Maria Gabriela Llansol

Maria Gabriela Llansol

1931–2008 · viveu 76 anos PT PT

Maria Gabriela Llansol foi uma escritora e tradutora de grande sensibilidade, cuja obra se distingue pela sua profundidade filosófica e pela exploração da condição humana. A sua escrita, muitas vezes marcada por um tom confessional e introspectivo, aborda temas como a memória, a identidade, a solidão e a busca por sentido num mundo complexo. Llansol destacou-se pela sua linguagem precisa e evocativa, criando universos literários únicos que convidam à reflexão sobre a existência e as suas múltiplas facetas.

n. 1931-11-24, Lisboa · m. 2008-03-03, Sintra

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Como a chuva não cessasse de cair em caudais,

Como a chuva não cessasse de cair em caudais,
Tiras de tinta começaram a aparecer na fotografia
O tecto da chuva rompera o abrigo da sua alma
E o verde circulava a deriva rompendo as plantas.
Elvira deixara cair seus olhos de objectiva nas
Folhas verdes. Verificava que era sobre elas e como
Elas que sempre olhara a natureza. Ver o real
Em folhas era amá-lo ininterruptamente. Essa
Contiguidade acabara por compor uma rede
Que tinha tanto de próximo como de diferente,
E a chuva não era chuva, transparecia. Eis, pensou.
Por que chove na fotografia, por que chove
Em correntes sobre as folhas?
*
Se as sete notas das sete da manhã fossem uma
Figura, e os sons da rua sua serva, seria possível
Encontrar a relação que existe por acústica
Entre uma borboleta e uma borboleta protegendo
Em vão sua vida e cor. Não há nada de estranho
Nessa relação figural. Por exemplo, Pita
(E é a sua primeira vez) pôde sentir num tecido
Branco que chorava manso a efectiva resistência
Às lágrimas que a habita em fúria.
*
Não se convence que a escrita e a vida vão a par,
Descontadas diferenças de velocidade e alguma
Galhardia no tempo. O corpo demora a experimentar.
Usa-se. É o facto dos afectos. Entrou na vida? Entrou
Na escrita floral dos fiéis de amor. Não quer, todavia,
Abri-la, ainda menos lê-la. E tão teimosamente o faz
Que dificilmente um novo perfume entre sede e planta
Lhe subirá pelo caule. Ó rapariga, quando te irá cheirar
A luar libidinal?
*
Passar a voz ao papel,
Ou do ladrar à rosácea,
Trova, é escrever. Estava
Ele, atônito, não vislumbrando
Como ia tanta palavra
Caber na rosácea.
Era óbvio que uma delas
Serviria de estaca,
E as restantes de rosas
No caule ainda por vir.
Quando a frase rosna,
Não há outro remédio.
*
A boca aerticulava em voz alta, servindo-se
Dos seus outros instrumentos, o palato, a língua
E os dentes. Do movimento, brotavam rumores,
Interstícios e uma grande orbita de nomeação.
Diferente é o ponto fulcral do urbano. Sulcos
E memórias confluem para uma iluminação
Incipiente. No urbano, o aparelho fônico
É excedente.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Maria Gabriela Llansol, nascida em 1931, foi uma notável escritora e tradutora portuguesa. A sua obra, escrita em português, é reconhecida pela sua originalidade e profundidade.

Infância e formação

Llansol passou parte da sua infância na Bélgica, o que lhe proporcionou uma perspetiva bicultural. A sua formação académica e as suas leituras foram cruciais para o desenvolvimento do seu pensamento e da sua escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Maria Gabriela Llansol começou com a publicação de obras que rapidamente a distinguiram. A sua escrita evoluiu ao longo do tempo, explorando novas formas de abordar temas existenciais e a natureza da realidade e da ficção. Foi também uma ativa tradutora.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Llansol é vasta e multifacetada, incluindo romances, contos e ensaios. Temas como a memória, a identidade, a descontinuidade do tempo, a solidão e a procura de sentido são centrais. O seu estilo é marcado por uma linguagem precisa, metafórica e por uma forte componente filosófica. A autora dialoga frequentemente com a tradição literária e filosófica, mas inova na forma como cruza a autobiografia com a ficção. A sua voz poética é introspectiva, reflexiva e por vezes fragmentada, refletindo a complexidade da experiência humana. "O Português sem Sombra" é uma das suas obras mais emblemáticas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Maria Gabriela Llansol viveu e produziu obra num período de grandes transformações sociais e culturais em Portugal e no mundo. A sua escrita reflete uma consciência crítica do seu tempo e um diálogo com as correntes filosóficas e literárias relevantes.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Llansol teve uma vida marcada por experiências que moldaram a sua visão do mundo e a sua escrita. A sua relação com a Bélgica e Portugal, bem como as suas reflexões sobre a existência, foram centrais.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Maria Gabriela Llansol tem sido cada vez mais reconhecida pela sua originalidade e importância no panorama literário português. Tem sido objeto de estudo e admiração crítica.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Llansol foi influenciada por autores e pensadores que exploraram a condição humana e a natureza da realidade. O seu legado reside na sua capacidade de criar uma obra singular que desafia as fronteiras entre a vida e a literatura, e que continua a inspirar leitores e escritores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Llansol tem sido objeto de diversas interpretações críticas, que destacam a sua profundidade filosófica, a sua exploração da identidade e da memória, e a sua originalidade formal.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos A sua ligação à Bélgica e a forma como integrou essas experiências na sua obra são aspetos interessantes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Maria Gabriela Llansol faleceu em 2021. A sua obra continua a ser estudada e celebrada, mantendo viva a sua memória através dos seus escritos.

Poemas

1

Como a chuva não cessasse de cair em caudais,

Como a chuva não cessasse de cair em caudais,
Tiras de tinta começaram a aparecer na fotografia
O tecto da chuva rompera o abrigo da sua alma
E o verde circulava a deriva rompendo as plantas.
Elvira deixara cair seus olhos de objectiva nas
Folhas verdes. Verificava que era sobre elas e como
Elas que sempre olhara a natureza. Ver o real
Em folhas era amá-lo ininterruptamente. Essa
Contiguidade acabara por compor uma rede
Que tinha tanto de próximo como de diferente,
E a chuva não era chuva, transparecia. Eis, pensou.
Por que chove na fotografia, por que chove
Em correntes sobre as folhas?
*
Se as sete notas das sete da manhã fossem uma
Figura, e os sons da rua sua serva, seria possível
Encontrar a relação que existe por acústica
Entre uma borboleta e uma borboleta protegendo
Em vão sua vida e cor. Não há nada de estranho
Nessa relação figural. Por exemplo, Pita
(E é a sua primeira vez) pôde sentir num tecido
Branco que chorava manso a efectiva resistência
Às lágrimas que a habita em fúria.
*
Não se convence que a escrita e a vida vão a par,
Descontadas diferenças de velocidade e alguma
Galhardia no tempo. O corpo demora a experimentar.
Usa-se. É o facto dos afectos. Entrou na vida? Entrou
Na escrita floral dos fiéis de amor. Não quer, todavia,
Abri-la, ainda menos lê-la. E tão teimosamente o faz
Que dificilmente um novo perfume entre sede e planta
Lhe subirá pelo caule. Ó rapariga, quando te irá cheirar
A luar libidinal?
*
Passar a voz ao papel,
Ou do ladrar à rosácea,
Trova, é escrever. Estava
Ele, atônito, não vislumbrando
Como ia tanta palavra
Caber na rosácea.
Era óbvio que uma delas
Serviria de estaca,
E as restantes de rosas
No caule ainda por vir.
Quando a frase rosna,
Não há outro remédio.
*
A boca aerticulava em voz alta, servindo-se
Dos seus outros instrumentos, o palato, a língua
E os dentes. Do movimento, brotavam rumores,
Interstícios e uma grande orbita de nomeação.
Diferente é o ponto fulcral do urbano. Sulcos
E memórias confluem para uma iluminação
Incipiente. No urbano, o aparelho fônico
É excedente.
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