da Natureza: é, entre duas coisas naturais que se não podem ter ambas, escolher uma, o que está bem. Ora que compensação egoísta, ou natural, podia dar-me a dedicação à causa da sociedade livre e da futura felicidade humana? Só a consciência do dever cumprido, do esforço para um fim bom; e nenhuma destas coisas é uma compensação egoísta, nenhuma destas coisas é um prazer em si, mas um prazer, se o é, nascido de uma ficção, como pode ser o prazer de ser imensamente rico, ou o prazer de ter nascido em uma boa posição social.
«Confesso-lhe, meu velho, que me vieram momentos de descrença... Senti-me desleal à minha doutrina, traidor a ela... Mas em breve passei sobre tudo isto. A ideia de justiça cá estava, dentro de mim, pensei eu. Eu sentia-a natural. Eu sentia que havia um dever superior à preocupação só cá do meu destino. E fui para diante na minha intenção.
– Não me parece que essa decisão revelasse uma grande lucidez da sua parte... Você não resolveu a dificuldade... Você foi para diante por um impulso absolutamente sentimental...
– Sem dúvida. Mas o que lhe estou contando agora é a história de como me tornei anarquista, e de como o continuei sendo; e continuo. Vou-lhe expondo lealmente as hesitações e as dificuldades que tive, e como as venci. Concordo que, naquele momento, vencia a dificuldade lógica com o sentimento, e não com o raciocínio. Mas você há-de ver que, mais tarde, quando cheguei à plena compreensão da doutrina anarquista, esta dificuldade, até então logicamente sem resposta, teve a sua solução completa e absoluta.
– É curioso...
– É... Agora deixe-me continuar na minha história. Tive esta dificuldade, e resolvia-a, se bem que mal, como lhe disse. Logo a seguir, e na linha dos meus pensamentos, surgiu-me outra dificuldade que também me atrapalhou bastante.
«Estava bem – vamos lá – que estivesse disposto a sacrificar-me, sem recompensa nenhuma propriamente pessoal, isto é, sem recompensa nenhuma verdadeiramente natural. Mas suponhamos que a sociedade futura não dava em nada do que eu esperava, que nunca havia a sociedade livre, a que diabo é que eu, nesse caso, me estava sacrificando? Sacrificar-me a uma ideia sem recompensa pessoal, sem eu ganhar nada com o meu esforço por essa ideia, vã; mas sacrificar-me sem ao menos ter a certeza de que aquilo, para que eu trabalhava, existiria um dia, sem que a própria ideia ganhasse com o meu esforço – isso era um pouco mais forte... Desde já lhe digo que resolvi a dificuldade pelo mesmo processo sentimental por que resolvi a outra; mas advirto-o também que, do mesmo modo que a outra, resolvi esta pela lógica, automaticamente, quando cheguei ao estado plenamente consciente do meu anarquismo... Você depois verá... Na altura do que lhe estou contando, saí-me do apuro com uma ou duas frases ocas. "Eu fazia o meu dever para com o futuro; o futuro que fizesse o seu para comigo"... Isto, ou coisa que o valha...
«Expus esta conclusão, ou, antes, estas conclusões, aos meus camaradas, e eles concordaram todos comigo; concordaram todos que era preciso ir prá frente e fazer tudo pela sociedade livre. É verdade que um ou outro, dos mais inteligentes, ficaram um pouco abalados com a exposição, não porque não concordassem, mas porque nunca tinham visto as coisas assim claras, nem os bicos que estas coisas têm... Mas enfim, concordaram todos... Iríamos todos trabalhar pela grande revolução social, pela sociedade livre, quer o futuro nos justificasse, quer não! Formámos um grupo, entre gente certa, e começámos uma grande propaganda – grande, é claro, dentro dos limites do que podíamos fazer. Durante bastante tempo, no meio de dificuldades, embrulhadas, e por vezes perseguições, lá fomos trabalhando pelo ideal anarquista.
O banqueiro, chegado aqui, fez uma pausa um pouco mais longa. Não acendeu o charuto, que estava outra vez apagado. De repente teve um leve sorriso, e, com o ar de quem chega ao ponto importante, fitou-me com mais insistência e prosseguiu clarificando mais a voz e acentuando mais as palavras.
– Nesta altura, disse ele, apareceu uma coisa nova. "Nesta altura" é modo de dizer. Quero dizer que, depois de alguns meses desta propaganda, comecei a reparar numa nova complicação, e esta é que era a mais séria de todas, esta é que era séria a valer...
«Você recorda-se, não é verdade?, daquilo em que eu, por um raciocínio rigoroso, assentei que devia ser o processo de acção dos anarq
342 Fernando Pessoa

CARTA X


Lisboa, 19 de Fevereiro de 1915.

Meu querido Amigo:

Naturalmente receberei daqui a dias, enfim, carta sua. É com urgência que lhe escrevo esta; mal tenho tempo para lhe escrever esta mala, mas há a urgência que consta do seguinte, para o que peço a sua, não melhor, mas óptima atenção.
Vai entrar imediatamente no prelo a nossa revista, Orpheu, de que é director em Portugal um poeta, Luís de Montalvor, amigo íntimo do Sá-Carneiro, e meu amigo também, e no Brasil um dos interessantes e nossos dos poetas brasileiros de hoje, Ronald&de&Carvalho.
Vai entrar amanhã mesmo no prelo. Deve ter perto de 80 páginas, e é trimestral. Se você mandar colaboração para chegar aqui no vapor do princípio do mês que vem era óptimo. Não nos falte. Seria para nós um grande desgosto que a revista aparecesse sem você colaborar.
Naturalmente teremos ocasião de publicar umas 6 páginas suas, a página contendo ou 2 sonetos ou 6 quadras – isto para você fazer ideia do tamanho. Mande quanto original você possa, excedendo bastante o necessário; você não se importará naturalmente que eu aqui escolha de entre essas poesias as mais adaptadas ao nosso fim?
Não se importa, com certeza. Por isso não falte.
Olhe que a revista vai amanhã entrar na tipografia, começar a compor-se. Você tem tempo, mas não perca o vapor. Mande quanto possa pelo primeiro. Mande o mais interseccionista que tiver – não as Odes Proféticas, por exemplo. Mande coisas género Outro (não tenho aqui a cópia) e coisas análogas. NÃO NOS FALTE.
Meus cumprimentos a seu Pai. Um grande abraço do todo e sempre seu

Fernando Pessoa

P.S. Se puder registe a carta, para não se perder. Meu endereço (lembra-se?):

Fernando Pessoa
Na casa A. Xavier Pinto e Cª
Campo das Cebolas, 43
Lisboa

A casa comercial onde está mudou de firma agora. Mas não fazia mal pôr o nome antigo.
351 Fernando Pessoa

INITIATION [4(CONTINUAÇÃO)

the essay on INITIATION

There were three reasons why, in the pagan religions, certain truths, or things thought to be truths. were delivered only in secrecy and apartness, by initiation. The first reason was a social one: it was thought that those certain truths were unfit for delivery to any man, unless he was in a certain measure prepared to receive. and that they would have disastrous social effects if they were made public, for that would mean that they would be misunderstood. «Etiamsi revelare destruere est...» The second reason was a philosophic one: it was thought that, in themselves, such truths were not of a kind that the common man could understand, and that mental confusion and therefore unbalance in conduct would result from their being uselessly communicated to him. The third reason was, so to speak, a spiritual one: it was thought that such truths, being truths of the inner life. should not be communicated but suggested, and that the suggestion should be impressive, it had to be girt round with secrecy, that it might be felt to be valuable, with ritual. that it might impress and astonish, with symbols, that the candidate be forced to work out his own way, hi striving to interpret the symbols, instead of thinking himself full of knowledge, if communication had been made by dogmatic or philosophic teaching.
I do not say that these three reasons stood clear, either severally or together yet divided thus, in the minds of the ancients, priests or laymen of their religions. But I do say that. if not by direct intelligence, then at least by intuition, they based their religions on this divisional scheme.
The religions of the ancients, and preeminently so the pagan religions of Greece and Rome, which are those that most concern us, since our minds are their children, were divided into three forms. There was a social form, the cultus, which was of the man as citizen There was an individual form. the poetry, which was of the man as non citizen; the cultus duly fulfilled, he could interpret to himself the gods as he chose and elaborate their legends as he best thought fit. And there was a secret form, initiation, which participated in secrecy of the characteristics of both: it was individual, because (even when initiation is collective, as it was in the great pagan Mysteries) it is always the individual who is initiated and not the group; it was social. because initiation was communicated in ritual and ritual is social.
Which with the Christians is rare]i ]inked or fused with poetry as it was with the pagans. (We will not understand the middle ages until we understand that theology was their poetry, that the lack of poetry then was but the presence of poetry under another form).
Al religions, however, are in the same state as the great pagan religions. The three forms of religion will be found, one way or another, in all. In the Christian religions, for instance, we have the public cult, be it highly ceremonial, as in the Roman Church, or poor to nakedness, as in the extreme Protestant dissensions; we have the individual religion, meaning the personal reflection on the dogmas and formulae of faith, and this is theology where (with the pagans) it was rather poetry; and we have the inner life of the Christian, which is his initiation, for in the Christian religions initiation is considered as given by Christ alone mystically, not by any priest or hierophant ritually or ceremonially. In other words – the exacter meaning of which will be understood later –, pagan initiation moved towards Magic, as al ritual initiations do, Christian initiation moved towards Mysticism, as do al meditative initiations; it will also be seen later that there is a third type of initiation.
Whatever be the number of grades, outward or inward, in the scale of ascent towards Truth. they may be considered as three – Neophyte, Adept and Master. In reality the grades are ten four under Neophyte, Adept and three (no to speak) under Master. There are really five under Neophyte, hut the first grade is not numbered. There are also two intergrades, falling between the first and second, and the second and third orders, and these are unnumbered too. The unnumbered grades are grades of probation whereas the others are. each within its measure, grades of attainment.
The Neophyte, throughout the grades which this expression describes, is essentially a learner ; his way is towards the completion of knowledge in the outer sphere. In the Adept, throughout his three steps. there is a progress in the unifying of knowledge with life. In the Master there is, or is said to be, a destruction of the unity thus attained in virtue of a higher unity.
A comparison with simpler things will, I think, render this clear. Let us suppose that the writing of great poetry is the end of initiation. The Neophyte stage will be the acquisition of the cultural elements which the poet will have to deal with in writing poetry – being, grade by grade ana in what seems to me to be an exact analogy: (0) grammar, (1) general culture, (2) particular literary culture, (3) The Adept stage will be, drawing out the analogy in the same manner: (4) the writing of simple lyrical poetry, as in a common lyric, (5) the writing of complex lyrical poetry, as in (7) the writing of ordered or philosophical lyrical poetry, as in the ode. The Master stage will be, in the same manner: (8) the writing of epic poetry, (9) the writing of dramatic poetry, (10) the fusing of all poetry, lyric, epic and dramatic, into something beyond all these.
Three remarks will occur to the reader of this literary analogy. The first is that one can be a poet without the Neophyte grades, an Adept of the first Adept grade without even «taking» the first Neophyte one. The second is that, the progression stated throughout does not correspond to what usually happens in life. be it that of a poet or of any other man. The third is that a fusing of all poetry, lyric, epic dramatic, into something beyond all three is an attainment passing understanding.
I have made the reader make these remarks that I may, by replying to them, complete the analogy with an explanation.
As to the first remark. The first Adept grade is indeed the first real grade of real initiation. A simple mystic, who fuses his faith and his life, has attained to the beginning of real initiation, whereas the perfected Neophyte, in whom faith (or knowledge) and life are still separate, has not attained it. But if the spontaneous Adept has reached the Fifth Grade without having passed the first five (which include the Zero grade) he will be kept standing for a long time at the entry of the Middle Chamber, where the first grade of adeptship may conveniently be said to be «placed». To pass to the Sixth Grade he will have to come back, in a sense, to the beginning.

(Esp. 54B-17/18)
358 Fernando Pessoa

CARTA II

Caixa Postal 147

Lisboa, 20 de Janeiro de 1935.

Meu querido Camarada:

Muito obrigado pela sua carta. Ainda bem que consegui dizer alguma coisa que deveras interessasse. Cheguei a duvidar de que o fizesse, pela maneira precipitada e corrente como lhe escrevi, ao sabor da conversa mental que estava tendo consigo.
Respondo e com igual espontaneidade, portanto falta de método e de arrumação, à sua carta agora recebida. Mas, enfim, qualquer coisa respondo. Sigo ao acaso os pontos a que tenho de responder.
Quanto ao seu estudo a meu respeito, que desde já, por o que é de honroso, muito lhe agradeço: deixe-o para depois de eu publicar o livro grande em que congregue a vasta extensão autónima do Fernando Pessoa. Salvo qualquer complicação imprevista, deverei ter esse livro feito e impresso em Outubro deste ano. E então V. terá os dados suficientes: esse livro, a faceta subsidiária representada pela Mensagem, e o bastante, já publicado, dos heterónimos. Com isto já o Casais&Monteiro poderá ter uma «impressão de conjunto», supondo que em mim haja qualquer coisa tão contornada como um conjunto.
Em tudo isto, reporto-me simplesmente à poesia, não sou porém limitado a esse sorriso das letras. Mas, quanto à prosa, já me conhece, e o que há publicado é o bastante. Até à data que indico como provável para o aparecimento do livro maior devem estar publicados o Banqueiro&Anarquista (em nova forma e redacção), uma novela policiária (que estou escrevendo e não é aquela a que me referi na carta anterior) e mais um ou outro escrito que as circunstâncias possam evocar.
É extraordinariamente bem feita a sua observação sobre a ausência que há em mim do que possa legitimamente chamar-se uma evolução qualquer. Há poemas meus, escritos aos vinte anos, que são iguais em valia – tanto quanto posso apreciar – aos que escrevo hoje. Não escrevo melhor do que então, salvo quanto ao conhecimento da língua portuguesa – caso cultural e não poético. Escrevo diferentemente. Talvez a solução do caso esteja no seguinte.
O que sou essencialmente – por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais haja – é dramaturgo. O fenómeno da minha despersonalização instintiva a que aludi em minha carta anterior, para explicação da existência dos heterónimos, conduz naturalmente a essa definição. Sendo assim, não evoluo, VIAJO. (Por um lapso na tecla das maiúsculas saiu-me, sem que eu quisesse, essa palavra em letra grande. Está certo, e assim deixo ficar). Vou mudando de personalidade, vou (aqui é que pode haver evolução) enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo. Por isso dei essa marcha em mim como comparável, não a uma evolução, mas a uma viagem: não subi de um andar para outro; segui, em planície, de um para outro lugar. Perdi, é certo, algumas simplezas e ingenuidades, que havia nos meus poemas de adolescência; isso, porém, não é evolução, mas envelhecimento.
Creio ter dado, nestas palavras apressadas, qualquer vislumbre de uma ideia nítida do em que concordo com, e aceito, o seu critério de que em mim não tem havido propriamente evolução.
Refiro-me, agora, ao caso da publicação de livros meus num futuro próximo. Não há razão para se preocupar com dificuldades nesse sentido. Se quiser realmente publicar o Caeiro, o Ricardo Reis e o Álvaro de Campos, posso fazê-lo imediatamente. Sucede, porém, que receio a nenhuma venda de livros desse género e tipo. A hesitação está só aí. Quanto ao livro grande de versos, esse, como qualquer outro, tem desde já a publicação garantida. Se penso mais nesse do que noutro, é que acho mais vantagem mental na publicação dele, e, apesar de tudo, menos risco de inêxito na sua edição.
Quanto à publicação do Banqueiro Anarquista em inglês, também aí não haverá, creio eu, mas por outras razões, dificuldade notável. Se na obra houver capacidade de interesse para o mercado inglês, o agente literário a quem eu a enviar, a colocará mais tarde ou mais cedo. Não será preciso recorrer ao apoio do Richard Aldington, cuja indicação todavia, muito lhe agradeço. Os agentes literários (respondo agora à sua pergunta sobre o que são) são indivíduos, ou firmas, que colocam os livros ou escritos dos autores junto de editores ou directores de jornais, que eles, melhor que os autores, avaliam quais devem ser, mediante uma comissão, em geral de dez por cento. Neste ponto, sei o que hei-de fazer e a quem me hei-de dirigir – coisa rara, aliás, em mim, em qualquer circunstância prática da vida.
Abraça-o o camarada amigo e admirador

Fernando Pessoa


(publicada no Diário Popular, Lisboa, 09/09/1943)
361 Fernando Pessoa

O CASO ALEISTER CROWLEY

Os Mistérios da Boca do inferno

O nosso jornal trata a seguir dum caso em extremo curioso, que o nosso prezado colega Diário de Notícias relatou um destes dias. Trata-se do aparecimento duma carta e duma cigarreira, deixada por um célebre escritor inglês, misto de aventureiro e de artista, que esteve há semanas entre nós, e cujo desaparecimento não está absolutamente esclarecido. Evidentemente nada sabemos ao certo sobre o assunto. Mas, corno tivesse sido um redactor deste jornal a pessoa que achou os misteriosos objectos, a ele recorremos para que, com a verdade a que a sua profissão obriga, e com o escrúpulo que o assunto requer, relate aos nossos leitores o que pessoalmente sabe dos factos em questão. Tem pois a palavra o jornalista Ferreira Gomes:

À LAIA DE PRÓLOGO – QUEM É ALEISTER CROWLEY – NOTAS BIOGRÁFICAS – O ACHADO – O QUE DISSE O PORTEIRO DO HOTEL DE L'EUROPE – A DECLARAÇÃO DA PARTIDA PARA SINTRA NO DIA 23.

Quando, em Portugal, se pratica qualquer crime que a polícia, apesar dos seus enormes esforços, não consegue descobrir, a aplicação popular do nenhum resultado das investigações é que se tratou de qualquer crime político, envolto nebulosamente pela impenetrabilidade das associações secretas...
Quando em Lisboa se dá qualquer acontecimento misterioso – afora do chá morno do normal provinciano – a desculpa, para os que não sabem raciocinar, é que o sucesso não passou de blague ou de reclame, à americana...
Ora isto é simplesmente cómodo. No primeiro caso exposto, ninguém fala na energia que a polícia gasta, nas vigílias e canseiras, no trabalho, enfim, que a mesma tem e do desgosto que há-de sentir quando não pode descobrir os criminosos.
No segundo caso também ninguém concebe o misterioso, sem uma finalidade íntima de negociata ou de reclame. O facto é que existem casos – não só em Portugal mas em todo o mundo – que para sempre ficam envoltos na sombra, crimes que jamais são punidos, e acontecimentos misteriosos para os quais, também, nunca há explicação.
E, posto isto, vamos aos factos:

Na tarde do dia 25 do corrente – já o Diário de Notícias desenvolvidamente narrou em primeira mão – encontrei, na «Boca do Inferno», junto à abertura conhecida pelo nome de «Mata Cães» uma carta sobre a qual pesava uma cigarreira.
(Pelas gravuras que acompanham este artigo poderão os leitores verificar a existência destes objectos. No decorrer da narrativa se encontrará a tradução da carta.)
O achado era estranho mas não lhe dei uma importância de maior.
Como sei pouco inglês – a carta além dos sinais enigmáticos estava escrita nessa língua – só me chamou a atenção a frase «Boca do Infierno», na mesma intercalada no resto do texto. Em Cascais, durante o jantar, examinei melhor a carta. Como acima disse, tenho poucos conhecimentos de inglês, mas, dada a minha curiosidade, consegui, não sem esforço de atenção perceber a primeira frase: «Não posso viver sem ti.» Ora, ligando essa frase ao local onde encontrara a carta, local atrás citado na mesma, fui obrigado – e qualquer pessoa o seria – a dar mais atenção ao assunto.
Tinha dois pontos de referência. O papel do hotel e o nome da destinatária. Optei pelo primeiro por ser o imediatamente acessível. E foi assim que o porteiro do Hotel de L'Europe me disse ter lá estado hospedada Miss Hanni L. Jaeger, mas que dias antes – a 19 – se havia retirado.
Disse eu, então, que tinha encontrado um objecto de sua pertença, ao que o porteiro me retorquiu: – Quem o poderá informar do paradeiro dessa senhora é um hóspede que a acompanhava quando veio para Lisboa e que, presentemente, se encontra em Sintra, no Hotel Central...
– O seu nome? – perguntei.
Analisando o livro dos hóspedes, soube que a pessoa em questão se chamava Edward A. Crowley.
Ora este nome lembrou-me imediatamente o de Aleister&Crowley, o célebre escritor tão atacado em Inglaterra pelo exotismo dos seus livros e pelas suas múltiplas habilidades. Para elucidação dos leitores dou a seguir a sua biografia:

Edward Alexander Crowley – literariamente Aleister Crowley – nasceu em Leamington, Inglaterra, em 12 de Outubro de 1875. Frequentou Cambridge, donde saiu antes de se formar. Fez, na América, durante a Grande Guerra, a contra-espionagem a favor da Inglaterra e de tal maneira se houve que conseguiu escangalhar todos os manejos germânicos.
James Douglas, no Daily Express, chamou-lhe «um monstro de perversidade». Horatio Bottomley, no John Bull, chamou-lhe um «vil degenerado». Os sucessores de Bottomley (John Bull, Maio de 1929) chamaram-lhe o «pior homem da Inglaterra». Crowley chama-se a si próprio o Mestre&Therion e intitula as suas Confissões uma auto-hagiografia – ou seja – a autobiografia de um santo.
Os factos acerca da Aleister Crowley, à parte os ataques jornalísticos, nunca foram bem conhecidos. É um erudito e um gentleman, poeta, místico, caçador de feras, prático de rituais mágicos, químico, e jogador de xadrez. Alpinista, já subiu aos Alpes, aos Himalaias e aos vulcões do México – coisas que não são bem características de um degenerado. Atravessou, a pé, o Sara, a Espanha e a China. Viveu como iógui numa aldeia da Índia, como castelão na Escócia, como boémio em Londres, Paris e Nova Iorque. Visitou Moscovo e fundou em Itália, na Vila Santa Bárbara – Cefalu, Sicília –, uma Fraternidade Mística.
A sua produção literária é enorme e inconfundível. Quase todas as suas publicações, feitas em edições reservadas, são hoje raridades bibliográficas. Os seus próprios inimigos não negam a força dramática, o espírito, a elegância, a erudição e a virilidade do seu estilo literário. Os seus contos, sobretudo, são modelos de construção dramática. Nunca foram dados à estampa em edições para o público. Este homem extraordinário também é pintor.
Uma nota curiosa: Foi um dos mais íntimos amigos do grande escultor Rodin.

Foi, pois, natural que ao verificar o nome de Edward A. Crowley me lembrasse do de Aleister Crowley e que – dado os mistérios conhecidos desse indivíduo – o ligasse à carta (estranha nos sinais, para mim incompreensíveis) que tinha encontrado.
Telefonou-se, ali mesmo, para o Hotel Central, em Sintra. Crowley não estava, nem lá se tinha hospedado! Verifiquei depois que também não se encontrava em nenhum outro hotel dessa vila. Procurei obter, a seguir, a tradução da carta, na parte traduzível. E por ela e ainda porque, antes de mais nada, sou jornalista, verifiquei que tinha nas mãos – pelo menos – uma esplêndida notícia.
Essa notícia não pôde ser publicada no jornal de 25, o que se efectivou no dia seguinte. E assim, às três horas da tarde desse mesmo dia, fui fazer a entrega do meu achado ao Ex.mo Sr. Dr. Alexandrino de Albuquerque.

AS FICHAS DE CROWLEY E DE MISS JAEGER – A PASSAGEM DA FRONTEIRA EM 29 – O RECONHECIMENTO DA LETRA E DA CIGARREIRA.

Muito atencioso, o Sr. Dr. Alexandrino de Albuquerque ouviu a minha breve exposição e mandou, imediatamente, à repartição respectiva, buscar as fichas de Mr. Crowley e de Miss Jaeger.
Teve palavras amáveis para o jornalista e citou nessa altura, no meio da conversa, a necessidade crescente que tem a nossa polícia – com tantas e tão grandes qualidades de honradez e disciplina – de se aperfeiçoar nos novos processos do crime para, assim, com outra preparação, estar apta a poder enfrentar os criminosos complicados que, embora felizmente não abundem, já vão aparecendo em Portugal.
Tinha chegado a ficha de Crowley. Dava-o como saído pela fronteira de Vilar Formoso no dia 23. Estava, aparentemente o caso arrumado. Se Crowley saíra é porque não estava cá. Nesta altura apresentou-se ao Sr. Dr. Alexandrino de Albuquerque o escritor Fernando Pessoa – diga-se de passagem uma das mais interessantes, se não a mais interessante e superior mentalidade da minha geraç
364 Fernando Pessoa

FICÇÕES DO INTERLÚDIO

FICÇÕES&DO&INTERLÚDIO

I

PLENILÚNIO

As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar –

A expirar mas nunca expira –
Uma flauta que delira,

Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila

Pelo ar a ondear e a ir...

Silêncio a tremeluzir...


II

SAUDADE&DADA

Em horas inda louras, lindas
Clorindas e Belindas, brandas,
Brincam no tempo das berlindas,
As vindas vendo das varandas.
De onde ouvem vir a rir as vindas
Fitam a fio as frias bandas.

Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!
E em tom de atoarda todo o alarde
Do adornado ardor transtorna
No ar de torpor da tarda tarde.

E há nevoentos desencantos
Dos encantos dos pensamentos
Nos santos lentos dos recantos
Dos bentos cantos dos conventos...
Prantos de intentos, lentos, tantos
Que encantam os atentos ventos.


III

PIERROT BÊBEDO

Nas ruas da feira,
Da feira deserta,
Só a lua cheia
Branqueia e clareia
As ruas da feira
Na noite entreaberta.

Só a lua alva
Branqueia e clareia
A paisagem calva
De abandono e alva
Alegria alheia.

Bêbeda branqueia
Como pela areia
Nas ruas da feira.
Da feira deserta,
Na noite já cheia
De sombra entreaberta.

A lua branqueia
Nas ruas da feira
Deserta e incerta...


IV

MINUETE INVISÍVEL

Elas são vaporosas,
Pálidas sombras, as rosas
Nadas da hora lunar...

Vêm, aéreas, dançar
Com perfumes soltos
Entre os canteiros e os buxos...
Chora no som dos repuxos
O ritmo que há nos seus vultos...

Passam e agitam a brisa...
Pálida, a pompa indecisa
Da sua flébil demora
Paira em auréola à hora...

Passam nos ritmos da sombra...
Ora é uma folha que tomba,
Ora uma brisa que treme
Sua leveza solene...

E assim vão indo, delindo
Seu perfil único e lindo,
Seu vulto feito de todas,
Nas alamedas, em rodas,
No jardim lívido e frio...

Passam sozinhas, a fio,
Como um fumo indo, a rarear,
Pelo ar longínquo e vazio,
Sob o, disperso pelo ar,
Pálido pálio lunar...


V

HIEMAL

Baladas de uma outra terra, aliadas
Às saudades das fadas, amadas por gnomos idos,
Retinem lívidas ainda aos ouvidos

Dos luares das altas noites aladas
Pelos canais barcas erradas
Segredam-se rumos descridos...

E tresloucadas ou casadas com o som das baladas,
As fadas são belas, e as estrelas
São delas... Ei-las alheadas...

E são fumos os rumos das barcas sonhadas,
Nos canais fatais iguais de criadas,
As barcas parcas das fadas,
Das fadas aladas e hiemais
E caladas...

Toadas afastadas, irreais, de baladas...
Ais...


(Portugal Futurista, nº 1, 1917)
366 Fernando Pessoa

CARTA XXXVI

Ofelinha:

Agradeço a sua carta. Ela trouxe-me pena e alívio ao mesmo tempo. Pena, porque estas coisas fazem sempre pena; alívio, porque, na verdade, a única solução é essa – o não prolongarmos mais uma situação que não tem já a justificação do amor, nem de uma parte nem de outra. Da minha, ao menos, fica uma estima profunda, uma amizade inalterável. Não me nega a Ofelinha outro tanto, não é verdade?
Nem a Ofelinha, nem eu, temos culpa nisto. Só o Destino terá culpa, se o Destino fosse gente, a quem culpas se atribuíssem.
O Tempo, que envelhece as faces e os cabelos, envelhece também, mas mais depressa ainda, as afeições violentas. A maioria da gente, porque é estúpida, consegue não dar por isso, e julga que ainda ama porque contraiu o hábito de se sentir a amar. Se assim não fosse, não havia gente feliz no mundo. As criaturas superiores, porém, são privadas da possibilidade dessa ilusão, porque nem podem crer que o amor dure, nem, quando o sentem acabado, se enganam tomando por ele a estima, ou a gratidão, que ele deixou.
Estas coisas fazem sofrer, mas o sofrimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão-de passar o amor e a dor, e todas as mais coisas, que não são mais que partes da vida?
Na sua carta é injusta para comigo, mas compreendo e desculpo; decerto a escreveu com irritação, talvez mesmo com mágoa, mas a maioria da gente – homens ou mulheres – escreveria, no seu caso, num tom ainda mais acerbo, e em termos ainda mais injustos. Mas a Ofelinha tem um feitio óptimo, e mesmo a sua irritação não consegue ter maldade. Quando casar, se não tiver a felicidade que merece, por certo que não será sua a culpa.
Quanto a mim...
O amor passou. Mas conservo-lhe uma afeição inalterável, e não esquecerei nunca – nunca, creia – nem a sua figurinha engraçada e os seus modos de pequenina, nem a sua ternura, a sua dedicação, a sua índole amorável. Pode ser que me engane, e que estas qualidades, que lhe atribuo, fossem uma ilusão minha; mas nem creio que fossem, nem, a terem sido, seria desprimor para mim que lhas atribuísse.
Não sei o que quer que lhe devolva – cartas ou que mais. Eu preferia não lhe devolver nada, e conservar as suas cartinhas como memória viva de um passado morto, como todos os passados; como alguma coisa de comovedor numa vida, como a minha, em que o progresso nos anos é par do progresso na infelicidade e na desilusão.
Peço que não faça como a gente vulgar, que é sempre reles; que não me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor. Fiquemos, um perante o outro, como dois conhecidos desde a infância, que se amaram um pouco quando meninos, e, embora na vida adulta sigam outras afeições e outros caminhos, conservam sempre, num escaninho da alma, a memória profunda do seu amor antigo e inútil.
Que isto de «outras afeições» e de «outros caminhos» é consigo, Ofelinha, e não comigo. O meu destino pertence a outra Lei, de cuja existência a Ofelinha nem sabe, e está subordinado cada vez mais à obediência a Mestres que não permitem nem perdoam.
Não é necessário que compreenda isto. Basta que me conserve com carinho na sua lembrança, como eu, inalteravelmente, a conservarei na minha.

Fernando

29/XI/1920



CARTA 48

Lisboa, 27 de Novembro de 1920

Fernando

Há já quatro dias que me não aparece e nem ao menos se digna escrever-me. Sempre a mesma forma de proceder.
Vejo que não faço nada de si, porque compreendo perfeitamente que é para me aborrecer que assim procede, que me terá mesmo chamado parva algumas vezes.
Como o Fernando não tem motivos para acabar, procede então da forma que procede. Pois bem eu assim não estou resolvida a continuar.
Não sou o seu ideal, compreendo-o claramente, unicamente o que lastimo é que só quase ao fim de um ano o Sr. o tenha compreendido. Porque se gostasse de mim não procedia como procede, pois que não teria coragem.
Os feitios contrafazem-se. O essencial é gostar-se.
Está a sua vontade feita. Desejo-lhe felicidades
Ofélia

Perdoe-me a incorrecção de que são dotados os meus... poemas – mas confesso-me sem alguma inspiração para a poesia.

Fazia bem em me dizer
E grata lhe ficaria
Razão porque em verso dizia
Não ser o bom-bom para si...
A não ser que na pastelaria
Não lho queiram fornecer
D'outro motivo não vi
Ir tal levá-lo a crer.
Não sei mesmo o que pensar
Há fastio para o comer?
Ou não tem massa pr'o comprar?!

Peço porém me desculpe
Este incorrecto poema
Seja bom e não me culpe
Sou estúpida, e tenho pena
O Sr. é muito amável
Aturando esta...pequena...
Ofélia Queiroz
Lx., 27-11-1919




CARTA 49


Fernando:

É ainda debaixo de impressão dolorosa em que me deixou a leitura da sua carta, que lhe envio estas palavras.
Os meus receios e as minhas crenças intimas não me tinham enganado, vejo que me estava afeiçoando a um d'estes entes que brincam da afeição pura, são capazes de se cansar para poder torturar o coração das pobres raparigas, procurando poder namorá-las não por afeição, não por uma simpatia d'esperança futura, não por interesse, ainda nem mesmo por capricho, mas apenas porque lhes apeteça de afligir, incomodar ou torturar quem no entanto nunca pensou n'ele outrora, nem sequer o conhecia. Isto é belo! é sublime! é grande!
Pelo que respeita ás minhas cartas, poderá guardá-las como deseja, embora elas sejam demasiado simples!
Enquanto a mim, não deixarei de futuro de aproveitar-me desta lição; fez-me conhecer até que ponto de sinceridade, um homem descreve a sua simpatia, a sua afeição, o seu amor, todas as suas esperanças futuras para com raparigas inexperientes ainda.
Uma senhora da minha amizade dizia há dias estas palavras:
"Uma mulher que acredita numa só palavra d'um homem, não passa d'uma pobre pateta; se algum dia virem algum que finja levar aos lábios uma taça envenenada por sua causa, entornem-lha depressa na boca porque livrará o mundo de mais d'um impostor".
Rimo-nos todos! e afinal tinha razão...

Ofélia

1-12-1920

P.S.: Peço-lhe me perdoe o só hoje responder à sua carta, mas devido à morte do irmão de meu cunhado, não vim a casa ontem e por isso não pude responder com a brevidade que desejava.

Deseja-lhe inúmeras felicidades, a ...

Ofélia
368 Fernando Pessoa

MOVIMENTO SENSACIONISTA

Elogio da Paisagem, sonetos de Pedro&de&Meneses.
As três princesas mortas num palácio em ruínas.
Poemas de João Cabral&do&Nascimento.


Apesar de a sua tarefa ser a da reconstrução da literatura e da mentalidade nacionais o Movimento&Sensacionista vai dia a dia colhendo força, rasgando caminho, florindo em novos adeptos e sensibilidades acordadas.
Desde a data gloriosa para as nossas letras, em que, com a publicação de Orpheu, um oásis se abriu no deserto da inteligência nacional os Espíritos, a quem Deus concedeu que com a sua sensibilidade espontânea iniciassem o Sensacionismo, vêem, com patriótico agrado, de todos os solos do país, de todos os estratos da cultura, brotar poetas da prosa e do verso, que, levemente uns, vincadamente outros, alguns com consciência, outros como que malgré eux, vêm aderir de inspiração aos princípios que constituem a atitude sensacionista Por toda a parte a sociedade ocultamente constituída pelas inteligências portuguesas vai sendo ensopada em Sensacionismo. Na mocidade que começa a escrever-se, os poucos que mostram esperanças de dar fruto intelectual não florescem senão adentro do Sensacionismo. Ninguém hoje, entre os escolares que se prezam, admira ou imita os nossos clássicos ou os clássicos dos nossos jornalistas.
Tudo isto representa – outro sentido não pode ter – uma instância da Hora da Raça, que, sentindo a necessidade de realizar Cosmópolis em si, se vira para o único núcleo de artistas que, além de darem ao seu instinto de Chefes a garantia primária de serem quase todos homens de génio, que tomaram de nascença nas mãos o pendão da Raça (há tanto tempo bolorejando no túmulo de Camões, de Garrett ou de outros bric-à-brac), representam, manifestamente, uma plêiade lúcida que nas suas obras enfeixa, com o máximo utilizável do sentimento português, o máximo aproveitável nas actuais correntes europeias.
O Sensacionismo surgiu, pois, como primeira manifestação de um Portugal-Europa, como a única «grande arte» literária que em Portugal se tem revelado, livre da estreiteza crónica que tem prendido no seu leito de Procustes todos os nossos impulsos estéticos, desde a tísica espiritualidade que subjaz ao pseudo-petrarquismo dos tristes poetas da nossa Renascença, até à seca emotividade em torno à qual nucleou o neo-huguismo (grande embora) do actual chefe honorário da intelectualidade portuguesa.
Sintético assim, o Sensacionismo triunfou. Primeiro pelo escândalo, que outro não podia ser o triunfo entre os feirantes que ergueram barracas no terreno desocupado da nossa crítica. O nosso meio jornalístico e «literário», acostumado ou a ser latoeiramente estrangeiro, ou a ser nacional no nível da Praça da Figueira, deu a Orpheu a única honra que em tais almas cabia conferir – a da sua invertebradamente espontânea, surpreendentemente sincera aversão. Assim, no que facto público, se lançou o Sensacionismo. A única propaganda que se fez foi não se fazer propaganda nenhuma. Grátis lhe fez esse frete a amabilidade involuntária dos críticos.
Depois, seguro e certo como uma maré que sobe, começou o triunfo nos espíritos. De alma a alma, das aproveitáveis, o Sensacionismo correu. Chegou, viram-no, e venceu. E este muito é o pouco que são todos os princípios. Hoje é já uma vitória; amanhã será uma nacionalidade.
Servem estas palavras de introdução à breve crítica, que vamos fazer, das duas plaquettes sensacionistas, cujos títulos encimam este artigo.
A breve e magistral colheita de sonetos, que o Sr. Pedro&de&Meneses fez para o seu público, marca bem a individualidade definida, que ele tem adentro do Sensacionismo. A exuberância abstracto-concreta das imagens, a riqueza de sugestão na associação delas, a profunda intuição metafísica que rodeia tanto os versos culminantes dos sonetos desta plaquette, como, bastas vezes, a direcção anímica de certos sonetos integralmente – tantas são algumas das razões que um espírito esclarecido e europeu encontra para admirar e amar o Elogio da Paisagem. Como esta crítica não é feita para analfabetos, é inútil esmiuçá-la mais e fazer transcrições que, no lance, nada adiantariam. Basta que se aponte como são belos – acima dos outros, que são todos belos – os sonetos III (1º), V, XIII (1º) e, mais do que todos, o assombroso «Horas Mortas», que não conseguimos não transcrever:

Princesas a passar nos olhos meus.
Hora – curvas de dedo mais esguios.
Rios sem outra margem. Sempre rios...
Pontes até ao meio e o resto Deus...

A Hora que o luar perde os sentidos.
A Hora em que a Paisagem veste seda
E os rios são as caudas dos vestidos
Que se arrastam de noite na alameda.

Sombras de Inês depois de ser rainha,
– Pedro, o silêncio, junto dele as tinha...–
Velhinhas assentadas à lareira...

Todas as pontes iam dar a Deus...
Passei-as todas pra atingir os céus
E a minha Alma era sempre a derradeira.

Convém não omitir que o Sr. Pedro de Meneses junta às suas grandes qualidades dois defeitos, que, não chegando a empaná-las, certo é que não deixam que elas tenham o relevo a que têm jus. O primeiro defeito é uma certa deficiência – por vezes acentuadamente notável – de musicalidade, de sugestão puramente silábica, de sedução rítmica pura. Os seus versos têm, frequentemente, elementos de dureza e rectilineidade. No próprio grande soneto, que se citou, semelhante jaça é flagrante.
O seu outro defeito é menos frequente e, onde está, é em geral menos sensível. É que por vezes o poeta esquece as leis, não só exotéricas mas esotéricas também, da associação de ideias desconexas, e justapõe imagens que, sendo, quase sempre, cada uma delas bela, não se fundem em beleza, não se sintetizam sugestivamente no espírito. E é nestes raros pontos que a fraqueza rítmica, associando-se a essa outra falha, consegue que a beleza escasseie no efeito poético que resulta. O próprio soneto «Horas Mortas», com ser grande, não deixa de permitir que nele se colha o exemplo que é bom não sonegar.
Repare-se no primeiro terceto, evoque-se bem a sugestão imaginativa que ele impõe, e veja-se depois como essa intromissão de figuras históricas (por poéticas que se possam crer) nesta sucessão de imagens ou indefinidas ou abstractas, põe um solavanco inesperado no estado de sonho que o soneto provoca. O erro psicológico culmina na justaposição «Pedro, o Silêncio», que é esteticamente invisualizável.

Os elementos componentes da inspiração sensacionista estão ainda inarmónicos e inindividualizados na, aliás interessantíssima, pequena obra do Sr. Cabral&do&Nascimento. É singular que o defeito capital desta plaquette é precisamente aquele que último apontámos na do Sr. Pedro de Meneses. Aqui porém, visto que o autor, embora de verdade um poeta, seja ainda um principiante, o defeito tem um relevo muito maior, constitui mesmo o pecado original do livro.
Fora isso, e aquela ligeira e indefinível incerteza, que há em todos os primeiros passos, físicos como psíquicos, e que desaparece com o haver segundos, a obra de que se trata revela que quem a escreveu tem qualidades de imaginação e de inteligência que podem fazer dele um poeta inadjectivável. Procure o Sr. Cabral do Nascimento ter sempre este facto tão presente, que não saiba que o tem presente – que uma obra de arte, por dispersa que seja a sua realização detalhada, deve ser sempre uma coisa una e orgânica, em que cada parte é essencial tanto ao todo como às outras que lhe são anexas, e em que o todo existe sinteticamente em cada uma das partes, e na ligação dessas partes umas às outras. Compreenda isto até à inconsciência. Sinta isto até não o sentir. E, sentido e compreendido isto até com o corpo, despreze todo o resto. Salte por cima de todas as lógicas. Rasgue e queime todas as gramáticas. Reduza a pó todas as coerências, todas as decências e
371 Fernando Pessoa

EPITAPH

Here lies who thought himself the best
Of poet’s in the world’s extend;
In life he had not joy nor rest.

He filled with madness many a song,
And at whatever age he died
Thus many days he lived too long.

He lived im powerless egotism,
His soul tumultuous and disordered
By thought and feeling’s endless schism.

In everything he had a foe
And without courage bore his part
In life’s interminable woe.

He was a slave to grief and fear
And incoherent thoughts he had
And wishes unto madness near.

Those whom he loved, by arts of ill
He treated worse than foes; but he
His own worst enemy was still.

He of himself did ever sing,
Incapable of modesty,
Lock’d in his wild imagining.

Useless was all his toiless trouble
Empty of sense his fears and pains
And many of them were ignoble.

Vile thus and worthless his distress;
His words, though bitterer far than hate,
His bitter soul could not express.
.........

Let not a healthy mind pollute
His grave, but fitly there will pass
The traitor and the prostitute;

The drunkard and the wencher there
May pass, but quick, lest they should ponder,
Perchance, that pleasure is but air.

Each weak and execrable mind
Which plagued man with its rotteness
Its conscious master here will find.

Conscious, for in him he could tell
Madness and ill were what they were,
But neither did he will to quell.

Pass by therefore ye who can weep,
Let rotteness work in neglect,
While the rough winds the dead leaves sweep.

His slumbering brother to the sod
Not even in imagining
Disturb not with the name of God.

But let him lie and peace for ever
Far from the eyes and mouth of men
And from what him from them did sever.

He was a thing that God had wrought
And to the sin of having lived
He joined the crime of having thought.

Alexander Search, Julho de 1907
374 Fernando Pessoa

CARTA I

Ofelinha:

Para me mostrar o seu desprezo, ou pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da serie de "razões" tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-mo.
Assim, entendo da mesma maneira, mas doe-me mais.
Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ofelinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação creio eu de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.
Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as cousas, nem trata os outros como réus que é preciso "entalar".
Porque não é franca para comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal nem a si, nem a ninguém -, a quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lha venham acrescentar criando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.
Reconheço que tudo isto é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu.
Eu-prório acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra cousa que não fosse no sofrimento que tem prazer em causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim...
Aí fica o "documento escrito" que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugénio Silva.

1.3.1920.

Fernando Pessoa

CARTA 1

(28-2-1920)
(Dois postais, cujo texto é seguido)


Meu adorado Fernandinho

É meia-noite, vou-me deitar, mas creia que sempre pensando no meu amorzinho. E ele estará também pensando no seu bebé? Naturalmente não...
Estou triste e aborrecida como deve calcular pois acabei há pouco de falar com o rapaz e ouvir sempre a mesma coisa que me faz pensar muito no meu Fernandinho, no amor que lhe tenho, e se será bastante e sincero o amor que diz dedicar-me, se merecerá o sacrifício que estou fazendo. Estou desprezando um rapaz que me adora, que me faria feliz e que eu sei muito bem as ideias dele para mim [,] sei o que tencionava fazer da minha pessoa.
E diga-me agora francamente, sei eu alguma coisa do Fernandinho? Já alguma vez me disse as suas ideias, o que pensa fazer de mim? Não, não sei nada, sei apenas que o amo e nada mais, e isto não é o suficiente. Não me tenho eu entregado inteiramente ao meu Fernandinho? Que recompensa me dará?
Vou-lhe ser franca, receio muitíssimas vezes que esses seus transportes d'amor sejam de pouca duração, que um dia se sinta já aborrecido e me despreze[,] depois de eu lhe provar que o meu amor é sincero. E diga-me meu amorzinho, não me acha com razão de pensar o que penso? Terei eu de si a recompensa que desejo? Receio que a não terei, visto nunca ter falado nela, e se eu tivesse a plena certeza que nunca a teria, juro-lhe meu Fernandinho que preferia afastar-me de si para sempre, embora com grande sacrifício[,] do que pensar que nunca serei sua e continuar com o que se passa. Se o Fernandinho nunca pensou em construir família, e se nem pensa, peço-lhe por tudo, pelas felicidades da sua mana) que mo diga por escrito, que me diga as suas ideias sobre a minha pessoa (e não se esqueça que tem dito muitas vezes que me não ama, que me adora!) porque se não forem as que eu tanto desejo prefiro romper para sempre a nossa (ou não direi bem) a minha amizade. Viver completamente na incerteza mortifica imenso, e eu preferia a desilusão a viver iludida. Agora se o meu Nininho tem para o Bebé as ideias que ele deseja, decerto que o que estou escrevendo o vai magoar, mas oxalá o magoe, porque eu depois lhe saberei pedir perdão... Já há muito que estava para lhe dizer isto, mas nunca tive a coragem suficiente ou a disposição precisa, mas não podia passar sem lho fazer sentir, porque eu na incerteza não quero continuar, quero saber com que fim.
Fernandinho diz amar-me e quer que o ame.
Mas tenho esperança no seu amor, e anseio a resposta, porque decerto é o que desejo.
Ama-o muito a muito amiguinha

Ofélia Queiroz (o Bebé)
375 Fernando Pessoa

MANDAR, ORGANIZAR, VENCER


Os homens dividem-se, na vida prática, em três categorias – os que nasceram para mandar, os que nasceram para obedecer, e os que não nasceram nem para uma coisa nem para outra. Estes últimos julgam sempre que nasceram para mandar; julgam-no mesmo mais frequentemente que os que efectivamente nasceram para o mando.
O característico principal do homem que nasceu para mandar é que sabe mandar em si mesmo.
O característico distintivo do homem que nasceu para obedecer é que sabe mandar só nos outros, sabendo obedecer também. O homem que não nasceu nem para uma coisa nem para outra distingue-se por saber mandar nos outros mas não saber obedecer.
O homem que nasceu para mandar é o homem que impõe deveres a si mesmo. O homem que nasceu para obedecer é incapaz de se impor deveres, mas é capaz de executar os deveres que lhe são impostos (seja por superiores, seja por fórmulas sociais), e de transmitir aos outros a sua obediência; manda, não porque mande, mas porque é um transmissor de obediência. O homem que não nasceu para mandar nem para obedecer sabe só mandar, mas, como nem manda por índole nem por transmissão de obediência, só é obedecido por qualquer circunstância extrema – o cargo que exerce, a posição social que ocupa, a fortuna que tem...
Chamamos para estas singelas considerações psicológicas a atenção dos leitores. Devidamente compreendidas, elas elucidar-lhes-ão muitas coisas, e muita gente...

*

Há três tipos de energia – a do trabalhador, a do homem activo e a do organizador.
O trabalhador exerce regularmente um mister ou um cargo segundo as normas desse mesmo cargo ou mister. Corre numa calha indefinidamente e com grande utilidade social.
O homem activo nunca tem mister próprio; a simples actividade é indisciplinada por natureza. Exerce ele sempre um cargo ocasional e temporário, uma espécie de molde em que vaza um momento a sua energia constante. Esse momento pode durar toda a vida: esse molde pode nunca quebrar-se.
O organizador trabalha pouco; faz só calhas e moldes.


(publicado na Revista do Comércio e Contabilidade, nº 4, Abril de 1926)


Estão cheias as livrarias de todo o mundo de livros que ensinam a vencer. Muitos deles contém indicações interessantes, por vezes aproveitáveis. Quase todos se reportam particularmente ao êxito material, o que é explicável, pois é esse o que supremamente interessa à grande maioria dos homens.
A ciência de vencer é, contudo, facílima de expor; em aplicá-la, ou não, é que está o segredo do êxito ou a explicação da falta dele.
Para vencer – material ou imaterialmente – três coisas definíveis são precisas – saber trabalhar, aproveitar oportunidades, e criar relações. O resto pertence ao elemento definível, mas real, a que à falta de melhor nome, se chama sorte.
Não é o trabalho, mas o saber trabalhar, que é o segredo do êxito no trabalho; saber trabalhar quer dizer: não fazer um esforço inútil, persistir no esforço até ao fim, e saber reconstruir uma orientação quando se verificou que ela era, ou se tornou, errada.
Aproveitar oportunidades quer dizer não só não as perder, mas também achá-las.
Criar relações tem dois sentidos – um para a vida material, outro para a vida mental. Na vida material a expressão tem o seu sentido directo. Na vida mental significa criar cultura. A história não regista um grande triunfador material isolado, nem um grande triunfador mental inculto. Da simples «vontade» vivem só os pequenos comerciantes; da simples «inspiração» vivem só os pequenos poetas. A lei é uma para todos.


(publicado na Revista do Comércio e Contabilidade, nº 5, Maio de 1926)


Uma das palavras que mais maltratadas têm sido, no entendimento que há delas, é a palavra oportunidade. Julgavam muitos que por oportunidade se entende um presente ou favor do Destino, análogo a oferecerem-nos o bilhete que há-de ter a sorte grande. Algumas vezes assim é. Na realidade quotidiana, porém, oportunidade não quer dizer isto, nem o aproveitar-se dela significa o simplesmente aceitá-la. Oportunidade, para o homem consciente e prático, é aquele fenómeno exterior que pode ser transformado em consequências vantajosas por meio de um isolamento nele, pela inteligência, de certo elemento ou elementos, e a coordenação, pela vontade, da utilização desse ou desses. Tudo mais é herdar do tio brasileiro ou não estar onde caiu a granada.


(publicado na Revista do Comércio e Contabilidade, nº 6, Junho de 1926)



O PRIMEIRO PASSO...


Cada homem, desde que sai da nebulose da infância e da adolescência, é em grande parte um produto do seu conceito de si mesmo. Pode dizer-se sem exagero mais que verbal, que temos duas espécies de pais: os nossos pais propriamente ditos, a quem devemos o ser físico e a base hereditária do nosso temperamento; e, depois, o meio em que vivemos, e o conceito que formamos de nós próprios – mãe e pai, por assim dizer, do nosso ser mental definitivo.
Se um homem criar o hábito de se julgar inteligente, não obterá com isso, é certo, um grau de inteligência que não tem, mas fará mais da inteligência que tem do que se se julgar estúpido. E isto, que se dá num caso intelectual, mais marcantemente se dá num caso moral, pois a plasticidade das nossas qualidades morais é muito mais acentuada que a das faculdades da nossa mente.
Ora, ordinariamente, o que é verdade da psicologia individual – abstraindo daqueles fenómenos que são exclusivamente individuais – é também verdade da psicologia colectiva. Uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.
O primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal é criarmos um estado de espírito de confiança – mais, de certeza – nessa regeneração. Não se diga que «os factos» provam o contrário. Os factos provam o que quer o raciocinador. Nem, propriamente, existem factos, mas apenas impressões nossas, a que damos, por conveniência, aquele nome. Mas haja ou não factos, o que é certo é que não existe ciência social ou, pelo menos, não existe ainda. E como assim é tanto podemos crer que nos regeneraremos, como crer o contrário. Se temos, pois, a liberdade de escolha, por que não escolher a atitude mental que nos é mais favorável, em vez daquela que nos é menos?
381 Fernando Pessoa

O BANQUEIRO ANARQUISTA

Tínhamos acabado de jantar. Defronte de mim o meu amigo, o banqueiro, grande comerciante e açambarcador notável, fumava como quem não pensa. A conversa que fora amortecendo, jazia morta entre nós. Procurei reanimá-la, ao acaso, servindo-me de uma ideia que me passou pela meditação. Voltei-me para ele, sorrindo.
– É verdade: disseram-me há dias que você em tempos foi anarquista...
– Fui, não: fui e sou. Não mudei a esse respeito. Sou anarquista.
– Essa é boa! Você anarquista! Em que é que você é anarquista?... Só se você dá à palavra qualquer sentido diferente...
– Do vulgar? Não; não dou. Emprego a palavra no sentido vulgar.
– Quer você dizer então, que é anarquista exactamente no mesmo sentido em que são anarquistas esses tipos das organizações operárias? Então entre você e esses tipos da bomba e dos sindicatos não há diferença nenhuma?
– Diferença, diferença, há... Evidentemente que há diferença. Mas não é a que você julga. Você duvida talvez que as minhas teorias sociais sejam iguais às deles?...
– Ah, já percebo! Você, quanto às teorias, é anarquista; quanto à prática...
– Quanto à prática sou tão anarquista como quanto às teorias. E quanto à prática sou mais, sou muito mais anarquista que esses tipos que você citou. Toda a minha vida o mostra.
– Hein?!
– Toda a minha vida o mostra, filho. Você é que nunca deu a estas coisas uma atenção lúcida. Por isso lhe parece que estou dizendo uma asneira, ou então que estou brincando consigo.
– Ó homem, eu não percebo nada!... A não ser..., a não ser que você julgue a sua vida dissolvente e anti-social e dê esse sentido ao anarquismo...
– Já lhe disse que não – isto é, já lhe disse que não dou à palavra anarquismo um sentido diferente do vulgar.
– Está bem... Continuo sem perceber... Ó homem, você quer-me dizer que não há diferença entre as suas teorias verdadeiramente anarquistas e a prática da sua vida – a prática da sua vida como ela é agora? Você quer que eu acredite que você tem uma vida exactamente igual à dos tipos que vulgarmente são anarquistas?
– Não; não é isso. O que eu quero dizer é que entre as minhas teorias e a prática da minha vida não há divergência nenhuma, mas uma conformidade absoluta. Lá que não tenho uma vida como a dos tipos dos sindicatos e das bombas – isso é verdade. Mas é a vida deles que está fora do anarquismo, fora dos ideais deles. A minha não. Em mim – sim, em mim, banqueiro, grande comerciante, açambarcador se você quiser –, em mim a teoria e a prática do anarquismo estão conjuntas e ambas certas. Você comparou-me a esses parvos dos sindicatos e das bombas para indicar que sou diferente deles. Sou, mas a diferença é esta: eles (sim, eles e não eu) são anarquistas só na teoria; eu sou-o na teoria e na prática. Eles são anarquistas e estúpidos, eu anarquista e inteligente. Isto é, meu velho, eu é que sou o verdadeiro anarquista. Eles – os dos sindicatos e das bombas (eu também lá estive e saí de lá exactamente pelo meu verdadeiro anarquismo) – eles são o lixo do anarquismo, os fêmeas da grande doutrina libertária.
– Essa nem ao diabo a ouviram! Isso é espantoso! Mas como concilia você a sua vida – quero dizer a sua vida bancária e comercial – com as teorias anarquistas? Como o concilia você, se diz que por teorias anarquistas entende exactamente o que os anarquistas vulgares entendem? E você, ainda por cima, me diz que é diferente deles por ser mais anarquista do que eles – não é verdade?
– Exactamente.
– Não percebo nada.
– Mas você tem empenho em perceber?
– Todo o empenho.
385 Fernando Pessoa

CARTA A RONALD DE CARVALHO, poeta brasileiro


Lisboa, 24 de Fevereiro de 1915

Meu querido Poeta.

Escrevo-lhe a desoras da delicadeza. Há meses já que o Luís&de&Montalvor me fez chegar aos olhos o seu Livro. Embora o lesse sem tardança, tenho demorado o agradecimento para além dos limites do próprio abuso. A licença poética, mesmo, não admite tanto. Eu tenho excedido o direito concedido aos camaradas de responderem longe de propósito. Começo a minha carta por lhe pedir as desculpas a que este adiamento obriga.
Não sei que lhe diga de seu livro, que seja bem um ajuste entre a minha sensibilidade e a minha inteligência. Ele é deveras a obra de um Poeta, mas não ainda de um poeta que se encontrasse, se é que um poeta não é, fundamentalmente, alguém que nunca se encontra. Há imperfeições e inacabamentos em seus versos. Vêem-se ainda entre as flores as marcas das suas passadas. Não se deveriam ver. Do Poeta deve ser o ter passado sem outro vestígio que permanecerem as rosas. Para que os ramos quebrava, ainda, e partia a hasta das violetas?
Eu não lhe devia dizer isto, talvez, sem prefaciar que sou o mais severo dos críticos que tem havido. Exijo a todos mais que eles podem dar. Para que lhes havia eu de exigir o que cabe na competência das suas forças? O Poeta é o que sempre excede aquilo que pode fazer.
O seu Livro é dos mais belos que recentemente tenho lido. Digo-lhe isto, para que, pois que me não conhece, me não julgue posto a severidade sem atenção às belezas do seu Livro. Há em si o com que os grandes poetas se fazem. De vez em quando a mão do escultor de poemas faz falhar as curvas irreais de sua Matéria. E então é o seu poema sobre o Cais, a sua impressão do Outono, e este e aquele verso, tal poema ou tal outro, caído dos Deuses como o que é azul do céu nos intervalos da tormenta... Exija de si o que sabe que não poderia fazer. Não é outro o caminho da Beleza.
Tenho vivido tantas filosofias e tantas poéticas que me sinto já velho, e isto faz com que me dê o direito de o aconselhar, como Keats a Shelley, que esteja de vez em quando com as asas fechadas. Há um prazer estético, às vezes, em deixar passar sem a exprimir uma emoção cuja passagem nos exige palavras. Dos nossos jardins interiores só devemos colher as rosas mais inevitáveis e as mais verdes horas, e fixar só aquelas ocasiões do crepúsculo quando dói demasiado sentirmo-nos. O resto é só a brisa que passa e não tem outro aroma senão o momento que rouba a imortalidade dos jardins.
Escrevo e paro... Pergunto a mim próprio se poderá julgar tudo isto, porque não é transbordante de elogios, uma crítica adversa. Não o conheço e não sei. Mas repare que só a quem muito aprecio eu escrevo destas coisas. De certo me faz a justiça de adivinhar que a quem não tem valor nenhum eu não ouso senão dizer que tem muito. Só vale a pena notar os erros daqueles que são na verdade Poetas, daqueles em quem os erros são erros. Para que notar os erros daqueles que não têm em si senão o jeito de errar?
Com tudo isto, que parece hesitante no elogio, repito-lhe que o seu livro é dos mais belos que tenho lido ultimamente. A sua imaginação, doentia e delicada, é uma princesa que olha das janelas o luxo longínquo dos tanques. Vejo que sente os reflexos. Eles são, com efeito, as melhores horas da água; e de certo que as mais belas são aquelas – em jardins ainda do século dezoito – onde a tristeza de uma civilização morta bruxuleia ainda, como um gesto na sombra, na sombra rápida de água que se dissipa.
Ah, mas tudo isto é impessoal... Tenho outras e mais próximas coisas a dizer-lhe se reparo que sou eu que leio os seus Versos, que a Nau perdida das suas emoções passou, um momento de velas, no horizonte das minhas costas.
A má sensibilidade dói-me. Por certo que outrora nos encontrámos e entre sombras de alamedas dissemos um ao outro o nosso comum horror à Realidade. Lembra-se? Nós éramos crianças.
Tinham-nos tirado os brinquedos, porque nós teimávamos que os soldados de chumbo e os barcos de latão tinham uma realidade mais precisa e esplêndida que os soldados-gente e os pobres barcos que são úteis no mundo. Nós andámos animados longas horas pela quinta. Como nos tinham tirado as coisas onde púnhamos os nossos sonhos, pusemo-nos a falar delas para as ficarmos tendo outra vez. E assim tornaram a nós, em sua plena e esplêndida realidade – que paga de seda para os nossos sacrifícios! – os soldados de chumbo e os barcos de latão, e através das nossas almas continuaram sendo, para que nós brincássemos com a ideia deles. A hora (não se recorda?) não era demasiado certa e humana. As flores tinham a sua aí e o seu perfume de soslaio para a nossa atenção. O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; e nós sofríamos a instabilidade do jogo divino como crianças que riem das partidas que lhes fazem, porque sejam mostras de adulta afeição.
Foram belas essas horas tristes que vivemos juntos. Nunca tornaremos a ver essas horas, nem esse jardim, nem os nossos soldados e os nossos barcos. Ficou tudo embrulhado no papel de seda da nossa recordação de tudo aquilo. Os soldados – os pobres deles – furam quase o papel com as espingardas eternamente ao ombro. As proas das barcas estão sempre para romper o invólucro. E sem dúvida que todo o sentido do nosso Exílio é este – o terem-nos embrulhado os brinquedos de antes da vida, terem-nos posto na prateleira que está exactamente fora do nosso gesto e do nosso jeito. Haverá uma justiça para as crianças que nós somos? Ser-nos-ão restituídos, por mais que cheguem aonde não chegamos, os nossos companheiros de sonho, os soldados e os barcos?... sim, e mesmo porque nós não éramos isto que somos?... Éramos de uma artificialidade mais divina... Parecíamos estar destinados a coisas menos tristes do que a alma.
Escrevo e divago, e tudo isto parece-me que foi uma realidade. Tenho a sensibilidade tão à flor da imaginação que quase choro com isto, e sou outra vez a criança feliz que nunca fui, e as alamedas e os brinquedos... e apenas, no fim de tudo, a supérflua realidade da vida.
Perdoe-me que lhe escreva assim... A vida, afinal, vale a pena que se lhe diga isto... Deus escuta-me talvez, mas «de si ouve» como se diz daqueles que escutam... A tragédia foi esta, mas não houve dramaturgo que a escrevesse... Para que lhe estou eu dizendo isto?
Reparo de repente que a minha imaginação, à expensa de minha inteligência, fez uma crítica ao seu Livro. Fê-la amavelmente, como não podia deixar de ser, e porque assim o exigia o nosso convívio, esse no jardim antiquíssimo, quando o Mundo não tinha criado ainda a necessidade de ter sido criado por Deus. Foram deveras de um ateísmo espiritual aquelas horas que perdemos nos jardins. Existíamos aí nós, porque o jardim éramos nós também. Depois os séquitos foram-se.
Os sons de sua ida prolixa demoraram-se na aragem... Ficou-nos a alma, como um exílio inevitável e nós escrevemos versos para nos lembrarmos de que fomos...
Abraça-o

Fernando Pessoa


(publicada na Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 12-13 de Fevereiro de 1955, com o título «Carta inédita de Fernando Pessoa a Ronald de Carvalho»).
386 Fernando Pessoa

ÁTRIO [4(CONTINUAÇÃO)


Segundo este esquema se organizam, como disse, as ordens iniciáticas, mas deve entender-se que, não havendo em muitos dos que nelas figuram ou mandam o conhecimento perfeito do que fazem, resultam contradições com as fórmulas do Templo, e essas ordens são, portanto, ilícitas. São-no, importa que se diga, na maioria dos casos.
As Ordens do Átrio, que servem de ministrar os primeiros conhecimentos do que está oculto, e que são pois, por assim dizer, a instrução primária da iniciação, seguem a lei que lhes é imposta pela primeira presença do Átrio, que são as duas colunas que nele se encontram. Quer isto dizer que há duas ordens do Átrio, e só duas uma delas é a Maçonaria. Não direi qual é a outra. Não deixarei, porém, de dizer, para que o compreenda quem possa, que a Maçonaria corresponde à coluna da esquerda do Átrio, isto é, a que nos fica à direita se olhamos para o templo. A coluna da direita corresponde a outra Ordem, a irmã e complementar da maçónica.
Seguem se, passado o Transepto – ou regularmente, por iniciação plenária em qualquer das duas ordens citadas; ou irregularmente, por contacto directo com os Altos Iniciadores, e sem necessidade portanto de passar por qualquer dessas ordens – as chamadas Ordens do Claustro, ou Altas Ordens. Mais tarde, passado o Ádito, e do mesmo modo regular ou irregularmente, se atingem as Ordens do Sacrário, ou, em termo mais vulgar, do Templo, pois que, atingido o âmago do Templo, o mesmo Templo se atinge, em todo o seu sentido.
As Ordens do Átrio iniciam por meio de símbolos (a Maçonaria) ou de linguagem simbólica (a outra ordem). Tudo quanto nelas se explique, ou se revele, é só em aparência que se explica ou se revela. O que há de válido nelas é os símbolos; os discursos, as interpretações, ou são da superfície, e portanto profanos (quando menos o pareçam); ou são falsos, e feitos para despistar os iniciados nos graus, quando sejam incompetentes para eles lhes serem conferidos; ou são, por sua vez, simbólicos, sendo, quer o mostrem ou não, como uma decifração que está numa segunda cifra.
As Ordens do Átrio, a quem é dado um símbolo, ou explicação simbólica, central, a que se chama a Fórmula do Limiar, culminam, para os que verdadeiramente aproveitam da iniciação simbólica, e nela conseguem ler o que ela é, numa nova fórmula, comunicada fora dos rituais, a que se chama a Fórmula do Transepto. Por meio dela se obtém o acesso às Ordens do Claustro, ou Altas Ordens, ou ao que irregularmente a elas seja par.
As Ordens do Claustro, ou Altas Ordens, não iniciam, porém em explicações de símbolos, mas tão somente conferem aos seus iniciados as chaves herméticas, por meio das quais, se eles souberem aplicá-las, os símbolos do Átrio, a Fórmula do Átrio, poderão ser entendidos. Isto é, ao passo que no Átrio os símbolos (os regulares, bem entendido) estão certos e firmes, mas são desvios os discursos e interpretações, nas Ordens do Claustro, os símbolos (se os há) são indirectos e desviados, sendo contudo certas e firmes as explicações dadas, e que se não aplicam a esses símbolos.
Passado o Ádito, as verdades do Átrio e as do Claustro, opostas entre si, unem-se numa mesma verdade. Mas aí a iniciação é plenária, divina, e não se pode dar ideia dela por meio de quaisquer palavras, qualquer que seja a linguagem, directa ou indirecta, que se lhes faça falar.
Tudo isto, que será sempre confuso para muitos, ainda que claramente se exponha, pode talvez ser ilustrado por um exemplo. E esse exemplo será o de como se escreve um ritual através das três ordens.
Suponhamos os Mestres ou Sacerdotes de uma Ordem do Templo, de posse, como tais, de uma verdade divina, e suponhamos que essa verdade é a do Verbo incarnado e sacrificado para a redenção do Mundo. Suponhamos, ainda, que esses sacerdotes, de posse dessa verdade real e não simbólica, vivem num mundo pagão, crente nos deuses múltiplos da religião grega ou romana. Suponhamos, mais, que esses mestres da doutrina secreta querem comunicar aos que o mereçam, por provarem que merecem, a doutrina secreta de que são senhores. Formarão para isso Mistérios, ou Iniciações. E, na formação do ritual desses Mistérios, procederão da seguinte maneira.
Buscarão, primeiro, entre os deuses pagãos qual é aquele cuja história possa conformar-se, como a sombra ao corpo que a projecta, à vida e à morte do Verbo. Encontrarão, por exemplo, Baco, em cuja história divina há analogias evidentes com a do Verbo incarnado, ainda que em nível diferente, que é o que é preciso. Redigirão uma fórmula em que, eliminando os acidentes que perturbem a semelhança, consigam dar, na história de Baco, por símbolo e analogia, a história do Verbo. E esta fórmula, uma vez encontrada, chamar se há a Fórmula do Transepto. Nela está obtido o segredo supremo da Ordem ou Mistério a criar, mas o verdadeiro segredo está guardado por eles, altos iniciadores, pois o que vão transmitir como verdade suprema nesse mundo pagão é ainda uma sombra da verdade.
Feito isto, prosseguem. E buscam então uma figura, real ou mítica, para quem possam transpor os incidentes, não já da vida e da morte do Verbo, mas da vida e da morte de Baco. Qualquer figura servirá, desde que nela não haja baixeza, e o que com ela se passa possa atrair de uma maneira indirecta; e será preferível uma figura. ou inteiramente mítica, ou de quem tão pouco conste na história. que tudo que se queira se lhe possa sem risco ser atribuído. Para essa figura transpõem os pormenores da vida e da morte de Baco, em maneira translata isto é, a figura não pode ser de um Deus, nem de qualquer modo revelar que oculta a de Baco. Haverá mais íntimo afastamento entre esta figura e a de Baco, que entre a de Baco e a do Verbo. Obtida esta figura, faz-se a equivalência da sua vida e morte, com a vida e a morte de Baco; e é em torno desta figura, duplamente simbólica, que se escreve o ritual. Assim, todo o ritual é o símbolo de um símbolo. a sombra de uma sombra. E é a esse ritual, que por iniciação se comunica aos candidatos, que se chama a Fórmula do Limiar.

(Esp. 54A-88/90)
387 Fernando Pessoa

Hora absurda

04/07/1913

O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas...
Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso...
E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas
Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...

Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte...
O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto...
Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto
Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...

Abre todas as portas e que o vento varra a ideia
Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões...
Minha alma é uma caverna enchida pla maré cheia,
E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...

Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia... A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer cousa como leitos para as naus!... Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é nem boa nem má...

Os feixas dos lictores abriram-se à beira dos caminhos...
Os pendões das vitórias medievais nem chegaram às cruzadas...
Puseram in-fólios úteis entre as pedras das barricadas...
E a erva cresceu nas vias férreas com viços daninhos...

Ah, como esta hora é velha!... E todas as naus partiram!
Na praia só um cabo morto e uns restos de vela falam
Do Longe, das horas do Sul, de onde os nossos sonhos tiram
Aquela angústia de sonhar mais que até para si calam...

O palácio está em ruínas... Dói ver no parque o abandono
da fonte sem repuxo... Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

A doida partiu todos os candelabros glabros,
Sujou de humano o lago com cartas rasgadas, muitas...
E a minha alma é aquela luz que não mais haverá nos candelabros...
E que querem ao lago aziago minhas ânsias, brisas fortuitas?...

Por que me aflijo e me enfermo?... Deitam-se nuas ao luar
Todas as ninfas... Vejo o sol e já tinham partido...
O teu silêncio que me embala é a ideia de naufragar,
E a ideia de a tua voz soar a lira dum Apolo fingido...

Já não há caudas de pavões todas olhos nos jardins de outrora...
As próprias sombras estão mais tristes... Ainda
Há rastros de vestes de aias (parece) no chão, e ainda chora
Um como que eco de passos pela alameda que eis finda...

Todos os casos fundiram-se na minha alma...
As relvas de todos os prados foram frescas sob meus pés frios...
Secou em teu olhar a ideia de te julgares calma,
E eu ver isso em ti é um porto sem navios...

Ergueram-se a um tempo todos os remos... Pelo ouro das searas
Passou uma saudade de não serem o mar... Em frente
Ao meu trono de alheamento há gestos com pedras raras...
Minha alma é uma lâmpada que se apagou e ainda está quente...

Ah, e o teu silêncio é um perfil de píncaro ao sol!
Todas as princesas sentiram o seio oprimido...
Da última janela do castelo só um girassol
Se vê, e o sonhar que há outros põe brumas no nosso sentido...

Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há de ser o Norte o Sul?... O que está descoberto?...

E eu deliro... De repente pauso no que penso... Fito-te
E o teu silêncio é uma cegueira minha... Fito-te e sonho...
Há cousas rubras e cobras no modo como medito-te,
E a tua ideia sabe à lembrança de um sabor de medonho...

Para que não ter por ti desprezo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque -
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta... Sente-se o ar sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...

É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã - como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema - "Vitória"!

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!"

388 Fernando Pessoa

ÁTRIO


FM (Átr.)

Sentido moral: regra de vida; dever de se conservar fiel ao que se jurou, etc.

Sentido histórico: A abolição da Ordem do T. Consequências.

Sentido filosófico: O que sucede a todos os Exemplares.

Sentido religioso: a unidade de todas as religiões na figuração igual do Deus sacrificado e ressurrecto (em outro aspecto, e em nós)?

Sentido místico: o M. (linguagem, por exemplo, do budismo esotérico) quer dizer Ego íntimo. É morto pelo Mundo. a Carne e o Diabo, mas ressurge dessa falsa morte, pois que não foi ele que morreu mas a sua «figura».

Nos sentidos 1 a 4 da E. vê-se o mesmo símbolo a desdobrar-se cada vez mais. mas sempre no mesmo caminho e sentido. O sentido 1 aplica-se directamente à Ordem directa; o 2 à origem da Ordem; o 3 ao sentido geral que tem esse sentido: o 4 ao sentido supremo que tem esse sentido 3. (Há que não esquecer que, no sentido 2, o M. significa a O. do T. e não o G. M. dela, que aparece no sentido 3.)

Nos sentidos 1 a 4 da D. o mesmo sucede. No 1 o M. est anima. No 2 est Deus. No 3 Ch. Est. (ex.) O 4 não se conhece.

(Esp. 53-78)


A expressão «vale», de que se use para definir o lugar des instituições maçónicas, e um acto de humildade e verdade que e Ordem seguiu por indicação superior. É a definição de baixe qualidade da iniciação que ela ministra, em relação à alta iniciação, nas Altas Ordens, referida sempre e uma montanha, seja a de Heredom, seja e de Abiegno. Pode bem ser que estes coisas nunca houvessem sido combinadas em palavras, mas ficaram certas nos factos. Em tudo qualquer coisa de superior dirigiu e firmou.
Em meio disto tudo, ha desvios e erros. Intervém. umas vezes, a especulação não iniciada, outras a especulação claramente fraudulenta. Mas nem uma nem outra. nem outras que diversamente participam de uma e de outra, conseguem obliterar, pare quem saiba ler as pistas, o caminho essencial para o Magno Fim. E e evidente pare todos: desde que e Palavra se perdeu, quantos maus caminhos e fingimentos de caminho não haverá que encontrar na sua busca? Ainda os que mentem, mentem por devoção a um anseio de busca. Ainda os que viciam. viciam pare. fingindo que encontraram, satisfazer e sua sede de encontrar. O filtro de Palavra Perdida tornou-os seus ementes, e seguem atras dele, cavaleiros errantes sem dama certa, por vias e florestes de sonho e erro, na eterna selva escura do conseguimento imperfeito.

(Esp. 53B-77)


ÁTRIO

No espírito confuso de muitos e Kabbala tem a preeminência de ume verdade. A Kabbala, porem, não e necessariamente ume verdade. Pode sê-lo; pode não sê-lo. É tão somente uma especulação metafísica feita sobre dedos mais completos do que os que o filósofo profano ordinariamente tem. E sujeite eos mesmos perigos de erro e de ilusão que as especulações profanes, pois as melhores premissas não dão aos especuladores e lógica ou o entendimento com que deles forçosamente extraem melhores conclusões. Trabalhando sobre os dedos mortos do mundo visível, pode Kant, por sua qualidade de génio, chegar se mais a verdade do que o Rabbi Akiba, que tinha o poder de trabalhar sobre os dados vivos do mundo invisível.

Toda a vide e uma simbologia confusa.



ÁTRIO

O caminho dos símbolos é perigoso, porque é fácil e sedutor, e é particularmente fácil e sedutor para os de imaginação viva, que são precisamente os mais fáceis de induzir-se em erro e, também, de romancear para os outros, formando fraudes por vezes inocentes, por vezes um pouco menos que isso. Nada há mais fácil que interpretar qualquer coisa simbolicamente; é ainda mais fácil que interpretar profecias.

Sucede, ainda, que os grandes símbolos são relativamente simples, prestando-se assim a uma série infinita de interpretações. Figure-se o leitor, imaginando. quantos valores simbólicos se não poderão atribuir às duas colunas no átrio do Templo de Salomão, ou, aliás, a quaisquer duas colunas em qualquer parte. Tudo quanto, na vida ou no sonho, e composto de uma dualidade – e quase tudo na vida ou no sonho envolve uma dualidade qualquer –, tudo isso se pode supor simbolizado por aquelas duas colunas. Elas, porém, não podem destinar-se a simbolizar tudo quanto se queira. Algum, ou alguns, hão-de ser os veros sentidos íntimos delas. O que se pergunta, pois, é isto: que critério temos nós para determinar, entre tantos símbolos possíveis, quais são os que são deveras aplicáveis, os verdadeiros?

Para isto existe o critério do quíntuplo sentido: cada coisa tem, na simbólica, cinco sentidos: e esses cinco sentidos estão uns dentro dos outros, sendo cada um o desenvolvimento do anterior. Quando Pike diz que há, para a maioria dos símbolos maçónicos, quatro atribuições distintas, diz bem, pois, como é de ver, exclui o sentido literal, ou profano, que é o primeiro dos cinco e não entra "a consideração dele. Quando, porem, passa a dizer que um e o sentido moral, outro o político, vai mal, pois que o sentido político, não é o desenvolvimento do sentido moral, mas uma coisa de outra ordem.

(Esp. 53B-8o)


ÁTRIO

Compõe-se este livro de uma serie conexa de especulações ociosas sobre a matéria que possa haver para um profano no que se conhece dos símbolos e seus modos da Fr. M.

(Esp. 53B-81)


ÁTRIO

Os caminhos do simbolismo, sobretudo desde que se entra na estrada mística ou interpretativa, são cheios de ilusões, de devaneios e de fraudes. O profano a eles não sabe em que fundar-se do que lê nos autores da especialidade, de tal modo se misturam, nas obras de quase todos eles, o sentido certo, a fantasia delirante e a fraude consciente e semi-consciente. E isto e extensivo as próprias personalidades dos mistos e dos epoptas antigos e modernos. E fora de dúvida que Cagliostro era urn charlatão; mas não e menos fora de dúvida que era também, e paralelamente, um alto iniciado. E fora de duvida que Madame Blavatzky era um espírito confuso e fraudoso; mas também é fora de dúvida que recebera uma mensagem e uma missão de Superiores Incógnitos. Nos nossos dias há um exemplo estrondoso da mesma mistura; não o cito explicitamente por motivos fáceis de compreender.
Estas coisas desorientam os profanos, e ainda mais os sinceros que os curiosos. E natural que o indivíduo, dentro ou fora da O. M., que saiba que o REAA – que nem é e. nem ant. nem ac. e baseado numa complexa sobreposição de fraudes, incluindo um diploma falsificado, imediatamente conclua que todo o rito e da mesma ordem e do mesmo valor que esses seus títulos. Esta conclusão seria errónea. Há muito de valia no rito, mas o pior é que o elemento fraudulento se introduz na própria substância da estrutura dos graus e dos rituais, de sorte que só quem tenha conhecimentos superiores aos que o rito inteiro ministra pode, em certo modo, destrinçar o que está certo do que e falso ou errado; e, pela natureza das coisas, os que estão passando através do rito raras vezes terão graus ou conhecimentos que excedam o conteúdo dele e portanto os habilitem a conhecer o caminho.

(Esp. 53B-82)

Átrio

Cada religião é um mundo à parte, mas mais particularmente o é quando é essencialmente iniciatória. Isto é, uma religião composta de mistérios, no conhecimento dos quais se sobe por grados, e uma espécie de nova região por onde se a alma transforma.
Isto é eminentemente verdade da FM, que e a única religião moderna de tipo iniciatório puro. Nas outras os graus são estados de emoção; nesta são estados de entendimento, e até o são para o profano, se ele consegue – pois isso não é impossível – entrar, por meio de fio próprio, no labirinto dos seus segredos.
E, de facto, uma vida nova, a uma alma nova. a que se ganha no contacto com
392 Fernando Pessoa

CARTAS A ANTÓNIO FERRO


CARTA I


Apartado 147
Lisboa, 7 de Abril de 1930

Meu querido António&Ferro:

Nem eu nem o meu velho imperfeito amigo Álvaro de Campos socializamos a nossa apreciação Mas isto, que nada despe à apreciação, também nada rasga da que é dada cooperativamente.
Tendo-nos nós ambos regozijado, com a inteligência e a amizade, na leitura das admiráveis entrevistas que V. levou por dentro para Espanha para as trazer por fora de lá, creio que é decente – no sentido primitivo, latino e melhor da palavra – que lho digamos, e lho digamos agora.
Dito antes, e na hora socialmente própria nem a nós cabia, nem a V. convinha. Não nos cabia a nós, porque nenhuma hora própria nos é própria. Não convinha a V. porque qualquer carta nossa, escrita para uso público, cairia fatalmente na esfera revolucionária verbal que é distintivamente daquele meu íntimo colaborador, nessas e semelhantes ocasiões.
Estive, aliás, para quebrar por antecipação este propósito por formar. Mas, na carta que ia enviar-lhe no domingo, Álvaro de Campos impôs que se escrevessem frases como estas: «V. tem feito o possível para livrar o jornalismo português dos dois grandes crimes mentais – a lentidão e a tradição»; «V. tem feito o impossível para, em algum modo, o tirar pelo braço para longe do bolor radicalmente póstumo dos Emídios&Navarro, Marianos&de&Carvalho, Eduardos&Coelho, e quantos mais, de igual falta de estirpe, que pesam no passado do jornalismo presente como calos do abismo».
Assim, por citação, mais ou menos aproximada, V. compreende o que se não fez.
O que não seria decente é que renegássemos o que não chegámos a dizer. Por isso, nesta carta atrasada à pressa, lhe enviamos, exigindo que V. as considere como as primeiras, as palavras fundamentas do nosso apreço e da nossa amizade.
Muito seu, por ambas,

Fernando Pessoa
395 Fernando Pessoa

POESIAS DOS DOIS EXÍLIOS

I

Paira no ambíguo destinar-se
Entre longínquos precipícios,
A ânsia de dar-se preste a dar-se
Na sombra vaga entre suplícios,

Roda dolente do parar-se
Para, velados sacrifícios,
Não ter terraços sobre errar-se
Nem ilusões com interstícios,

Tudo velado e o ócio a ter-se
De leque em leque, a aragem fina
Com consciência de perder-se,

Tamanha a flava e pequenina
Pensar na mágoa japonesa
Que ilude as sirtes da Certeza

II

Dói viver, nada sou que valha ser.
Tardo-me porque penso e tudo rui.
Tento saber, porque tentar é ser.
Longe de isto ser tudo, tudo flui.

Mágoa que, indiferente, faz viver.
Névoa que, diferente, em tudo influi.
O exílio nada do que foi sequer
Ilude, fixa, dá, faz ou possui.

Assim, nocturna, a áreas indecisas,
O prelúdio perdido traz à mente
O que das ilhas mortas foi só brisas,

E o que a memória análoga dedica
Ao sonho, e onde, lua na corrente,
Não passa o sonho e a água inútil fica.

III

Análogo começo,
Uníssono me peço,
Gaia ciência o assomo –
Falha no último tomo,

Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.

O interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.

Timbre do vespertino,
Ali, carícia, o hino
Outonou entre preces
Antes que, água, comeces.

IV

Doura o dia. Silente, o vento dura.
Verde as árvores, mole a terra escura,
Onde flores, vazia a álea e os bancos.
No pinhal erva cresce nos barrancos.
Nuvens vagas no pérfido horizonte.
O moinho longínquo no ermo monte.
Eu alma, que contempla tudo isto,
Nada conhece e tudo reconhece.
Nestas sombras de me sentir existo,
E é falsa a teia que tecer me tece.


24/09/1923
399 Fernando Pessoa

CARTAS A TEIXEIRA DE PASCOAES


CARTA I


Lisboa, 5 de Janeiro de 1914

Meu querido camarada:

Há dias, num dos atalhos de uma conversa com o Mário&Beirão, soube que já depois da perda do seu sobrinho, sofrera o meu querido Amigo a do seu cunhado. Talvez porque quase nunca leio jornais e porque vivo sem necessidade de atenção a sensações exteriores, dedicado sem querer a presenciar-me apenas a mim próprio, essa notícia só assim me chegou. Não sendo assim, já antes lhe haveria escrito para lhe manifestar o quanto a alta e quase religiosa simpatia, que me liga fraternalmente ao seu grande espírito, faz com que me comova com a sua dor, redobrada agora.
Eu creio que o meu Amigo tomará esta carta no sentido de sinceridade que ela tem e não olhará ao seu aspecto de condolência banal, que cartas destas, por sinceras que sejam, inevitavelmente vestem. Os pêsames que esta carta lhe leva vêm de mais alto que o social de mim.
Já que me encontro escrevendo-lhe, aproveito-o para lhe pedir desculpa de antes lhe não ter escrito, agradecendo a oferta de O&Doido&e&a&Morte. Logo apôs receber este poema, comecei uma carta para si, em que cuidadosamente delineava – isto é, começava a delinear – o que para mim se afigurava ser, literariamente, o valor da sua Alma. Circunstâncias exteriores, mínimas, salvo na sua repercussão em mim, deixaram-me, há mais que alguns meses sempre sem acrescentar uma linha às poucas linhas que pensara. Adiei indefinidamente essa carta, que, ainda assim, conto um dia poder terminar e expedir. Perdoe-me o que de indelicado e moroso resultou perante a delicadeza da sua pronta oferta, do meu constante e dominador desalento.
Nenhuma culpa teve nessa demora o que em mim é consciente e superior a mim próprio, e é com essa parte da minha alma que admiro e me enterneço ante a sua Obra. Não que eu julgue O Doido e a Morte uma das suas obras melhores. Mas tem, como tudo quanto o meu Amigo escreve, um sabor espiritual a Eterno. Naquelas páginas álgidas, onde o Mistério esfriou em medalha, tendo de um lado a Loucura e do outro a Morte, Deus é presente na sua nocturna forma de Pavor e Silêncio. A sombra de uma esfinge ao luar – eis o que é para mim esse seu poema. Bem sei que isto é pouco lúcido, mas o meu espírito está bambo e desfiado e não suporta já o peso de um raciocínio ou de uma análise. Digo-lhe tudo por imagens e metáforas, e estas são a moeda falsa da inteligência.
Tenho seguido com atenção o que o meu amigo tem escrito. Há páginas das Elegias em que a Dor é quase divina. E há períodos do Verbo Escuro que são estatuetas do Mistério, encontradas em túmulos de reis que, num outrora impossível, falaram talvez com Deus.
Releve-me que me aproveite de lhe estar escrevendo sobre outro e tão diverso assunto para enfim lhe agradecer O Doido e a Morte e lhe falar do que tem escrito. Se não lhe falasse disso agora quem sabe quando lho diria? Passo a vida a adiar tudo – e para quando.
Ao menos ganho com isso o ser Simbólico. O que é cada um de nós, na sua essência absoluta e divina, senão uma Perfeição adiada para Deus?
Abraça-o comovidamente o seu sincero amigo e eterno admirador

Fernando Pessoa
404 Fernando Pessoa

CARTA IX (continuação)

(seguem-se doze poemas dactilografados)


I

PAUIS

Pauis que roçarem ânsias pela minha alma em ouro...
Dobre longínquo d'Outros Sinos... Empalidece o louro
Trigo na cinza do poente... Corre um frio carnal por minha alma...
Tão sempre a mesma, a Hora!... Balouçar de cimos de palma!...
Silêncio que as folhas fitam em nós... Outono delgado
Dum canto de vaga ave... Azul esquecidos em stagnado...
Ó que mudo grito de ânsia põe garras na Hora!...
Que pasmo de mim anseia por outra coisa que o que chora?...
Estendo as mãos para além, mas no estendr delas já vejo
Que não é aquilo que quero aquilo que desejo...
Címbalos de Imperfeição... Ó tão antiguidade
A hora expulsa de si-Tempo... Onda de recuo que invade
O meu abandonar-me a mim-próprio até desfalecer,
E recordar tanto o eu presente que me sinto esquecer!...
Fluido de auréola transparente de Foi, oco de ter-se...
O mistério sabe-me a eu ser outro... Luar sobre o não-conter-se...
A sentinela é hirta, a lança que finca no chão
É mais alta do que ela... Pra que é tudo isto... Dia chão...
Trepadeiras de despropósito lambendo de Hora os Aléns...
Horizontes fechando os olhos ao espaço em que são elos de erro...
Fanfarras de ópios de silêncios futuros!... Longes trens!...
Portões vistos longe, através de árvores... Tão de ferro!...

29 Março 1913.


II

Elfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais...

Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde,
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde...

Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal ouço e quase choro...
Porque choro não sei...

Tão ténue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste...

Mas cessa, como uma brisa,
Esquece a forma aos seus ais,
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais...

25-IX-1914


III

Serena voz imperfeita, eleita
Para falar aos deuses mortos –
A janela que falta ao teu palácio deita
Para o Porto todos os portos.

Faísca da ideia de uma voz soando
Lírios nas mãos das princesas sonhadas
Eu sou a maré de pensar-te, orlando
A Enseada todas as enseadas.

Brumas marinhas esquinas de sonho...
Janelas dando para Tédio os charcos...
E eu fito o meu Fim que me olha, tristonho,
Do convés do Barco todos os barcos...

6-X-1914.


IV

Como a noite é longa!
Toda a noite é assim...
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem pr'ao pé de mim...

Amei tanta coisa...
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou... Já não sei...
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei...

4-XI-1914.


V

Bate a luz no cimo
Da montanha, vê...
Sem querer, eu cismo
Mas não sei em quê...

Não sei que perdi
Ou que não achei...
Vida que vivi,
Que mal eu a amei!...

Hoje quero tanto
Que o não posso ter.
De manhã há o pranto
E ao anoitecer.

Tomara eu ter jeito
Para ser feliz...
Como o mundo é estreito,
E o pouco que eu quis!

Vai morrendo a luz
No alto da montanha...
Como um rio a flux
A minha alma banha.

Mas não me acarinha,
Não me acalma nada...
Pobre criancinha
Perdida na estrada!...

4-XI-1914.


VI

Vai redonda e alta
A lua. Que dor
É em mim um amor?...
Não sei que me falta...

Não sei o que quero
Nem posso sonhá-lo...
Como o luar é ralo
No chão vago e austero!...

Ponho-me a sorrir
Para a ideia de mim...
E tão triste, assim
Como quem está a ouvir

Uma voz que o chama
Mas não sabe donde
(Voz que em si se esconde)
E só a ela ama...

E tudo isto é o luar
E a minha dor
Tornado exterior
Ao meu meditar...

Que desassossego!
Que inquieta ilusão!
E esta sensação
Oca, de ser cego

No meu pensamento
Na minha vontade...
Ah, a suavidade
Do luar sem tormento

Batendo na alma
De quem só sentisse
O luar, e existisse
Só pra a sua calma.

4-XI-1914.


VII

Saber? Que sei eu?
Pensar é descrer.
– Leve e azul é o céu –
Tudo é tão difícil
De compreender...

A ciência, uma fada
Num conto de louco...
– A luz é lavada –
Como o que nós vemos
É nítido e pouco!

Que sei eu que abrande
Meu anseio fundo?
Ó céu real e grande,
Não saber o modo
De pensar o mundo!

4-XI-1914.


VIII

Sopra de mais o vento
Para eu poder descansar...
Há no meu pensamento
Qualquer coisa que vai parar...

Talvez essa coisa da alma
Que acha real a vida...
Talvez esta coisa calma
Que me faz a alma vivida...

Sopra um vento excessivo...
Tenho medo de pensar...
O meu mistério eu avivo
Se me perco a meditar.

Vento que passa e esquece,
Poeira que se ergue e cai...
Ai de mim se eu pudesse
Saber o que em mim vai!

5-XI-1914.


IX

Chove?... Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que o ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia?

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro em mim.
Se escuto, alguém dentro em mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Quando é que eu serei da tua cor,
Do teu plácido e azul encanto,
Ó claro dia exterior,
Ó céu mais útil que o meu pranto?

1-XII-1914.


X

Ameaçou chuva. E a negra
Nuvem passou sem mais...
Todo o meu ser se alegra
Em alegrias iguais.

Nuvem que passa... Céu
Que fica e nada diz...
Vazio azul sem véu
Sobre a terra feliz...

E a terra é verde, verde...
Porque então minha vista
Por meus sonhos se perde?
De que é que a minha alma dista?


XI

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez...
Canta e ceifa, e a sua voz cheia
De alegre e anónima viuvez

Flutua como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar...

Ouvi-la alegra e entristece...
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida...

E com tão nítida pureza
A sua voz entra no azul
Que em nós sorri quanto é tristeza
E a vida sabe a amor e a sul!

Canta!... Arde-me o coração
406 Fernando Pessoa

CARTAS A MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO


CARTA I


Lisboa, 6 de Dezembro de 1915

Meu querido Sá-Carneiro:

Como lhe escrevo esta carta, antes de tudo, por ter a necessidade psíquica absoluta de lha escrever, V. desculpará que eu deixe para o fim a resposta à sua carta e postal hoje recebidos, e entre imediatamente naquilo que ficará assunto desta carta.
Estou outra vez presa de todas as crises imagináveis, mas agora o assalto é total. Numa coincidência trágica, desabaram sobre mim crises de várias ordens. Estou psiquicamente cercado.
Renasceu a minha crise intelectual, aquela de que lhe falei, mas agora renasceu mais complicada, porque, à parte ter renascido nas condições antigas, novos factores vieram emaranhá-la de todo. Estou por isso num desvairamento e numa angústia intelectuais que V. mal imagina. Não estou senhor da lucidez suficiente para lhe contar as coisas. Mas, como tenho necessidade de lhas contar, irei explicando conforme posso.
A primeira parte da crise intelectual, já V. sabe o que é; a que apareceu agora deriva da circunstância de eu ter tomado conhecimento com as doutrinas teosóficas. O modo como as conheci foi, como V. sabe, banalíssimo. Tive de traduzir livros teosóficos. Eu nada, absolutamente nada, conhecia do assunto. Agora, como é natural, conheço a essência do sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível tratando-se de qualquer sistema religioso. O carácter extraordinariamente vasto desta religião-filosofia; a noção de força, de domínio, de conhecimento superior e extra-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Coisa idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro inglês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me «hante». Não me julgue V. a caminho da loucura; creio que não estou. Isto é uma crise grave de um espírito felizmente capaz de ter crises desta. Ora, se V. meditar que a Teosofia é um sistema ultracristão – no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus – e pensar no que há de fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essencial, V. terá o primeiro elemento grave que se acrescentou à minha crise. Se, depois, reparar em que a Teosofia, porque admite todas as religiões, tem um carácter inteiramente parecido com o do paganismo, que admite no seu panteão todos os deuses, V. terá o segundo elemento da minha grave crise de alma. A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (V. compreende?) essenciais, atrai-me por se parecer tanto com um «paganismo transcendental» (é este o nome que eu dou no modo de pensar a que havia chegado), repugna-me por se parecer tanto com o cristianismo, que não admito. É o horror e a atracção do abismo realizados no além-alma. Um pavor metafísico, meu querido Sá-Carneiro!
V. seguiu bem todo este labirinto intelectual? Pois bem. Repare que há outros dois elementos que ainda mais vêm complicar o assunto. Quero ver se consigo explicar-lhos lucidamente...

(...)
419 Fernando Pessoa
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CARTA A MIGUEL DE UNAMUNO


Lisboa, 26 de Maio de 1915

Ex.mo Senhor D. Miguel&de&Unamuno:

Por este meio enviamos a V. Ex.ia o primeiro número da nossa revista Orpheu. Como depreenderá de uma, ainda que rápida, leitura, esta revista representa a conjugação dos esforços da nova geração portuguesa para a formação de uma corrente literária definida, contendo e transcendendo as correntes que têm prevalecido nos grandes meios cultos da Europa. Tomamos a liberdade de chamar para isto a sua atenção, e de lhe pedir que examine de perto a atitude essencial da nossa arte literária; estamos certos que nela terá a surpresa de encontrar qualquer coisa que não se lhe terá deparado no seu percurso através das literaturas conhecidas. Como temos a consciência absoluta da nossa originalidade e da nossa elevação, não temos escrúpulo algum em dizer isto.
Baseados nisto, e como seja nosso intuito estender quanto possível a nossa influência, e conseguir, através da nossa corrente – a mais cosmopolita de quantas têm surgido em Portugal – uma aproximação de espíritos, tão pouco tentada ainda, com a Espanha, pedíamos a V. Ex.ia nos desse a sua opinião sobre a nossa revista e a literatura que contém – opinião essa que, se pudesse ser dada através da imprensa, como julgamos que a nossa iniciativa merece, duplamente nos seria grata. Nada nos é tão simpático como a agitação de ideias, e é por isso que sobremaneira agradeceríamos que tornasse pública a sua opinião – seja ela qual for – sobre nós.
Fica feito o nosso pedido.
Com os protestos do nosso respeito, rogamos a V. Ex.ia acredite na admiração de

Por Orpheu

Fernando Pessoa
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