Lista de Poemas

Ontem à noite

Ontem à noite, depois da sua partida definitiva, fui para
aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque, fui para
ali onde fico sempre no mês de junho, esse mês que inaugura o Inverno.
Tinha varrido a casa, tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral.
Estava tudo depurado de vida, isento, vazio de sinais, e depois disse para comigo:
vou começar a escrever para me curar da mentira de um amor que acaba.
Tinha lavado as minhas coisas, quatro coisas, estava tudo limpo, o meu corpo,
o meu cabelo, a minha roupa, e também aquilo que encerrava o todo, o corpo e a roupa, estes quartos, esta casa, este parque.
E depois comecei a escrever...

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As mãos negativas (excerto)

Chamam-se “mãos negativas” as pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenienses da Europa Sul-Atlântica. O contorno dessas mãos – espalmadas sobre a pedra – era recoberto de cor. O mais frequente de azul, de preto. Às vezes, de vermelho. Nenhuma explicação foi encontrada para esta prática.
Diante do oceano
sob a falésia
sobre a parede de granito
essas mãos
abertas
Azuis
E pretas
Do azul da água
Do preto da noite
O homem veio sozinho na gruta
de frente para o oceano
Todas as mãos têm o mesmo tamanho
ele estava sozinho
O homem sozinho na gruta olhou
no barulho
no barulho do mar
a imensidão das coisas
E ele gritou
Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo
Essas mãos
do azul da água
do preto do céu
Planas
Colocadas divididas sobre o granito cinza
Para que alguém as visse
Eu sou aquele que chama
Eu sou aquele que chamava que gritava há trinta
mil anos
Eu te amo
Eu grito que eu quero te amar, eu te amo
Eu amarei quem quer que escute o meu grito
Sobre a terra vazia ficarão essas mãos sobre a parede de
granito de frente para o fragor do oceano
Insustentável
Ninguém escutará mais
Ninguém verá
Trinta mil anos
Estas mãos, pretas
A refração da luz sobre o mar faz tremer
a parede da pedra
Eu sou alguém eu sou aquele que chamava que
gritava nessa luz branca
O desejo
a palavra ainda não foi inventada
Ele olhou a imensidão das coisas no fragor
das ondas, a imensidão de sua força
e depois gritou
Acima dele as florestas da Europa,
sem fim
Ele se segurou no centro da pedra
dos corredores
das vias de pedra
de todas as partes
Tu que tens um nome e uma identidade eu
te amo com um amor indefinido
Seria necessário descer a falésia
vencer o medo
O vento sopra do continente ele empurra
o oceano
As ondas lutam contra o vento
Elas avançam
abrandadas por sua força
e pacientemente alcançam
a parede
Tudo se esmaga
Eu te amo mais longe do que tu
Eu amarei quem quer que escutará que eu grito que eu
te amo
Trinta mil anos
Eu chamo
Eu chamo aquele que me responder
Eu quero te amar eu te amo
Há trinta mil anos eu grito em frente ao mar o
espectro branco
Eu sou aquele que gritava que te amava, tu
(tradução de Érica Zíngano e Marcela Vieira)
:
Les mains négatives(1979)
Margueirte Duras
On appelle mains négatives les peintures de mains trouvées dans les grottes magdaléniennes de l'Europe Sud-Atlantique. Le contour des ces mains – posées grandes ouvertes sur la pierre – était enduit de couleur. Le plus souvent de bleu, de noir. Parfois de rouge. Aucune explication n'a été trouvée à cette pratique.
Devant l'océan
sous la falaise
sur la paroi de granit
ces mains
ouvertes
Bleues
Et noires
Du bleu de l'eau
Du noir de la nuit
L'homme est venu seul dans la grotte
face à l'océan
Toutes les mains ont la même taille
il était seul
L'homme seul dans la grotte a regardé
dans le bruit
dans le bruit de la mer
l'immensité des choses
Et il a crié
Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime
Ces mains
du bleu de l'eau
du noir du ciel
Plates
Posées écartelées sur le granit gris
Pour que quelqu'un les ait vues
Je suis celui qui appelle
Je suis celui qui apellait qui criait il y a trente
mille ans
Je t'aime
Je crie que je veux t'aimer, je t'aime
J'aimerai quiconque entrendra que je crie
Sur la terre vide resteront ces mains sur la paroi de
granit face au fracas de l'océan
Insoutenable
Personne n'entendra plus
Ne verra
Trente mille ans
Ces mains-là, noires
La réfraction de la lumière sur la mer fait frémir
la paroi de la pierre
Je suis quelqu'un je suis celui qui appelait qui
criait dans cette lumière blanche
Le désir
le mot n'est pas encore inventé
Il a regardé l'immensité des choses dans le fracas
des vagues, l'immensité de sa force
et puis il a crié
Au-dessus de lui les fôrets d'Europe,
sans fin
Il se tient au centre de la pierre
des couloirs
des voies de pierre
de toutes parts
Toi qui es nommée toi qui es douée d'identité je
t'aime d'un amour indéfini
Il fallait descendre la falaise
vaincre la peur
Le vent souffle du continent il repousse
l'océan
Les vagues luttent contre le vent
Elles avancent
ralenties par sa force
et patiemment parviennent
à la paroi
Tout s'écrase
Je t'aime plus loin que toi
J'amearai quiconque entendra que je crie que je
t'aime
Trente mille ans
J'appelle
J'appelle celui qui me répondra
Je veux t'aimer je t'aime
Depuis trente mille ans je crie devant la mer le
spectre blanc
Je suis celui qui criait qu'il t'aimait, toi
.
.
.
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Identificação e contexto básico

Marguerite Duras, cujo nome de nascimento era Marguerite Germaine Marie Donnadieu, foi uma proeminente escritora, dramaturga e cineasta francesa. Nasceu a 4 de abril de 1914 em Gia Định, na então Indochina Francesa (atual Vietname), e faleceu a 3 de março de 1996 em Paris, França. É conhecida por romances como "O Amante" e "Moderato Cantabile", e por filmes como "Hiroshima, Meu Amor" (argumento).

Infância e formação

Cresceu na Indochina Francesa, numa família de origem humilde. A sua infância na colónia francesa marcou profundamente a sua obra, especialmente em "O Amante". Regressou a França para estudar Direito e Ciências Políticas na Universidade de Paris.

Percurso literário

Começou a escrever ativamente após a Segunda Guerra Mundial. A sua obra abrange romances, peças de teatro, guiões de cinema e ensaios. Ganhou notoriedade internacional com "Moderato Cantabile" (1958) e alcançou um sucesso estrondoso com "O Amante" (1984), que lhe valeu o Prémio Goncourt.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Duras é marcada por temas como o desejo, a memória, a solidão, o amor proibido, a culpa e a condição feminina. O seu estilo é caracterizado pela concisão, pela fragmentação, pela repetição e pela atmosfera de suspensão. Utiliza frequentemente uma linguagem elíptica e um tom confessional, explorando a interioridade das personagens. O seu cinema, muitas vezes experimental, partilha com a sua escrita uma abordagem não linear e focada na atmosfera e na emoção.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu e escreveu durante períodos de grandes transformações em França e no mundo, incluindo a descolonização e a Guerra da Argélia, temas que ecoam subtilmente na sua obra. Foi uma figura associada a movimentos de vanguarda, tanto na literatura quanto no cinema.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Teve relações marcantes, nomeadamente com o escritor Yann Andréa, com quem viveu os seus últimos anos. A sua vida foi marcada por crises pessoais e pela luta contra o alcoolismo, aspetos que frequentemente se refletem na intensidade e na dor presentes na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Recebeu diversos prémios, destacando-se o Prémio Goncourt em 1984. A sua obra foi amplamente traduzida e adaptada, consolidando o seu lugar como uma das mais importantes escritoras francesas do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciou inúmeros escritores e cineastas com a sua abordagem única à narrativa e à exploração da subjetividade. O seu legado reside na sua capacidade de desnudar as emoções humanas e de desafiar as convenções literárias e cinematográficas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Duras é frequentemente analisada sob a ótica da psicanálise, explorando as complexidades do inconsciente e do desejo. A relação entre memória e esquecimento é um tema central nas suas análises.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Embora conhecida pela sua escrita, Duras teve uma carreira paralela e igualmente significativa como cineasta, dirigindo e escrevendo guiões para vários filmes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Paris em 1996. A sua obra continua a ser publicada e estudada, mantendo viva a sua memória e o impacto do seu talento.