Lista de Poemas

Ao Primeiro Dia

Ao primeiro dia
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da graça do Senhor
Partimos
Era mal de manhãzinha
Partimos
Pouco a pouco
A costa foi-se
Desanuviando
As caras ficaram cada vez menores
Menores
Menores
Os poucos que nos trouxeram
Gritaram pragas
Rogaram mal dizeres
Mas logo, logo, não ouvíamos o que diziam

Às tantas horas
E tantos minutos
Do primeiro dia
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da graça do Senhor
Debaixo do astro iniciante a esquentar
Partimos
No princípio todos faziam silêncio
Todos faziam silêncio
Todos faziam silêncio
Aos poucos
Fomos nos olhando
Uns aos outros
Aos poucos
Fomos nos reconhecendo
Aos poucos
Uns aos outros
Como nos espelhos
Não sabemos quem terá sido
O primeiro
A pronunciar a primeira palavra
Logo estávamos todos a trocar palavras
Umas indo
Outras voltando
Pelo convés da nau
Víamos as palavrinhas
Nesse vaivém
Vai e vêm
Pelo ar
Como coisa atrás de coisa
Nossas cabeças estão cheias
E muito cheias
De palavras
E num belo minuto
Quando menos esperamos
Algumas delas se juntam
A algumas outras
E se prestamos
Atenção
Notamos uma frase
Se construindo
Outra frase se juntando
Daqui a pouco temos versos
E estrofes
Completas
Logo mais um poema inteiro
E como nas cabeças
De todos outros nós
Outras palavras se juntam
Pra formar novas outras frases
Que se juntam
Pra formar novas outras estrofes
Nós trocamos entre nós
Os poemas que nascemos
E ficamos mais antigos
Todos nós mais antigos
De todos nós todos

Assim é
Que poucos minutos
Após as tantas horas
Da manhã do primeiro dia
Do primeiro ano do Senhor
Um sábado
Véspera de domingo
Como todos os outros sábados
Sexta após sexta-feira
Sempre que nasce um sábado
No tempo
Para durar exatas e poucas
Vinte e quatro horas
Como todos os dias também duram
A cada semana que passa
Cada ano
Os séculos passam
E um sábado continua pregado
Ao domingo
Nunca depois
Sempre antes
Senão vira segunda feira
Que não tem graça nenhuma.

Assim foi que neste sábado
Dia primeiro
Do primeiro mês
Do primeiro ano
Da desgraça do Senhor
Nós partimos
E nos reconhecemos
E nos presenteamos
E ficamos mais amigos uns dos outros
Nós.

1 005

Nesta Embarcação

Nesta embarcação, nesta caravela
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?

766

Quem Nasceu Vendedor de Peixes

Quem nasceu vendedor de peixes
Vende peixes
Não enjoa de vender
Em verdade
Peixes lhe aparecerão
Tal e qual
Aparecem fantasmas
Nos castelos dos países no norte
Quem nasceu
Pra navegar
Não sossega
Não fica quieto
Não esquenta lugar
Não dorme direito
Fora da linha do mar
Nós nascemos para navegar
A vida inteira
Não adivinhamos
Nosso vero destino
Alguns de nós zanzaram
Pelas ruas
A pedir esmolas
A roubar nas feiras
A rolar pelas calçadas
Mas nosso destino era
Navegar
Outros de nós
Tiveram dinheiro
E os estrangeiros nos tiraram
O dinheiro que tivemos
Tiraram-nos a vontade
A visão
Talvez as pessoas que assim fizeram
Soubessem
(Sequer sabendo
Que sabiam)
A verdade sobre nosso destino
E apenas seguiram
Os desígnios
Outros de nós fomos depravados
Fomos prostitutas
Muitos fomos chamados
De escória
Pelos ainda terrestres
Muitos escreveram versos
Escrevemos autos
Cartas
Poemas
Mas nenhum de nós sabia
Do nosso final

Desde o dia
Em que nos puseram
Nesta nave, navegamos
Navegamos
Navegamos
Nossa vida é navegar
Nosso destino
Missão

As quiromantes sabiam
As videntes dos circos
Sabiam
Os oráculos, idem
As pitonisas sabiam
Mas não nos disseram
Uma única palavra
Os marinheiros também
Deviam saber
Um marinheiro reconhece
Outro
Mesmo na selva
Mas nada nos deram
(Tudo é segredo
Tudo ainda é
Segredo
Nada nos é revelado)
Nós
Habitantes da nau
Passamos nossa vida a saber
De nada
Nada nos é dito
Tudo nos é escondido
Tudo nos é roubado
Tudo acontece
Para que cumpramos o destino
De navegar
Mesmo quando
No oceano pleno
Estamos
E não há um só navio
Uma numa embarcação
A vista
É-nos sonegado saber
Por que estamos
Nesta nave
Pois navegar é bom
Mas temos fome
Navegar é bom
Mas temos sede
Navegar é bom
Mas temos frio
Navegar é bom
Mas temos sono
Navegar é preciso
Mas estamos cansados
Estamos cansados
Estamos cansados
Navegar é viver
Mas estamos quase mortos
Navegar é o que nos resta
Mas não queremos

Navegar
E nossa missão
Mas que vá para o diabo
Para o diablo
Para as profundas
A nossa missão
Estamos aqui
Marítimos
Mas não queremos estar
Nem todos de nós
Queremos
Estar
Muitos querem ir embora
Dois já foram
Um com a sereia
E o primeiro
Com outro peixe
Mais da nossa metade
Junto à amurada
Junto ao muro
Junto à fronteira
Do mar
Está
A fazer últimas orações
Para eles chegado o momento
O porto
A pedra
Já começam a cair
Começam a se jogar
O mar que era calmo
Faz marulho
Agora
Ao engolir os corpos
De nós
Que caímos
Os corpos de alguns
De muitos
Caídos
No mar tanatificado

Maktub?

842

Saber

Saber
Conhecer
Desvendar os segredos
É o peso maior
A tarefa mais triste
A pior parte
Da missão
Saber os segredos é um peso
Tão grande
Que às vezes melhor
Seria
Morrer
Mas agora que chegamos
Tão perto
Do fim
E restam pouquíssimos de nós
Morrer
Não é mais
Um sonho
Ou um medo
Ou um desejo
Morrer pode ser amanhã
Morrer
Pode ser hoje
Quem será o próximo
Não sabemos
Nem adianta saber
É um segredo
Talvez o único a não sabermos
O próximo podemos ser
Eu
Podemos ser ele
Ou ela
O próximo seremos o próximo
A morrer

A forma
A face
O modo
A vestimenta
Que a morte usará
Também não sabemos
Pode ser a fome
Que nos atormenta
Nos fere
Nos morde
E ainda assim alguns de nós
Continuamos vivos
Também pode ser a sede
Não temos água doce
Não temos vinho
Não temos garrafa
E a água do mar
Salga nossos lábios
Obriga-nos a vomitar
Pra depois sentirmos ainda mais sede
A morte poderá vir
Como um outro peixe
Ou como uma outra sereia
A cantar
E encantar
Ela poderá chegar magnificamente
Acompanhada
Por algumas mortezinhas menores
Infantas
Petizes
Pode ainda vir indesejada
Pelo eleito
Ou também sonhada
Acarinhada
Querida
Por quem de decerto
Também pode a morte não chegar
Ela gosta de seduzir
Agir
Igual à mulher fatal
Que atiça o desejo
Dá uma mão
Pra logo tirar
Mostra o tornozelo
O sonho da perna
Mas logo dá um piparote
E o fulano acorda
A morte pode agir assim
E alguém ser o seduzido
O amante
O fulano
O homem que se atira n’água
E dentro d’água se encontra
Com ela, a mulher
Fatal
Finalmente fora da redoma
Essa dona
Do amor
Essa filha
Da primeira serpente
Essa mulher
Que só nos oferece duas escolhas
Entre sermos escravos seus
E esperarmos
Sua chamada
Ou sermos senhores
E partirmos
Ao seu encontro.

799

Se de Repente

Se de repente
Subitamente
A qualquer instante
A qualquer momento
De repente e não mais que de repente
A gente
Ressuscitar

Se tudo o que aconteceu
Foi
Pantonima
Truque
Magia
Função de circo?

Se das cinzas
Se dos restos incendiados
Desta nave
Renascer
Aquela ave
Que antigamente renascia?

Se a gente parar de fazer perguntas
E procurar respostas?
Se as palavras
Pularem dos livros e das petições
Deixando todas as páginas
Em branco?

Se as folhas de papel
Retornarem
Às árvores originais?

Se as árvores originas
Voltarem
Aos elementos que foram antes?

Se o próprio antes retornar
Voltar
Ao que tinha sido ainda antes?

834

Minhalma

Minhalma gentil que se parte
Vai
Sai de mim
Eu ficarei a relembrar-te
A reclamar-te
A chorar-te
Na clara escuridão da funda noite

Minhalma fremosa
Minhalma doce
Minhalma cheia de tudo, vai
Mãe natureza chama de volta
O que lhe pertence
Solta-te de mim
Não me pertences

Cai na toda escuridão
Minha luz, minha lâmpada, meu céu
Minha vida que minha mãe me deu
Fica a esperar
Escondida
Em algum colo
Morfeu

Fica meu corpo aqui
Fica meu corpo sem minhalma
Fica meu corpo no breu
Sem meu espírito

Um e uma e outro eram em mim
A presença
De alguém ausente de mim

Fica meu corpo longe
Bem longe
Minha sina
Meu destino
Minha cruz
Fica meu corpo incendiado no barco
Crucifixo

Fica o que foi e tinha sido
Antes
Destes mares de nunca mais
Nunca dantes
Nunca durantes
Nestes, naqueles, noutros mares
De nunca jamais

Restam nestas águas
Destes mares
A fumaça
O fero fogo
A luz
Os fantasmas, os ângelos
Os arcângelos
Que fomos

Restam pelo céu
Per omnia saecula saeculorum
Fumaças tapando a bola
Mas o fogo e a luz ardendo aqui
Transformam
Esta nave
Num farol

Lúmina, luminosa, lumescente
Lúcida
Nossa nave ilumina os mares
É farol

A nossa luz é tanta
Ilumina tudo
É sol.

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Identificação e contexto básico

Luis Germano Graal é um poeta cuja identidade e obra são pouco documentadas em fontes de fácil acesso. A sua nacionalidade e língua de escrita são portuguesas.

Infância e formação

Não há informações disponíveis sobre a infância e formação de Luis Germano Graal.

Percurso literário

O percurso literário de Luis Germano Graal é, até ao momento, pouco explorado publicamente. A existência de algumas publicações sugere um envolvimento com a escrita poética, mas a extensão e evolução da sua carreira literária não são detalhadas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Pelas poucas referências existentes, a obra de Luis Germano Graal parece inclinar-se para uma poesia de cariz lírico e introspectivo. Os temas abordados podem incluir a reflexão sobre a vida, a sensibilidade humana e a exploração da linguagem poética. O estilo sugere uma preocupação com a forma e a expressão cuidado.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sendo um autor com pouca documentação, é difícil situar Luis Germano Graal num contexto cultural e histórico específico. A sua obra, se representativa de um período, poderá refletir as tendências literárias da época em que produziu.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a vida pessoal de Luis Germano Graal não são públicas.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento e a receção crítica da obra de Luis Germano Graal são limitados, possivelmente devido à escassez de material publicado ou à sua discrição como autor.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sem informações detalhadas sobre a sua obra, é difícil determinar influências específicas ou o legado deixado por Luis Germano Graal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A falta de material disponível impede a realização de análises críticas aprofundadas ou interpretações sobre a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A principal curiosidade em torno de Luis Germano Graal reside na escassez de informações sobre a sua vida e obra, o que o torna uma figura enigmática no panorama literário.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há registos públicos sobre a morte ou publicações póstumas de Luis Germano Graal.