Martim Soares

Martim Soares

Martim Soares foi um trovador medieval galego-português, ativo no século XIII. A sua obra, inserida na tradição da lírica galego-portuguesa, reflete os costumes e a mentalidade da nobreza da época. As suas cantigas, embora escassas em número, são representativas do cancioneiro trovadoresco, abordando temas como o amor cortês e a sátira social com a mestria característica dos poetas da sua corte.

n. , Portugal · m. , Portugal

34 868 Visualizações

Pero Rodrigues, da vossa mulher

Esta outra cantiga fez a Pero Rodrigues Grongelete de sua mulher que havia prez que lhe fazia torto

Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vos deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que a ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fodendo comigo assim me dizia.

Português antigo

Pero Rodriguiz, da vossa molher
nom creades mal que vos home diga,
ca entend'eu dela que bem vos quer,
e quem end'al disser, dirá nemiga;
e direi-vos em que lho entendi:
em outro dia, quando a fodi,
mostrou-xi-mi muito por voss'amiga.

Pois vos Deus deu bõa molher leal,
nom tenhades per nulha jograria
de vos nulh'home dela dizer mal,
ca lh'oí eu jurar em outro dia
ca vos queria melhor doutra rem;
e, por veerdes ca vos quer gram bem,
nom sacou ende mi, que a fodia.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Martim Soares foi um trovador galego-português do século XIII. A sua atividade poética insere-se no contexto da lírica medieval galego-portuguesa, sendo um dos representantes da produção literária que floresceu nas cortes da Península Ibérica. A sua obra, embora limitada em número de cantigas atribuídas, é valiosa para o estudo do cancioneiro trovadoresco da época.

Infância e formação

A informação sobre a infância e formação de Martim Soares é escassa, como é comum para a maioria dos trovadores medievais. Sabe-se que pertencia, provavelmente, ao círculo da nobreza, um requisito para a atividade trovadoresca, que envolvia uma educação que incluía o conhecimento das artes e das convenções sociais da corte.

Percurso literário

O percurso literário de Martim Soares está marcado pela autoria de algumas cantigas de amor e de escárnio e maldizer. Estas cantigas foram recolhidas em cancioneiros medievais, sendo as mais conhecidas aquelas que foram incluídas no "Cancioneiro da Vaticana" e no "Cancioneiro Colocci-Brancuti". A sua atividade poética parece ter ocorrido durante a segunda metade do século XIII.

Obra, estilo e características literárias

As cantigas de Martim Soares refletem os temas e as formas da poesia trovadoresca da época. Nas suas cantigas de amor, explora os motivos do amor cortês, com a exaltação da dama e a submissão do trovador. Nas cantigas de escárnio e maldizer, evidencia uma veia satírica, criticando costumes sociais e comportamentos de figuras da corte, utilizando uma linguagem mais direta e, por vezes, mordaz. A métrica utilizada é a típica das cantigas de amigo, redondilha maior (sete sílabas métricas), com estrofes de cinco versos, com refrão.

Contexto cultural e histórico

Martim Soares viveu num período de intensa atividade cultural nas cortes da Península Ibérica, onde a poesia trovadoresca era uma forma de entretenimento e expressão social importante. A sua obra insere-se na tradição da lírica galego-portuguesa, que era a língua vernácula utilizada por trovadores de toda a região.

Vida pessoal

Os detalhes sobre a vida pessoal de Martim Soares são praticamente inexistentes. Como a maioria dos trovadores, a sua biografia é reconstruída a partir da sua obra e dos registos que a mencionam.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento de Martim Soares advém da sua inclusão nos principais cancioneiros da lírica galego-portuguesa, o que garante a sua posteridade e o seu estudo por parte dos investigadores.

Influências e legado

Como trovador medieval, Martim Soares insere-se numa vasta tradição poética que influenciou a literatura peninsular. A sua obra, embora limitada, contribui para o património da poesia galego-portuguesa.

Interpretação e análise crítica

A análise crítica das cantigas de Martim Soares foca-se na sua adequação aos modelos genéricos (amor, escárnio, maldizer) e na sua capacidade de retratar os costumes e a mentalidade da sociedade da época.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

É possível que Martim Soares tenha tido uma ligação a alguma corte específica, mas os dados são imprecisos.

Morte e memória

Não há informação específica sobre a morte de Martim Soares. A sua memória perdura através das cantigas que lhe são atribuídas nos cancioneiros medievais.

Poemas

41

Pero Rodrigues, da vossa mulher

Esta outra cantiga fez a Pero Rodrigues Grongelete de sua mulher que havia prez que lhe fazia torto

Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabei que outro dia quando eu a fodia,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vos deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que a ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fodendo comigo assim me dizia.

Português antigo

Pero Rodriguiz, da vossa molher
nom creades mal que vos home diga,
ca entend'eu dela que bem vos quer,
e quem end'al disser, dirá nemiga;
e direi-vos em que lho entendi:
em outro dia, quando a fodi,
mostrou-xi-mi muito por voss'amiga.

Pois vos Deus deu bõa molher leal,
nom tenhades per nulha jograria
de vos nulh'home dela dizer mal,
ca lh'oí eu jurar em outro dia
ca vos queria melhor doutra rem;
e, por veerdes ca vos quer gram bem,
nom sacou ende mi, que a fodia.
4 483

Um Cavaleiro Se Comprou

Um cavaleiro se comprou,
pera quitar-se de Jaen,
u jazia pres', e custou
pouco; pero nom mercou bem,
ante tenho que mercou mal,
ca deu por si mais ca nom val;
e tenho que fez i mal sem.

Tam pouco soub'el de mercar,
que nunca eu tam pouco vi:
ca se quitou de se comprar,
e tam grand'engano prês i
que, pero s'ar queira vender,
já nunca poderá valer
o meio do que deu por si.

De se comprar houv'el sabor
tam grande, que se nom guardou
de mercar mal; e fez peior
porque s'ante nom conselhou:
ca diz agora sa molher
que este mercado non'o quer
caber, pois el tam mal mercou.
730

Muitos Me Vêm Preguntar

Muitos me vêm preguntar,
mia senhor, a quem quero bem;
e nom lhes quer'end'eu falar,
com medo de vos pesar en,
nem quer'a verdade dizer,
mais jur'e faço-lhes creer
mentira, por vo-lhes negar.

E por que me vêm coitar
do que lhes nom direi per rem
- ca m'atrev'eu em vos amar?
E mentr'eu nom perder o sem,
nom vos en devedes temer,
ca o nom pod'home saber
per mim, se nom adevinhar.

Nem será tam preguntador
nulh'home que sábia de mim
rem, per que seja sabedor
[d]o bem que vos quis, pois vos vi.
E pois vos praz, negá-lo-ei
mentr'o sem nom perder; mais sei
que mi o tolherá voss'amor.

E se per ventura assi for,
que m'ar preguntem des aqui
se sodes vós a mia senhor
que amei sempre e servi,
vedes como lhes mentirei:
doutra senhor me lhes farei,
ond'haja mais pouco pavor.
758

Quand'albardam Fogia D'aalém

Quand'Albardam fogia d'aalém,
Orrac'Airas o ascondeu mui bem;
e el na arca fez-lhi atal rem
       per que nunca i outr'asconderá.
       Per quant'i fez Albardam, nunca já
       Orrac'Airas i outr'asconderá,

polo guarir – "Muito fostes de mal
sem". E chamou sempre: "Nom moir'Abal-
dam". E el demais lhi fez [n]a arca tal,
       per que nunca i outr'asconderá.
       Per quant'i fez Albardam, nunca já
       Orrac'Airas i outr'asconderá.
467

Nostro Senhor, Com'eu Ando Coitado

Nostro Senhor, com'eu ando coitado
com estas manhas que mi quisestes dar:
som mui gram putanheir[o] aficado
e pago-me muito d'os dados jogar;
des i ar hei mui gram sabor de morar
per estas ruas, vivend'apartado.

Podera-m'eu bem, se foss'avegoso,
caer em bom prez e honrado seer;
mais pago-m'eu deste foder astroso
e destas tavernas e deste bever;
e, pois eu já mais nom posso valer,
quero-m'andar per u seja viçoso.

E pois eu entendo que rem nom valho,
nem hei por outra bondad[e] a catar,
nom quer'eu perder este fodestalho,
nem estas putas nem est[e] entençar,
nem quer'ir per outras fronteiras andar,
perdend'o viç'e dando-mi trabalho.

Ainda eu outras manhas havia,
per que eu nom posso já muito valer:
nunca vos entro na tafularia
que lhi nom haja algum preit'a volver;
porque hei pois em gram coita [a] seer,
é fugir [e] guarir na putaria.

E pois, quando me vej[o] em meu lezer,
merendo logo; e pois vou mia via;
e leix[o] i putas de mi bem dizer,
e de mias manhas e de mia folia.
593

Lopo Jograr, És Gargantom

Lopo jograr, és gargantom
e sees trist'ao comer;
pero dous nojos, per razom
tenh'eu de chos homem sofrer:
mais vás no citolom rascar,
des i ar filhas-t'a cantar,
e estes nojos quatro som.

Come verde foucelegom,
cuidas tu i a guarecer
por nojos; mais nom é sazom
de chos querer homem sofrer:
ca irás um dia cantar
u cho farám todo quebrar
na cabeça o citolom.
555

Foi Um Dia Lopo Jograr

Foi um dia Lopo jograr
a cas d'um infançom cantar;
e mandou-lh'ele por dom dar
três couces na garganta;
e fui-lh'escass', a meu cuidar,
       segundo com'el canta.

Escasso foi o infançom
em seus couces partir em dom,
ca nom deu a Lop[o], entom,
mais de três na garganta;
e mais merece o jograrom,
       segundo com'el canta.
2 009

Ua Donzela Jaz [Preto D]Aqui

Ũa donzela jaz [preto d]aqui,
que foi ogano um adeam servir
e nom lhi soube da terra sair;
e a dona cavalgou e colheu [i]
Dom Caralhot'enas mãaos; e tem,
pois lo há preso, ca está mui bem,
e nom quer del as mã[a]os abrir.

E pois a dona Caralhote viu
antre sas mã[a]os, houv'en gram sabor
e diz: - Est'é o falso treedor
que m'ogano desonrou e feriu,
praz-me com el, pero trégoa lhi dei
que o nom mate; mais trosquiá-l'-ei
come quem trosquia falso treedor.

A boa dona, molher mui leal,
pois que Caralhote houv'em seu poder,
mui bem soube o que del[e] fazer:
e meteu-o log'em um cárcel atal,
u muitos presos jouverom assaz;
e nunca d'i, tam fort'e preso jaz,
[tem] como saia, meos de morrer.
525

Houv'albardam Caval'e Seendeiro

Houv'Albardam caval'e seendeiro
e cuidava cavaleiro seer;
quando eu soub'estas novas primeiro,
maravilhei-m'e non'o quis creer;
fiz dereito, ca nom vi fazer,
des que naci, d'albardam cavaleiro.
640

Pero Pérez Se Remeteu

Pero Pérez se remeteu
por dar ũa punhada;
e non'a deu, mais recebeu
ũa grand'orelhada,
ca errou essa que quis dar;
mais non'o quis o outr'errar
de cima da queixada.

Houvera el gram coraçom
de seer [i] vingado,
e do seu punho, d'um peom
que o há desonrado;
e nom lhi deu, ca o errou;
[e] Pero Pérez i ficou
com seu rostro britado.
550

Livros

3

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.