Lista de Poemas

Alto como o silêncio

A ilha te fala
de rosas bravias
com pétalas
de abandono e medo.

No fundo da sombra
bebendo por conchas
de vermelha espuma
que mundos de gentes
por entre cortinas
espessas de dor.

Oh, a tarde clara
deste fim de Inverno!
Só com horas azuis
no fundo do casulo,
e agora a ilha,
a linha bravia das rosas
e a grande baba negra
e mortal das cobras.
7 269

Socopé

Os verdes longos da minha ilha
são agora a sombra do ocâ,
névoa da vida,
nos dorsos dobrados sob a carga
(copra, café ou cacau - tanto faz).
Ouço os passos no ritmo
calculado do socopé,
os pés-raizes-da-terra
enquanto a voz do coro
insiste na sua queixa
(queixa ou protesto - tanto faz).
Monótona se arrasta
até explodir
na alta ânsia de liberdade.
3 045

Paisagem

Entardecer... capim nas costas
do negro reluzente
a caminho do terreiro.
Papagaios cinzentos
explodem na crista das palmeiras
e entrecruzam-se no sonho da minha infância,
na porcelana azulada das ostras.
Alto sonho, alto
como o coqueiro na borda do mar
com os seus frutos dourados e duros
como pedras oclusas
oscilando no ventre do tornado,
sulcando o céu com o seu penacho
doido.
No céu perpassa a angústia austera
da revolta
com suas garras suas ânsias suas certezas.
E uma figura de linhas agrestes
se apodera do tempo e da palavra.
3 644

Vós que ocupais a nossa Terra

É preciso não perder
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derrubam as arvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragédia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala flamejando
e o cheiro do fumo misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
mascaras do homem,
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?

(Poetas de S. Tomé e Príncipe, 1963)

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Vós que ocupais a nossa terra

É preciso não perder
de vista as crianças que brincam:
a cobra preta passeia fardada
à porta das nossas casas.
Derrubam as árvores fruta-pão
para que passemos fome
e vigiam as estradas
receando a fuga do cacau.
A tragádia já a conhecemos:
a cubata incendiada,
o telhado de andala flamejando
e o cheiro do fumo misturando-se
ao cheiro do andu
e ao cheiro da morte.
Nós nos conhecemos e sabemos,
tomamos chá do gabão,
arrancamos a casca do cajueiro.
E vós, apenas desbotadas
máscaras do homem,
apenas esvaziados fantasmas do homem?
Vós que ocupais a nossa terra?
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Serviçais

O aroma dos mamoeiros
desde a grota.
Os moleques sonham cazumbis
nas lajes do secador.
Lenta, a narrativa
dos serviçais sentados
no limiar da esperança
é palanca negra a derrubar
paliçadas e fronteiras,
palanca a devorar a distância,
a regressar a Angola,
aos muxitos do Sul;
é chuva grossa
empapando os campos de Cabo Verde
a germinar o milho da certeza.

Trazem na pele tatuada
a hierarquia das relíquias
alimentando-se de um sangue
desprezado
que elege os magistrados
da morte.
Amanhã os clamores da resta
acordarão as longas avenidas
de braços viris
e a terra do Sul
será de novo funda e fresca
e será de novo sabe
a terra seca de Cabo Verde,
livres enfim os homens
e a terra dos homens.
2 515

Memória da Ilha do Príncipe

Mãe, tu pegavas charroco
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.

(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).

Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.

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Identificação e contexto básico

Maria Manuela de Portugal Margarido, conhecida como Maria Manuela Margarido, foi uma poeta, professora e ensaísta portuguesa. Nasceu em Lisboa e viveu a maior parte da sua vida na capital. Foi uma figura proeminente na literatura portuguesa do século XX, associada a movimentos como o Neorrealismo. Era portuguesa de nacionalidade e escrevia em português.

Infância e formação

Filha de uma família de classe média, Maria Manuela Margarido teve uma formação académica sólida. Frequentou a Universidade de Lisboa, onde se licenciou em Filologia Germânica. A sua formação universitária, aliada a um espírito crítico e a uma profunda sensibilidade social, moldaram a sua visão de mundo e a sua escrita. As leituras de autores neorrealistas e a sua vivência num Portugal em transformação marcaram os seus anos de formação.

Percurso literário

O percurso literário de Maria Manuela Margarido iniciou-se com a publicação de poesia, mas rapidamente se expandiu para a prosa e o ensaio. A sua obra poética, que começou a ser publicada em meados do século XX, revela uma evolução marcada pela consolidação do seu compromisso social e político. Colaborou ativamente em diversas publicações literárias e culturais da época, contribuindo para o debate intelectual e artístico. Para além da sua atividade criativa, destacou-se como professora de liceu, onde partilhou o seu amor pela literatura com várias gerações de alunos. A sua atividade como ensaísta permitiu-lhe aprofundar a análise de temas literários e sociais.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Maria Manuela Margarido, como "Poemas" (1950), "A Alma e a Sombra" (1956) e "A Corrente" (1960), refletem um forte compromisso com os ideais do Neorrealismo. Os temas dominantes na sua poesia incluem a luta pela liberdade, a justiça social, a condição humana, a dignidade do trabalho e a crítica ao regime ditatorial vigente em Portugal. A sua forma poética é muitas vezes direta e incisiva, utilizando o verso livre para expressar as suas ideias com clareza e força. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem acessível, mas carregada de significado e emoção. A voz poética é engajada, interventiva e profundamente humanista, procurando dar voz aos oprimidos e aos marginalizados. A sua obra estabelece um diálogo crítico com a realidade social e política do seu tempo, rejeitando o escapismo e abraçando a responsabilidade do artista perante a sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Maria Manuela Margarido viveu e escreveu durante a ditadura do Estado Novo em Portugal, um período de censura e repressão. Esta realidade histórica marcou profundamente a sua obra, conferindo-lhe um tom de resistência e de denúncia. A sua ligação ao Neorrealismo coloca-a num contexto de escritores que procuravam retratar a realidade social do país e lutar por um futuro mais justo. Manteve relações com outros intelectuais e artistas que partilhavam as suas convicções, embora o seu percurso individual tenha sido pautado por uma forte autonomia de pensamento.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Para além da sua atividade literária, Maria Manuela Margarido exerceu a profissão de professora de português em liceus, dedicando-se com paixão ao ensino. Esta dupla vertente — a criação literária e a prática pedagógica — evidenciava o seu profundo amor pela língua e pela literatura, bem como o seu desejo de formar cidadãos conscientes. As suas convicções políticas e sociais eram fortes, refletindo um idealismo e um desejo de intervenção que se traduziram na sua obra e na sua postura cívica.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Maria Manuela Margarido foi reconhecida pela crítica pela sua autenticidade e pelo seu valor estético e social. A sua poesia é estudada como um testemunho importante do período neorrealista em Portugal e do pensamento crítico da época. Embora possa não ter atingido a mesma fama de outros poetas mais mediáticos, o seu lugar na literatura portuguesa é assegurado pela qualidade e pela relevância da sua produção.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Maria Manuela Margarido incluem autores neorrealistas e a tradição da poesia de intervenção social. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia portuguesa com uma obra que soube aliar a qualidade artística ao compromisso ético e político. Inspirou gerações de leitores e escritores a valorizar a poesia como forma de reflexão e de ação sobre a realidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Maria Manuela Margarido é frequentemente interpretada como um espelho da sociedade portuguesa do seu tempo, marcada pelas tensões sociais e políticas. A análise crítica incide sobre a forma como a autora soube articular a sua experiência pessoal com as grandes questões coletivas, utilizando a poesia como ferramenta de intervenção e de emancipação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da sua trajetória é a forma como conciliou a exigente profissão de professora com uma produção literária consistente e de intervenção. O seu compromisso com os valores democráticos e a sua persistência em expressar as suas ideias num contexto adverso são marcas distintivas do seu perfil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Maria Manuela Margarido faleceu, deixando um corpo de obra que continua a ser valorizado e estudado. As suas publicações e a sua memória perduram como um testemunho da força da poesia engajada e da importância da intelectualidade na construção de uma sociedade mais justa.