Uma Jóia da Renascença

João Toco, venha cá.
Venha cá, toco de pau.
João Toco, negro!
Faça favor, cavalheiro, venha cá.
Tenho uma coisa para você Toquinho.
Para você levar à sua senhora.
Olhe, eu estava aqui mesmo,
nesta casa dos marimbondos
esperando que você passasse com essa Fon-Fon na mão,
para você me levar um recado para a tua patroa,
para a tua senhora, para a tua iaiá,
para a feroz inimiga dos marimbondos,
para aquela morcega,
para aquela morde e assopra
que subiu na política
e está naquele assanhamento,
tocando foguete de assovio,
porque vai mamar na vaca leiteira
e se esquece que amanhã pode voltar a ficar de baixo
e com rabo entre as pernas.
Olhe, você diga à grande dama
que quando mandar você, toco de pau,
fazer o facho bem grande, bem grande, bem grande,
para queimar a casa dos marimbondos,
para queimar os marimbondos,
todos os marimbondos, todos os marimbondos,
os marimbondos que perderam e estão debaixo,
mas que conservam o brio e a vergonha,
mande queimar somente as fêmeas dos marimbondos
e fique com os machos para ela.
Vá, toco de pau, e me leve o recado
desta guelfa àquela gibelina.
Me leve este recado florentino.
Me leve este recado da Toscana.
Me leve esta jóia de Celini.
Porque de fato quem está aqui na grade
do portão desta casa de Belmonte,
em plena Renascença italiana,
mandando este recado à adversária,
já não é a mulher do ex-intendente,
mas a Incomparável de Veneza e de Verona,
a Magnífica de Ravena e da Toscana.

(1940)


Publicado no livro Obra Poética (1958).

In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
6 Sosigenes Costa

V [Lagartixa taruíra

(...)
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.
A mãe dágua da Ingauíra
lá na beira do barranco
pariu hoje uma menina
com cabelinho de branco
e zoinho de xexéu
Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
onde tem a flor do céu.

A filhinha da mãe-dágua
vai ficar araçuaba.
É tão branca que parece
lagartixa descascada.
Lagartixa taruíra
caquende papai-vovô.

A filhinha da mãe-dágua
assim que nasceu no toco,
no toco do pau sentou.

A menina da mãe-dágua
come papa de banana
e também de fruta-pão
que sequei no tabuleiro
que ralei naquele ralo
que pisei no meu pilão.
(...)

A mãe-dágua da Ingauíra
fez sapato e babadô.
E a mãe-dágua lá do Pardo
que é princesa do Patipe
veio pelo Poaçu
partejar aquela flor
e aparou Iararana
cortou o imbigo, deu banho
e deu maná à menina
e enterrou ali na areia
os panos sujos de sangue
de sua prima sereia.

Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.

A filhinha da mãe-dágua
tem berloque na cintura
e se senta no barranco
com o rabo dependurado.
Ela é filha de uma iara

e se chama Iararana
pois não puxou à sereia
puxou todinha o pai
aquele cavalo branco.

Lete late lete lixe
encontrei com a lagartixa
assentada na cadeira
com o rabo dependurado.
Isto não é lagartixa
isto é arte do diabo.

Taruíra venha ver
sua irmã lá no barranco.
(...)


In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
7 Sosigenes Costa

I [E Romãozinho foi subindo, foi subindo

(...)
E Romãozinho foi subindo, foi subindo
e chegou na Meroaba de cima.

— Você viu a caipora?

— Não vi não.

E Romãozinho passou pela Bolandeira, cantando:

— Dom Pedro disse a Totonha
sentado naquele beco
que este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Dom Pedro não era peco.
Dom Pedro disse a Totonha,
Totonha disse a Pacheco.
Pacheco disse a Badico,
o burro contou à vaca,
a besta disse à perua
e a coisa saiu do beco
e se espalhou pela rua.
Este rio Jequitinhonha
é o rio do estrume seco.
Quem me disse foi Joana
que mora com seu Pacheco.
Você viu a caipora?

— Não vi não.

Nisto apareceu o amarelo empapuçado.

— Você viu Zeca?

— Que Zeca?

— Zeca Fedeca sem pé nem munheca.

— Valha-me, Nossa Senhora
que este homem é Romãozinho!
Conheci pelo pé.
E Romãozinho foi cantando:
— Botei um circo no inferno
pra as almas que estão penando
se divertirem um pouquinho e se esquecerem do fogo.
Me visto então de João Bobo
arremedo miriqui,
dou pontapés nos defuntos
e o inferno faz: quá-quá-quá
e só se vê qui-qui-qui.
Quá-quá-quá. Qui-qui-qui.

As almas que estão sofrendo
precisam se divertir.
Dou pontapé no esqueleto
me viro em menino-cobra
faço careta pra a morte
passo a raspa no capeta
e o diabo faz: quá-quá-quá
e a morte faz: qui-qui-qui.
Quá-quá-quá, qui-qui-qui.

— Você viu a caipora?
— Não vi não.
(...)


In: COSTA, Sosígenes. Iararana. Introd. apuração do texto e glossário José Paulo Paes. Apres. Jorge Amado. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Cultrix, 1979
8 Sosigenes Costa

Iemanjá

(...)
— Ê vai ê vai
a rainha do mar
rompendo mar e vento.

Orungã, não faça isto
que o mundo vai se acabar.
Não te dói a consciência?
Não desonre esta sereia,
não manche a estrela do mar.

Ê vai ê vai
rompendo mar e vento
rainha da Guiné.

Onde mora Santa Barb'a
que quero me esconder.
Vai haver um castigo,
o mundo vai se arrasar.
Já estive numa casa
e era a casa de Bará.
Onde mora Santa Barb'a?
Minha gente, me responda:
Onde mora Santa Barb'a?

— Mora den'da lua
mora den'dum rochedo.

— Ai quem me dera que eu pudesse
me esconder dentro da lua.

E Iemanjá de tão cansada
já não podia correr mais.
Ia cai não cai caindo.

— Ô Iná marabô,
faça surgir um mar de Espanha,
Inaê ou Inaô,
um espinheiro e uma neblina,
ô Iná arauê
uma chuva de navalha
pra Orungã não te pear.

E Iemanjá já não podia
correr mais e desmaiou.
E caiu no chão de costas.
Porém antes que Orungã
alcançasse Iemanjá
e tocasse nos seu seios,
o seu corpo foi crescendo,
foi crescendo e agigantou-se
e os dois seios de Inaê
se tornaram do tamanho
de dois montes sem igual
e o céu estremeceu
e a terra se abalou
e o ceú veio arriando
e queria desabar.

Quando os bicos dos seus peitos
se afundaram pelas nuvens,
sustentando o firmamento
que queria desabar,
o anjo tocou a trombeta
e os dois seios da sereia
começaram a jorrar água
com estrondo e num dilúvio
e dois rios se formaram
da água de cada um,
e a água lavou o mundo.
E o espírito de Deus vagou naquelas águas
e foi então o princípio
e a pomba do Divino bebeu das águas bentas.

E eu botei o joelho em terra
para pedir pelos filhos de Deus.

Ai a água lava tudo,
lava o que nos mancha as almas,
lava o que nos envergonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.

Dos teus seios, Janaína
se formaram estes dois rios
que a Bahia estão lavando
para tirar o que nos mancha
e também nos envergonha.
Ora, um é o S. Francisco
e o outro é o Jequitinhonha.
Quem apaga o fogo?
É a água.
(...)

Imagem - 00830001


Poema integrante da série Obra Poética II.


In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
9 Sosigenes Costa

A Cabeleira da Musa

No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.
No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.
No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.
No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.
Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.
No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.
Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.
No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.
No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.
No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.
No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.
No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:
Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!
13 Sosigenes Costa

Case Comigo, Mariá

Case comigo, Mariá,
que ou te dou, Mariá,
que ou te dou, Meriá,
meu coração.

(Cantiga de roda)

O mar também é casado,
o mar também tem mulher.
É casado com a areia.
Dá-lhe beijos quando quer.

(Quadra popular]

Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?
Se até o peixlnho é casado...
Não sabes que o mar é casado
com uma filha do rei?
Mariá, o mar é casado
com a filha loura do rei.
Mariá, por que não te casas
se o próprio mar é casado?

Ouem é a mulher do mar?
É a sereia?
É a areia, Mariá.
É a princesa dos seios de concha.

Mandei ao mar uma rosa, Mariá,
porque ele vai se casar.
O mar pediu que a sereia, Mariá,
viesse me visitar
e agradecer o presente.
Ouando foi isto? No passado, Mariá.

Sabes que fez a sereia, Mariá?
Deu-me um punhado de areia;
esta cidade de areia,
nossa terra, Mariá.

Aquela moça da praia, Mariá,
é namorada do mar.
Só vive olhando pra as ondas
e o mar vive a suspirar.

Aquela areia da praia
veio do Engenho de Areia, Mariá.
Que bela é a mulher do mar,
em cima daquela coroa!

Areia da Pedra Branca
desceste o rio correndo.
Tu viste a Ilha das Pombas,
ah! tu viste Mariá.

Adeus, Coroa da Palha,
que eu vou aos tombos da sorte,
rolando aos tombos da vida,
caindo e me levantando.
Só me salvo se cair
nos braços de Mariá.

Donde viria esta areia?
Da serra da Pedra Redonda.
Veio de Minas, Mariá,
rolando no Rio das Pedras
e só entrou na Bahia
quando passou dando um pulo
na cachoeira do Salto.

Deu um pulo no Salto Grande
a areia, a mulher do mar.
Em cima do Salto, está Minas.
Embaixo do Salto a Bahia.
Lá em cima a água é mineira,
caindo embaixo é baiana, Mariá.

Ah! como é linda esta roda
às sete horas da noite,
à hora em que a lua cheia
acabou de sair do mar,
iluminando Belmonte
com todas as suas ruas de areia.

A lua nasce chorando
lágrimas de prata na areia.
Apanhem numa redoma este pranto,
guardem bem guardada esta jóia
que um dia será adorada.
É a lágrima azul da saudade.
Que foi? O que teve? Nada.
Apenas uma lágrima salgada
caiu dos meus olhos na areia.

Marlá, por que não te casas?
Me diga; por que não te casas
comigo, se eu quero te dar,
se eu quero te dar, Mariá,
num beijo o meu coração?

Crianças cantando roda
nas ruas brancas da areia,
naquelas ruas tão longas
como as estradas de areia.

Cantando desde a Atalaia
até a Ponta de areia.
Cantando lá na Biela,
na rua do Camba e nas Baixas
e em todas as ruas de areia.

Ah! lá no Pontal da Barra
é que brilha a lua na areia,
nas areias da Barrinha
e na estrada da Barra Velha.
Mariá, por que não te casas?
Se tu casares comigo,
sabes o que te darei, Mariá?
Sabes o que te darei, Mariá?
Quantos beijos tu quiseres,
cem beijos se tu quiseres,
Mariá, meu coração.
Deitado dontigo na areia,
dar-te-ei meu coração.

Não é só o mar que é casado, Mariá.
O peixinho também é casado.
E o passarinho é casado.
Também quero ser casado
mas contigo, Mariá.

Mariá. case comigo,
já que o mar casou com a areia.

Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?

17 Sosigenes Costa