Marcus Vinicius Quiroga

Marcus Vinicius Quiroga

1954–2020 · viveu 66 anos BR BR

Marcus Vinicius Quiroga é um poeta brasileiro contemporâneo cuja obra se destaca pela exploração de temas sociais e existenciais, com uma linguagem direta e por vezes crua. A sua poesia reflete frequentemente as complexidades da vida urbana e as inquietações da sociedade moderna. A escrita de Quiroga é marcada pela capacidade de capturar a essência de experiências humanas diversas, abordando com perspicácia questões de identidade, alteridade e a busca por sentido. A sua poesia é um espelho das angústias e esperanças do nosso tempo.

n. 1954-01-01, Rio de Janeiro · m. 2020-01-01, Rio de Janeiro

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COMPOSIÇÃO EM PRETO E BRANCO

fosse a pintura recomposta
com tonalidades preta e branca
para que habitassem, mesmo opostas,
o espaço da tela
fossem as figuras ovaladas,
como as fez um dia mestre Grego
nem tão santas, nem tão profanas,
lado a lado postas
fosse o predomínio do tom preto
como do profundo sobre o plano
para que só uma fresta,
uma réstia de luz se insinuasse,
espécie de anunciação,
às avessas, e queimasse o quadro
com fogo discreto, mas permanente,
e se desse a fuga
por aquela réstia de luz,
na tela sobrasse a ausência
e no canto a assinatura de um poeta
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Biografia

Identificação e contexto básico

Marcus Vinicius Quiroga é um poeta, escritor e professor brasileiro. É conhecido pela sua produção literária que abrange poesia e ficção, com uma forte inclinação para a crítica social e a reflexão sobre a condição humana na contemporaneidade.

Infância e formação

Quiroga desenvolveu desde cedo um interesse pela leitura e pela escrita. A sua formação académica, que inclui estudos na área da literatura e da educação, proporcionou-lhe as ferramentas intelectuais para aprofundar a sua análise crítica e a sua expressão literária.

Percurso literário

O percurso literário de Marcus Vinicius Quiroga é caracterizado por uma obra consistente e multifacetada. Iniciou a sua atividade literária com a publicação de poemas em diversas plataformas e, posteriormente, expandiu a sua obra para a prosa, consolidando um estilo que lhe é característico.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Marcus Vinicius Quiroga explora uma vasta gama de temas, incluindo a vida urbana, as relações humanas, a identidade, a crítica social e as questões existenciais. A sua linguagem é frequentemente direta, por vezes coloquial, mas sempre carregada de significado e capacidade de evocar imagens fortes. Utiliza o verso livre com mestria, adaptando a forma à expressividade do conteúdo. O seu tom poético pode variar entre o reflexivo, o crítico e o confessional, revelando uma voz autêntica e engajada.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Marcus Vinicius Quiroga insere-se no panorama da literatura brasileira contemporânea, um período marcado pela diversidade de vozes e pela forte ligação entre a produção literária e as questões sociais, políticas e culturais do país. A sua obra reflete as dinâmicas da sociedade brasileira atual, com os seus desafios e contradições.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Quiroga é também reconhecido pela sua atividade académica como professor, o que o coloca em contacto direto com as novas gerações e com o debate intelectual. A sua vida pessoal, embora não amplamente divulgada, parece estar intrinsecamente ligada à sua paixão pela literatura e ao seu desejo de intervenção social através da escrita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Marcus Vinicius Quiroga tem vindo a ganhar reconhecimento no meio literário brasileiro, tanto pela sua qualidade estética como pela pertinência dos temas abordados. A sua participação em eventos literários e a publicação em antologias atestam a sua crescente relevância.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Quiroga na literatura brasileira podem ser identificadas na sua capacidade de renovar a linguagem poética e de abordar temas sociais de forma inovadora. O seu legado assenta na construção de uma obra que estimula a reflexão crítica e a empatia.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Marcus Vinicius Quiroga é objeto de análise crítica que destaca a sua capacidade de traduzir as complexidades do mundo contemporâneo em versos impactantes. A sua obra convida a uma reflexão sobre a sociedade, a individualidade e o futuro.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua atividade como escritor e professor, Quiroga pode ter outras facetas da sua personalidade e dos seus hábitos de criação que ainda não são de conhecimento público geral, mas que contribuem para a complexidade do seu perfil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não aplicável, pois o autor encontra-se vivo.

Poemas

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COMPOSIÇÃO EM PRETO E BRANCO

fosse a pintura recomposta
com tonalidades preta e branca
para que habitassem, mesmo opostas,
o espaço da tela
fossem as figuras ovaladas,
como as fez um dia mestre Grego
nem tão santas, nem tão profanas,
lado a lado postas
fosse o predomínio do tom preto
como do profundo sobre o plano
para que só uma fresta,
uma réstia de luz se insinuasse,
espécie de anunciação,
às avessas, e queimasse o quadro
com fogo discreto, mas permanente,
e se desse a fuga
por aquela réstia de luz,
na tela sobrasse a ausência
e no canto a assinatura de um poeta
1 210

Goya

o quadro de Goya me devora

olhares
com dentes engolem
as primaveras
sobre a mesa da sala
nada

não mais flores mortas enfeitando o dia
                                        na vida cômoda
o quadro de Goya
                                      rejeita
a cor que não for sombra
844

O desertor

A questão é que o desertor
nos faz pensar em duas partes:
o mundo de que se deserta
e o outro, para o qual se evade.

Daí o temor, o mal-estar,
a maldição a quem discorda:
às vezes, a lei diz mais alto,
pune o desertor com a morte.

A questão é que ele talvez
pudesse ter razão, portanto
quem permanece não perdoa
quem faz tudo não ser como antes.

Agora que há em nós a dúvida:
«é este mundo razoável?»
Como não culpá-lo por isto?
Como olhar-se no espelho em paz?
786

NAVEGAÇÃO À DERIVA

quem navega à deriva
sabe que há vida além dos mares nos mapas
além das bússolas, astrolábios, diários de bordo
além das lendas dos monstros marinhos, dos mitos

quem navega à deriva
acredita que há nos mares miragens, portos
inesperados, ilhas flutuantes, botes e salva-vidas
água potável, aves voando sobre terra, vertigem

quem navega à deriva
aprende que há mares dentro do mar à vista
profundidade secreta, origem do mundo, poesia
escrita cifrada à espera de quem lhe dê sentido

quem navega à deriva
se perde da costa, do farol na torre, dos olhares
atentos, dos radares, das cartas de navegação
imigra para mares de imprevista dicção
841

IRREVERSÍVEL

desapareceu num quadro de Van Gogh
sem deixar vestígios

quem sabe o líquido que existia em sua taça?
talvez as palavras não tenham sido suficientemente tácitas

seria capturado num leilão tardio?

ou sob a forma de um trigo teria amadurecido

a paisagem e o desvario

741

ARQUITETURA E ASAS

Quem planeja, desenha limiares,
não superfícies fechadas, paredes
não toldos, telhas, tetos, mas áreas
que se soltam das linhas das maquetes
No ofício de ver o ainda invisível,
argamassa desejos com pó de asa,
porque dentro de toda pedra vive
o avesso da pedra, de nome audácia

Quem habita, joga no espaço uma âncora,
sente o peso do porão e fantasmas,
entra em contato com o que havia antes,
que o tempo é também uma espécie de casca
Logo quem habita uma casa, habita
os dias que se abrem em quartos, salas
com janelas de fundos, cuja vista
é paisagem interna, temporária

Quem planeja, desenha perspectivas,
não supõe o inesperado despejo,
interdito de muros, cerca viva,
separação sem recurso ou apelo,
traça no papel a vida viável,
o chão que nasce através dos passos,
com arquitetura que se sabe ave
e não se prende às regras da sintaxe

Quem as habita, habita limiares
como se para além da régua e compasso
houvesse a morada solta nos ares
dentro de insuspeitos tempos e espaços
Quem do concreto um dia se desgarra
faz casas só de sonhos e presságios
754

PERPETUUM MÓBILE DE MAGRITTE

olhar é um exercício de peso
requer músculos para abstrair
e manter o objeto em equilíbrio

o reflexo torna-se o espelho
e move-se ao redor de si mesmo
mecânico, preciso, presto

a ilusão deforma a figura
em jogo de sombra e geometria:
engano à primeira vista

com o tempo vê-se o truque
mas ele faz parte do quadro
como pergunta que, se pintada,

propõe pensar outros ângulos
desfazer o até então familiar
e lugar-comum fora de lugar

recupera o espanto
a efemeridade perpétua
do homem preso na tela

o rosto se movimenta, círculo
de observações da mesma cena:
nenhum objeto é idêntico

o que é magritte ou chirico
também não se sabe, se lado a lado
fingem afinidades e correlatos

em um mundo que se desloca
permanentemente e sem propósito
estranho, quanto mais próximo,

e, se aos olhos surpresa joga
em móvel exercício de peso,
busca a visão sem excesso, seca
887

A CAMISA SETE DE MANÉ GARRINCHA

para Alfredo Jacinto Melo

Ele dribla João-joãos e até a sombra,
para e espera que o adversário retorne.
Então repete o drible e, como cabe ao ponta,
cruza na área oposta a precisa pelota. 

Desliza no gramado e, leve feito uma ave,
foge dos estilingues que miram seu corpo.
Seu vôo é solto na hora em que lhe dão o passe
e, mesmo baixo, sobe no ar e marca o gol. 

Finge-se de invisível aos olhos dos beques
e dribla o jogo com seus lugares-comuns.
Ri por dentro de tudo como se um moleque
que sempre prega peças na terra do nunca. 

E, se alguém lhe pergunta de onde o seu driblar,
de onde o truque de seus pé que se mexem mágicos,
responde com um sopro e se faz pluma no ar: 

Mané é apelido de menino-pássaro
772

O TABULEIRO DE XADREZ

A mesa posta só lembra a espera,
talvez a espera da morte, da peste,
ou jogo de xadrez com o propósito
de adiá-la, deixá-la à espera, só,
na ante-sala da vida, de ironia. 

Em uma hora decerto serviriam
vinho sobre a toalha de xadrez,
para que a morte então perdesse a vez
no jogo e, sem olhar para o relógio,
esquecesse que a vida torna ao pó. 

Com tudo em seu lugar, a mesa em ordem,
não há medo diante de tal morte.
Talvez seja afetuosa e aprecie
a boa prosa e cálices de vinho,
enquanto o tempo e o jogo passam lentos. 

Na casa limpa, olham-se frente a frente
e brindam, mas no fundo esperam ainda
que a outra se embriague com o tinto.
Na toalha aparece estranha nódoa:
marca suja da vida, despropósito.
803

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